FIZ UMA MAQUIAGEM esfumaçada nos olhos e apliquei um gloss labial sem cor, deixando a boca brilhante. O cabelo escuro caia como uma cascata por minhas costas
Tirei o roupão ficando somente de lingerie e peguei meu vestido da caixa, louca para prová-lo. Senti a saia de tule roçar em minha pela enquanto o vestido escorregava por meu corpo, vendo que ainda precisaria de ajuda para fechá-lo.
Segurando a parte de cima para evitar que ele caísse, abri a porta e chamei por Edward, que apareceu quase imediatamente.
— Pode fechar para mim? – perguntei.
Ele assentiu em silêncio, e fechou sem delongas.
— Está pronta?
— Falta o sapato e um brinco.
Edward sorriu e disse que me esperaria lá embaixo enquanto eu terminava.
Terminando de dar os últimos retoques, pude o ouvir mexendo nas armas e ensaiando alguns golpes, até que um barulho alto me fez enfiar os pés do salto e quase rolar escada abaixo.
Chegando à sala, vi que Edward estava com o fio da luminária enrolado na perna, com o rosto vermelho de vergonha.
— Mal chegou à minha casa e já está destruindo tudo? – tentei ralhar com ele, mas sua expressão de vergonha me impediu e eu sorri.
Ele se desvencilhou do fio e ajeitou a luminária do jeito que ela estava antes dele lhe aplicar algum golpe retardado.
— Desculpe.
— Dez. – contei.
— Como?
— Você disse "desculpe" pelo menos dez vezes. – sussurrei dando-lhe um tapinha nos ombros, terminando de colocar o brinco, pegando a pequena arma, ajeitando-a nos meios do peito, fazendo-a sumir.
À minha frente, um Edward surpreso encarava-me.
— Mas que droga...?
Ri levemente.
— Ficaria surpreso com a quantidade de coisas que podemos colocar aqui. – disse dando de ombros, ajeitando a parte de cima do vestido, escondendo o máximo a arma.
— Tipo o que?
Gargalhei alto como nunca havia feito com ninguém.
— Acha mesmo que vou contar todos os nossos segredos? Vai sonhando.
Edward revirou os olhos e me esticou o braço.
— E nossas máscaras? – perguntei eufórica.
Essa era a parte fundamental e por algum motivo – talvez o fato de todos estarem quase morrendo de nervosismo por conta das "duas horas" – havíamos esquecido. Vi ao meu lado Edward bater com a mão na testa. Ele sacou o telefone do bolso e digitou algo rápido, me impedindo de ver.
— Fitch vai nos arrumar alguma coisa, não se preocupe. – ele murmurou depois de alguns segundos.
Assenti e rumamos com destino ao carro não largando do braço de Edward, que ainda digitava algo no bolso.
— Está com o "convite", não? – ele perguntou sem olhar para mim.
— Sim.
— Ótimo.
Dei uma olhada no horário e quase pirei.
— Estamos atrasados! – exclamei.
— Como se isso fosse manchar sua reputação perfeita sem atrasos. – Edward caçoou de minha má conduta.
Dei-lhe um soco de leve no braço.
— Pare de brincadeira, ou cancelo sua estadia na minha casa!
Ele riu mais um pouco, levantando as mãos como se estivesse com medo. Definitivamente zoando com a minha cara, mais uma vez.
Rolei os olhos nas órbitas e o ignorei, entrando em meu carro, seguindo em uma velocidade razoavelmente rápida para a empresa. Quando vi o velocímetro alcançar a beira dos 90km/h, Edward se agarrou no cinto como para se proteger.
— Ah, qual é, eu nem dirijo tão mal assim.
Ele me fitou, seus olhos meramente arregalados.
— E a palavra-chave é "tão".
Ignorei seu comentário sem fundamento e não percebi quando meu carro ultrapassou o farol vermelho, quase indo de encontro com a lateral de um ônibus. Um grito bem feminino escapou da garganta de Edward enquanto ele pegava o volante e virava para a esquerda, desviando do carro por questão de milímetros.
Parei no acostamento quando os gritos de Edward começaram a virar xingamentos, e ele abriu a porta do carro me mandando sair.
— O carro é meu! – tentei argumentar.
— Sim! E foi por sua culpa que quase morremos!
Tentei manter a feição de uma pessoa que não desistiria facilmente de uma coisa, mas então a lembrança dele gritando como uma garota fez com que eu me debruçasse na porta para rir.
