O sinal não acordou Kim, mas sim os sacolejos de Camile, uma de suas colegas de quarto, que parecia impaciente com o sono profundo da novata.
— É segunda-feira, dorminhoca – falou, tirando as cobertas da asiática com cautela – Não vai querer se atrasar para sua primeira atividade, vai?
— Vai? – Diane ecoou ao fundo, sentada em sua cama, já vestida com o macacão branco.
Kim não sabia ao certo o motivo de Camile estar ali, percebera – nessas suas primeiras horas no Instituto – apenas seu T.O.C e tiques nervosos que aconteciam às vezes. Talvez já estivesse se recuperando, contara-lhe que já estava no Instituto há quatro anos. Enquanto isso, o motivo de Diane era claro: algum trauma a tornara incapaz de montar sentenças, tudo o que fazia era repetir o que lhe era dito em entonações diferentes. Camile conseguia manter uma conversa comum com a garota, enquanto para a asiática aquilo não passava de uma verdadeira loucura.
Não lhe perguntaram sua razão e não era como se soubesse, Young-Woo não deveria estar ali. Talvez bebesse muito para alguém de dezesseis anos e fosse impulsiva e instável demais, mas isso não é comum em adolescentes? Tudo o que Kim queria era voltar para casa e pedir uma explicação para seus pais. Em um dia, tinha as malas prontas para visitar seus avós em outro continente; no outro, fora deixada por seus pais em um hospital psiquiátrico.
— Qual é a agenda? – Kim murmurou, esfregando os olhos. Camile apanhou um papel amassado que repousava sobre o criado mudo da asiática, alisando-o com suas mãos e ajeitando os óculos para ler.
— Terapia em grupo com outros novatos – a garota informou – Depois, pintura. Nós só vamos nos encontrar no almoço, mas podemos te levar até a sala da terapia se quiser.
— Não vamos tomar café? – a garota resmungou, ainda sonolenta. A mais velha arqueou uma sobrancelha.
— Se a senhorita se arrumar, teremos tempo para fazer isso – retrucou, como uma mãe irritada.
— Tempo para fazer isso! – Diane repetiu, em uma entonação de pressa, com as mãos na barriga, como se estivesse com fome.
Kim sorriu e se levantou, soltando um suspiro e esticando seu corpo. Seria um dia longo.
...
Era impossível existir silêncio em um local repleto de jovens com problemas psicológicos. Todos os novatos formavam um círculo de cadeiras brancas em uma sala também branca, alguns falavam sozinhos, outros não paravam de se mover – Kim não se encaixava ali. Não tremia, não sussurrava, não tinha uma expressão furiosa e tampouco amedrontada. Apenas estava ali, deslocada, desejando estar em seu quarto de paredes irritantemente rosas.
Nunca pensou que sentiria tanta falta daquelas malditas paredes.
Uma mulher entrou na sala, beirava a meia-idade, mas isso não afetava seu porte atlético. Seu jaleco branco indicava ser uma médica. Sentou-se na cadeira restante do círculo, com uma prancheta em sua mão. Ela sorriu gentilmente, fazendo todos ficarem em silêncio.
— Sejam bem vindos ao Instituto! – falou – Sou a Dra. Elle e espero que se sintam à vontade aqui. Bom, que tal as apresentações?
Kim revirou os olhos enquanto os jovens diziam – um por um –, seus nomes, idades e diagnósticos. Quando sua vez chegou, hesitou por alguns segundos, até que Dra. Elle assentisse com a cabeça; quanto mais rápido fizesse aquilo, mais rápido acabaria.
— Meu nome é Kim Young-Woo e tenho dezesseis anos – foi tudo o que disse. O que mais diria? Que gostava de beber? Que era impaciente? Não tinha um diagnóstico; não deveria estar ali.
— Você nasceu aqui? – a médica indagou, como se tentasse extrair alguma informação a mais da garota, que claramente não estava interessada naquilo.
— Sim, meus pais são de fora – explicou, sem muito ânimo.
Dra. Elle e os outros pacientes a encaravam como se esperassem mais detalhes. Kim não disse mais nada, apenas desviou o olhar para seus tênis brancos e reluzentes, em silêncio.
E, durante todo o resto da terapia em grupo, ela os encarou.
...
Tudo o que Young-Woo mais queria naquele momento era que Camile aparecesse e lhe levasse até a sala de pintura, mas isso não aconteceu. A garota apenas permaneceu parada à porta da sala de terapia, olhando para os lados do corredor enquanto outros residentes passavam por ela – sem se importarem –, como se um guia fosse aparecer magicamente ali, mostrando seu caminho.
Um guia não apareceu, mas a garota pôde ouvir vozes comentando sobre aulas de pintura a alguns metros do ponto onde estava. Girou a cabeça em direção ao som, parando os olhos em dois garotos que participaram da terapia: um era mais alto, a pele oliva e os cabelos cacheados; o outro era menor e mais novo, os cabelos alaranjados refletindo as luzes.
Lembrava de tê-los conhecido no dia anterior, rapidamente. Seria difícil esquecer Nico e Noah quando tudo neles parecia marcante – tanto as aparências opostas, quanto o comportamento excêntrico de ambos.
