"Desapaixonar é difícil
Se apaixonar por traição é pior
Confiança partida e corações partidos, eu sei, eu sei
Pensando que tudo o que você precisa está lá
Construindo fé sobre o amor e palavras
Promessas vazias serão desgastadas, eu sei, eu sei"
(James Arthur - Impossible)
- Quer um café? – Anthony perguntou quando chegamos em casa. Ajudou-me a sentar no sofá e podia ver pela sua expressão que não estava satisfeito em ter que fazer o serviço que eu sempre fazia para ele.
Fiz que não com a cabeça e, depois de alguns minutos me encarando, suspirou e subiu as escadas para seu quarto, deixando-me sozinha. Talvez fosse o sentimento de culpa que estava fazendo com que Anthony agisse daquele jeito, afinal, se não fosse a sua ideia de bater-me justamente na reta final da gravidez eu não teria escorregado. A queda não teria feito o parto ser adiantado e nem teria colocado minha vida e a do bebê em risco. Se ele não tivesse dito que preferia que salvassem minha vida, talvez meu bebê estivesse aqui e não eu. Se Anthony não... A verdade é que se nada teria acontecido se eu não fosse abandonada por minha mãe na porta dele. Nada disso teria acontecido se ele não fosse meu pai.
Tudo se resumia a Anthony. Meus medos e inseguranças, minhas crises de ansiedade... Tudo. Jesse não teria feito aquilo diante de todos por eu ser esquisitona. Quem sabe ele até sentiria tudo aquilo de verdade, talvez eu tivesse uma vida boa, amigos para confiar e pessoas que tirassem o melhor de mim.
Mas sabia que era tarde demais para desejar não ser assim. Anthony já havia mudado tudo em mim, transformei-me em alguém igual a ele, alguém que ninguém ousaria amar. A verdade é que depois de tudo que aconteceu, olhando agora para minha barriga ainda inchada e não sentindo meu bebê ali, não estar com ele em meus braços como tanto sonhei, não queria mais sentir. Não queria que aquela dor, aquele buraco oco em meu peito aumentasse cada dia mais. Não queria lembrar de tudo que perdi e nem me arrepender por ser desse jeito.
De onde estava sentada podia ver meu reflexo na televisão, as grandes olheiras e o rosto inchado. Não tinha orgulho de ser a pessoa que Anthony tanto tentava me transformar, mas eu não podia fazer nada para evitar isso. Nem conseguiria, na verdade. Queria uma nova vida, mas ir atrás dela estava fora do meu alcance. Anthony nunca me deixaria em paz, não tinha outra alternativa exceto deixar que ele me transformasse por fim em alguém como ele. Não podia lutar contra isso, não tinha forças para tanto.
Me permiti chorar naquela noite, lamentar, sofrer o luto. Deixei que a dor tomasse conta, fiz com que a dor física também fosse sentida. O sangue se misturou com minhas lágrimas, lembrei do meu bebê sendo tirado de mim, sem respirar, minha menina nascendo morta. Pensei em como seria se ela estivesse aqui, nossa primeira noite juntas. Perguntei-me se choraria muito ou dormiria a noite inteira, se iria gostar de músicas de ninar e se iria me amar tanto como eu a amo.
Meus seios estavam inchados, tinha leite para dar a ela. Saber disso só fez com que a dor fosse maior. Eu queria tanto aquele bebê, desejei tanto ser boa o suficiente para ele, sonhei com nossos momentos juntos e tê-lo perdido, não ter sido forte o suficiente para ele era a prova de que eu realmente não era boa. Não o suficiente. Nunca seria.
Adormeci sem perceber e quando acordei o sol parecia tímido, mal aparecia por trás das nuvens. Fiquei algum tempo o observando antes de tomar um banho, debaixo d'água estava deixando tudo aquilo para trás, não me lembraria mais de todos os erros e de todas as vezes que tentei ser feliz. Esse sentimento não era para mim.
A água caia por meu rosto e lavava as lágrimas, o sentimento de perda. Minha menina era uma parte de mim ainda pura e esperançosa que eu deixaria ir embora e faria isso porque a dor era demais para ser suportada, porque se não fizesse isso iria sucumbir, desaparecer em total tormenta.
Quando sai do banho o mundo lá fora parecia não ter mudado nada. O sol continuava por entre as nuvens e o barulho dos pássaros mal dava para ser ouvido. Aquilo não era justo, o mundo parecia não estar saudando a nova Charlotte, aquela que eu seria para sempre.
- Achei que tiraria o dia para descansar – Anthony arqueou as sobrancelhas enquanto bebia seu café assim que me viu descer.
- Tenho uma proposta para lhe fazer – sentei-me em frente a ele.
- Proposta?
