EL REGO
O PULSAR DE UM CORAÇÃO
ROMANCE DA VIDA REAL BASEADO NA VIDA DO AUTOR
O CORAÇÃO é uma máquina um tanto tosca, com formato ambíguo, sendo uma espécie de bomba, que suga e expulsa o sangue no corpo de um animal.
O interessante é que ele reage aos impulsos nervosos do cérebro, o que lhe dá uma característica de sintonia com os sentimentos.
Nestes anos que venho vivendo tenho pensado muito em meu coração, que muitos dizem que sendo ele sadio a gente não sente seu trabalho, um coração doente porém, seu possuidor vive a senti-lo. Ele é o gestor da vida de um corpo animal, por conseguinte se ele parar de pulsar a vida se acaba.
Escrevi este romance tendo por base as dores, os cansaços, as emoções, enfim pensando nos diversos aspectos nos quais meu coração tem se apresentado através dos tempos.
Não entendo muito de medicina, mas segundo eu soube, o coração começa seu trabalho quando nosso corpo começa a ser formatado no ventre de nossa mãe, embora sem fazer o trabalho da circulação, mas já tendo o fator da vida nele fundamentado. Ao nascermos ocorre nossa primeira respiração e com ela um sistema valvular do dito órgão, muda sua posição circulatória, iniciando então o movimento em que o coração recebe o sangue venoso, manda-o para os pulmões, que por sua vez o filtra e o oxigena. Dali o sangue retorna ao órgão pulsante,
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que o impele para corpo inteiro através das artérias e capilares.
dando condições das células serem alimentadas, e portanto energizadas.
Pretendo fundamentar este romance na trabalho que meu coração tem feito através dos anos, mas certamente o leitor identificará muitos fatores associados ao seu próprio coração. Reitero que o funcionamento desse órgão é estreitamente relacionado com nosso estado de espírito. Assim a maioria dos trechos literários estarão preenchidos com pequenos relatos das diversas situações em razão das quais o pulsar do meu coração, as vezes acelerou, as vezes se acalmou, sofreu choques, sustos, as vezes ocorrendo até lapsos e breves paradas, oriundas dos fatores externos ocorridos no momento.
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Eu tinha seis anos. Transcorria-se uma época em que minha vida era absorvida pelas infantilidades. Tais ações ocorriam na maior parte do tempo, pela admiração que eu tinha por um rego d'água limpa que passava aos fundos do quintal, e pelos carinhos de um gato rajado, ainda jovem. Digo isto devido seu modo esperto e atencioso para comigo, dei-lhe o nome de PULYN.. Baseado em conhecimentos que as pessoas tinham sobre aquela raça de gatos, eu pensava que ele era um pequeno tigre, que eu nem sabia o que era.
Na época minha família morava na terceira casa de uma fileira lado a lado, era uma espécie de colônia, contendo sete moradias. Ao fundo dos quintais passava rego, que por ter bastante água, servia para rodar um moinho de fubá e um gerador de eletricidade aos fundos da sede da fazenda. Tal sede se localizava depois dos currais de ordenhas, porém no mesmo alinhamento das casas da colônia. Meu passatempo predileto era ver PULYN tentando pegar alguma borboleta, pelo que ele dava magistrais pulos. Algumas vezes ele chegava a cair dentro do rego e saia todo murcho, correndo, e sem graça pelo fato acontecido.
