Eu me sentia a pessoa mais sortuda do mundo. Não consigo acreditar no que acabou de acontecer.
Foi incrível. E foi de repente. Eu não precisei fazer nada. Não precisei forçá-la, conversar, nem procurar motivos. Ela tomou a iniciativa.
Fiquei sem reação no início, admito, pois pensei que seria mais uma das vezes em que queria, mas parava no meio do processo. Eu estava até acostumando, e então... Estou pasma.
Ainda consigo ouvir os seus gemidos na mente. Meu Deus, nunca a vi tão exposta, de corpo e alma. Estou abismada. Quero isso mais vezes.
Sentia-me débil. O que fez... A primeira vez já havia sido ótima, mas definitivamente ela se superou nessa. Entretanto, me deixou mais intrigada que antes.
Mia teve aquela súbita mudança de personalidade novamente. Quer dizer, não de personalidade. Vejamos um meio para expressar isso...
Era uma revelação. A revelação de sua parte sexy e densamente apaixonante. É certeza que talvez eu me ajoelhe diante desta novidade.
Ouvi um miado. Segundos depois, Kiara sobe em cima da cama e senta. Os olhos esverdeados pousam em mim, curiosos.
Eu admirava os olhos destes felinos. Devem ter furtado toda a beleza de olhos no mundo só para eles. Malditos.
A gata caminhou, ficando próxima ao meu rosto e, descaradamente, lambeu o meu nariz. Eu ri e ouvi Mia resmungar. Seu rosto jazia repousado em meu peito.
Ela apertou mais os braços ao redor do meu corpo. Não sei imaginar que hora deve ser. Mas, convenhamos: não estou nem aí.
Um celular começou a vibrar em cima do criado mudo ao meu lado. Não era o meu. Ela tinha um celular? Desde quando? Pensei que só usasse telefones públicos ou algum fixo no apartamento. Mas isso me animou!
Lentamente, e neste momento Kiara aproveitou para descer da cama, estiquei o braço e peguei o celular. Tinha a capa prateada e um símbolo redondo com um "M" no meio abaixo da lente da câmera traseira. Era um pouco grande se comparado ao meu iPhone.
Liguei a tela e vi a notificação de uma chamada piscar. O número estava identificado como: "SRA. CORTÊS". Eu arregalei os olhos e fitei Mia que ainda dormia lindamente.
— Delilah, Delilah. — chamei, mexendo seu ombro de leve. — Amor, acorda. Acoooorda.
— O que foi? — murmurou, sem abrir os olhos. Espremeu-se contra mim outra vez. Ó, glória. Eu não queria que saísse dali nunca.
— Minha mãe tá te ligando. — disse e empurrei o celular em sua direção. Ela abriu os olhos com dificuldade e se levantou um pouco para pegá-lo. Seus cabelos estavam muito bagunçados, e o jeito que os olhos permaneciam cerrados a deixava absurdamente sensual. Eu até desviei o olhar. Essa mulher não existe, só pode.
— Diga, Denise. — disse, voltando a deitar, mas deixando o celular encostado à orelha enquanto me puxava para perto de novo. Eu me aconcheguei em seus braços com rapidez. Ela começou a acariciar a minha cabeça. — Hã? Não, eu... O quê? Já é tão tarde? Não, eu nunca... É que o meu despertador... OK. Desculpe. — Ela parou com as caricias e suspirou. — Estarei aí em uma hora. Desculpe, Cortês. Não tive a intenção... Sim, ela está bem... Não, não está aqui... Certo, direi... Qual o problema em dizer "direi"? Você que deveria falar assim, e não pedir para eu parar... Eu não sou metida, Cortês. Não diga besteiras... Agora não posso falar "diga" também? Cortês, sinceramente... — A risada da minha mãe soou para fora do aparelho. Eu quase comecei a rir também. — Desculpe. Até mais.
— O que ela disse? — perguntei ao passo que deslizava as mãos por sua pele nua. Mia pousou o celular em algum lugar da cama.
— Perguntou por que estou atrasada há três horas para o serviço. — respondeu, girando para ficar por cima de mim. Eu ri alto.
