Cinquenta e seis, cinquenta e sete, cinquenta e oito, cinquenta e nove, sessenta.
O sinal toca e o professor fecha a porta. Ninguém mais entra, provavelmente ninguém sai também de dentro dessa cadeia que chamam a sala de aula.
A carteira à minha frente está vazia e me pergunto onde Nash deve estar e o motivo de seu atraso ou de sua falta. Meus amigos me pergunta o motivo também e apenas digo que deve ter ocorrido algum imprevisto, ou ele não acordou com o despertador.
Ninguém sabe da grande novidade, não estou preparada para contar e nem sei se estarei pronta em algum momento.
Pondero a ideia de não contar nada à ninguém e no último dia de aula explicar tudo, talvez escrever algumas cartinhas e simplesmente partir. No entanto, não sei se seria justo com eles, nem comigo.
O professor começa a explicar como se faz o exercício do livro e apenas deito minha cabeça na mesa e rabisco algo em meu caderno. Meus pensamentos fluem enquanto ouço algumas vozes no fundo.
Me remexo procurando alguma posição confortável na cadeira, mas nunca acho. A primeira aula acaba e a segunda consegue ser mais entediante ainda. Nenhum sinal dele.
Então, o sinal toca. Pego meu material e saio rapidamente da sala, meu celular em minha mão, caderno e estojo na outra.
Ando rapidamente até meu armário, jogo tudo lá dentro, tranco e vou em direção à frente da escola.
Não sei o que estou fazendo, é tudo involuntário e logo meu dedo está acima do nome de Nash em minha lista de contatos.
Eu com certeza iria ligar para ele se alguém não tivesse esbarrado em mim com toda força. Já estava preparada para gritar algum palavrão, mas então reconheci o toque em minha cintura, olhei para cima e me deparei com os olhos azuis pelo qual sou tão apaixonada.
- Oi... – minha voz falhou enquanto eu ficava em pé novamente com sua ajuda.
- Oi pequena! – ele me abraçou como se dependesse daquilo para viver, retribui com força e inalei seu cheiro tão embriagante. Nos soltamos e nos olhando, sem saber o que fazer apenas fico quieta.
- Esse clima está péssimo, a gente tem que conversar! – ele exclama enquanto pega minha mão, apenas assinto e saímos andando até um lugar para conversarmos.
Sentamos na arquibancada da quadra, nesse horário parece que não há nenhuma aula de educação física. Estamos lado a lado e ele aperta minha mão.
Começo à imaginar que não terei isso por muito mais tempo, tudo o que vivemos, toda minha felicidade agora tem uma data para terminar, não sei se aguentarei passar por tudo sozinha. Respiro fundo afastando o pensamento, logo sua voz se faz presente.
- Parabéns... Você merece... – ele está claramente abalado, mas sei que vai tentar não demonstrar isso para não me chatear ou sei lá. – Já contou para os outros?
Nego com a cabeça, olho para ele que devolve um olhar intenso. Antes que eu me perca na imensidão azul fixo meu olhar na tabela de pontos a nossa frente, mas meu pensamento vaga no futuro.
- O que foi? Você não parece tão animada quanto achei que estaria...
- Nash... – respiro fundo tentando não chorar – Eu não sei se consigo. Você sabe mais do que ninguém que talvez eu não aguente, não posso deixar minha família, meus amigos, você para trás. Já fiz isso uma vez e não vou conseguir passar por tudo isso de novo. - suspiro- Meus pais estão tão alegres com a notícia e tenho certeza de que todos também ficarão, mas eu não estou tão animada assim, eu sei que tenho que pensar em mim primeiro e que isso é ótimo para mim, um sonho, mas não posso, não consigo...
- Hey, hey... calma... – ele passa a mão pela minha face tirando algumas lágrimas que devo ter começado a derramar enquanto desabafava. – Você não vai perder ninguém, muito menos abandonar. Todos vão continuar com você, sempre te apoiando e eu também. Te garanto que não vai ser fácil, com certeza vai doer e muito a despedida, mas não é um adeus, nunca vai ser, quem ama não abandona. Sua família vai estar aqui, sua mãe brigando com os gêmeos, seu pai trabalhando e assistindo todos os jogos de futebol que conseguir e eu esperando de braços abertos pronto para te receber de volta. – nos aproximamos e ele beija minha testa. Me aconchego em seus braços e me sinto em casa ali.
- Promete que dará tudo certo? – pergunto transbordando insegurança.