A inspiração dessa história real de minha vida nasceu dias atrás, dia 20 de julho de 2015, após eu ter passado cerca de sessenta e seis anos, desde que mudamos daquela região. Naquele dia 20 de julho desejei fazer um giro por lá, parando por duas horas à sombra de uma árvore, que em tempos passados, por ela conter um oco em seu tronco, era um local de procriação de gambás. Nas horas que fiquei sob a árvore meus pensamentos voaram no tempo, dentro daquele espaço, onde vivi alguns anos em meu tempo de criança. Primeiramente lembrei-me do gatinho PULYN, pois era amoroso e muito traquinas. O rego d'agua no qual, as vezes com suas traquinagens PULYN caia dentro, além de tocar o moinho de fubá e a roda do dínamo que fornecia eletricidade, (unicamente para a sede) seguia por um km adiante, margeando um morro e repartindo suas águas num terreno inclinado, próprio para o cultivo de batatas. Minha história pelas lembranças, ocorre dentro do trecho onde o rego captava a água, até o ponto em que as remanescentes correntes desaguavam no rio Santa Bárbara,
No período em que estive sob a "arvore dos gambás" me vieram vivas lembranças das peripécias da minha vida naqueles idos dias do ano de 1950. Os fatores foram marcantes...
Minhas lembranças eram como nuvens carregadas, prontas a precipitarem suas águas, o que equivalia aos meus devaneios de recordação. O rego d'agua, iniciava-se num local um tanto obscuro. Diziam que quem passasse por ali tarde da noite sempre via assombrações. Não havia açude nem represa. As águas de um pequeno riacho se espraiavam num ponto em que continha antigas e densas moitas de bambus, especialmente plantadas em tempos remotos, para formar o espraiado do riacho. À direita do espraiado, no sentido das águas descerem, ficava o início do nosso personagem "El Rego". A princípio passava sob um mata-burro raso, seguindo a beira da mata ciliar do córrego, sentido à fileira de casas da colônia...
O curso do rego, depois de uns duzentos metros abaixo do mata-burro, começava seu trabalho de distribuição de água. A família dos moradores na ultima casa da fileira eram espanhóis, aliás havia lá, três famílias daquela nacionalidade. O chefe da casa em questão chamava-se Joaquim Minhas recordações, ali sob a árvore dos gambás, me levaram a ver a primeira bica. Logo que o rego passava sob a cerca que circundava a colônia, tinha uma vazante lateral, de forma que deixasse passar uma polegada de água. Não havia encanamentos plásticos ou metálicos, contudo por haver uma queda no terreno pendendo para a grota do riacho, os moradores fizeram uma espécie de cano, usando um bambu de uns três metros, do qual tirara os nós para que a água fluísse por sua extensão. Minhas recordações viam claramente aquele dispositivo e dona Leonor (conhecida por Leonorinha) batendo roupas num *batedor nas proximidades da bica. Perto da porteira de entrada à rua da colônia havia uma goiabeira, que talvez por usufruir da umidade do rego produzia goiabas em qualquer tempo...
Falando sobre a goiabeira, minhas recordações viam claramente as ações dos meninos da colônia, entre eles, meu irmão e eu, subindo naquela árvore para apanhar goiabas maduras, que as vezes fora do tempo eram muito apreciadas. Numa daquelas apanhas de goiabas, meu irmão sofreu um acidente feio, tendo o músculo do seu braço, entre o cotovelo e o ombro, atravessado por um grosso estrepe. Eu fui o primeiro a ver aquilo. Horrorizado, corri pra avisar meu pai. Era um dia de sábado. O fato aconteceu por volta das dez horas da manhã. Grande foi a aflição do nosso genitor na tentativa de conseguir uma condução para levar meu irmão para o hospital em Patrocínio Paulista. Como não havia um único carro por ali, meu próprio pai, de posse de um alicate, arrancou a força, sem anestesia, o pau do estrepe. Meu irmão gritou de dor. Mais tarde meu pai o levou na garupa de sua bicicleta para fazer um curativo no hospital na cidade, a quinze km dali. O fato marcou minha mente pelo resto da minha vida.
Margeando a espécie de rua que havia em frente à fileira de casas, havia uma cerca de arame farpado, onde naquele dia, próximo da goiabeira um menino por nome Geraldo se machucou. ao tentar atravessar correndo para ver o que ocorrera com meu irmão. Acreditei que era dia dos acidentes ocorrerem.
