Jardim Secreto

By PedroPilati

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Gente, resolvi compartilhar com vocês um conto escrito em 2012, como trabalho de escola. Esta história fará p... More

Jardim Secreto

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By PedroPilati

Ele nunca fora dado a ocasiões como aquela, e não seria suportando calado o nó apertado da gravata a ferir-lhe o pescoço ou travando um discreto duelo com os mosquitos que sua opinião mudaria. Apertou os olhos a fim de visualizar melhor o altar improvisado sob o forte sol que sorria com escárnio para as quarenta e poucas pessoas reunidas na fazenda.

Apesar de estar visivelmente comprimida pelo espartilho, a julgar pela pele flácida acumulada ao redor do bojo do vestido tomara-que-caia, a noiva sorria linda e radiante para o noivo muitos centímetros mais alto. As lágrimas contidas e as narinas em incessante movimento arrematavam o quadro da “noiva perfeita”.

O noivo, por sua vez, revelava por detrás do semblante blasé uma alegria que provavelmente jamais sentira em toda a sua trajetória até ali. As mãos juntas diante do corpo, em sinal de nervosismo, o olhar fixo em toda a extensão da imagem da futura mulher e as gotas de suor a percorrer seu pescoço indicavam seu porte de “noivo perfeito”.

O padre, idoso e sereno diante do casal, coroava a imagem da “sagrada família” que ali haveria de ter início.

Era o matrimônio perfeito, divino, indissolúvel e incontestável, cercado pelos sorrisos de cera e os olhares catárticos que André assimilava mais uma vez diante de si. A cena arrastava-se contra o tempo enquanto ele aguardava sofregamente por uma reviravolta.

E eis que, sorrateiro e casual, um coadjuvante fez número àquele pequeno contingente. Sem qualquer palavra ou esforço para tanto, atraiu a atenção dispersa de André. Talvez por se mostrar tão enfastiado e ansioso pelo churrasco de perfume tentador quanto ele, porém mais provavelmente pela maneira rústica e sincera de se portar entre os convidados empedernidos.

Os olhos castanhos do rapaz encontraram os de André, forçando-o a desviar sua atenção dos pequenos rumores que a gravata jogada sobre os ombros dele e a camisa desabotoada até pouco abaixo do peito largo provocaram. Aquele sorriso inocente e másculo levou-o a supor que se tratasse do capataz dos Ribeiro, o encarregado pela comida e bebida a serem servidas assim que os noivos trocassem o famigerado beijo oficial.

André retribuiu-lhe a simpatia com um sorriso sugestivo. E, para sua total surpresa, o olhar do intruso permanecia fixo em sua direção momentos depois do que parecia uma simples saudação.

Antes que pudesse se inteirar de todos os detalhes em relação àquele homem, ele deixou-se levar pela citação bíblica do celebrante a ilustrar a história de eventos banais que trouxera até ali aquele povo, o qual lutava indisfarçadamente para resistir ao aroma da carne e prestar algum respeito aos donos da festa.

Quando, por fim, se viu ponderando sobre o discurso do padre, André prendeu a respiração... De repente, as costas musculosas do capataz, coladas ao tecido umedecido pelo suor, surgiram na fileira da frente. Ele abriu caminho entre as senhoras e senhores bem vestidos, ocupando um lugar vago a três cadeiras de distância.

Àquela altura, André já compreendera que o restante da cerimônia seria apenas uma variação dos discursos piegas e juramentos de amor eterno que presenciara ao longo de seus dezesseis anos de vida. E foi assim, confiando na impossibilidade de perder qualquer acontecimento excepcional que merecesse verdadeiramente sua atenção, que ele se rendeu ao fascínio que a pitoresca criatura de sapatos enlameados passara a exercer sobre ele.

O peão cruzou os braços diante do corpo, a despeito das reações de aversão ou olhares inabilmente disfarçados a percorrer-lhe os músculos expostos. Pelo sorriso com que retribuía todos os curiosos pegos em flagrante, ele parecia divertir-se com a situação tanto quanto André.

O jovem, por sua vez, estudava demoradamente aquele homem, desbravando sua figura doce e corpulenta com os olhos. Sabia que corria o risco de também receber uma repreensão irônica ao ser descoberto, mas algo lhe dizia que o sorriso que recebera momentos antes era um sinal de cumplicidade.

André teve seu devaneio interrompido por movimentos bruscos do peão, que abanou-se de repente na tentativa de espantar o calor.

Foi aí que o jovem deu-se conta de que ele próprio transpirava por baixo do paletó, despindo-o depressa. Ele olhou mais uma vez para o capataz e, numa atitude um tanto ousada, resoveu imitá-lo, desabotoando punhos e colarinho entre os espectadores que já haviam sido novamente enleados pelo discurso entusiasta do padre.

Quando arrancou a incômoda gravata e a jogou no chão, André notou com o canto do olho que o intruso voltara-se rapidamente em sua direção com o que pareceu um sorriso de aprovação. No entanto, o adolescente evitou uma segunda troca de olhares, mantendo-se fixo na cerimônia – apesar de satisfeito em conseguir atrair a atenção daquele rapaz uma segunda vez.