A garota respirou fundo, caminhando até os garotos e preparando-se mentalmente para lidar com o que quer que estivesse por vir.
— Vocês têm aula de pintura agora, não é? – indagou.
— Eu tenho aula de pintura. Noah não tem, não é? – Noah fez que não ao ouvir a pergunta do mais alto – O seu nome é Kim, não é? Eu sou muito ruim com nomes, mas eu gostei do seu. Você tem um nome diferente, é de fora. Gostei mesmo.
— Você está dando em cima de mim? – Kim arqueou uma sobrancelha, levando as mãos na cintura. Os olhos de avelã de Nico se arregalaram e suas bochechas tornaram-se rosas.
— Não! Não estou mesmo, não é, Noah? – o ruivo assentiu novamente, dessa vez parecia prender o riso – Só queria conversar. Sabe? Conversar normalmente. Desculpa, eu acho que falo demais. Você acha que eu falo demais? Eu nunca sei se estou falando as coisas certas. Tudo bem por você?
— Acho que está tudo bem, Nico – Noah disse, finalmente, com um sorriso no rosto naturalmente rosado. O moreno respirou fundo, aliviado com a resposta.
— De qualquer forma, vocês sabem como chegar até a sala de pintura? – a garota retomou o assunto. Já não esperava mais uma resposta muito útil dos dois, mas não seria rude com eles.
Kim sempre tentava ser gentil, mesmo que sua paciência não durasse muito. Talvez fosse um pouco explosiva às vezes, mas sabia como tratar alguém bem. Por mais irritantes que aqueles garotos – ou qualquer paciente dali – fosse, ela sabia que estavam doentes e que o que menos precisavam era de seu mau-humor. Apenas sorriu e tentou não deixar nenhum deles nervosos novamente.
— Não, eu não sei. Você sabe, Noah? – Nico tagarelou novamente, o menor negou – Mas talvez Lukas saiba, ele sabe de tudo. Eu o vi passar por aqui. Ei, olha, é o Ronan! – ele apontou para um garoto atrás de Kim, ainda menor que Noah – Você pode falar com ele, eu não.
— Olha, eu vou procurar a sala sozinha. Obrigada mesmo assim – ela disse, dando alguns passos para trás.
— Espera, posso encontrar com você? Noah pode falar com Ronan, não é? Eu não quero falar com ele – o ruivo não respondeu dessa vez, apenas arregalou os olhos azuis – Posso ir com você, Kim?
A garota suspirou, não queria alguém tão tagarela assim, mas não poderia negar. Forçou um sorriso e deu de ombros.
— Claro.
Os dois seguiram sem rumo pelo corredor branco, deixando o pequeno Noah para trás. Kim preocupou-se com isso por um segundo, mas apenas continuou andando – ele tinha o tal de Ronan, afinal.
Nico não dizia nada, apenas estalava os dedos sem um ritmo preciso enquanto seus olhos curiosos analisavam cada canto. Para Young-Woo, todo aquele branco parecia igual, sentia como se estivessem andando em círculos por mais impossível que pudesse ser.
— Perdidos de novo? – uma voz conhecida os parou. A felicidade de Nico foi o desespero de Kim quando viram Lukas parado à frente, com um sorriso – Onde está o Noah?
— Com Ronan. Acho. Espero... – Nico abaixou a cabeça, reflexivo por alguns segundos. Então, balançou-a, como se a ação dispersasse os pensamentos – Sabe onde fica a sala de pintura? Você sabe tudo, não é?
— Fica bem ali – o loiro sorriu, apontando para uma porta poucos metros atrás de Nico e Kim, onde uma placa dizia, com letras garrafais "SALA DE PINTURA".
— Oh... – o moreno sorriu – Obrigado, Lukas. De novo. Você ajuda bastante, não é Kim?
— Claro, ajuda muito mesmo – respondeu, com o sorriso mais forçado que pôde, deixando claro que estava mentindo. Virou as costas e partiu em direção a sua próxima atividade, deixando o loiro para trás.
— Kim? – Lukas chamou, forçando-a a se virar, revirando os olhos escuros – Você é nova aqui e não quero ser responsável por recaídas de novatos. Além do mais, não vai querer se envolver com o único fornecedor daqui, ele é... – hesitou, então colocou as mãos ao lado da boca, fazendo barreiras para que pudesse sussurrar – Ele é um psicopata, literalmente. Diagnosticado e tudo.
— Obrigada por me salvar, Madre Teresa, e por cuidar tão bem de mim – Kim retrucou, sarcástica.
— Você quer que eu peça desculpas sem ter feito nada? – o mais velho questionou, levantando os braços e deixando-os pender ao lado do corpo.
— Só esqueça isso – ela balançou a cabeça – Nico, vamos nos atrasar.
Nico não fez uma pergunta sequer sobre o que acontecera, na verdade, estava quieto demais, exatamente quando Kim desejava mentalmente que tagarelasse. Não queria ter a palavra que Lukas dissera ecoando em sua cabeça: "recaída". Não tinha um problema, como poderia ter uma recaída? Só por querer algo que distraísse sua mente? Isso a tornava igual a eles? Merecia mesmo estar ali?
Não sabia e, talvez, não quisesse saber.