Respirei fundo antes de falar a súbita ideia que pairou por minha mente desde que acordei. O que mais poderia me fazer aceitar ser como Anthony quer que eu seja do que fazer o que ele faz? – Quero entrar para academia.
- Academia? – franziu a testa.
- Quero me treine – expliquei – Quero aprender a lutar.
- Você quer ser uma policial?
Ignorei o tom de deboche em sua voz quando pousou a xícara de café na mesa com uma risadinha no final – Quero ser uma detetive.
- Você? – ele realmente riu agora, sem pudor algum para não me deixar entender a sua ironia – Acho que isso não é para você, okay?
- Não me diga o que eu não posso fazer – falei lentamente, sem me deixar abater. Sabia que seria difícil de convencê-lo, duvidei até que deixaria e treinaria-me, mas precisava daquilo. Precisava ocupar minha mente com alguma coisa, com um foco maior, um objetivo a ser conquistado. Só assim iria continuar sã.
- Se isso é porque acabou de perder o bebê...
- Eu quero me treine – interrompi antes que perdesse a cabeça e não conseguisse o que queria – Eu preciso disso.
Ele ficou calado apenas me observando, seus olhos pareciam sondar minhas intenções, o cérebro trabalhando naquela decisão. Precisava que concordasse, pois, apesar de tudo, não conhecia alguém melhor para me treinar, para me tornar quem ele era, alguém que não se abalava com memórias ruins e que não se abalava por sentimentos. Ansiava ser alguém mais forte, tinha vergonha de ter sentido tanta coisa, de ter me deixado levar por emoções efêmeras e por mais que odiasse Anthony, que o culpasse por tudo que aconteceu comigo, só ele iria conseguir transformar-me em alguém diferente.
- Está bem – respondeu levantando-se – Eu a treinarei.
Acompanhei seus passos tentando deixar meu rosto livre do alívio que senti por causa daquela resposta e peguei meu casaco em cima do sofá, mas meus passos foram lentos, a cirurgia ainda recente fazia meu corpo doer a cada pisada.
- Mas não hoje e muito menos amanhã – parou e virou o corpo para encarar-me, continuou ao ver minha expressão confusa – Não está em condições ainda.
- Eu posso começar devagar, eu...
- Será do meu jeito, Charlotte – interrompeu-me duramente – Se quer que eu faça isso, terá que me obedecer. Não está em condições de encarar qualquer tipo de treino.
- Anthony... – ia implorar para não me deixar sozinha em casa, não queria ficar perdida em meus pensamentos, lembrar-me do passado, sentir a dor de tê-la perdido.
- Só concordei com isso porque não tenho condições de lidar com uma filha depressiva em casa – disse firmemente – Sei por que está fazendo isso e espero que saiba que lidará sozinha com as consequências. Não quero que me culpe se não gostar de quem se tornar, mas não vou deixar que se afunde em si mesma. Então, quando estiver recuperada, nós começaremos.
Até eu estar, de acordo com Anthony, recuperada, ocupei minha mente com os afazeres da casa, com televisão, livros da biblioteca dele, tudo exceto o último ano. Meu corpo estava se recuperando, apenas a cicatriz perto do quadril era visível e, conforme as semanas iam se passando, as dores foram diminuindo e minha estrutura física voltando ao normal.
Anthony declarou que eu estava pronta quando terminei de ler o quinto livro em sua biblioteca. Mandou-me colocar uma roupa confortável e levou-me até o centro de treinamento, a primeira coisa que vi quando adentrei foram inúmeros sacos de boxe, vários homens suados e sem camisa lutando e algumas risadas.
- Anthony...
- Yeah – piscou o olho para mim adivinhando meus pensamentos – Não há mulheres na minha academia. Sinta-se honrada, será a primeira.
- Irei treinar com os homens?
Ele deu palmadinhas em minhas costas – Será do meu jeito, Charlotte.
Cinco minutos depois eu estava correndo em volta do tatame, facilmente deixada para trás por todos aqueles homens que só não riram porque sabiam de quem eu era filha. Por semanas aquele foi todo o treinamento, estava exausta, sentindo todos os meus músculos doerem e, toda vez que argumentava sobre aquele tipo de treino, Anthony ria e voltava a afirmar que aquilo seria do seu jeito.
- Charlotte – Anthony chamou meu nome quando estava alongando-me para começar a correr – Hoje não irá correr.
- Sério? – perguntei empolgada – Com quem irei lutar?
Perguntei isso porque ao longo da semana todos aqueles que paravam de correr começavam a lutar com alguém. Um deles pareceu ganhar todas as lutas, não era muito mais velho que eu e possuía os cabelos lisos apontando para todos os lados e incessantes olhos azuis.
- Não irá lutar.
- O que?
- Quero que se sente – puxou uma cadeira – E me diga porque aquele cara sempre ganha as lutas.
- Como eu...
