Sui Generis

By Amy__Bae

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Unidade é o nome do último país habitado do mundo e onde mora Sieben, um jovem de vinte anos que passou a vid... More

II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
Apêndice

I

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By Amy__Bae



  — Podemos começar?

— Acho que não tenho outro compromisso para esse horário. — Sorriso.Nem para esse e nem para nenhum outro horário nos próximos dois mil anos,era o que ela pensava enquanto começou o interrogatório:— Por que vocês fizeram isso?  

O último relatório do dia era geralmente o mais longo e trabalhoso de ser feito, por isso Sieben se adiantou ao máximo durante aquele dia, a fim de concluir os relatórios menores e ganhar tempo. Só assim conseguiria concluir o trabalho com êxito, sair mais cedo e chegar ao cemitério antes que fechasse.

— Faltam apenas algumas coordenadas. — Sieben disse para o chefe, que transitava no corredor próximo de seu cubículo.

— Deixe isso aí. Contanto que você não esqueça, pode preencher isso amanhã. — Dekao se recostou à entrada do cubículo. — Hoje faz um ano, não é?

Sieben assentiu com a cabeça. Nem conseguia acreditar que já se passara todo aquele tempo. De acordo com as Regras Gerais, a morte é sempre uma tragédia a ser lamentada, mas Sieben sabia, lá no fundo, que corria sérios riscos cada vez que pensava em seu falecido amigo.

— Obrigado.

E Sieben optou por se retirar, deixando Dekao sozinho após fazer uma meia reverência de agradecimento. Enquanto caminhava pelos corredores a passos largos, anotava no notepad as coordenadas que precisaria transcrever nos documentos na manhã seguinte. Era imprescindível, porque as Regras Gerais deixavam claro que as coordenadas dos locais onde as rebeliões aconteciam eram usadas para triangular as áreas e capturar os meliantes antes de um novo motim.

Logo ao chegar do lado de fora do prédio da Segurança, Sieben pegou a bicicleta e saiu. Não era comum sentir-se daquela forma, mas o aniversário de morte de Twine mexera consigo, muito mais do que Sieben gostaria de admitir. Tinha plena consciência de que o chip em sua cabeça poderia captar suas sinapses e acusá-lo de tratar a morte de forma diferente do que era especificado nas Regras Gerais. Sieben não tinha medo de morrer por uma descarga elétrica – a mesma que matava todos os que desenvolviam linhas de pensamento inadequadas –, mas, definitivamente, não queria morrer em cima da bicicleta, a caminho do cemitério, sem nenhum conhecido por perto que pudesse identificá-lo e enterrá-lo.

Não queria morrer como Twine.

Com um sorriso triste, Sieben balançou a cabeça em negação. Twine tinha aquele dom de acabar com suas certezas, e, aparentemente, seu talento permanecia – e permaneceria – vivo por muito tempo.

***

— Devo chorar?

Sieben estava ajoelhado de frente a lápide. Os olhos azuis pareciam cinzentos por causa das lágrimas que ele se recusava a derramar e ele esfregou o rosto com as mãos. Não era o seu usual agir de forma tão emotiva, com direito a voz embargada e cabelos – longos, como os homens de bem tinham – ao vento. Talvez nem fosse realmente culpa do aniversário de morte de Twine. Talvez Sieben estivesse simplesmente dando vazão a todos os problemas que sempre o atormentaram. Talvez aquela data fosse apenas um estopim, e Sieben já estivesse há muito condenado.

Talvez.

— O engraçado — Sieben tomou fôlego e sua voz soou mais clara — é que, desde que você se foi, nada mudou. Você poderia voltar neste exato momento, e tudo estaria do mesmo jeito que você deixou. Continuo trabalhando na Segurança, mesmo depois de todas as minhocas que você conseguiu colocar na minha cabeça. Sigo sem saber minha origem. Sem ter ideia do que houve com a nossa família. E sem ter coragem de descobrir. Você realmente não perdeu nada.

Gostaria de completar a frase, de dizer que, ao contrário de Twine, perdera muito mais do que apenas um colega de trabalho. Twine era como um guia às avessas que sempre colocava as ideias mais erradas na mente de Sieben. E, por ironia do destino, tais ideias erradas o mataram.

Sieben nunca compreendera, de fato, como o chip funcionava. As Regras Gerais diziam que pessoas cuja linha de pensamento pudesse afetar ou prejudicar a ordem do todo será vítima de uma descarga elétrica que descartará as sinapses prejudiciais. O problema era que raramente uma pessoa sobrevivia às descargas, e Sieben tinha certeza de que Twine deveria ter sido eletrocutado muito antes. Porque Twine não concordava com nada do que as Regras Gerais diziam.

E então, interrompendo totalmente momento mais melancólico da vida de Sieben, uma pessoa se ajoelhou ao seu lado. Ele também tinha cabelos longos, mas, diferente do loiro claro de Sieben, os fios eram pintados com uma tonalidade de lilás bastante incomum. Seus olhos eram puxados e escuros. O jovem – ele parecia ser pouco mais novo do que Sieben – fez uma mesura respeitosa, porém pouco íntima, ao túmulo, e se voltou para Sieben.

— Sou seu novo parceiro. Dekao me disse que te encontraria aqui. Temos um trabalho.

A primeira coisa que Sieben pensou em fazer foi socar a cara de seu novo companheiro de trabalho. Como ele tinha a audácia de dizer-lhe aquelas coisas na frente do túmulo de Twine? Sem um pingo de consideração? Sem se importar?

