O sol mal havia apontado no horizonte, mas sua luz suave entrara pela janela e me fizera despertar subitamente.
Não demorei mais que dois minutos deitada para recobrar os sentidos que havia perdido na noite anterior e seguir a diante com o que a muito tempo havia planejado.
Olhar o violino fora da capa ao lado do lindo vestido de linho preto, estendido sobre a poltrona no canto do quarto, me fez querer chorar novamente, mas dificilmente deti as lágrimas na borda dos olhos.
Tomei o rumo do banheiro, onde pude pouco demorar.
Coloquei o vestido e caminhei pelo quarto secando os cabelos na toalha, antes de enlaçar o all star vermelho nos meus pés para depois ir até a garagem e ver se fora lá que Drake (meu irmão) deixara a bicicleta da última vez em que usara.
Com o violino posto na capa, dirigi-me compulsivamente até o quarto de Drake para me certificar de que a febre da noite anterior não havia retornado.
Quase como uma pluma a minha mão pousara sobre sua testa e seu pescoço, meramente para não acordá-lo ou assustá-lo. Porém, de alguma forma eu o fizera despertar.
- Liza? - disse ainda com os olhos entreabertos, num tom sereno e quase inaudível.
- Só vim verificar sua temperatura - sussurrei, enquanto me inclinava para dar-lhe um beijo na testa.
Ele sorriu com a boca fechada e afastou com uma mão os cabelos que escorriam em sua testa.
- Como se sente? - perguntei ao me sentar na beira da cama.
- Melhor - respondeu após esfregar os olhos. - Aonde vai?
- Não muito longe daqui.
Achei bom não dizer onde exatamente iria e o que faria, mas não senti que aquilo fôsse errado. Sabia que mais cedo ou mais tarde ele me perguntaria.
- Você vem treinando uma única música no violino. Estive reparando. - Ele sorriu. - Também, ficar de molho quer dizer: você passar a se deleitar cada vez mais com os sons ao seu redor, isso sem falar nos livros que você acaba pegando para ler.
- Achava bom? - perguntei com entusiasmo.
- Sempre achei esplêndido a maneira como você toca.
- 'Esplêndido' - repeti, baixado o rosto - Mamãe disse essa palavra à mim a vida toda, quando acabava de tocar algo no violino. Até mesmo quando errava algumas notas.
- Já se faz dois anos.
Aquelas palavras pairaram em minha cabeça por um breve momento, pois me lembrei de não demorar ali.
- Preciso ir, Drake - disse, apagando uma lágrima que caía. - Vai ficar bem?
- Vou. - Ele sorriu. - E você?
Assenti forçando um sorriso.
- Então leve as flores com você.
Eu olhei para ao redor.
- Onde estão?
- Jennifer deve as ter deixado na porta entrada como lhe pedi.
- Quem é Jennifer? - perguntei, pondo a mão na maçaneta.
- Uma florista. Liguei para ela ontem de manhã.
- Como soube onde iria?
- Ultimamente você vem frequentando demais o cemitério. Mas não foi só por isso que eu supôs que você iria lá hoje. Se faz dois anos, desde a morte de nossos pais. E a música? - ele hesitou, mas logo continuou: - Não é Beethoven, é?
Sorri espontâneamente negando. Por fim, deixei que a porta fechasse a minhas costas.
Desci as escadas e passei pela sala ainda abafada por não estar com as janelas abertas, destranquei a porta e me deparei com um lindo e pequeno ramo de rosas amarelas num lindo vaso de vidro.
Agora estava pronta para ir, até me lembrar de voltar a subir as escadas para apanhar o violino.
Retirei as flores do vaso e as prendi na garupa da bicicleta, pois, por sorte, a bicicleta de Drake estava lá no mesmo lugar da garagem onde eu vira da última vez.
Hestitei em onde pôr o violino, até me dá conta que a alça da capa ajudaria se pendurada no guidom. Sendo assim, segui até o portão.