— Por que será, né, dona Mia? — comentei, passando as mãos pelas suas costas e subindo até os ombros. Ela tinha uma pele tão gostosa de tocar. Eu não conseguia tirar as mãos dela.
— Dona? Não sou dona de ninguém. — murmurou, descendo o rosto até meu pescoço e o beijando lá. Eu senti arrepios pelo corpo inteiro.
— É dona do meu coração. — sussurrei e a contemplei. Mia me encarou por um momento. Retirou algumas mechas do meu cabelo pelo rosto, o qual com certeza deve estar aquela bagunça total. Depois me beijou.
Os lábios logo pediram passagem para aprofundar, mas tudo com calma. Parecia querer só aproveitar o momento. Eu estava tão satisfeita que, se Mia sair de cima de mim, poderia flutuar de tão leve.
— Vai tra-ba-lhar. — falei pausadamente ao mesmo tempo em que a beijava, mas a empurrei com gentileza para que parasse. Eu não queria que fosse embora, mas sei o quanto é compromissada com a vida, diferente de mim.
— Expulsando-me do meu próprio quarto? Quanta audácia. — murmurou, e levantou meus braços, prensando-os nas laterais da minha cabeça. — Consiga me fazer rir e eu sairei.
Ah, ótimo. Por que isso agora? Missão impossível?
— Não tem medo de ser demitida?
— É o meu primeiro atraso em quase um ano de serviço. Não creio que sua mãe iria tão longe. — respondeu. Eu arregalei os olhos. E não é que ela era compromissada mesmo?
— Você tá muito rebelde ultimamente. — comentei, tentando sair de suas "garras". Maldição. Para completar, eu nunca tive muita força nos braços. — OK. Desisto, pode ficar. Não consigo pensar em algo que te faça rir.
— Seja inteligente. — murmurou, afrouxando o aperto e soltando os meus braços. Logo depois se sentou em cima do meu quadril e ficou me olhando.
Seus cabelos não estavam uma catástrofe igual o meu ao acordar. Seu corpo era definitivamente mais torneado. E, Jesus, não sei, mas devo estar babando.
Fitava-me com certa tranquilidade no olhar amendoado, destacando uma descendência estrangeira, finos nos cantos. Algo mudou, pude perceber.
Havia mais do que tranquilidade naquele olhar. Algo novo e interessante. Só não consegui distinguir o que é ainda.
Fui me sentando lentamente com Mia no colo. Abracei seu quadril e pousei a cabeça em seu tórax. Distraída, deslizei os braços até as laterais de sua barriga e apertei de leve. Mas constatei algo que me fez dar um sorriso ao clássico "estilo coringa".
Aparentemente, ao sentir meu aperto, Mia deu um espasmo junto de um breve suspiro, afastando-se um pouco.
Ela tinha cócegas. Estava na cara!
Sem deixá-la suspeitar, mas mantendo o sorriso travesso no rosto, agarrei sua cintura e iniciei as cócegas loucamente.
— Para, Bethany! Beth, Beth! Não! Para! — implorava Mia, à medida que ria de maneira estridente. Nós tombamos de volta à cama e eu não parei.
Glória! Nunca a vi rir daquele jeito. Que risada mais gostosa. Parecia ter rejuvenescido uns dez anos. Eu não conseguia tirar o sorriso da cara vendo a sua feição desesperada e ao mesmo tempo engraçada ao tentar parar as cócegas.
— Bethany! Por favor! Minha barriga está doendo!
OK, se Mia diz "por favor" é igual Afrodite pedindo para ser sua amante. Você simplesmente não recusa.
Parei as cócegas, mas admito que mais por dó do que qualquer outra coisa. Mia estava ofegante e me direcionava uma carranca seríssima. Daí, quem comecei a rir fui eu.
— Parece que o jogo virou, não é mesmo? — brinquei, tentando conter a risada.
— Estúpida. — murmurou, cobrindo-se com o lençol.
— Eu já vi tudo isso aí muito bem, moça. — provoquei, puxando o lençol de volta.
— Não verá mais que o necessário. — retrucou, puxando o lençol novamente. Eu ri com sua determinação para se "tapar". — Era para ter dito algo que me fizesse rir, não me fazer cócegas.
