The Flying Cross

By BrunoAichinger

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O que se passa na cabeça de uma velha capitã quando sussurros do passado aparecem? More

The Flying Cross

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By BrunoAichinger



(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +1].

Foi no fim do equinócio da primavera que aconteceu. Aquele dia havia começado como outro qualquer: a tripulação ainda dormia tranquila, assim como seus permanentes passageiros, salvo um ou outro sonâmbulo que jurava estar andando sobre a terra; as turbinas ressoavam num constante mas não inquietante zunido, tão baixo e agradável como daquelas antigas geladeiras que as pessoas costumavam ter em suas casas, em meados do século XX. Talvez a nave inteira repousasse.

Não, não foi assim que aconteceu.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +2].

Agora lembro: quase toda a nave estava em repouso, não fosse uma única pessoa, com um único desejo impossível. Um Suboficial, um garoto ainda. Desejava estar dormindo, protegido do eterno vazio do espaço pelo sentimento de união, de companhia, com os outros; mas não podia. Ele não podia. Era quase palpável a sua dor: fora criado em laboratório com o exclusivo propósito de manter as rotinas de controle da estação em funcionamento durante a noite e, tal como era no lugar de seu nascimento - aquele tubo de ensaio que gerou vida através de células dispersas em uma pipeta de vidro -, toda a nave mantinha uma suave luz branco-azulada. Gélida. Morta.

Pensando com mais calma, a verdade foi um pouco diferente. Dois pequenos eventos fosse qualquer outro dia, em nada influenciariam a história, mas que se não forem ditos, não permitirá alcançar o final desejado. Uma luz verde piscando em um ritmo constante e estável, como a respiração de alguém que já viu e ouviu muito. E uma quase senhora. Não dormia, mas também não estava exatamente acordada - talvez, o mais correto aqui fosse utilizar a palavra 'meditava'. Isso. Uma quase senhora, de nome Amelia Mary Howland, que meditava em busca daquele sentimento. Daquela raiva que lhe tirava o sono.

Sim.

É aí que a história começa. Um jovem que queria dormir e uma quase senhora que não queria acordar. E uma luz.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, + 4].

Não existia primavera ali. Estações do ano, dias da semana, feriados ou anos bissextos eram apenas tradições, mantidas numa falsa e frustrada esperança de preservar as culturas da terra - planeta que há muito deixara de ser o nosso lar. Dia e noite, algo tão mundano que chega a ser quase supérfluo, não existia; em Earhart, noite era o período em que as luzes eram desligadas para que todos pudessem dormir. Um momento específico, convencionado. Só isso. O Suboficial em serviço havia desligado as luzes da sala de controle quando notou, com o canto do olho, algo se acender em um dos painéis distantes. Era comum deixar a nave em piloto automático por longos períodos, fazendo-se necessário apenas realizar algumas visitas preventivas nos centros de suporte auxiliar à vida, tais como nível de oxigênio, filtros, capacidade de reciclamento de dejetos e, menos frequente ainda, uma olhada nos relatórios das estruturas externas da nave (em busca de alguma pequena falha que pudesse ter passado despercebida pela equipe de manutenção). Com um pé já fora da sala, fora obrigado a dar meia volta.

- O que foi agora? - resmungou em voz alta, mesmo sabendo que ele era o único ali.

Caminhou em direção à pequena luz verde, oriunda de um minúsculo painel que se acendera no penúltimo maquinário inferior do lado esquerdo da cabine. Era um painel tão pouco usual que nem mesmo ele, o único (acordado) e responsável pelo funcionamento da nave Earhart ao longo das frias noites, sabia para que servia. Pegou um volumoso manual e começou a folhear em busca de algo. Encontrou a resposta após longos minutos, ou curtas horas, (difícil distinguir) - era um sinal de emergência de uma nave que, se ele não se equivocara nos cálculos, provinha de 1106 Kydonia(1).

Sem mais, saiu correndo de lá.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +8].