O ar frio e úmido que pairava aquela manhã fora efeito da chuva que caíra na noite anterior. Era meados de primavera, mas o inverno se fazia presente na maior parte do dia.
Pensei em voltar e pegar um casaco, mas resolvi não voltar. Geralmente aos domingos o cemitério costuma a ser mais frequentado do que o resto da semana, e geralmente por pessoas que acabam de sair das igrejas.
Montei na bicicleta e senti, ao pedalar, que minhas mãos cogelariam aos poucos. Estava muito mais frio do que eu havia imaginado, mas assim fora.
O vento cortara meu rosto levemente durante todo o trajeto, enquanto o sol se escondera em boa parte dele.
Nas ruas o silêncio era quase que ouvido, excepto pelos pássaros que sempre cantavam alegremente naquela estação e o balançar das árvores, que vezes sim vezes não, deixavam as folhas secas caírem e serem levadas e trazidas pelo vento.
Embora pequena, Vintage, ainda era uma das cidadezinhas, do sul da Carolina do Norte, mais visitadas pelos turistas durante o verão. E não era só pelo clima agradável, belas paisagens e hotelarias viáveis, acreditavam que aquele lugar era um refúgio perfeito; e ainda é.
Estava há poucos metros do cemitério quando vi um rapaz ruivo de sobretudo deixando o lugar e entrando num lindo carro preto de luxo, qual ele não dirigia. Decidi reduzir a velocidade da bicicleta até o carro dobrar a esquina.
Me senti insegura naquele momento.
Poderia ter ainda alguém ali.
Decidi deixar a bicicleta atrás de uma árvore, há poucos metros do cemitério, e retirar da garupa as flores, e do guidom o violino.
Senti que o vento frio continuava, só que não tão forte quanto antes.
Atravessei a rua rumo ao portão de entrada. Estava destrancado.
Sondei quase todo o cemitério, com cautela, para ter a certeza de que não havia alguém por ali. Por mais que só estivesse deixando flores ou fazendo qualquer outra coisa, não podia deixar que me visse.
A grama estava muito molhada. Meus tênis ficaram bastante sujos de grama e terra molhada. Mas aquilo não era relevante.
Uma parte do sol saía de dentro das nuvens quando deixei de lado a preocupação de estar sendo notada e me guiei até o sepulcro onde se encontra mortos meus pais. Senti que pouco me aqueceria, mas isso já era o bastante para quem já quase batia os queixos.
Fechei os meus olhos por um momento quando senti que as lágrimas já os inundavam.
Assentei as tulipas, com esmero, sobre o sepulcro e retirei da capa o lindo violino que meu pai me dera quando decidi entrar para a banda da escola. Havia se passado seis, desde então, mas sabia que o levaria comigo pelo resto da minha vida. Tê-lo comigo, assim como o vestido, é como ter um pedaço da vida que eu levara. Significa muito para mim.
Naquele momento meus soluços se confundiam aos acordes mal executados. Sentia cada vez mais forte a vontade de chorar. Era como se eu tivesse contido aquele momento por muito tempo. E simplesmente soube que de fato era.
Ao terminar de tocar, senti que minhas pernas se enfraqueceram subitamente (talvez por causa de não ter me alimentado aquela manhã). E quando senti uma imensa vontade de desfalecer, apoiei-me sobre o sepulcro.
Para não deixar o violino ser prejudicado pela minha vertigem, o coloquei na capa, novamente.
Apoiei-me novamente sobre o sepulcro, quando senti que alguém, a minhas costas, envolvera seu corpo contra o meu.
Num impulso, obriguei-me a afastar meu corpo de quem quer que fosse quem me segurara. Para minha surpresa, quem estava ali era o rapaz que eu havia visto saindo do cemitério.
- Você está bem? - perguntou ele se aproximando de mim, mas logo recuou um passo ao notar a estranha expressão que eu imagino ter feito.