Naqueles tempos havia poucas conduções motorizadas. Mesmo bicicletas, só as possuíam quem tivesse algum dinheiro a mais, como o caso dos espanhóis, que eram mui laboriosos e econômicos, plantavam batatinhas, e com aquilo tinham melhor faturamento. As famílias que moravam na colônia, inclusive a minha, não tinham vínculo empregatício com o fazendeiro, eram independentes, apenas pagavam porcentagem daquilo que produzia nas terras da fazenda, e naquela parte os espanhóis davam um bom lucro para o fazendeiro. Meu pai trabalhava muito mas produzia pouco, entretanto era estimado pelo dono da fazenda, que por sinal era seu xará...
Meu pai não cultivava batatinha, por conseguinte tirava poucos proventos pela venda dos cereais que plantava, como feijão arroz e milho. Os espanhóis, também plantavam cereais, mas o forte deles era a plantação de batatas, e para aquilo o fazendeiro lhes cedia uma terra fértil, regada pelas águas do EL REGO, conforme dizia os espanhóis.
Todos eles possuíam bicicletas, nas quais transitavam para ir ao trabalho da roça a cerca de dois km da colônia. As três famílias de espanhóis eram compostas de umas oito ou nove pessoas cada uma, sendo na maioria moças e rapazes.
Ali, sentado sob a "árvore do gambás" eu continuava me lembrando dos fatos, das famílias, e principalmente do meu pai. Na época ele vivia falando que precisava comprar uma bicicleta, mas nunca sobrava dinheiro para tal fim, mesmo por que, um pouquinho que sobrava ele "jogava no bicho". Era um fraco que ele tinha. Era ter uns cobres a mais, que logo ia pé para Patrocínio Paulista, lá pegava uma "jardineira" (que era os ônibus da época), e seguia para Franca, unicamente a fim de fazer sua fezinha em algum bicho que as vezes lhe vinha nos sonhos ao dormir...
Certo sábado de manhã, eu ouvi ele dizer para minha mãe:
-Carmem, vou a Franca hoje. Tive um sonho com um tanto de borboletas e vou fazer uma fezinha grossa nelas, quem sabe seja meu dia de sorte.
-Minha mãe concordava com tudo que ele intentava em fazer. Era uma mulher humilde, também descendente de espanhóis, por parte de pai, pois a mãe dela era francesa nata. Seus pais vieram da Europa morar no Brasil, já casados, onde além dos filhos que trouxeram da Espanha, tiveram outros por aqui. Mais diante falarei assuntos sobre as famílias dos meus pais.
Aquele dia meu pai teve sorte...
Vale dizer que ele não aprendera a andar de bicicleta, as vezes que tentara em alguma dos nossos vizinhos, ele se desequilibrara, caíra e logo desistira. Naquele sábado, porém, por volta das onze da noite ele chegou em casa. Minha mãe estava aflita pelo cuidado que ele dera, haja vista que as muitas vezes que ele fora à Franca chegara bem antes do por do sol.
Ocorreu porém, que tendo feito uma boa aposta no tal "jogo do bicho" ele ganhou um dinheiro grosso e teve que esperar um longo tempo para os andamentos a fim receber. Além daquilo, ainda procurou o dono de uma loja, que lhe vendeu, embora fora do expediente, uma linda bicicleta, zero km.
Disse ele que a princípio a empurrou até fora da cidade, sendo que aos poucos, foi adquirindo equilíbrio, e num percurso de 25 km, que era a distância da colônia à Franca, ele se praticou, chegando portanto em casa como um bom ciclista. Lembro-me que ele pôs um pacote de dinheiro, contendo notas novinhas, sobre a mesa da sala e disse para minha mãe.
-Carmen, não te falei que meu sonho daria certo? Veja quanto dinheiro, minha velha!
A soma perfazia uma quantia que ele nunca havia ganhado, nem em todos os anos de trabalho nas plantações que fazia.