— Está rindo do que, sua tonta? – ele perguntou visivelmente irado.
Apontei para ele diversas vezes antes de conseguir falar alguma coisa. As palavras pareciam sufocadas por um riso inacabável.
— Você grita como uma mulher!
Ele bufou entrando do lado do motorista, e fechou a porta na minha cara, ligando o carro.
— Vai me deixar aqui mesmo? – engasguei, furiosa.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a porta do passageiro se abriu, e eu fiz o contorno do carro, chocada demais para ter qualquer atitude.
— Estava pensando seriamente nessa possibilidade.
Coloquei as mãos no peito tentando parecer dramática, entrando no carro.
— Você me magoa com essas palavras, parceiro. – ironizei.
Edward fingiu não me ouvir, e dirigiu para longe do acostamento, deixando para trás um motorista de ônibus irado, que nos xingava de todos os nomes possíveis, tentando sair do automóvel para nos perseguir.
— Eu vou matar você. – sussurrei baixo, tentando fazer com que ele não ouvisse.
Foi em vão.
— Se continuar dirigindo desse jeito, pode ter certeza de que irá. – Edward rebateu.
— Você é ridículo, sabia? – exclamei.
Ele sorriu de canto, sem mostrar os dentes.
— Diz isso só porque sei dirigir bem melhor que você.
Mostrei-lhe o dedo do meio, não me sentindo bem o suficiente para continuar a brigar. Não, Edward era o oposto de ridículo. Ele era bonito, educado – na maioria do tempo que tínhamos passado juntos, pelo menos – e sabia como manter a conversa fluir.
Pude sentir que ainda iriamos nos meter em muitas coisas juntos, por isso era o melhor ficarmos unidos.
— Desculpe. – murmurei.
Ele pareceu sair de um transe, levantando uma sobrancelha, como se não tivesse ouvido direito.
— Como?
Um dejá-vu me percorreu e foi minha vez de sorrir de leve.
— Desculpe por ter quase matado nós dois.
Edward ergueu uma das sobrancelhas, esperando por mais alguma coisa.
— E...
— E por ter caçoado da sua risada extremamente feminina. – disse agora rindo mais abertamente.
Ele tirou uma das mãos do volante e começou a me fazer cócegas. Eu ria tentando me desvencilhar de sua mão, e me escorava na porta do carro.
— Preste atenção na rua! – gritei vendo que outro motorista malcriado nos mandava o dedo do meio, tentando fazer uma ultrapassagem mal sucedida.
Edward quase engasgou com a própria risada, e me deixou perguntando quem era realmente o perigo das ruas: eu ou ele?
Chegamos à empresa rapidamente, e Jake já nos esperava, com uma expressão nada amigável.
— O que foi? – Edward perguntou à Jake.
— Vocês estão atrasados.
Aproximei-me dos dois, temerosa.
— Quase sofremos um acidente por causa dela. – Edward apontou para mim.
Jake riu.
— Típico. Enfim, as instruções são as seguintes: nada de bebida alcoólica, e eu falo sério, suas identidades serão mantidas em segredo pela máscara, e não devem tirar a arma para atacar nenhum dos Finnik quando tiverem humanos por perto. O que consiste em basicamente todo o baile.
— Só isso?
— Ah, Holt, fique de olho em Helena. – ele disse com o olhar um pouco distante.
Bufei.
— Ok, babá, onde estão nossas máscaras?
Ouvi passos e Fitch apareceu em nosso campo de visão, usando uma roupa simples.
— Não vai ao baile? – perguntei curiosa.
— Não. Tenho que me preparar para partir.
Meu estômago pareceu se revirar dentro de mim.
— Ah... – isso foi tudo o que saiu de minha boca.
Depois de alguns segundos de silêncio constrangedor, Edward pigarrou chamando minha atenção e a de Fitch.
— Então... Onde estão as máscaras? – ele perguntou.
Fitch tirou duas máscaras simples de trás do corpo e nos entregou, dando um abraço no amigo, sussurrando algo para ele, e então se aproximou de mim.
Pegando-me nos braços e inspirando o cheiro de meus cabelos, ele implorou:
— Não faça nenhuma besteira hoje, por favor. Não quero ir embora preocupado com a sua segurança.
Esfreguei os polegares em suas costas, tentando acalmar tanto ele e quanto à mim ao mesmo tempo, numa promessa de que hoje – pelo menos hoje – eu não faria nada idiota.
— Prometo.