A realidade é meramente uma ilusão, ainda que bastante persistente.
Albert Einstein
Corretor ortográfico ewertonalves93
- Vamos nessa!
Cariel montou em seu corcel negro, esporeando tão forte ao ponto de sangue respingar sobre a relva sedosa, enquanto ele olhava fixamente as frágeis muralhas que faziam frente ao seu poder. Lado a lado eles avançaram contra a cidade, e a cada segundo que passava o medo dos guardas em frente aos muros aumentava, vendo aquela nuvem negra que trazia o caos enquanto ocultava o Sol por completo, como se fosse um eclipse repentino. Os moradores corriam para onde podiam, pois o medo havia se materializado.
- Não temam! Preparem-se! Vamos queimá-los antes que eles possam ver o branco dos nossos olhos! – gritava Alfredo, velho protetor da muralha. – Vamos!
Em uma só voz, os mais de oitocentos guerreiros conjuraram ignes, como um hino de morte. Numa sincronia surpreendente eles lançaram uma onda de fogo que se erguia acima da muralha de pedras negras atrás deles, as chamas se espalharam pelas planícies, como uma peste flamejante que incinerava o ar. Cariel e os generais foram pegos de surpresa. Seus cavalos relincharam e ergueram suas patas ao céu, sentindo o horror daquela onda de fogo. Mas era tarde demais, o calor infernal das chamas os havia tomado. Cariel ainda tentou revidar, conjurando ventos frios em um esforço inútil, porém o lado esquerdo de sua cabeça fora atravessado por uma flecha que o finalizou instantaneamente, impedindo que gritasse a seus generais. Que sucumbiram em uma dor inigualável, sua carne fora transformada em cinzas.
O céu voltou ao normal, em uma calmaria abençoada pelo esvair daquela nuvem densa e negra. Quando toda aquela onda de destruição passou, apenas os restos mortais dos temíveis Cavaleiros das Trevas estavam à frente daqueles soldados.
Podia-se ouvir os gritos de felicidades dos soldados e dos guardas acima, armados com espadas e arcos.
- O que é isso? Por que eles não se movem? – questionou um dos generais das trevas, aproximando-se de Cariel com seu cavalo enquanto se posicionava perto de um grupo de guerreiros – Que feitiço é esse, Cariel? Estes bruxos iriam dar a vida para defender sua cidade, no entanto a expressão no rosto deles é de alívio, mesmo estando diante de nós!
- Não foi nada de mais, general Tonerrye.
- Nada de mais?! – Indagou o outro, incrédulo – Eles iriam dar a vida pelos seus ideais, o que você fez?
- Para ficar claro a vocês, eu não tomei o lugar de seu antigo mestre atoa. Sou tão poderoso quanto ele fora um dia. Agora tratem de tirar esse semblante de medo de seus rostos, e preparem-se para fazer o que nos fora ordenado. – Disse Cariel desaparecendo, surgindo logo depois sobre a muralha.
Enquanto passava os olhos pelos telhados avermelhados que em grande parte estavam tomados pelo lodo, Cariel distinguia as ruas de Sonora, cheias de varais de roupas e tecidos. Em alguns pontos crianças choravam pedindo socorro. Algumas chaminés emanavam uma leve fumaça branca que era envolvida rapidamente por uma ventania assustadora, que levava papes e batiam as janelas abertas dos moradores desesperados.
- Escutem com atenção! Vamos destruir esta cidade! Homens, mulheres e quem estiver no caminho. Mas não matem mulheres que estejam grávidas! – gritou Cariel a seus generais, dando um passo à frente sobre a muralha.
- Por que não matar também as grávidas? – Questionou Evylio.
- Porque eu estou mandando, seu idiota! Deu para entender? Dentro de oito minutos quero todos de volta a esse local, depois que a cidade estiver destruída. Lembrem-se; os caçadores não demorarão. Eu me encarregarei do padre, depois partirei para outra missão. – Após dar essas instruções aos generais Cariel transformou-se numa fumaça negra, desaparecendo em meio ao vento.
- Esse bruxo é mais assustador que os outros. O tempo todo eu sinto nele um ódio carregado com algo tão denso que não consigo entender. Desta forma ele é completamente imprevisível... e cruel. – Disse Evylio.
- Hrrr – resmungou Frâmilo. – Vamos logo destruir este lugar, pouco me importa Cariel.
A nuvem negra havia escurecido a cidade por completo. Seus moradores tremiam à mercê do que poderia vir. Cada general havia desaparecido rumo a um ponto específico da muralha de Sonora, que a circulava de maneira perfeita. Enfim eles conjuraram ignes, criando enormes bolas de fogo quais cresciam rapidamente, produzindo luzes amareladas que expandiam e deixavam partes da nuvem negra em tons avermelhados. O vento intenso produzido pelos feitiços começara a arrancar alguns telhados, lançando-os ao céu.Um dos generais se manteve quieto ao meio da muralha, com as mãos juntas enquanto olhava seus companheiros e as bolas de fogo que eles lançavam sobre as casas da bela e grande cidade, explodindo-as violentamente e espalhando fogo pelas ruas, matando rapidamente aqueles que corriam desesperados. As casas foram completamente destruídas, e as chamas se alastravam rapidamente. Ele então conjurou ventures, e sobre a fumaça que subia junto de faíscas de fogo um leve vento começou a rodear a cidade calmamente. Enquanto envolvia-a, se transformando num enorme tornado de fogo que começou a andar sobre a terra, engolindo casas, pessoas e tudo que alcançava. Os gritos e os choros eram assustadores, e se misturavam aos barulhos que as chamas faziam em meio à destruição.