Das outras idas dele à Franca, ele sempre nos levava algumas balas e doces. Na época éramos em cinco, pois além de minha mãe, havia meu irmão Norival, que tinha dez anos, eu que tinha seis, e minha irmã Irene, que tinha dois anos. Não quero me esquecer da LEMBRANÇA, uma cadela de nossa estimação e do gatinho PULYN, que naquela noite também ganharam presentes em forma de alimentos. Nem deles meu pai se esquecera pelo tanto de dinheiro que ganhara.
A bicicleta adquirida era inglesa, da marca Philips. A partir daquele dia, quando ele ia para Patrocínio, ou Itirapuã, sempre me levava na garupa, eu era leve, magrinho, e por conseguinte pesava pouco, e ele gostava de me ver sempre perto dele.
Nossos vizinhos se admiraram com a façanha do meu pai. Desde tempos anteriores que em algumas noites da semana os chefes das casas, e algum filho mais velho, iam na nossa, para jogarem truco. Eles davam fortes gritos nalguma trucada, pelo que eu não conseguia dormir enquanto eles não paravam com a jogatina, que muitas vezes se encerrava, lá pela meia noite. Na noite do domingo ele serviu um bom vinho para tomarem alguns goles enquanto jogavam.
Meu pai também gostava de tomar socialmente um bom aguardente, pelo que sempre conservava uma garrafa de uma tal "Tatuzinho", certa marca de pinga forte.
Ele manifestava sua alegria por ter ganho no jogo de bicho, dando boas trucadas. Como eles trabalhavam por conta, passaram praticamente toda aquela noite de domingo festejando sua vitória.
Mas tudo passou como um sonho ligeiro, em pouco tempo as coisas estavam difíceis outra vez. O dono da fazenda, por estar um tanto velho e doente a repartiu entre os filhos que eram cerca de dez. Daquela transição findou-se a política que dava aos moradores da colônia uma autonomia, pois os novos administradores quiseram tirar mais lucros dos laboriosos espanhóis e dos demais, inclusive meu pai, que não aceitando as novas ideologias se propuseram a sair da fazenda.
Ali, sob a "árvore dos gambás" eu não queria ter lembranças da nova vida, a partir de nossa saída da fazenda. Assim continuei tendo meus antigos pensamentos na invernada, que se estendia após a cerca, por mais de um quilômetro, descambando à direita em íngremes ribanceiras para as baixadas do rio Santa Bárbara. Recordava-me que certo dia fui com minha mãe levar almoço para meu pai, e quando descíamos a vertiginosa ladeira tropecei num barranco da trilha e perdendo o equilíbrio comecei a rolar impetuosamente. Minha mãe largou os apetrechos que levava e dando magistrais pulos, me alcançou a uns dez metros abaixo, segurando-me. Tive alguns ferimentos, mas ela evitou de me acontecer o pior, pois se eu rolasse até a baixada, cerca de cem metros provavelmente eu não estaria aqui escrevendo minhas recordações da história.
Minha mãe se feriu também, pois na ânsia de me alcançar na ladeira teve a tíbia da perna esquerda atingida por um estrepe que fez um horrível ferimento.
Lá em baixo, num trecho mais ou menos plano, se estendia as terras de plantios, regadas pelo EL REGO. Tais terras ficavam as margens do rio Santa Bárbara, em cujas águas meu pai e nossos vizinhos, inclusive dois irmãos do meu pai, gostavam de pescar nas noites enluaradas...
Meu sonho acordado, espelhando a trajetória de minha vida, continuava ali, sob a "árvore dos gambás". Eu me lembrava daquelas pescarias, nas quais eu fora uma única vez, pois desde pequeno eu não era dado a ver animais sofrerem, naquele caso eram os peixes, que ao serem fisgados certamente padeciam com aquilo até a morte. Na noite em que fui com meu pai à beira do rio, vimos ao clarão da lua, estranhos animais descendo, nadando sobre as águas. Lembro-me que meu pai me dissera que eram lontras, uma espécie de cachorro d'água. Eles aproveitavam o clarão da lua para se alimentarem com os peixes que pegavam.