- Tem até o final do dia para trazer-me a resposta correta.
Bufei. Estava óbvio que estava pegando pesado comigo, justamente porque era sua filha. A questão é: como poderia saber o motivo dele ganhar as lutas? Todos ali tentaram não rir, mas foi em vão.
- Querem que os façam lutar contra ele? – apontou para o cara do outro lado do tatame, o tal de olhos azuis que eu tinha que observar, ele me encarou por alguns segundos e sorriu de lado. Todos ficaram calados depois daquela ameaça.
O maldito ganhava todas as lutas porque os outros eram ruins. Claramente essa não era a resposta que Anthony queria e eu não sabia qual outra dar. Toda vez que derrubava alguém no tatame me encarava, erguia a sobrancelha em deboche. Eu estava começando a ter raiva dele, não só porque tinha uma bunda maior que a minha – aquilo só podia ser uma provocação do destino – mas, também, porque começou a ganhar as lutas de forma mais rápida, não deixando-me alternativas acerca do porque sempre ganhar.
- Desgraçado – murmurei quando venceu a penúltima luta do dia apenas com um soco firme.
Observei enquanto ele caminhava até onde eu estava, o peito suado e uma calça folgada na altura dos quadris.
- Então, você é a filha de Anthony? – a voz dele era estridente, fina.
- Yeah.
- Estou dando muito trabalho a você? – ergueu a sobrancelha e apoiou o peso em uma das pernas, cruzando os braços e encarando-me com um sorriso dissimulado. Metido.
- Está fazendo de propósito, não é?
Ele deu de ombros – Digamos que eu possa dar a resposta a você.
- E porque me ajudaria?
- Porque eu iria querer algo em troca, Charlie.
- Charlotte – o corrigi – O que você quer?
- Um encontro.
- O que? – perguntei em descrença.
- Relaxa – riu e olhou-me dos pés a cabeça, subitamente me senti nua – Não estou interessada nesse belo corpo. Eu quero que saia comigo. Assim, Anthony confiará o suficiente para dar-me um cargo aqui.
- Você é maluco.
- Estou sendo sincero – rolou os olhos – Vocês, garotas, vivem dizendo que preferem caras sinceros e chamam o cara de maluco quando ele é isso.
- Está me dizendo que quer sair comigo só para que Anthony confie em você? O que uma coisa tem a ver com a outra?
- Céus, você é lenta – aproximou-se de mim olhando para os lados – Se Anthony achar que faço bem para a sua filhinha, dará o cargo que todos aqui cobiçam. Serei detetive, trabalharei no time dele.
- E em troca você me dará uma simples resposta? – imitei seu gesto e cruzei os braços – Parece-me que a minha parte será mais de longo prazo do que a sua.
- Charlie, querida – riu – Eu posso transformar você na melhor daqui. Anthony está te testando, vendo até onde você aguenta. Ele quer que você desista.
- Anthony me transformará na melhor – não era minha intenção defendê-lo, mas aquela era uma verdade única.
- Claro que vai. Mas isso seria mais rápido com a minha ajuda. Todas as vezes que saímos poderei ensinar a você alguns truques. Macetes que só a prática te ensina. O que me diz? Ser melhor que Anthony não parece bom o suficiente para você?
Pensei naquilo por alguns instantes e, por impulso, fiz sinal positivo para ele. Não sabia o que estava fazendo, mas se havia uma forma de ser melhor que Anthony eu toparia.
- Eu venço porque sou mais rápido. Eles são mais fortes e inteligentes até, mas minha agilidade permite que adiante os golpes deles. Quando estão pensando em esmurrar, já estou fazendo isso.
- É só isso? – perguntei abobalhada – O grande segredo é esse?
Ele soltou uma risadinha que tinha tudo para ser escandalosa e aproximou a boca do meu ouvido – Todos tem seus truques, Charlie. É isso que Anthony precisa ouvir de você e é só isso que saberá – afastou o rosto e encarou-me – Por enquanto.
Deu alguns passos para trás, em direção ao tatame, mas virou-se em minha direção antes de aquecer-se – A propósito, sou Louis Tomlinson.
(...)
- Estou surpreso – Anthony disse quando chegamos em casa – Não sei se por ter acertado a resposta ou por ter aceito o convite dele para sair.
- E eu estou surpresa por você ter deixado – rebati.
- Louis Tomlinson é uma promessa – explicou – De longe, o melhor combatente que tenho. Quem sabe ele te ensine como ser obediente.
Guardei um sorriso, porque Louis Tomlinson era um rebelde nato. Dias depois, no nosso primeiro encontro, desobedeceu a Anthony levando-me de volta para a academia e não para um restaurante como havia dito. Me fez tirar a jaqueta bonita que Anthony havia surpreendentemente dado, simplesmente havia aparecido com ela na noite antes do encontro, e obrigou-me a bater no saco de boxe.