— Você cria o jogo e não dita as regras? A culpa é sua. — respondi, gargalhando, depois me joguei em cima dela. — Sabe o que seria bom? — murmurei, aproximando-me de seu ouvido. — Tomarmos banho juntas pra compensar.
Ela não respondeu de imediato, mas me fitou pensativa e começou a acariciar o meu rosto. Eu não conseguia tirar o sorriso da cara, puta que pariu.
— Talvez devesse parabenizá-la por tantas boas ideias. — respondeu, sem vergonha alguma.
XXX
À faculdade, estava eu ouvindo Pirouette de Made In Heights. Era uma música romântica que não condizia muito com meus pensamentos vulgares — ou talvez sim? —. Ah, um enorme sorriso estúpido ainda estampava a minha cara, para variar.
Que dia maravilhoso! Admito que meu maxilar doí de tanto sorrir. Fala sério.
Infelizmente a Mia teve que ir trabalhar hoje, mas não antes de nos pegarmos um pouco. Até fez o café da manhã, mesmo com minhas recusas, pois estava muito atrasada. Disse que iria para a faculdade diretamente do trabalho e que me veria lá.
E hoje está muito difícil de buscar alguma concentração, de verdade. Só estou indo à aula porque faltei ontem pela crise de anteontem e, aliás, acabei fazendo Mia perder aula por causa disso. No fim, usufruímos nossos dias com ótimos passeios. Aproveitamos beeem.
Mas meu desejo era permanecer jogada na cama até poder vê-la outra vez. Tocá-la e sentir seu ótimo cheiro de novo. Deus, estou perdida com essa mulher.
Ao chegar à faculdade, já bem movimentada inclusive, me dirigi ao refeitório, onde avistei Matheus e Agnes em uma das mesas, junto de outras três pessoas que nunca vi. Eles me avistaram também, ambos se levantando dos assentos e esperando que eu me aproximasse para então me sufocar em um abraço duplo.
— Já pensei que tinha morrido! — exclamou Agnes, me fazendo gargalhar enquanto dava um beijo carinhoso na minha bochecha.
— Ela? Eu que quase morri, menina! E deixe claro pra Mia que ela é péssima em acalmar as pessoas. — reclamou Matheus, bufando em seguida. Dei-lhe um beijo de consolo na testa.
Era incrível. Nos conhecíamos a tão pouco tempo e já tínhamos essa proximidade. Era meio cômico até.
— Ainda vou perturbar vocês por um bom tempo. Até o fim do curso, de qualquer maneira. — comentei rindo, logo dando um aceno e sorrindo aos rapazes desconhecidos que permaneciam excluídos na mesa. Eles nos observavam, ou, melhor dizendo, me observavam. E não eram nem um pouco sutis, inclusive. Estou me sentindo meio violada, mesmo a um metro de distância.
Bem, devo ressaltar que o trio era lindo de morrer, pois fatos são fatos. Tinham cabelos curtos e escuros como um padrão entre eles (estranho, mas OK). E um deles tinha um olhar que... Uau. Quanta genética boa em um lugar só. Mas conheço alguém melhor.
O quão perplexos ficariam ao saber que namoro uma mulher?
Mas Mia e eu concordamos em manter tudo por baixo dos panos por enquanto. Ao menos até que eu tome vergonha na cara e conte à minha família.
Disse que só me apoiaria, visando que não podia opinar, pois infelizmente não precisava passar por algo do tipo, então não podia se colocar no meu lugar. Sim, ela disse isso mesmo: "infelizmente". E concordei, era um bom termo para a realidade.
E era mais fácil lidar com esses problemas do que passar pelo o que Mia passou.
Para ser sincera, sentia-me um pouco perplexa. Queria que as pessoas soubessem que a tenho. Soubessem o quanto é linda, inteligente e ótima na cama... Não, na verdade não quero que saibam que ela é ótima na cama. Essa frase foi precipitada.
— Meninos, essa é a Beth. — apresentou Agnes. — Esse é Chasher, Fernando e Zero. São do TI¹.
Quê? Bonitos e nerds? Agora sim, estou realmente perplexa.
— E aí, meninos. — cumprimentei, um pouco acanhada.
— E aí! — disseram em coro e deram sorrisos agradáveis.