Nas minhas lembranças meu coração pulsava diferente. Naquele dia sob a árvore, realmente tive boa oportunidade pra recordar de meu tempo de criança, e na continuidade da minha vida. Também fui lembrando de muitos fatores ocorridos em minha adolescência, todos relativos àquele trecho de terras onde eu começara a me entender por gente. Eu não nascera na região, pois quando nasci minha família morava em Minas Gerais, na fazenda de um tio meu, que ficava entre Capetinga e Cássia, entretanto meu pai tinha ímpetos de mudar, o que fazia sempre. Assim meu irmão Norival havia nascido nas regiões de Penápolis. Tive mais três irmãos; dois deles só chegaram a viver uns três anos, o último que minha mãe teve faleceu com dois anos. Por mera coincidência minha mãe teve quatro filhos de quatro em quatro anos. Ao primeiro deram-lhe o nome de Aldo, viveu cerca de três anos e faleceu, depois de um ano nasceu outro filho que deram o mesmo nome do primeiro, em sua homenagem pois tiveram muito sentimento. Mas Aldo segundo também faleceu em aproximadamente três anos, vindo minha mãe a ter o terceiro filho um ano depois, ao qual deram o nome de Norival. Depois de quatro anos eu nasci, inclusive no mesmo dia e mês que meu irmão nascera há quatro anos atrás. Depois de quatro anos, já morando na fazenda do EL REGO, nasceu minha irmã no mesmo mês que meu irmão e eu nascera, com diferença de três dias. Nós éramos do dia 13 de março e ela nasceu no dia 17. Todos nascemos em localidades diferentes. Minha irmã Irene, foi a única que nasceu na colônia do EL REGO. O último faleceu com dois anos. Nasceu em Itirapuã, assim que mudamos da fazenda para aquele arraial. Deram-lhe o nome de Nésio. Se ele estivesse vivo, seria dois anos mais novo do que minha irmã, tendo portanto nascido, não com quatro anos de diferença, porém com dois.
Fazendo uma efeméride dos nossos nascimentos (e falecimentos) temos: Aldo I: nascido em março de 1932 falecido em 1935 - Aldo II nascido em março, de 1936 morreu em 1939; Norival: nascido em 1940, falecido em 2010; Eu, nascido em março de 1944, até então (setembro de 2015) graças a Deus, ainda estou vivendo; Irene: nascida em março de 1948, ainda vive atualmente, setembro de 2015. Por fim nasceu Nésio em 1950, e faleceu em 1952. Meu pai nascera em 03 de maio de 1903, faleceu em 14 de julho de 2004; minha mãe nasceu em 16 de fevereiro de 2013, faleceu em 05 de maio de 2005. O fato de estar escrevendo esta segunda biografia de minha vida nas páginas da Internet, é devido minha predileção por escrever para os amigos lerem, e ao mesmo tempo compor um novo livro, pois vou assentando num arquivo Word tudo que vou escrevendo. Futuramente lançarei um livro com o título "EL REGO DE MI VIDA" (O REGO DE MINHA VIDA).