- Levante a guarda – explicou – Cotovelo para trás, mais alto, isso.
No outro dia Anthony não precisou repetir a mesma coisa, já estava esmurrando do jeito certo.
- Você leva jeito para isso – teve que admitir à contra gosto.
Sorri para um Louis que não fazia questão de segurar o riso.
(...)
Meu corpo todo doía, aquela era minha primeira luta e um pouco ao meu lado Louis me olhava esperançoso. Os nós dos meus dedos estavam vermelhos e sangrando assim como meu nariz, mas, não o decepcionaria. Ganharia aquela luta.
Quando Derek investiu contra mim, no intuito de pegar minha cintura e erguê-la até meu corpo cair com tudo no tatame, adiantei o golpe e ergui minha perna, acertei seu estômago com toda força que tinha e, justamente quando ele se curvou por causa do impacto, acertei uma joelhada em seu rosto que o fez cair para trás, derrotado.
Queria sorrir e correr até Louis, mas aquilo era coisa para a Charlotte de antes. A nova Charlotte apenas assentiu em agradecimento, foi ele quem saiu de onde estava para cumprimentar-me, a mão fechada em punho tocando na minha que fazia o mesmo gesto.
Virei-me para Anthony e ele demorou para esconder o sorriso, não foi rápido o suficiente e eu vi um pouco do orgulho que ali estava. Não foi o bastante para tocar-me. Aquele homem havia me destruído por dentro, não ganharia-me com um pouco de admiração.
(...)
- Droga – resmunguei quando meu corpo caiu todo para trás no tatame.
- Você está ficando cada vez melhor, Charlie – Louis disse com o corpo em cima do meu – Mas ainda não é boa o suficiente.
- Charlotte – o corrigi pela milésima vez – Nunca vou ser boa o suficiente, Louis.
- Claro que vai – mudou o peso do corpo e sua perna ficou entre as minhas. Aquilo mexeu comigo, com meu corpo – Me arrisco a dizer que está incrivelmente perto disso – tirou um fio de cabelo da minha bochecha e aproximou o rosto do meu.
Sua boca estava muito perto, arriscadamente perto. As pupilas dilatadas mostravam-me o infinito azul em seus olhos.
- É melhor tentarmos outra vez – falei quando senti seu hálito fundir-se com o meu.
- Um dia, Charlie – levantou-se e estendeu a mão para mim – Irei ser a melhor coisa que já conheceu.
Revirei os olhos – Certo, mas até lá continue lembrando que meu nome é Charlotte.
Sua gargalhada antecedeu meu soco em seu queixo.
(...)
- Bata no tatame – Anthony ordenou – Bata.
- Não – levantei-me sentindo meu corpo pesar mais do que nunca – Eu consigo.
- Vai acabar se machucando sério – ele insistiu – Pare agora.
- Eu consigo – repeti limpando o sangue que escorria por meu queixo. Não era com Louis que estava lutando, mas Charles era tão bom quanto ele. O grandalhão não estava pegando leve, provavelmente tinha algumas costelas quebradas.
- Charlie, escute seu pai – Louis pediu – Ainda não é boa o suficiente para ganhar de Charles.
- Eu nunca vou ser – sussurrei endireitando o corpo – Mas ainda não desisti de tentar.
Charles veio até mim com um rugido, os músculos brilhando em suor quando acertou um soco em meu estômago. Mas era o que eu queria. Porque quando afastou-se e dobrei o corpo, consegui bater minha cabeça na sua. Ele se desequilibrou o suficiente para que eu conseguisse subir em sua coxa rapidamente – como Anthony ensinou dias atrás – e ficar em suas costas, meu braço rodeando seu pescoço com força.
Ele tentou me tirar dali, sacudiu o corpo com força, porém aquela era minha ultima tentativa, não iria desistir tão fácil. Apertei com mais força, trincando os dentes para que desmaiasse logo e não amoleci o aperto quando cambaleou para trás. Ele estava caindo aos poucos, meu aperto surtindo efeito, mas foi só quando seu corpo tombou de vez, levando-me consigo, que respirei aliviada.
- É, Charlotte – Anthony murmurou após instantes em total silêncio – Pela primeira vez, demonstrou ter puxado algo de mim. Você é teimosa.
(...)
- Isso não deveria ter acontecido – falei empurrando o peito de Louis para longe. Seu corpo suado saindo de perto.
- Você queria tanto quanto eu – ele suspirou – Porque vive fugindo de mim?
- Lou...
- Eu sou seu amigo – interrompeu-me com a mão na cintura – E por anos você vem me afastando.
- Me beijar não é atitude de um amigo!
- Beijar-me de volta também não é! – retrucou falando mais alto que eu – Mas aconteceu. Porque você quer negar isso?