— Você tá bem mesmo? Quer dizer, não parece mal, muito pelo contrário. Mas vai saber, né. — comentou Agnes, me olhando preocupada. Eu sorri com carinho antes de responder.
— Estou, fofa. Só abusei muito do álcool e acabei me ferrando...
— Sorte a sua que a Mia não pensou duas vezes em te levar daqui. Aliás, se tava mal, por que não ficou em casa? Criatura, tu quase desmaiou na frente da faculdade. — reclamava ela.
— Uau. Você parece um clone da minha mãe. — murmurei sem querer. Os garotos riram e eu não contive um sorriso descarado. — Eu sei que fiz merda. Mas não imaginei que acabaria desse jeito.
— Tome cuidado da próxima, sua louca. — murmurou, bufando.
OK. Eu estaria mentindo se esta cena não tivesse sido completamente estranha para mim ao partir de Agnes. Ela era sempre toda "foda-se o mundo, blé". Realmente estou surpresa que tenha se preocupado tanto.
Enfim, dei de ombros e abri o celular, fuçando nos aplicativos aleatoriamente. Agnes e Matheus conversavam com os garotos, mas não quis me inserir na conversa.
Fiquei olhando ao redor distraída, tentando captar um rastro de Mia. Faltavam dez minutos para a próxima aula.
Em um estalo mental, lembrei que tenho o número do celular dela. A ideia de que tem um ainda não fixou na minha cabeça, sério.
Com aquela agilidade nos dedos de sempre, acessei a aba de contatos. Estava salvo como "Deusa Delilah". Sim, sou bem retardada quando nomeio meus contatos. Enviei uma mensagem:
Onde vc tá?
Não sei se vai responder a tempo ou se ao menos sabe enviar alguma mensagem, mas não custa tentar.
Faltavam cinco minutos. Eu já estava colocando minha bolsa nos ombros quando senti o aparelho vibrar. Visualizei a tela e constatei uma resposta. Ufa, ela está deixando de ser leiga.
Vejo você perto de seus amigos.
Posso te encontrar em qualquer lugar.
Será que consegue o mesmo?
Mia tinha a escrita impecável até pelo celular. Típico.
Olhei ao redor novamente, agora com mais atenção para tentar achá-la. Não encontrei.
Vem aq. N to te achando.
Não vai ser tão fácil assim, Bethany.
Bufei, frustrada. Levantei da cadeira e disse para meus amigos que iria antes. Agnes e Matheus só assentiram, sem dar muita atenção, continuando a conversar com os garotos. Caramba, se conheciam há quanto tempo para bater tanto papo?
OK, estou com ciúmes de meus amigos e com raiva de Mia que fica fazendo joguinhos e não quer aparecer. Tudo bem, vai ter volta.
Saí do refeitório ao corredor e fui em direção à rampa para subir ao próximo andar. Estava pouco movimentado porque o povo só vai à aula no último minuto, não tem jeito.
— Acho que você precisa usar óculos. — ouvi alguém dizer, mas a voz já me denunciou quem era.
Virei-me rapidamente e pude visualizar a deusa. Digo, a Mia, vestida num jeans coladíssimo, blusa social branca com botões abertos que revelavam um ótimo decote e calçando saltos de cor vermelho sangue.
Para piorar, ou melhorar — não sei bem qual termo utilizar no momento —, ainda havia aquele suspensório apertando mais que tudo e os óculos de grau no rosto. Seu cabelo estava ondulado, e em seus lábios impregnava um batom da mesma cor que o salto. Além disso tudo, seus olhos estavam muito bem destacados de rímel e profundamente sensuais.
Ah, é claro que eu a encontraria (entende-se essa frase como ironia). Isso não é a Mia que conheço nem na China, queridos.
Agora, se estou conseguindo lidar?
Ela está muito gostosa. MEU DEUS. Simplesmente linda de morrer. Estou me controlando seriamente para não a agarrar e borrar todo o seu batom pela minha boca ali mesmo. Misericórdia. Dai-me forças, senhor.
— É normalmente assim que me visto para as sessões da empresa. — explicou, aproximando-se com passos cruzados como uma modelo no modo mais literal possível. O corredor pareceu se dissipar da minha visão. Eu só conseguia vê-la. — Você queria me ver assim, não queria?
