A sala cheia ia se acalmando aos poucos conforme o tempo passava e o professor não chegava. Uma sala de aula pode ser um inferno de vez em quando, mas o silêncio total também era desconfortável para mim. Minha cabeça tem muitos pensamentos por si só, e quando em silêncio tudo se torna uma bagunça autentica fazendo com que eu pense nas coisas mais impossíveis ou mais estranhas que consigo. Eu tinha um pensamento impossível preferido, e ele tinha acabado de passar por aquela porta com um sorriso contagiante para cumprimentar as pessoas que a olharam. Andava mais devagar que o normal e parecia ter a mente em outro lugar, e então conclui que ela tinha tido uma má manhã, talvez por ter chegado atrasada. Sentou-se ao meu lado como fazia em todas as manhãs, e sorriu para mim.
-Bom dia, Isaac.
Eu sorri de volta, mas não disse nada. Eu não costumava dizer. Era inebriante ficar perto dela e eu adorava aquilo. Não queria dizer algo, preferia ficar ali quietinho a aproveitar sua presença serena. O que era indiretamente irônico, já que Alana podia ser muita coisa, mas não seria serena nunca. Era especialmente baixinha quando comparada a mim, e embora já fosse muito branquinha, notava-se ainda mais sua palidez quando estava com os cabelos castanhos soltos. Tinha olhos castanhos também, mas não haviam olhos claros que se comparassem a eles. Eram de uma profundidade que nenhum mar se comparava. Tinha um cheiro doce que se misturava com o cheiro do cigarro que ela fumava antes de entrar na escola, mas quase não se sentia nenhum desses dois por serem muito leves. Talvez fosse estranho eu admirar tanto nela sem conhecer quem ela era por dentro. Mas existem pessoas que te passam tanta segurança, um aconchego que não sabemos explicar de onde veio, e ela era uma dessas pessoas com toda certeza.
-O Charles não vem hoje?
-Não acho que venha... Está atrasado quase 15 minutos, mas ninguém veio dizer nada até agora.
Expliquei tentando parecer firme, mas minha voz saiu um pouco baixa. Tanto por eu ter medo de falar besteira, quanto pela posição que eu estava. Costumava me sentar na parede para poder me apoiar nela e tirar pequenas sonecas durante aula. Apesar de ultimamente não ter dormido muito nas aulas continuo com o mesmo sono de sempre, fazendo minha voz ficar um pouco rouca. Ela assentiu e se abaixou para mexer na sua mochila.
Charles era o nosso professor de literatura, e por mais que nunca tenha perguntado, parecia ser a matéria preferida de Alana. Era um senhor alto, gordinho e muito simpático. Na primeira vez que eu fiz o último ano do secundário ele não me deu muita atenção, mas agora que estou a repetir ele parece ser cada vez mais atencioso. Não sei se por ser repetente ou por estar ao lado da aluna mais esforçada da sala, mas ele parece ter um carinho especial por essa dupla. Reprovei no ano passado por conta de Física e de Geometria. Nunca tive uma dificuldade especial com as letras, mas esse ano eu estava a me sair um pouco pior que o normal. Talvez por isso aquela atenção do professor Charles? Independente disso, os testes do segundo período seriam em breve, e eu não estava nem próximo de pensar em estudar. Eu nunca estudava, preferia confiar nas minhas habilidades e nas informações que absorvi ao longo das aulas.
Eu não sairia da sala, já que dentro de uma hora eu teria que voltar, então eu simplesmente peguei um caderno e comecei a desenhar o que quer que me viesse na cabeça. O dia de aula não acabaria até o fim da tarde e ainda estávamos na primeira aula da manhã. A sala conforme as aulas passavam só ficava cada vez mais monótona e enjoativa. As pessoas cada vez falando mais alto e aquilo já parecia uma feira ao invés de uma aula. Na hora do almoço me sentei sozinho em uma mesa do refeitório, evitando assim gastar tempo para achar um restaurante e o tempo de voltar para a escola. Quase no final do almoço, sinto mãos a taparem meus olhos e me assusto por alguns minutos, mas depois sinto os anéis e o cheiro do perfume característico que ele tinha e começo a rir de mim mesmo por ter me assustado.
-Com saudades, Zac?
-Não sabia mais como viver se você não aparecesse, Antonella. - Falei rindo da careta que ele fez pela minha ironia explicita.
-Me chame assim mais uma vez e você não vai aparecer aqui na escola por uma semana como eu – Ri por lembrar que ele adora sair pela escola achando brigas e depois aparecer na diretoria com a cara roxa e se fazendo de santo. Perdi a conta das vezes que o diretor me chamou para falar para colocar juízo na cabeça dele, mas não preciso comentar que eu nunca consegui.
-Não acho que você poderia fazer isso, primeiro porque sua suspensão só acaba amanhã, e segundo porque seu nome é esse não é? Antonella? Hm?
Ele me olhou emburrado como quem queria discutir através do olhar e eu comecei a rir, e quando eu olhei para ele já tinha se livrado da carranca e escondia um pequeno sorriso. Ele não gostava de sorrir em público, o que era uma pena já que ele tinha um sorriso invejável.