- Não mudará nada entre nós.
- Ah, Claro – debochou – Vamos esquecer que você gemeu contra minha boca.
- Quer calar a boca? – cheguei perto dele – Quer que alguém nos escute?
- É tão ruim assim que saibam que a filha do chefe de polícia beijou um mero aluno?
- O que? – franzi a testa – Você sabe que isso nunca foi problema.
- Então porque não admite o que quer? – provocou-me chegando mais perto, o rosto cheio de raiva a centímetros do meu – Porque é tão ridiculamente ainda uma menina?
Bufei – Eu odeio você, Tomlinson. Você é um chato, metido, arrogante com a voz mais estridente do universo e...
- E você quer me beijar – completou quando me viu perder as palavras olhando para sua boca – De novo.
- É, eu quero – circulei seu pescoço com meus braços e colei minha boca na dele, sua língua encontrando a minha quase que imediatamente.
(...)
- Acho que é você quem está por baixo agora, Tomlinson – gargalhei segurando firme meu pé contra seu peito. Todos na academia aplaudindo aquele momento, finalmente ele tinha perdido para mim.
- Você sabe que pode ficar no controle um pouco, Charlie – segurou meu pé e o puxou com força, tirando meu equilíbrio até meu corpo cair no tatame – Mas, no fim, sou eu quem mando.
- Bastardo – xinguei.
Ele riu e ajudou-me a levantar, plantando um selinho e fazendo com que me afastasse dele com raiva – Não comece, Tomlinson.
- Porque sua filha tem que ser tão difícil, Anthony? – resmungou na direção dele, ouvindo uma risada em resposta.
(...)
- Eu sinto muito – falei tentando realmente sentir aquilo, mas eu estava tão feliz por mim mesma que não conseguia entristecer-me por Louis.
- Eu te conheço – murmurou indo para longe de mim – Sei que está feliz e espero mesmo que curta isso.
- Eu sei o quanto queria isso. Não queria ficar no caminho – caminhei até ele, puxando seu braço – Se quiser, posso falar com Anthony e...
- E fazê-lo tirar o cargo de detetive da filha para dar ao namorado dela? – usou o tom de deboche – Não se preocupe, Charlie. Eu já esperava por isso. Você é melhor que eu.
- Podemos fazer isso juntos – insisti – Eu nunca havia cogitado essa possibilidade, mas se eu disser a Anthony que quero um time talvez...
- Um time?
- Sim, um time. Alguém bom em torturar, outro em computadores... Eu não sei, mas talvez funcione.
- Eu não sei – ele crispou os lábios – Eu e você brigamos direto nos casos que Anthony nos dá, um time talvez...
- Podemos tentar. Anthony não teria como não te deixar ser detetive. Nem seria escolha dele.
- Isso significa que você se importa comigo? – ergueu a sobrancelha e puxou meu quadril para o seu.
- Pode parar com essa expressão maliciosa – adiantei – Não rolará nada hoje.
- Qual é, desde que te provei que o sexo é bom e prazeroso, você parece mais viciada que eu e agora não quer?
- Lou, qual o seu problema em querer falar tudo alto? Caralho.
Ele riu e beijou minha testa – Vamos, Charlie. Vamos perguntar ao seu pai o que ele acha dessa sua ideia.
Rolei os olhos porque ele sabe que odeio quando o chamam de meu pai, mas Louis era a pessoa mais teimosa que conheci, o apelido que inventou para mim era uma prova disso. Sabia que eu odiava, mas nunca fez questão de aboli-lo do seu vocabulário.
(...)
- Esse é Austin – Anthony apresentou o grandalhão do lado direito. Ele tinha algumas tatuagens nos braços e usava o cabelo no corte estilo militar. Tudo nele exalava alguém quieto e calado, estava começando a temer a ideia de criar um time quando o vi. Parecia difícil de ser ajustado, bruto, encarou-me dos pés a cabeça e não sorriu.
- O mais alto é o Liam – continuou – É o melhor em bombas. Achei que iam precisar.
Liam aparentava ser gay. Apertou minha mão com cuidado, permaneceu tempo demais encarando Louis que mastigava um chiclete de boca aberta e tinha o cabelo caído nos olhos.
- O loiro é o Niall, ele é irlandês. É um terrorista – meu queixo caiu após essa fala de Anthony e ele ficou vermelho – Ou melhor, era. Agora trabalha para nós.
- Para mim – o corrigi e encarei Anthony que olhou-me com descrença – Agora ele trabalha para mim.
- Seu time – ele concordou com um sorriso irônico – Espero que não precise da minha ajuda para nada.
Em seguida saiu da sala, deixando-me sozinha com os meninos.
O tal Austin suspirou quase que imediatamente e sua expressão se suavizou – Esse cara é um saco, com todo respeito.
Sorri – Tenho que concordar.