As homenagens transcorreram normalmente por aproximadamente dez minutos, quando, farejando o ar, o peão deixou seu lugar entre os convidados. Certamente havia percebido que já passara tempo demais ali, pois dirigiu-se com pressa em direção ao galpão que exalava aromas praticamente irresistíveis ao apetite.

André, sem perder tempo, colocou-se em seu encalço... Mas, não muito longe dos convidados, foi denunciado pela respiração ofegante.

- Vocês estão precisando de alguma ajuda? - gaguejou, diante da surpresa estampada no rosto de seu perseguido.

De repente, a expressão indecifrável do capataz foi substituída por um riso gostoso. E André, apesar de aliviado, não conseguiu compreender de imediato o motivo da graça.

- Que ninguém me ouça, mas já assisti a casamentos melhores. E você?

André sorriu enquanto pensava na resposta.

- Não sei dizer. Da metade em diante, nada mais fez sentido. A minha atenção já tinha fugido para outra dimensão!

O rapaz riu novamente, e André não teve outra opção senão ficar à vontade e acompanhá-lo.

De perto e livre dos olhares alheios, aquele homem parecia ainda mais encantador. Simples nos trejeitos e no modo de falar, ele também dispunha de um belo sorriso, olhos meigos e volumes invejáveis ao longo do corpo esculpido pelo trabalho.

André teve tempo para assimilar todas as características supracitadas enquanto o peão o observava, aguardando qualquer palavra que desse sequência à conversa. Mas aquele momento se mostrou simplesmente estático assim que as risadas de divertimento ou falta de assunto haviam ido embora em definitivo.

- Bom... - arriscou-se o rapaz, sem jeito. - Uma mão extra não seria mal agora. Mas tem mais peões lá dentro tomando conta de tudo. Pode ser que eu tenha me preocupado à toa, mas é que, como sou o responsável, achei que seria um abuso largar o pessoal sozinho com os problemas...

- De que problemas você está falando? - interrompeu André. - Me desculpe, mas até agora ninguém saiu do galpão gritando por socorro. Tenho certeza que eles estão segurando as pontas perfeitamente. Acho mesmo que você está se preocupando à toa.

O adolescente mordeu o lábio inferior de maneira suspeita enquanto corria os olhos pelo peitoral desnudo do capataz. Naquele momento, ele não tinha como imaginar o tamanho do desconforto que causara – apesar do arquear de sobrancelha nem um pouco discreto do outro.

O peão, no entanto, não deu maiores atenções a estes detalhes. Preferiu respirar fundo e olhar em direção ao galpão.

- Sabe que você tem razão? - ele finalmente respondeu, sacudindo a cabeça. - Esse é um dos meus poucos momentos de descanso aqui na fazenda, e seria muito bom poder aproveitá-lo sem preocupações.

- O que quer dizer? - perguntou André, recobrando a compostura.

O homem levou as mãos aos quadris e, depois de pensar um pouco, olhou novamente para André.

- Conhece a fazenda?

André compreendeu tudo de imediato. Sorriu. Dentro de instantes, já estava caminhando ao lado do peão rumo ao lago natural que, segundo o empregado dos Ribeiro, compunha uma paisagem quase onírica numa clareira entre as árvores.

No caminho, enquanto seu guia falava incansavelmente a respeito da propriedade, André se ressentia pelo fato de que ele não fez menção alguma de olhar para o lado, de encará-lo face a face. Parecia que, apesar de toda a suavidade e naturalidade de suas palavras, o peão não se sentia totalmente aberto à companhia dele.

Era um detalhe aparentemente insignificante, mas que bastou para o abalo de uma ilusão construída a partir do nada e que – como André podia concluir naquele momento – não teria qualquer outro desfecho.

As águas do lago projetaram-se diante deles, mas pareceram realmente produtos da imaginação para André. Este encontrava-se num estado de semi-consciência, como se acabasse de despertar de um transe, enquanto o capataz tentou improvisar palavras poéticas para descrever a beleza do lugar.

André engoliu em seco, assumindo um olhar de conformidade, e de repente a clareira, o lago e o capataz sumiram diante de si. Tudo o que ele queria naquele momento era ir embora e silenciar os hormônios – malditos hormônios! - que, provavelmente, eram os grandes culpados por aquele imbróglio.

Ele deu as costas para o peão bem a tempo de ouvir, não muito distantes, as palavras do padre.

- E assim, meus irmãos, com o poder a mim investido, declaro-vos marido... e mulher.

O que se viu a seguir foi um beijo apaixonado, o qual, apesar da longa espera, foi capaz de excitar até o mais pudico dos convidados.

André se livrou imediatamente de camisa, calças e sapatos e correu até o lago, no qual mergulhou como se fosse uma bomba urgente de emoções. Naquelas profundezas desconhecidas, uma rápida lembrança do homem que ficara no mais absoluto vácuo do lado de fora lhe veio à mente...

Mas ele permaneceu encolhido, a respiração presa, as pálpebras apertadas. No momento, seu consolo era torcer para que, quando resolvesse emergir novamente, ou lhe faltasse fôlego, o galante varão dos cabelos dourados e olhos de amêndoa já tivesse retornado ao galpão – de onde, preferivelmente, nunca deveria ter saído.

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