— Sim... — respondi da maneira mais tosca possível. Minha saliva quase não se mantinha na boca. — Eu nem sei o que dizer. Você tá muito linda, Delilah. E... não que não seja, na verdade, com certeza é, mas-
— Beth. — chamou, pousando uma mão em meu ombro direito, sem querer deixando o decote mais visível no ato. Inclusive, por causa do salto, estava alguns centímetros mais alta que eu. Alguém me socorre, pelo amor do Altíssimo. — Estamos em público.
— Desculpa. — murmurei, forçando-me a tirar os olhos do decote e fitar seu rosto.
— Você também é linda, muito mais do que imagina. Eu gostaria muito de transar contigo no meio deste corredor, mas ainda possuo controle sobre meus desejos. — admitiu de maneira tranquila. Eu a fitei de boca aberta e engoli em seco. Ela não havia acabado de chamar a minha atenção sobre flertar em público? — Nos vemos depois, Callie. — disse, aproximando-se e me dando um beijo na bochecha, este nem demorado e rápido, mas que me enviou arrepios pelo corpo. Observei ao passo que se distanciava e só depois constatei o corredor ficando lotado. Muitas pessoas pareciam me olhar com uma enorme interrogação na cabeça, sendo fato que me viram interagir com aquele mulherão.
Eu sou uma puta sortuda, admito.
Mas, afinal de contas, por que "Callie"? Será que entendi direito?
— Ué, Beth. Pensei que já tava na sala. — Matheus questionou ao se aproximar, sozinho — o que estranhei. Ele e Agnes eram quase inseparáveis.
— Eu tava indo já... — murmurei com a cabeça ainda nas nuvens. Ele ficou de frente para mim e me encarou então. Eu franzi o rosto. — Que foi?
— Se tá com muita cara de retardada, sério. — comentou ele, rindo e começando a me arrastar pelo braço. — Vamos, tenho uns babados pra contar.
XXX
— Travaremos uma batalha justa.
— Até parece. Eu travo uma toda hora e sempre tô em desvantagem. A cada dez pessoas que passam perto, vinte querem te pegar. — respondi, bufando e ficando meio envergonhada também.
Lembra que Matheus queria me contar uns babados? Pois então...
Aparentemente, Agnes exalou certas mudanças. Digamos que, especialmente, em relação à sua preferência sexual. Sim, adivinhe.
Quem ela parece estar afim? Eu.
Matheus disse que pareceu ficar estranha após ver eu e Mia nos beijarmos daquela vez, e que nestes últimos dias que me ausentei, não parou de falar de mim, o quanto estava preocupada e outras coisas relacionadas ao meu ser.
Não negarei que Agnes é linda. Mas eu amo a Mia. Conheço ela há algum tempo. Agnes está em uma extrema desvantagem aqui, sem contar que não cultivo interesse algum sobre ela...
Mas também não quero machucá-la. Era a minha amiga. Visando isso, pedi ao Matheus para tentar, disfarçadamente, tirar essa ideia de sua cabeça, mencionando o fato de eu ser comprometida e que há muitas outras garotas que apreciariam a sua recente "autodescoberta".
— Eles querem. Eu não. Estou entregue à um certo ser de olhos verdes. — murmurou. Estávamos sentadas em uma pequena mesa do pátio da faculdade, uma de frente para a outra. Não seria seguro se sentássemos muito próximas, mas, mesmo assim, era automático se inclinar para cortar um pouco a distância.
— Flertando comigo outra vez, Delilah? — murmurei, sorrindo. Ah, lembrei do que havia dito antes e eu não entendi. — Ei, o que significa "Callie"?
— Já ouviu falar sobre a "Calla Lily"? — perguntou. Depois, tirou os óculos do rosto. O nó de seu nariz estava marcado pelas borrachinhas, o que achei um charme. Tive uma vontade súbita de levantar e beijar ali, mas a repreendi.
Aliás, seus olhos estavam mais baixos que o normal e, de perto como eu estava, dava para checar que usaram um pouco mais de base para clarear a área abaixo deles. Mia não deve ter dormido o suficiente, incluindo que bebeu na noite passada, então a ressaca deve ter piorado.