Minha vida é um rego d'água
Cujo destino é o mar
Oceano de estrelas
Por onde irá transladar
O céu de estrelas pepétuas
E nebulosas benditas
São águas sendo corridas
Numa viagem infinita
Os sonhos na eternidade
Serão reais e expansivos
Num universo de estrelas
Eles estarão ativos
No mundo insano passivo
O pensamento perece
Mas no eterno Universo
Para sempre permanece
Só os poetas sabem
De tal futura grandeza
E do eterno Universo
Sem altura e profundeza
De uma casa às bordas da caatinga, onde se inciava o EL REGO, tenho uma longa história relacionada à minha vida. Se adentrássemos na capoeira aos fundos da dita casa, iríamos deparar com a grota do riacho (que hoje quase não tem água). Ao atravessarmos a mata, que contém apenas uns cem metros de largura, chegaríamos do outro lado, onde ficava a fileira de casas da tão falada colônia da fazenda que pertencia ao Sr. Juvenal Lopes. Meu pai também se chamava Juvenal, e talvez por isto os dois se davam muito bem. Só mudamos da colônia, quando o Sr. Juvenal repartiu a fazenda. Penso que EL REGO e suas adjecências ficaram para uma das filhas, que chegou a ser minha professora quando eu tinha seis anos. Era ela que ensinava as crianças da colônia e região. Se a saudade matasse eu já teria morrido, pois sempre tive muita saudade daquela professora, que talvez ainda esteja viva. Chamava-se Heloísa. Ela era casada om o Sr. Laércio Figueiredo, um bom homem, de quem virei a escrever boas palavras em linhas futuras. Eles não tinham filhos e moravam na sede daquele setor da fazenda Humaítá. Fui diversas vezes na sede em que moravam, pois a professora Heloísa gostava de dar coisas aos seus alunos. Eu me admirava com o rádio, que era alimentado pela energia do gerador que vinha de uma queda d'água do EL REGO. Aquele rádio também ficaria na história...
Meus pensamentos iam ao passado e voltavam ao presente, momentos em que me encontrava sentado sobre um tronco seco de uma pequena árvore caída, que certamente vivera à sombra da "árvore dos gambás". Naquele dia, eu havia desviado minha rota no entroncamento chamado "Aroeiras" com ideal de seguir para Batatais, pela rodovia "Rio Negro e Solimões". Entretanto ao passar próximo de um local, que nós chamávamos de "os eucaliptos", ao ver a estrada que ligava a pista asfaltada às regiões do EL REGO, tive um saudoso ímpeto de entrar por ela e fazer um giro, tendo o ideal de entrar novamente na rodovia, depois da serra dos Bernardes.
Transcorria-se o dia 20 de julho de 2015. Eram umas dez horas da manhã, quando parei o Algoliver às margens da parca estradinha e fui passar uns momentos sob a tão falada árvore dos gambás. Pude tirar algumas fotos dos animais ruminantes pastando por ali, da antiga casa à beira da mata ciliar do riacho que, num ponto acima, antigamente cedia parte de suas águas para o EL REGO.
Eu me admirara ao passar no local que chamávamos de "Os bambuzeiros". Já não existe mais o espraiado, aliás nem água praticamente existe mais. Entretanto ainda existem muitas árvores, e a mata ciliar está mais densa, conforme se pode ver na foto da casa, abaixo
Como as águas formam rios
Que se dirigem ao mar
Nossas vidas formam regos
Pra nossas almas levar
A um celeste oceano
Onde Deus já fez um plano
De conosco velejar!
O casal Laércio e Heloísa, tinham um caseiro por nome de João Marcolino, Vivia sozinho e na ausência deles tomava conta da sede. Era um bom e humilde homem. Aparentava ter uns cinquenta anos de idade, porém era alcoólatra. Eu e as outras crianças ficávamos horrorizados ao saber, que muitas vezes, quando o casal não se encontravam na sede, ele tomava seus pileques e ficava de fogo, momentos em que ao ouvir as músicas no rádio, abraçava-o e se punha a dançar. Quem nos contava tais histórias era o sr. Juquinha, o retireiro, que tinha autonomia na sede e era encarregado de equilibrar o caseiro em alguns momentos como aquele. Nossa admiração era por causa da energia elétrica que alimentava o rádio. A colônia inteira sabia que tal energia dava choque que poderia ser mortal. Aquilo para os meninos da escola era inadmissível. Quem abraçasse um radio em funcionamento, estava bêbado ou louco.
Ali, sob a árvore, eu me lembrava daquilo, pois por várias vezes fiquei impressionado com aquelas ações do João Marcolino. Ele gostava do meu pai. Isto por que meu genitor também apreciava uma caninha e de vez em quando ele o convidava para tomarem umas e outras lá em casa.
