Pior ano
Piores memórias. Lembro-me como se fosse hoje. Choro como se tivesse acontecido hoje. Ainda sinto a dor que senti naquele dia. O dia em que uma parte de mim se foi. Ainda me custa falar desse dia. Dia 06-07-2014.
Acordei sobressaltada com a minha mãe a gritar pela minha irmã, tive medo de ir lá ver o que se passava, tinha apenas 16 anos e não sabia o que fazer
"Mary !!" Tento acorda-la "Mary!!" Chamo mais alto "A mãe está a chamar por ti"
Ela levanta-se e vai ter com a minha mãe.. fico na cama a espera que ela volte.. ela nunca mais chegava então decidi ir ver o que se passava. Sai do meu quarto para ir para sala, pensava que estavam lá, mas primeiro teria de passar pelo quarto da minha mãe para chegar onde queria.. estava a passar pelo quarto da minha mãe e do meu padrasto olho para a minha esquerda e fico que nem estátua, fiquei sem reação, sem saber o que fazer, vejo o meu padrasto Charles nos braços da minha mãe sem conseguir respirar e a minha mãe a chorar a abanar una papéis para a direção dele para ele tentar ter algum ar.. nunca a tinha visto assim, eu queria ajudar mas não sabia o que fazer .. sentia-me uma inútil.. olhei para a minha irmã e vi-a falar ao telemóvel, estava a falar com o filho do Charles, o Walter .. não me lembro bem do que se passou naquele momento, sentia que estava parada e que tudo se movia a minha volta apenas sei que levaram o Charles ao hospital mais próximo de casa deixando sozinha em casa com a minha irmã
Passaram-se horas e a minha mãe liga para a minha irmã.. ficaram a falar por um tempo e fico curiosa por saber o que estavam a falar, minutos depois a Mary desliga a chamada
"Prepara-te, a mãe vem nos buscar para irmos ver o Charles"
Não digo nada, simplesmente vou me preparar, na minha cabeça pensava que estava tudo bem, que aquilo não passará de um susto e por isso sentia-me aliviada.
Algum tempo depois já me encontrava preparada, assim como Mary. A minha mãe chega e vamos logo ter com ela
"Ele esta bem, tiveram de o transferir para outro hospital, mas o que importa é que ele está bem" diz a minha mãe
Ouvir isto fez-me sorrir e ficar ansiosa por o ver.. apesar de não ser o meu pai de sangue, ele tratava-me como se fosse filha dele, ele foi o pai que nunca tive, apesar de termos algumas desavenças eu gostava imenso dele, eu e ele éramos muito chegados.. lembro-me de quando ficava enroscada nele no sofá da sala a ver televisão.. fazer palhaçadas quando saíamos, ele sempre foi um bom homem, aparentava ser mau e antipático, ele era, para quem não o transmitia confiança, mas tirando isso ele era uma das melhores pessoas que podia ter na vida, ajudava imenso as pessoas, era protetor, tinha um trabalho digno da qual o tornava bem sucedido financeiramente mas isso não o tornava ambicioso, ele usava o dinheiro que tinha para ajudar quem pudesse. Lembro-me de birras que fazia, de um certo desentendimento que tivemos e arrependo-me de certas atitudes que tive.. se soubesse teria aproveitado o melhor o tempo que tinha.
Já estávamos no hospital, primeiro tivemos de esperar um bocado, só depois na altura em que ele estava a comer é que o conseguimos ver, não podia estar muita gente no quarto, só a minha mãe e a sua filha que por coincidência também se chamava Mary é que estavam lá dentro.. eu estava encostada numa parede do corredor perto do quarto dele, ele estava todo animado, super sorridente e a fazer palhaçadas fazendo me rir que nem uma criança, mandava-me beijos pelo ar e eu retribuía da mesma maneira super feliz por o ver tão bem, mal sabia que era uma despedida..
Ele pega numa pêra e começa a comer e engasga-se.. parecia que a pêra tinha ficado presa o que fez com que todos entrassem em pânico, sai dali a correr para procurar alguém, um médico ou um enfermeiro mas não via ninguém, demorou até encontrar uma enfermeira
"Por favor, preciso que ajude o meu padrasto " peço desesperada
Ela olha para mim com cara de quem não queria saber
"Calma, o doutor já vem aí"
E vai-se embora deixando-me ali sozinha, olho para onde era o quarto do Charles e vejo que ainda não tinham encontrado ninguém que o podia ajudar e volto para a pé deles, sentindo-me uma inútil novamente. Uns minutos passaram até aparecer um médico e o levar na maca para uma sala onde mais ninguém podia entrar, apenas quem trabalhava lá é que podia.
Passaram-se horas e horas, os meus tios vieram, estavam todos com a minha mãe e com a Mary, eu estava num canto não muito afastada delas, estava sozinha a trocar mensagens com a minha suposta curte, estava a contar-lhe tudo o que se estava a passar ele dizia sempre "calma amor, ele vai ficar bem" para me confortar, seria bom se essas palavras tivessem efeito..
Mais umas horas e o médico apareceu, ainda tive um pouco de esperança mas esta se foi quando ouvi a minha mãe e a filha do Charles a chorarem mais ainda, lágrimas vieram-me aos olhos senti-me na obrigação de contar a Kate e fiz, não sei se fiz bem ou não, mas nas estava feito, não podia voltar atrás .. a minha mãe estava fora de si, não se mexia, apenas chorava, tinha perdido o seu grande companheiro.. os filhos do Charles tentaram tirar tudo que pertencia ao meu padrasto da minha mãe, ela teria dado tudo, se não fosse a minha Tia Georgia.. eu continuava um pouco afastada até uma senhoras chegarem ao pé de mim
"Vocês vão ficar bem filha. Toma conta da tua mãe" disse uma
"Toma conta da tua mãe" ouvi tanto isso, tantas vezes de diferentes pessoas, mas eu não sabia como o fazer, não sabia o que tinha de fazer, ela estava sempre acompanhada, penso te-la ouvido chorar umas vezes depois do acontecido ... também ficava no meu canto, sozinha, sentia que não tinha apoio, contei as minhas amigas o que tivera acontecido elas deram-me os pêsames e mandaram-me mensagens de força mas sentia que precisava de alguém para me poder ajudar a levantar sempre que me ia abaixo mas não tinha ninguém, então escondia tudo o que sentia, mantinha tudo para mim e sempre que pudesse sorria, não vou mentir que ainda não o faço, é algo que sinto necessidade de fazer para tentar me sentir melhor, às vezes resulta ..
Dias depois, o dia do funeral tinha chegado.. viemos para Portugal, onde ele tivera nascido.. onde deixamos uma parte de mim. Foi o momento em que tivemos que dizer adeus mas aí não foi uma despedida, pois ele ainda está presente em mim e sempre vai estar. E aqui vai mais uma perda de uma pessoa importante para mim. A perda do meu padrasto, o Charles.