Acabei percebendo que a prefiro sem toda aquela produção. Eu gosto da minha simples Mia, esta que usa calça amarrotada e camisa larga, que prende o cabelo logo que tem a oportunidade, pois não suporta deixá-lo solto por muito tempo. Ela apenas fica linda de qualquer jeito. E mais linda ainda sendo o que se sente confortável para ser.
— Não sei o que é, flor.
— É o que acabou de me chamar.
— Flor? — questionei, franzindo o cenho.
— Sim. Callie é o apelido que eu usava ao me referir a esta flor quando criança. — comentou ela, desviando o olhar.
— Então decidiu me chamar assim também? — Eu sorri com carinho. Ah, Delilah. Você é apaixonante.
— Sim. É a minha flor preferida. — murmurou, dando um pequeno sorriso, sem mostrar os dentes. O universo decidiu me destruir hoje, só pode.
— Você gostava muito de flores quando mais nova? — perguntei, curiosa. Não era nada habitual Mia falar sobre sua infância.
— Sim. E continuo gostando. — respondeu, esfregando os olhos. Mia realmente parecia estar com muito sono. Mas eu gargalhei alto com o que vi. — O que foi? — Ela olhou para mim como se eu tivesse alguma demência, tanto que me senti nostálgica de repente.
— Sua maquiagem... — murmurei. Ele borrou totalmente ao esfregar os olhos.
— Sempre esqueço que estou usando essa coisa. — reclamou e eu ri mais ainda. Agora tapou o rosto com ambas as mãos. — Está muito ruim?
— Não parece um panda, mas é melhor ajeitar. — falei, levantando da cadeira e pondo a minha bolsa no ombro. — Vem, vamos ao banheiro. Eu tiro pra você e retoco.
Ela assentiu em concordância, levantando-se também, mas com a cabeça baixa para disfarçar a arte que fez no rosto. Eu comprimia os lábios para não cair na gargalhada de novo ao entrávamos no banheiro feminino próximo dali.
Era horário de aula ainda — sim, mesmo faltando dois dias seguidos, cabulamos — então o banheiro estava sereno. Normalmente só é cheio no começo das aulas, fim das aulas, início e fim de intervalo. E o pior horário era o fim das aulas. Principalmente nas sextas feiras, pois era quando as mocitas se produziam para se tornar modelos de grife e ir à baladinha. Mas, admito, algumas pareciam ir da balada direto à aula. Inclusive, nada contra. Eu aprecio a coragem para se produzir tão cedo.
Nos aproximamos das pias. Aproveitei para me ajeitar um pouco, arrumando a gola da camiseta xadrez branca e lilás que vestia e arregacei as mangas. Nos pés, tinha um par de sapatênis claros sem nenhum adereço, e não precisava me preocupar com cadarços desamarrados, já que sequer havia cadarço. Por fim, uma calça preta de tecido semelhante ao jeans terminava o meu visual.
Arrumei o cabelo que, felizmente, não estava uma calamidade como hoje cedo. E, é claro, acabei lembrando sobre o que houve hoje cedo.
Olhei para Mia pelo espelho. Ela também me fitava por ele. Sorri com isso, mas me senti um pouco sem graça.
Pousei a bolsa em cima da pia e retirei o meu companheiro eterno: o estojo de maquiagem. Peguei um frasco de demaquilante e uma caixinha com algodão, os colocando na pia para então fechar a bolsa. Tirei um pedaço de algodão da caixinha e abri o frasco, despejando um pouco de seu líquido gomoso no algodão.
Ouvia-se barulho de descargas, portas se abrindo e alguns burburinhos de conversa. O lugar não estava cheio, mas não quer dizer que estava vazio.
— Feche os olhos e não abra até eu pedir, OK? — instrui ao me virar para ela. Mia assentiu e assim fez.
Segurei gentilmente um lado de seu rosto com uma mão, e com a outra pressionei o algodão nos cílios. Tentei não pressionar demais para não a incomodar, mas não dava, senão o produto não saia. Fui trocando os algodões e passando até que não houvesse mais resíduos.