Mesmo depois que mudamos da fazenda para o arraial de Itirapuã, foram diversas as vezes que o João ia lá, passava o dia bebendo, e a noite ia pra nossa casa, porém bêbado. Chegava cambaleando, e se meu pai não estivesse em casa minha mãe ficava brava com ele e o expulsava. Com aquilo ele ia dormir num lugar qualquer da rua. Quando meu pai se encontrava em casa ele logo o acolhia, dando-lhe café amargo para beber, e por fim dava-lhe pouso. Na segunda feira, mesmo tendo forte ressaca João Marcolino seguia a pé, para a fazenda do EL REGO que distava de Itirapuã, cerca de oito quilômetros.
Voltando a falar sobre aquelas terras, que formavam uma espécie de tapete retorcido, tendo ao centro a grota, mãe do EL REGO, meus pensamentos vasculhavam um período de tempo de uns doze anos, entre 1949 a 1961, tentando lembrar dos fatos marcantes que me ocorreram no REGO DE MINHA VIDA. Afinal eu ficava a imaginar, que minha vivência era como a água, que a partir do nascimento começava a correr por um rego especialmente feito e delineado por Deus, para seguir em sua corrente. Diante daqueles pensamentos, me parecia receber das entranhas do azul celeste, visto que o tempo estava limpo e ensolarado, as emanações divinas que me proporcionavam férteis lembranças de muitas ocorrências, geralmente sem teores de profundos sentimentos, pelo que eu me sentia embalado, a ponto de quase dormir ali, sob a árvore dos gambás.
Voltando a citar PULYN nesta literatura, eu gostava de vê-lo pular sob algum susto que eu lhe passava. Nas imediações da nossa casa e da própria colônia, havia mataréus, que era uma extensão da capoeira ciliar da grota. Ali era um habitat de cobras de várias espécies, entre elas as mais vistas eram as corais, com suas lindas cores de vermelho e cinza. As vezes eu pegava uma tira com aqueles coloridos e jogava em cima do PULYN que meio adormecido, acordava e dava um pulo tão magistral e bonito que me encantava. Acho que de vez em quando ele era atacado par alguma jiboia, que lá existiam muitas, e certamente ele se safava com tais pulos. Recordo-me que um dia vi ele atravessando a pinguela que cruzava EL REGO, no quintal de minha casa, e de repente ele veio em disparada, momento em que vi uma cobra de uma grossura enorme querendo pega-lo, ela porém veio até a beira do rego e dali desapareceu. Mas as cobras faziam suas peripécias por ali. Recordei-me de um dia, quando fui transpor a cerca que ficava mais próxima da grota, vi uma pequena cobra deslizando em alta velocidade tendo em seu encalço, uma outra de elevado tamanho. Diziam que na grota havia muitas daquelas grandes cobras, Jibóias e até sucurís que se alimentavam de outros animais, inclusive de cobras de tamanhos menores.
Falando das plantas próximas do EL REGO, me recordei de uma macaubeira, que ainda existe nas proximidades do lugar que havia nossa casa, Fora eu que a plantara em 1949. Os anos passaram e nunca me lembrara daquele fato, até que um dia, ha cerca de quinze anos atrás levei meus pais, que estavam velhinhos, para amainarem a saudade que tinham da colônia, e vi a macaubeira. O vento ao bater em suas folhas, parecia faze-la falar, me chamando a atenção. Na hora compreendi que com a passagem de aproximadamente 50 anos a castanha nascera, crescera e ali estava ela, altaneira e bela, ostentando dois belos cachos de cocos e contendo em seu longo caule milhares de espinhos, longos e pontiagudos. Na hora senti de escrever uma poesia, a qual intercalo aqui, porém me foi inspirada a mais de quinze anos. Dei-lhe o título de:
O PÉ DE MACAÚBA E O TEMPO
Quando eu tinha cinco anos,
ao andar numa campina
Vi um pé de macaúba,
que inspiraria esta rima.
Seu caule cheio de espinhos,
ia de baixo em cima!