Cariel caminhava em direção à igreja, em um dos locais menos afetados, quando fora subitamente atacado por um bruxo que fazia a guarda. Ele desferiu um golpe no jovem Cavaleiro das Trevas, que se transformou em partículas negras enquanto a espada do guarda atravessava o vazio. Segundos depois, Cariel o explodiu violentamente contra as paredes de pedra. Ele podia ver ao longe que os generais espalhavam o caos, destruindo as ultimas pessoas que corriam para a morte nos becos e vielas que ainda se mantinham de pé.
Ao entrar na igreja ele percebeu sua grandiosidade; toda sua construção era de mármore e ouro, e o altar revestido de pedras preciosas que à luz dos candelabros refletiam um brilho de esperança aos renegados, ou a salvação para os pecadores. Exatamente ao centro do altar, com as mãos trêmulas ao escutar os passos do jovem bruxo, o velho padre tentava entender por que a desgraça havia caído sobre Sonora. Suas olheiras profundas denunciavam noites mal dormidas, e sua túnica de pregação branca com o nome Únifico bordado à mão externavam sua devoção.
- Por que fizeste isso, filho? Por que lutastes contra indefesos? Escute os gritos de pavor do meu povo.
- Pense pelo lado positivo, padre; as pobres almas que hoje sucumbiram tiveram a honra de um padre orar por eles em sua partida. – Disse Cariel sério, retirando sua afiada espada negra, caminhando lentamente ao passar pelos bancos enfileirados.
- Faça o que você tem a fazer. – o padre abaixou a cabeça, sem sequer oferecer resistência – Sei que nem sempre somos maus por puro prazer, ou porque desejamos a morte de inocentes, mas com más práticas nos tornamos secos e impetuosos... Tente procurar a pureza em seu interior, filho. Somos mais que a morte!
- A razão pela qual eu luto é maior que tudo, é maior que eu. E é justamente pela pureza e pela paz que este caos foi criado!
Num piscar de olhos sua lâmina atravessou o coração do velho padre, que nem mesmo teve tempo para dar seu último suspiro. As pontas de seus dedos se enrugaram sobre uma leve poça de sangue, então Cariel desapareceu em milhões de partículas negras destroçando as vidraças das janelas aparecendo sobre a muralha. De lá ele viu seus subordinados chegarem em frente à cidade, que ficara completamente tomada pelo fogo, dor e sangue.
- Voltem imediatamente ao castelo! – disse ele apontando o dedo indicador em direção à torre da grande igreja.
- Certo! – todos os generais e espiões das trevas presentes responderam à ordem de Cariel e rapidamente desapareceram, cada um surgindo perto de seus cavalos que estavam fora das muralhas. Enquanto montavam, eles observavam aqueles soldados imóveis, vivendo numa ilusão até que morressem de fome ou sede.
Cariel fechou os olhos. Dentro de sua cabeça ainda soava a calma voz do velho padre.
- Sei que nem sempre somos maus por puro prazer, ou porque desejamos a morte de inocentes, mas com más práticas nos tornamos secos e impetuosos... Tente procurar a pureza em seu interior, filho... Somos mais que a morte... – Hrr – resmungou ele enquanto lançava uma centelha de vento em direção à igreja.
Ele escutava murmúrios entristecidos, lamentações e pedidos de ajuda dos miseráveis queimados e feridos por escombros. Suas sobrancelhas frisavam ao sentir a agonia daqueles pobres bruxos solitários à mercê da morte, então fechou as mãos, fazendo com que a pequena esfera de vento explodisse numa onda de choque quente e cortante, que arrastou tudo que havia no centro da cidade para longe. As muralhas foram arrancadas como se tivessem sido empurradas à mão, causando uma gigantesca e densa nuvem de poeira, tomada pela fumaça e fogo. Após o clímax do caos, um silêncio aterrador surgiu. De olhos fechados Cariel olhava a devastação que tinha criado, dando um sorriso maligno de canto de boca, e depois de sentir a satisfação de uma missão cumprida ele desapareceu, surgindo em um dos cais no porto de Abyzaham. Havia um grande navio, aparentemente pronto para zarpar. Toda a tripulação vestia-se de negro e só falavam uns com os outros, e apenas de assuntos relacionados à viagem. Não demorou para que saíssem do porto em direção à ilha unifica que Nada demorara quase um ano para localizar devido ao feitiço de ocultamento lançado por Pai. Logo que o navio ganhou o alto mar Cariel recordava de seu treinamento enquanto via a terra ficar cada vez mais distante e o verde perder o brilho. Cada luta, cada movimento, nada saia de sua mente. A hora pela qual todos esperavam estava se aproximando.