-Desculpe, Nella.
-Tá bem, mas eu ainda acho que minha mãe estava esperando uma menina ou então estava muito bêbada quando escolheu meu nome.
-Eu gosto do seu nome, combina com você. Mas independente dos seus traumas com seu nome, o que você está fazendo aqui? Você sabe que não pode entrar na escola quando está em suspensão, né?
Recebi um olhar de desaprovação do gênero "Isaac, não tem ninguém melhor do que eu para saber como funcionam as suspensões"
-Oh, desculpe. É claro que você sabe que não pode – Revirei os olhos exageradamente e voltei a falar calmamente – Mas me diz o que você veio fazer aqui logo, a minha próxima aula está quase começando e você sabe que eu sou curioso.
-Não vim fazer nada demais, só estava no Starbucks aqui da rua e percebi que estava na hora do almoço e entrei para ver alguns... -O sinal tocou e foi a vez dele revirar os olhos -...amigos. Como eu te vi aqui sozinho resolvi te irritar um pouco.
Comecei a me levantar e olhei para ele me encarando como quem pedisse "Por favorzinho, não vai na aula e me faz companhia"
-É claro que vieste me irritar, é só isso que sabes fazer - Falei rindo enquanto passava por ele e ele se jogava em cima da mesa que ainda tinha a minha bandeja vazia. Ri do seu desespero de já não ter mais nada para fazer agora depois de tantos dias de suspensão. Quando estava quase no fim do refeitório ouvi ele gritar como se estivesse fazendo uma intimação para o ar, mas eu sabia perfeitamente que o intimado era eu.
-As quatro e meia venho te buscar, e nem penses em fugir! Eu sei onde você mora!
Fui para a aula rindo e tentava me lembrar de onde tinha começado a única amizade que eu tinha. Eu e ele não nos falamos muito, só assim, de vez em quando, quando calha. Apesar disso sei que eu posso contar com ele da mesma forma que ele pode contar comigo. Eu não tenho muito em que ajudar ele, mas ele já me livrou de muitas brigas. Não porque ele se meteu no meio de uma briga minha, mas ele nunca deixou que alguém começasse se quer uma. Acho que ele preferia ter a glória das brigas escolares todinha para ele, e eu só tinha a agradecer.
Apesar de ele ser um rapaz muito bonito eu nunca o vi com uma moça. Eu pessoalmente acredito que ele tem uma namorada a muito tempo e só não anda por ai a comentar. Me lembro de que quando conversei com ele nas primeiras vezes vieram alguns meninas me perguntares coisas sobre ele, que eu nunca respondia ou me esquivava da pergunta.
A aula de tarde era aula de laboratório, em duplas. Era uma das aulas mais constrangedoras que eu tinha por ter que ficar discutindo pequenas coisas com a Alana. Apesar de tudo também era uma das mais divertidas, já que não era tão maçante quanto as aulas teóricas. Quando a aula acabou apenas elogiei Alana pelo seu bom trabalho e me despachei para a saída, enquanto limpava os meus óculos que estavam tão sujos que eu quase não via. Já na porta da escola parei esperando que o Nella aparecesse, enquanto meu moletom servia de paninho para as lentes. Quando coloquei os óculos vi ele lá, de braços abertos olhando para onde eu estava. Eu ia rir, até perceber que não era para mim. Vi uma menina correr até ele e pular no seu colo e eu fiquei lá, olhando aquilo como se eu tivesse visto um milagre. Comecei a andar devagarzinho até ele e ouvi eles conversando um pouquinho até perceber que era Alana que tinha se jogado nele. E eu não queria ver a minha expressão naquele momento, porque eu tenho certeza que não era das melhores. Quando cheguei até eles dei um sorrisinho, e então sem mais nem menos Nella me põe no ombro e começa a falar para Alana que ela era uma gorda e que não queria pegar ela no colo e queria pegar a mim. E eu só estava lá, sem entender nada. Tudo o que eu pensava era "que?". Até que finalmente alguém começou a explicar alguma coisa.
-Isaac, este é o Tony, um amigo meu, não deixe que ele te assuste por favor!
Tony, hun? Tá bem, já que ele tá a jogar isso, eu vou jogar também. Olho para o Tony (Aka Nella) e sorrio.
-Prazer Tony, eu sou o Isaac.
-Prazer. Vejo que você já conhece a Alana.
-Somos dupla de aula. - Falo cruzando os braços esperando que ele fale algo que me explique o que diabos estava acontecendo ali.
-Que tal irmos os três tomarmos um café ou algo assim?
Eu ia falar que tinha compromissos (mesmo não tendo, eu não ia me meter naquilo) quando a Alana segurou no meu braço fazendo uma carinha pidona e provavelmente o mais próximo que eu já estive dela em toda a minha vida. E simplesmente eu não tinha condições de dar nenhuma resposta, então só anuí com a cabeça olhando para ela que abriu um sorriso, e quando olhei para o Nella ele estava a revirar os olhos. Sério. Tão conveniente ele ter aprendido comigo a revirar os olhos por tudo.