Eu ainda era criança,
mas fazia pensamentos:
Uma árvore tão alta,
com espinhos a contento,
Com as folhagens em leques,
balançando com o vento!
Nela eu via também,
dois cachos com seus coquinhos,
E muito me admirava,
por ver tantos ali, juntinhos,
Que certamente era útil,
pra alimentar passarinhos!
Olhando ao chão em redor,
uma das frutas achei,
A sua casquinha dura,
com o dente eu quebrei,
E pelo cheiro que tinha,
de sua polpa provei.
Nos seguimentos do achado,
eu segui pra minha casa
Onde no quintal enterrei,
a castanha que levava,
Porém esqueci do fato,
e logo eu dali mudava!
Só depois de meio século,
àquelas plagas voltei
Das coisas do tempo antigo,
nem a casa encontrei,
Somente uma velha macaubeira,
por ali eu avistei.
Como um mistério no ar,
um som eu pude escutar
Era o vento sibilante,
em suas folhas a vibrar,
Como uma voz a dizer,
que fora eu a plantar.
Com perene alegria,
pusemo-nos a conversar
Ela, em tom de sentimento,
pôs-se ali a reclamar,
Sobre o tempo que passara,
sem eu nunca a visitar!
No som do vento eu senti,
que era a voz de Deus
Que nos deu vida a ambos,
no tempo que discorreu,
A semente que eu plantara,
naqueles anos cresceu!
Já eu, como um peregrino,
por muitas terras andei,
Fui picado por espinhos,
nos lugares em que passei,
Sem que jamais me lembrasse,
da castanha que enterrei!
Em meus fracos pensamentos,
surgiu um tema divino,
No qual eu dei glórias a Deus,
por ter me dado o destino
De encontrar viva a macaubeira,
que plantei, quando menino!
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Meu tempo sob a árvore dos gambás passava sem eu perceber, entretanto milhões de bits se armazenavam em meus pensamentos para que aos poucos eu pudesse continuar escrevendo, assim eu buscava fundo em minhas divagações, nas quais eu via como numa tela de cinema os momentos de minha vivência ocorrida há muitos anos atrás.
As vezes na atualidade eu tenho certas passagens, que se assemelham a algumas que tive quando criança. Dias atrás, numa de minhas viagens feitas de automóvel, eu seguia ao amanhecer do dia por uma parca estradinha lá no norte de minas, quando vi um tatu, tentando furar a terra. Parei o carro e sem que ele percebesse segurei em seu rabo, aquilo no sentido de brincar com ele. Ele teve um grande susto e acelerou tanto suas patas dianteira, que em cerca de trinta segundo desapareceu terra adentro. Lembrei-me que certa feita, aos meus sete anos eu fizera aquilo com um tatu bolinha. Ele estava procurando algum alimento na roça de milho que meu pai havia plantado e estava na hora da colheita. Ao ver o tatuzinho tentei pegá-lo, isto com o ideal de amansa-lo e agradá-lo, mas a esperteza dele foi tanto que se pôs a furar um buraco com tamanha rapidez, que em poucos segundos sumiu sob o solo. Nunca mais eu vi o bicho...
Na corrente da vida, mesmo eu sendo raquítico, entretanto eu era animado para tudo que intentava fazer. Assim eu levava uma vida de labores, as vezes ajudando meu pai e até uns tios que também moravam nas dependências da grande fazenda, porém num setor separado.
Sentado ao pé da árvore dos gambás, meu pensamento buscava na lembrança as ações de meu viver naquela idos anos da década de cinquenta. Recordava-me dos dois arraiais mais próximos dá colônia, que ficavam num leque, tendo Patrocínio Paulista à esquerda e Itirapuã à direita, contendo uma estrada numa espécie de alça, na qual a colônia ficava pendurada. As distâncias para ambas as cidades eram mais ou menos iguais, contendo cerca de doze quilômetros, sendo que na alça para Itirapuã, foi a que mais ocorreram fatos que memorizados, deu-me condições de escrever muitos acontecimentos a respeito.