- Sobre a história do terrorista – o irlandês adiantou-se – Eu nunca fui. Só estava curioso.
- Será que você poderia mastigar esse chiclete de boca fechada? – o Liam se pronunciou – Por favor.
- Você é gay? – Louis perguntou sem rodeios.
- Louis! – o repreendi segurando o riso.
- Não, eu não sou – ele respondeu – Só gosto da educação.
- Opa – Austin falou alto quando arrotou – Desculpa então, bro.
- Eu pensei que você seria bem caladão.
- Eu? – ele me respondeu – Que nada, princesa. Só não gosto muito do seu pai.
- Nós podemos comer alguma coisa? – Niall falou baixinho – Se você quiser, é c-claro – gaguejou.
- Céus, o garoto é um fofo – Louis gargalhou – Posso apertar suas bochechas?
- Eu estou achando que você é o gay aqui – Austin disse.
- Eu transo com essa beldade todos os dias – ele colocou o braço em meus ombros – Isso é gay o suficiente para você?
- Não precisa falar essas coisas em público, certo?
- Obrigada, Liam – agradeci a sua opinião porque foi maravilhosa – Cala a boca, Louis.
Niall riu. A gargalhada do irlandês foi contagiante e, enquanto todos nós ríamos, pela primeira vez pensei que aquilo poderia dar certo. Esse time poderia realmente funcionar.
(...)
- Você não pode fazer isso comigo! – bati o pulso em sua mesa com força – Não pode!
- Saiam – Anthony ordenou para os meninos. Austin, Liam, Louis e Niall esperaram que eu assentisse para saírem da sala e, quando assim o fizeram, Anthony voltou a falar – Você é que não pode despeitar meu nome daquela forma!
- Desrespeitar seu nome? – debochei – Você não é nada para mim, eu não me importaria se fosse demitido se isso evitasse que aquele promotor estúpido colocasse as mãos em cima de mim!
- Você quebrou a casa dele, sua idiota!
- Ele queria me estuprar! – rebati – E você sabe mais do que ninguém que eu jamais toleraria isso novamente.
- Suas ações desenfreadas tiveram consequências. Agora ele quer fazer de tudo para que você seja afastada do cargo.
- E é exatamente isso que você está fazendo me mandando para longe.
- É só até a poeira abaixar, garota tola – jogou alguns papéis em cima da sua mesa – Enquanto isso você vai estar em uma missão.
- Uma missão estúpida pelo que já ouvi! Mande James e sei que ele dará conta.
Ele bufou – James se atrapalharia todo. Ele é meu amigo, preciso levar a melhor.
- Então você vai. Não ouse me separar do time.
- O time ficará bem e, se você quiser continuar com esse reconhecimento que tem, irá me obedecer. São poucos meses, Charlotte. O suficiente para o promotor se acalmar e para você salvar a família do meu amigo.
Peguei o jarro que estava em cima da mesa e joguei contra a porta – Eu odeio você!
- Quebrar minha sala não ajudará em nada – suspirou – Estaremos indo a noite. Arrume suas coisas.
- Eu nunca lhe perdoarei por isso, Anthony – o ameacei – Nunca.
Ele deu de ombros e me encarou, o maxilar travado e os olhos inexpressivos - Adicione isso a longa lista contra mim que ambos sabemos que tem.
(...)
Poucas coisas tinham o poder de me deixar sem palavras. Poucos eram os momentos onde não conseguia demonstrar emoção alguma e esse era um deles.
Harry ficou vermelho e colocou o cabelo atrás da orelha – Eu não sei o que esperava quando dissesse isso, mas não precisa me olhar como se estivesse dito que prefiro a Hermione com o Harry.
Pisquei – Eu lhe mataria se você dissesse isso.
Ele riu – Eu sei que não estava esperando por isso, mas eu...
- Disse isso porque estava com pena de mim?
- Pena? Pena é a ultima coisa que eu sinto de você, Lottie. Eu tenho orgulho de você, já disse isso.
- Porque diria isso, então?
- Porque eu disse que te amo? – perguntou retoricamente – Porque é isso que eu sinto, não tem outra explicação. Lottie, não espero que diga a mesma coisa. Juro, não espero e está tudo bem. Eu entendo seus motivos, sei o quão foi difícil para você dizer tudo isso agora, pedir que diga que me ama é demais, eu sei, mas eu precisava dizer.
- Você me ama? – perguntei baixinho sem acreditar – Tipo, ama mesmo?
Ele chegou mais perto e tocou o nariz no meu, acariciando, os olhos nunca deixando os meus – Minha Lottie, gosto de você tipo amor. E esperei anos para dizer isso novamente.