O garoto parou de correr. Era a primeira vez que se encontrava em tal posição, não sabia ao certo como agir. Bateu na porta de aço com os nós dos dedos, fazendo ecoar um grave toc, toc, toc pelo corredor. Não houve resposta de imediato.

Aguardou mais um instante ou dois e tentou novamente.

Toc, toc, toc.

Dessa vez, a porta se abriu. Frente à ameaça de uma severa mulher, meio dormindo, meio acordada, ele resolveu ir direto ao ponto:

- Foi detectado um sinal de emergência vindo de um asteroide, Capitã Amelia.

- Impossível. As missões em busca de minérios e gelo terminaram há vinte anos, logo após o Desastre.

- Veio de SgrA, Capitã. O sinal veio de um dos asteroides da missão.

- SGRA? - ela perguntou - O buraco negro Sagittarius?

Não houve resposta. Ela continuou:

- Qual asteroide?

- 1106 Kydonia(2) - o garoto disse.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +113].

A preparação estava quase pronta, afinal era uma nave velha e, mesmo com manutenções rotineiras, mesmo com todos os esforços voltados para a nova missão, mesmo com todos os outros mesmos possíveis, ainda assim demorou. Foram anos, ou dias - talvez segundos ou décadas - até que Earhart estivesse próxima o suficiente de SgrA. Ali, como todos sabem, o tempo não existe. Ou talvez exista, só não se daria ao trabalho de obedecer às regras que impusemos a ele (muito embora a teoria da relatividade, de algum cientista há muito esquecido, lhe desse tal permissão). Mesmo assim, a Capitã estava decidida.

A pergunta que gerou séculos de debates entre os filósofos acabara de ser respondida: a vida de um ente querido vale mais que a vida de dezenas de estranhos?

Sim.

Em algum ponto da fronteira do buraco negro SgrA, o asteroide orbitava. E, com ele, a origem da luz verde.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +16].

Havia urgência. O garoto entrou na sala de máquinas. Passou por grandes caixas ligadas entre si por grossos tubos coloridos e por outras não tão grandes assim, passou por infinitos fios que vinham de infinitos lugares, indo e vindo e indo novamente para todos os lugares ou, talvez, lugar algum, subiu e desceu escadas de aço contornando cilindros e motores e válvulas e afins. Mas era isso, só afins. Mesmo de noite, esperava encontrar alguém ali - alguém que, assim como ele, fosse responsável por manter as máquinas em funcionamento.

Nada. No entanto, continuou andando.

Chegou, depois de alguns minutos, ao seu objetivo: uma pequena sala, com paredes de vidro, não maior que três por três metros quadrados, com um único painel no centro. O coração da nave, o motor nuclear. Entenda - caso este relatório sobreviva ao tempo - não bastava ajustar a velocidade da nave apenas da cabine de comando, não quando a velocidade era 110%, 120% ou, até 150% maior do que o programado. Era necessário ajustar, manualmente, o núcleo do motor. Afinal, a nave não havia sido projetada para aquilo quando criada, tampouco nos quase 900 anos que se passaram. Uma velha nave. Cansada. Trabalhando noite e dia. Ininterruptamente. Mas era o único jeito:

- Precisamos anular a força gravitacional de SgrA, ou Earhart será tragada para dentro do buraco - disse a Capitã, pouco antes de mandar o Suboficial para lá.

A dúvida, ou a certeza, não saía da cabeça do garoto - como pousar no asteroide? Antes mesmo de sair do aposento de Amelia Mary Howland, o Suboficial ousou uma intervenção:

- Não podemos ir até lá, Capitã. É suicídio.

No entanto, Mary continuava sem nada dizer.

- Quem está em 1106 Kydonia(3)? - ele insistiu.

Foi então que ela gritou:

- SILÊNCIO!

Por um momento, havia perdido a compostura. Então, após inspirar profundamente, se recompôs:

- Conheça sua posição, rato de laboratório. Não ouse me questionar.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +400].