Porém, Sieben se deu conta de que ele não deveria se importar. As pessoas devem lamentar a morte de entes queridos, era o que diziam as Regras Gerais. No caso de falecimento de pessoa desconhecida, deve-se respeito apenas.

— Me chamo Ershi. — O novato prosseguiu, agindo como o exemplo de funcionário da Segurança que Twine tanto detestava.

Ele estendeu a mão para Sieben e Sieben retribuiu o cumprimento com leve desconfiança. Começou a ventar. Outonos naquela região costumavam ser amenos, mas os ventos eram frios. Sieben ajeitou o cachecol ao redor do pescoço.

— Sieben.

— Fizeram uma triangulação de última hora pouco depois de você sair. Encontraram um foco de rebeldes bem ali. — Apontou a área cheia de árvores a perder de vista que não fazia parte do terreno do cemitério. — Se estiver tudo bem para você, podemos ir agora.

Contrariado, Sieben se levantou. Deu uma última olhada para o túmulo de Twine e começou a seguir Ershi. De acordo com seu novo parceiro, teriam apenas de observar o comportamento dos marginais e identificar se eles tinham residência fixa ali ou não. O resto do trabalho seria feito no dia seguinte, pela Força.

Basicamente, a Força fazia o trabalho sujo da Segurança, e era difícil definir qual das duas equipes Twine desgostava mais.

Anoitecia quando chegaram ao início da floresta. Sieben estreitou os olhos ao notar a destreza com que Ershi caminhava pelo local cheio de galhos e pequenas irregularidades. Por um instante, sentiu que havia algo de errado acontecendo ali. Por apenas um instante.

A caminhada silenciosa durou pouco, mas o céu já estava totalmente escuro quando chegaram ao destino. Sieben ouviu os sons estranhos, ritmados, e, embora fossem proibidos de ouvir música ou ter qualquer tipo de contato com a arte – porque a arte levava as pessoas a diferentes interpretações, diferentes pensamentos e, consequentemente, à guerra –, Sieben identificou o instrumento musical, um dos muitos que estudara.

— Atabaques.

— Você se interessa por instrumentos da resistência? — Ershi perguntou em voz baixa.

— Aprendi sobre eles em matérias eletivas da minha formação. — A resposta foi um sussurro. Estavam muito próximos agora, e se abaixaram atrás de um tronco de árvore.

Havia, pelo menos, quatro homens ali, formando uma roda ao redor de uma fogueira baixa. Alguns tinham cabelos curiosamente curtos e pareciam não se importar com os ventos frios, pois sequer usavam camisa. Outro detalhe que chamou a atenção de Sieben eram as mulheres. Três, pelo que pode contar, e todas elas pareciam incrivelmente felizes, como Sieben jamais vira uma mulher parecer.

— Sua vez, Niihachi. — A garota mais jovem gritou. Ela tinha traços físicos – como os cabelos e os olhos claros – semelhantes aos de Sieben e ria muito. Um dos homens de cabelo curto balançou a cabeça. Era o único que estava usando camisa, mas diante do pedido da jovem, se livrou da peça. A música dos atabaques reiniciou, e Niihachi fez um gesto chamando outro homem de cabelo curto para o meio da roda.

Sieben mal conseguia respirar por causa da curiosidade. Seu trabalho era triangular as áreas. Ele nunca ficara tanto tempo próximo a um rebelde como agora estava.

E, para sua completa confusão mental, dois fatos ocorreram em estranha sucessão.

Quando o homem aceitou o chamado de Niihachi, iniciaram uma estranha movimentação que se assemelhava a uma dança, mas Sieben não sabia se poderia classificar daquela forma. O tempo todo eles pareciam tentar se atacar e se defender, embora não intencionassem machucar um ao outro. Sieben se sentia contagiado. Niihachi era o tipo de pessoa de quem Twine falava. Transbordava vida, vontade. E quando os olhos de Niihachi repentinamente encontraram os seus, uma vez que Sieben se perdera completamente de seu objetivo e esqueceu-se de se manter escondido, ele quase deu um passo para trás.

Niihachi sorriu, apenas. Não se deu o trabalho de interromper a apresentação, nem de alertar sua presença aos demais. Parecia ler a mente de Sieben, e entender que, naquele momento, ele não representava perigo algum.

E realmente não representava.

O segundo fato – e que seria mais perturbador se Sieben estivesse em seu estado normal – era que o homem que lutava – ou dançava – com Niihachi era uma versão mais velha e mais morena – tanto a pele quanto os cabelos mais escuros – de seu falecido amigo.

Aquilo não fazia o menor sentido.

— Precisamos voltar. Eles estão fixados aqui, tenho certeza de que até a próxima semana já pegarão os marginais.

A voz de Ershi trouxe Sieben de volta para uma amarga realidade. Aquele conceito de marginais, que antes só incomodava Sieben, agora parecia quase uma blasfêmia.

— Vamos.

A caminhada de volta foi ainda mais silenciosa. Saíram do cemitério pulando o portão, uma vez que locais públicos eram fechados após o toque de recolher. Sieben se despediu de Ershi, e permaneceu ali durante minutos suficientes para vê-lo dobrar a esquina e desaparecer.

A sensação de incômodo e curiosidade aumentava exponencialmente.

Com um súbito golpe de coragem, Sieben pulou o portão novamente para dentro do cemitério. Correu o máximo que pode, até ouvir novamente os atabaques, e aquela madrugada se resumiu em apreciar tanto a apresentação de dança quanto os olhares furtivos que Niihachi lhe lançava. Talvez aquilo não acabasse bem.

Talvez.

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