Foi inevitável sorrir, aquela era uma nova emoção para mim. Os meninos diziam que me amavam, não era o tempo todo, mas diziam, e quando ouvia era como se meu coração quebrado se aquecesse um pouco. Me sentia bem. Mas, ouvir isso de Harry, da forma com que disse e naquele momento, senti pedacinho por pedacinho querer se juntar, remendando-se aos poucos.
Ele me beijou calmamente, seus lábios acariciando os meus antes das nossas línguas se encontrarem. Acariciei seu pescoço com minhas unhas e ele tremeu. Se eu soubesse que beijá-lo era tão bom, tinha feito antes, no fundo sempre quis aquilo, me sentir daquele jeito.
- Eu quero te fazer minha – ele sussurrou – Mas não assim. Quero que seja diferente.
- Hazza...
- Só com esse apelido eu já poderia beijar você toda agora mesmo – confessou – Mas eu quero que espere. Quero surpreender você.
- O que está planejando? Você sabe que eu não gosto de surpresas.
- Sim, eu sei – acariciou a ponta do meu nariz e levantou-se do colchonete – Mas me deixe fazer isso, okay?
- Okay – falei rindo – O que está fazendo?
- Você irá dormir comigo, Charlotte Di Angello – puxou meu travesseiro e colocou do lado oposto ao seu na cama – E sem marra.
- Eu não pensei em negar mesmo – dei de ombros e deitei-me – Mas não acho que vou conseguir dormir tão cedo.
- Tudo isso porque eu disse que te amo? – tirou a camisa e a calça, ficando só de box – Não me olha desse jeito, eu não respondo por meus atos.
- Você não deveria me provocar desse jeito – falei desviando o olhar do seu corpo – Pode dizer de novo?
- O que? – perguntou com um tom de riso porque tinha falado baixo demais.
- Você sabe... – a vergonha tomou conta de mim. Todos os sentimentos que fiz questão de deixar para trás vinham completos quando estava com ele.
- Dizer que te amo?
- Sim – assenti – Pode dizer novamente?
- Não me olha assim, mulher – murmurou ficando em cima de mim, o corpo encaixando-se ao meu – Não me olha assim ou vou passar a noite toda dizendo que te amo só para esse olhar inocente cruzar seu rosto de novo.
- Me faço de inocente, Styles – segurei em seu pescoço para tomar impulso e virei nossos corpos, ficando por cima. Certos costumes nunca mudam – Mas espere só...
Ele interrompeu o que eu ia falar com um beijo – Não vai conseguir me seduzir – riu quando ergui a sobrancelha – Apesar de que essas tentativas estão me fodendo.
- Eu quero foder outra coisa – admiti.
- Como consegue falar isso com esses olhos tão inocentes? – mordeu meu lábio inferior e acariciou minha cintura – Você ainda vai me deixar louco.
- Porque temos que esperar? – mexi meu quadril contra o seu, sentindo seu volume.
- Por que... – ele reprimiu um gemido rouco – Porque eu quero que seja diferente.
- Styles... – gemi seu nome propositalmente – Hazza...
Ele beijou-me com força, segurando minha perna e, quando pensei que tinha conseguido seduzi-lo, virou nossos corpos novamente e com um sorriso desfez nosso beijo.
- Boa noite, Lottie – virou para o outro lado e apagou o abajur.
- Idiota – resmunguei – Eu não vou conseguir dormir.
Reprimiu uma risada – Até amanhã.
- Eu odeio você.
- E eu te amo – respondeu – Agora, boa noite.
- Urgh!
(...)
- Gemma gosta desse prato – Anne disse assim que colocou o almoço na mesa – Eu... – balançou a cabeça e saiu da cozinha.
Des não estava, tinha chegado tarde do trabalho e ainda estava dormindo. Pelo menos o clima ainda não estava ruim, Harry tinha decidido não contar nada ainda, não queria que a mãe sofresse mais um baque e que a notícia atrapalhasse nossos planos, pois Des não escutaria calado.
- Você poderia ir atrás dela – Vic sussurrou quando todos esperamos Harry dizer alguma coisa, mas ele continuou olhando para a comida na mesa, perdido em seus próprios sentimentos.
- Eu?
- Ela gosta de você – Liam concordou – Talvez ajude só estar lá.
- Eu não saberia o que dizer.
- Vá até ela – Harry murmurou sem olhar para mim – Por favor.
Suspirei e levantei-me da cadeira. Eu precisava decidir o que faríamos com relação a Brad. Ataque ou defesa. Mas aquela família precisava mais do que a resolução daquela missão, Anne estava acabada por dentro, não tinha a animação que eu percebi quando nos conhecemos. Des perderia tudo quando contassem a culpa que ele tinha e, se ambos não ficassem bem, Harry não ficaria.
- Anne? – bati na porta do seu quarto – Posso entrar?
Ela abriu a porta alguns segundos atrás – Des está no banho. Pode entrar.