— Pronto. Lave o rosto. Vai querer que eu retoque? — questionei, jogando os algodões sujos no lixo.
— Não, obrigada. — disse, abaixando a cabeça até um pouco próxima da torneira. Seu cabelo pendia para baixo, então o puxei para trás, senão o molharia.
Seu cabelo era tão bom e macio. Admito que fiquei indignada com o que disse sobre não gostar dele mais cedo.
Quando Mia terminou, puxei alguns papeis toalha do suporte e dei a ela. Logo enxugou o rosto, sem pressa.
O banheiro estava estranhamente silencioso. Eu olhei ao redor como uma distração, porém, Mia captou minha atenção outra vez, indicando para olhar o papel que eu havia lhe dado. Franzi o cenho, não entendendo, até visualizar o leve borrão vermelho nele.
— Ah, o seu batom. É melhor tirar. Tá meio-
Não sei. Num momento, eu tinha os pés no chão. No outro, fui levantada com violência e posta na pia. Mia se aconchegou no meio das minhas pernas e me puxou para um beijo extraordinário de estremecer.
Pressionava nossos corpos com fúria, fazendo-me suspirar entre seus lábios. Uma de suas mãos embaraçava o meu cabelo e a outra explorava as minhas costas, cintura e coxas. Perdi totalmente a noção de onde estávamos.
Pousei as mãos nas laterais de seu rosto e tomei o comando do beijo. Desci com as palmas até o pescoço, depois para a clavícula. Invadi, passando as mãos por dentro da camisa meio aberta por conta dos botões e deslizei pela pele viciante, descendo até os seios. Apertei um deles com um desejo quase desconhecido para mim e enlouqueci quando a mão de Mia parou em cima da minha, pressionando-a com mais força.
Até que ouvi o barulho de uma descarga.
Nos separamos tão rápido quanto nos juntamos. A porta de uma das cabines se abriu.
— É, realmente, nem sei como te ajudar nisso... — murmurei, cínica, fingindo conversar trivialidades. Mia ficava intermediando o olhar de mim à moça que saiu da cabine e qualquer outro ponto aleatório. Eu me controlei para não gargalhar.
Finalmente a criatura saiu do banheiro e eu suspirei aliviada, rindo baixo.
— Por que fez isso? — questionei. Mia estava repentina com certas atitudes. Na verdade, meio contraditória.
Mia deu de ombros e se aproximou novamente, a milímetros de meu rosto. Seus olhos me hipnotizavam. Pareciam mais atraentes sem a maquiagem, por ironia do destino.
— Eu só queria que tirasse o meu batom. — explicou, dando-me um selinho e se afastando. Eu ri outra vez e meneei a cabeça. Mia estendeu a mão para me ajudar a descer da pia. Minhas pernas estavam até meio bambas, cara.
— Obrigada.
— Disponha. — murmurou. Eu a olhei da forma mais maliciosa possível ao ouvir isso. Já ela, sorriu daquele seu jeitinho novo. Discreto, pequeno, leve e lindo.
O horário de aula ainda era vigente e, de qualquer forma, as minhas coisas ainda estavam na sala, eu teria que voltar. Despedi de Mia com um beijo na bochecha e "fugi" para evitar uma próxima rodada obscena.
Não sei se estávamos disfarçando bem. Eu mesma era muito indiscreta, pois não parava de contemplá-la. Mia já era melhor neste quesito. Discrição sempre foi seu forte, afinal de contas. Em compensação, seus toques tinham grande amplitude.
Não aguentarei isso por muito tempo, sei bem. Tenho que conversar com a minha mãe primeiro e depois com meus irmãos. Meu Deus, vai ser tão estranho. Vou ficar igual um pimentão ao disser.
O resto da aula estava sendo cruelmente entediante. Agnes estava muito quieta e Matheus, de maneira genuína, se concentrava em ler o livro recomendado para responder umas questões que o professor havia passado. Eu não estava a fim de fazer nada, mas me forcei a abrir o livro também.
Neste instante, meu celular começou a vibrar. Imaginei que fosse minha mãe. Entretanto, não acreditei ao visualizar o identificador de chamada.
"Pai".
Notas finais da autora:
¹TI: Sigla popular para mencionar o curso de Tecnologia da Informação.