- Não... Eu não posso prometer isso, seu futuro não depende de mim, meu amor. Se dependesse eu juraria, prometeria, contrataria até uma vidente e daria um jeito de te mostrar... – sorri com sua frase enquanto ele acariciava minhas costas. – Mas não funciona assim, não posso dizer que Stanford vai ser perfeito, que você vai amar logo de cara, que não vai ser cansativo, que tudo será bom... As pessoas não são boas, pelo menos não todas, e com certeza vai ter aquela insuportável na sua turma. – rimos juntos e sequei minhas lágrimas novamente – Mas posso te prometer que estarei do seu lado, posso te prometer que se você me ligar e eu dou um jeito de surgir do seu lado em minutos. - ele segura meu rosto entre suas mãos - Ariella, eu te amo, não tenha essa insegurança, olhe ao seu redor, todos te apoiamos, e se isso não for o que quiser, fique tranquila ninguém irá te julgar. Faltam meses para acabar o último semestre e eu mal sei o que quero da minha vida. Não tenha medo...
Nos encaramos e mais uma vez eu tive a certeza de que o amava.
O sinal das próximas aulas tocou, mas não entramos em nenhuma, ficamos conversando sobre hipóteses de como seria o nosso futuro, sempre rindo dos absurdos que ele falava.
No final da aula decidimos que passaríamos o dia inteiro juntos, apenas para esquecer dos problemas, deixar algumas coisas para trás e curtir o momento. Iriamos fazer um piquenique no parque inicialmente, mas decidir o que comprar estava bem complicado.
- Mc Donald's é bem melhor que Burguer King! – eu argumentava e ele sempre rebatia.
- Seu gosto já foi muito melhor Ariella, lógico que BK é melhor!
- Claro que não! Você nunca come no Mc por isso acha que é ruim.
- Já comi várias vezes por sua causa ainda, hoje vamos no BK!
- Tudo bem então. Faremos um acordo. Você escolhe onde pegamos os lanches e depois eu escolho onde tomaremos sorvete. Fechado? – ele pensou um pouco e aceitou minha proposta no final.
Por final, passamos o almoço no parque comendo os lanches e conversando bastante.
Expliquei que teria que passar uma semana em Stanford para a faculdade me conhecer, ele achou legal até eu dizer que seria a semana do meu aniversário, sua reação foi hilária, ele cuspiu todo o refrigerante e achou que era mentira.
Fomos até uma sorveteria no centro da cidade comprar o sorvete, era um lugar italiano. Demos uma volta pela cidade e tiramos várias fotos zuadas e algumas fofinha também. Decidimos ver o pôr do sol no píer e depois iriamos para casa.
- Acha que eu de verdade vou me dar bem lá?
- Achei que iriamos esquecer esse assunto por hoje... - continuou a olhar para o horizonte enquanto eu o observava.
Estávamos sentados no píer, nossos sapatos ao nosso lado, com a água logo abaixo de nossos pés, de vez em quando uma onda molhava um pouco nossa perna, e o barulho do mar nos relaxava.
- Foi um dia perfeito, mas sabe que a noite eu sempre penso nos meus problemas.
- O sol ainda não se pôs, espere mais um pouco e aí terá sua resposta.
- Chato! – ele riu e me abraçou de lado. Ficamos assim até o sol encostar na água e um tempo depois desaparecer, deixando apenas um pouco de seus raios iluminando o céu estrelado.
- Eu acho que você irá se dar muito bem lá. Você tem capacidade, inteligência, organização, vocação... Tudo para ser uma aluna perfeita, e depois de anos, uma médica perfeita.
- E você? Não pensa em nada?
- Sei lá... – ele olhou para o horizonte, onde o mar parecia tão calmo quanto o momento em que estávamos. – Fiz inscrições em algumas faculdades, mas não sei ao certo o que irei fazer. Não consigo me identificar com algo para fazer o resto da vida sabe? – assenti e ficamos em silêncio mais um tempo.
- Te admiro tanto por isso... – ele me olhou e soube que não tinha entendido – A sua calmaria, o seu jeito de ver as coisas, de resolver tudo antes mesmo da confusão se formar, é brilhante. Eu te admiro e amo muito isso. – vi que ficou sem reação, então apenas sorriu e depositou um beijo em minha cabeça.
Foi ali, naquele breve momento, em que me senti perdida mas ao mesmo tempo achei meu caminho. Tudo parecia ter passado, meu desespero, o medo, a ansiosidade, tudo, porquê agora eu sabia que independente do que eu passasse, por mais difícil que fosse, Nash estaria ao meu lado.