- Eu só... – mordi o lábio – Eu sinto muito. De verdade.
O queixo dela tremeu e algumas lágrimas caíram, ela chorou baixinho, segurou o soluço e tentou me dizer que estava bem, mas o choro não deixou.
Meus braços tomaram decisões próprias, foram impulsivos. A puxaram para um abraço que nem eu esperava. Ela encostou a cabeça em meu ombro, o corpo tremendo.
- Eu sinto tanta falta da minha menina – soluçou e aquilo doeu em mim. Sabia o que era aquela dor, tinha noção do quanto perder a filha doía.
- Eu sei – acariciei seu ombro – Eu sei.
- Isso não é justo. Perder minha família não é justo.
- Prometo tentar ajudar de alguma forma, Anne. Prometo que ele não tirará mais ninguém de você.
- Proteja meu menino – me encarou, os olhos ainda úmidos – Fique com ele. Não deixe que o coração dele seja quebrado. Por favor.
- Eu gosto do seu filho – admiti – Mas eu não... Não sou a garota certa. Quando a missão terminar...
- Não o abandone. Não deixe que ele conheça essa dor, por favor. Por favor – repetiu com mais entonação.
Alguém pigarreou e olhei na direção do som. Des estava de toalha na porta do banheiro. Senti nojo quando olhei para aquele homem, uma vontade enorme de tirá-lo de perto de Anne e de Harry.
- Eu já vou indo. Se precisar de mim...
Ela assentiu – Obrigada. Eu sei que isso é difícil para você, então, obrigada.
- Não precisa agradecer – olhei para Des, de alguma forma querendo que soubesse que seu segredo não era mais tão secreto assim – Eu protegerei essa família. Custe o que custar.
Ele permaneceu impassível, nenhuma emoção a demonstrar.
- Preciso falar com você – Liam disse assim que sai do quarto – É importante.
- O que aconteceu? – perguntei enquanto me deixava ser puxada até o quarto onde a garota estava.
- O nome dela é Miranda – ele disse – Ela lembrou-se noite passada. Querida, pode, por favor, contar a ela o que me disse?
Ela assentiu – Eu tenho um aviso dele.
- Dele?
- Brad.
Olhei para Liam sem entender e ele fez sinal para que a garota continuasse.
- Ele nos reuniu uma noite antes da invasão. Disse que algumas de nós iriam fugir e ele deixaria – o olhar dela estava vazio – Ele me mandou não correr muito, demorar para sair. Se eu não fizesse isso mataria minha família. Afirmou que eu levaria um tiro.
- O que...
- Deixe-a terminar – Liam pediu.
- Eu sabia que ia levar um tiro. Esperei o tiro.
- Por quê? – sussurrei segurando em sua mão para que dissesse de uma vez – Porque, Miranda?
- Porque eu precisava estar com vocês – sussurrou sem encarar-me, o olhar perdido em algum lugar – Para dizer o aviso.
- Pode dizer o aviso a ela, querida – a voz de Liam a trouxe de volta e passou a olhar-me.
- Ele disse que essa cidade não é mais sua. Disse que você não manda em nada aqui, que nesse exato momento tem alguém com uma mira apontada para Harry. Que vocês invadiram a boate porque ele deixou. Ele sabia como vocês entrariam, ele ordenou que os seguranças se deixassem morrer e que um deles atirassem em mim – os olhos dela estavam arregalados – Ele mostrou a foto dele. Harry. Disse que ele pagaria por tudo. Uma irmã por uma irmã. Uma família por uma família.
Quando pareceu que ela não ia dizer mais nada, soltei sua mão. Meu corpo tremia em raiva, angústia tomou conta do meu peito. Quem era esse Brad que sabia do meu passado?
- Você sabe o que isso significa – Liam disse me olhando e acariciando o ombro dela ao mesmo tempo.
- Temos um espião. Um traíra – murmurei deixando que a raiva colorisse minha voz – De que outra forma Brad saberia que invadiríamos a boate e que entraríamos daquele jeito?
- Mas ele precisava de um aviso. Um aviso claro de que estávamos invadindo para que quem estivesse dentro se preparasse para atirar em uma das garotas, em Miranda.
Lembrei-me daquela noite e fechei os olhos. Como pude ser tão burra? Fechei as mãos em punho e senti meu estomago retorcer-se em puro ódio.
Quem tinha entrado atirando com a desculpa de que ficou com medo? Quem mais conhecia Brad o suficiente para ficar balançado entre os dois lados? Quem deu a ideia do ataque a boate naquele dia? Quem se infiltrou tanto no time, nos nossos sentimentos do que ele? Quem nos traiu?
- Zayn – rosnei o nome dele em resposta para todas essas perguntas.
Notas Finais:
O que me dizem desse traidor? Sempre desconfiaram ou não faziam ideia?