O feixe branco de luz ia de encontro ao cristal no centro da sala e era onde começava o processo de refração. Cada cor que surgia, do mais claro amarelo-alaranjado até o azul-quase-preto, funcionava como uma etapa da reciclagem de corpos. Um trabalho desagradável, mas os recursos na nave eram limitados e nem mesmo os mortos podiam ser deixados de lado.

Era o segundo corpo daquele dia.

Afastados, atrás de uma grossa parede de vidro, protegidos das belas e letais cores - mas não das emoções - uma família chorava. Talvez a dor não fosse pela perda em si, não: era certo que, em algum momento, todos os membros da Earhart passariam por aquela sala. Talvez, só talvez, a dor não fosse exclusiva a uma única perda. Aquela família chorava por todos os que morreram - os dois corpos daquele dia, os cinco do dia anterior e os onze desde que a semana começara. Choravam porque em uma semana haviam perdido mais amigos e parentes do que em anos.

(...........................................................................................................................................)

O ritmo havia aumentado - parecia que um dia dentro da nave era equivalente a três longos anos. O garoto, no entanto, continuava a ser garoto; apenas um Suboficial, jovem, com o mesmo rosto todos os dias. Por outro lado, os passageiros podiam estar mais velhos e cansados, mas ele logo iria aprender algo que nenhum livro lhe havia ensinado: a raiva coletiva é um combustível mais eficiente do que qualquer fissão nuclear. Mesmo que seja para o mal.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +32].

Quase todos os passageiros estavam reunidos no salão. Um palanque havia sido montado para que a Capitã pudesse fazer aquele plebiscito. Era tudo aparência, eram todos aparências - a tripulação já sabia: Amelia havia tomado uma decisão e estava ali para anunciá-la. Não havia nenhum interesse real em saber o que os passageiros pensavam. Não para ela.

As palavras usadas pela Capitã se perderam. Não há ninguém além de mim que as tenha ouvido e, mesmo eu, não lembro com exatidão quais termos ela usou. Sucintamente, basta dizer que ela havia tornado pública a missão até 1106 Kydonia(4) e que a aceitação de todos os outros não havia sido positiva.

Errado. Há algo que precisa ser dito.

Quando os preparativos começaram, nenhuma explicação fora dada. Prática comum - a Capitã raramente falava com os outros. Os passageiros não entendiam o motivo daquela expedição - mas eles não precisavam entender; estavam a mercê das vontades e caprichos de quem controla a nave. E deviam agradecer a deus pela oportunidade de estarem lá. No entanto, a tripulação também não entendia. Havia muitos riscos envolvidos e, a princípio, nenhum ganho comunitário.

Assim sendo, a primeira (e última) tentativa de desacreditar fisicamente a Capitã aconteceu logo após um encontro entre ela e o Suboficial, na cozinha do refeitório. Os dois conversavam detalhes de algum tipo de relatório secreto quando um terceiro homem entrou na sala. Portava um sinalizador de emergência, uma relíquia do passado - tais objetos pararam de ser fabricados fazia quase duzentos anos, quando os cientistas concluíram que era mais dispendioso uma missão de resgate a uma nave de coleta de minerais do que, simplesmente, perdê-la para todo o sempre. Se o rebelde era um cidadão ou um tripulante, não fazia diferença - o tiro errou o alvo, destruindo metade da cozinha, decretando assim sua sentença de morte. Foram dois crimes em um único tiro: destruição de espaço público e tentativa de assassinato de um membro do alto escalão. Sua punição? Ter a oportunidade de conhecer (e sentir, literalmente) as belas cores do feixe branco de luz, muito raramente usado, de uma sala conhecida como A sala de refração.

Novamente, a pergunta que gerou séculos de debates entre os filósofos: a vida de um ente querido vale mais que a vida de dezenas de estranhos?

De inesperado, após ela descer do palanque, o Suboficial a indagou:

- É por ele?

Dessa vez ela responde.

Sim.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +350].

Na Terra, quando as pessoas se levantavam durante as manhãs e as cortinas dos quartos se abriam, um belo sol amarelo abraçava-os com uma sensação de ternura, quente e graciosa. Em Earhart, era parecido: a nave estava parada (ou melhor, estava acelerando a 150% da velocidade máxima dela na direção contrária a força invisível, o que dava a impressão de estar parada), e quando os passageiros acordavam e abriam suas cortinas, eram recebidos por um belo sol negro, que de ternura nada havia. Apenas uma vontade assassina.

1106 Kydonia(5) estava no quadrante seguinte, estável, ainda mais próxima do limar de SGRA. Talvez, por isso, o asteroide não se movesse. Mas, dentro da nave, tudo e todos pareciam se mover em velocidade acelerada. Era como se um dia dentro de Earhart fosse o mesmo que um ano terráqueo. As crianças, em uma semana, se tornaram jovens; os jovens, adultos; os adultos em senhores e os senhores... bom, você leitor saber o que acontece em seguida. Novos nenéns surgiam todos os dias mas, mesmo assim, não eram suficientes para suprir as necessidades da nave. E assim, a população Earhartina começou a diminuir.

E a população envelhecia.

E mais rápido.

Cada vez menos.

Era uma questão de tempo - logo não haveria ninguém ali.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +864].

Não havia mais a noção de tempo. O conceito de dia e noite não se aplicava, as horas não passavam como deviam. Ou passavam. Ou não. Ele resolveu, pela primeira vez, não ir dormir. Era a primeira, maior, suprema violação. Mas quem iria puni-lo?

Passeou pelos corredores de Earhart, tendo a sua sombra como sua única amiga. O refeitório estava vazio, assim como a sala de maquinas e todo o resto. O laboratório estavnãoestavazio. Ele estava lá, um processotodoautomatizado. aquele tubo de ensaio que gerou vida através de células dispersas em uma pipeta de vidro. um braço mecânico colocando uma

criança dentro

de um pequeno robô. O Suboficial resolveu ir atrás e acabou se deparando com seu quarto. O pequeno robô deitou na cama uma criança já de oito_ou_dez anos e foi aí que ele entendeu. Ele não envelhecia. Nunca. Se você sou eu e eu sou você, mas você não se lembra do que eu faço e eu me lembro do que você faz, eu não sou mais você do que você?

Melhor dizendo, eu não sou mais Eu do que Eu?

Enxerga o paradoxo? enXERGA?

A capitã do primeiro avião a cruzar o mar o havia enganado. Ele. fora. enganado. Ele não envelhecia. Ele nascia. Morria. Eranoqueos_outrosch amavam de dia que tudo acontecia. Ele acordava programado para programar o programa que programava a nave. Depois o programa do laboratório o programava. O que acontecia quando o Suboficial ia dormir?

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +865].

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***

(PLAY)

Nave de habitação EARHART. Ano [Indeterminado, Registro de voz +0].

Não sei o que aconteceu.

Quando acordei, ele estava lá.

Outro eu.

Déjà vu?

Provavelmente, o matei.

(PAUSE)





Notas de rodapé

1- Asteroide da (região do compreendida entre as do Sol a ), a 225.000.000 km. 

Kydonia tem uma de 18,48355631 km/s.


2- Asteroide da (região do compreendida entre as do Sol a Júpiter), a 750.000.000 km. 

Kydonia tem uma de 117,45963423 km/s.


3- Asteroide da (região do compreendida entre as do Sol a Saturno), a 1.425.000.000 km. Kydonia tem uma de 224,5514692 km/s.


4- Asteroide da (região do compreendida entre as do Sol a ), a 4.500.000.000 km. 

Kydonia tem uma de 393,5514692 km/s.


5-Asteroide da (região do compreendida entre as do Sol a Alpha Centauri) a 4.0x10¹³km. Kydonia tem uma de 2233493,556514692 km/s.





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