Não respondi de imediato, fiquei apenas o observando me observando. Ele era diferente de qualquer garoto que eu já havia visto. Seus olhos me lembravam as castanhas cobertas de chocolate que papai trazia nos outonos para a gente comer durante o final da noite.
- Você está bem? - Insistiu ele, fazendo um estranho movimento com a cabeça ,qual pareceu compulsivo.
- Sim, obrigada - repondi, tomando o violino nas mãos e o rumo à saída.
Senti quando uma de suas mãos tocara suavemente sobre as minhas. Isso me fizera parar subitamente. E como se, lentamente, se pusera em minha frente.
Seus cabelos reluziam lindamente sobre a fraca luz solar, de modo que o deixara ainda mais alaranjado.
- Como se chama? - perguntou.
- Liza - respondi, puxando com força a minha mão que ainda estava presa a sua.
- Prazer, Justin.
Um vento frio à minhas costas me fizera tremer um pouco timidamente, mas ele notara.
- Posso te ajudar em algo, Liza? Você não me parece muito bem.
Hesitei por um momento, pois me sentia tonta outra vez.
Ele retirara o sobretudo e pusera sobre meus ombros, antes que eu pudesse pensar em me esquivar.
O sol se escondera naquele instante, levando consigo o brilho cintilante dos cabelos de Justin. Mas os olhos permaneceram castanhos e impenetráveis.
Contraí os lábios antes de negar com a cabeça e agradecer.
Justin colocara uma mão gelída sobre minha bochecha naquele momento. Até poderia ter me afastado, mas achei que não havia problemas (até porque eu estava quase que me apaixonando por ele).
Então fechei os olhos para me deleitar com o o cheiro que emanava de seu corpo (qual antes não havia percebido). Era uma mistura suave de café expresso com um perfume masculino, qual eu nunca me esqueceria.
Abri os olhos novamente quando senti que ele retirara sua mão do meu rosto e regressara dois passos.
- Obrigada, Justin. Tenho que ir.
Quando fiz menção de tirar o sobretudo, logo, me impediu.
- Eu não vou precisar agora. - disse sorrindo. - Posso lhe acompanhar, se quiser.
- Mas nem te conheço - contestei.
Ele sorriu novamente.
- Não vou conseguir ficar aqui vendo você partir sem mim.
Na hora, aquelas palavras se embaralharam na minha cabeça, mas não fizeram sentido algum.
- Confie em mim.
Eu colocara os braços dentro das mangas do sobretudo enquanto dizia:
- Me deixaria em paz após isso?
- Você odeia o fato de eu querer te levar para casa, não é? - perguntou, ignorando a minha pergunta.
- Sim - repondi, enquanto afastava uma impertinente mecha de cabelo que oscilava sobre o meu rosto.
Ele desviou o olhar por um instante.
Eu me sentia tonta outra vez, e Justin havia percebido.
- É melhor você se sentar por um momento, Liza. Eu não posso demorar aqui, mas quero ajudá-la.
Justin, então, me acompanhou até o outro lado do cemitério, onde havia alguns bancos antigos de madeiras.
- Por que voltou aqui? - perguntei ao sentarmos no banco.
Justin colocara uma mão no bolso direito de seu jeans e retirou de lá uma barrinha de cereal ainda não aberta.
- Como sabe que eu estive aqui? - perguntou, ignorando novamente minha pergunta.
- Bom, eu vi quando você saiu.
Justin abria cuidadosamente a embalagem do produto, enquanto me observava de rabo de olho.
- É de banana com uvas passas - disse, quando me ofereceu. - Você deve estar precisando.
- Obrigada.
Justin me esperou dá a primeira mordida para começar a se explicar...
- Você acredita em destino? - perguntou, enquanto girava um anel de prata que ele havia retirado do bolso.
Ainda mastigava lentamente o primeiro pedaço barrinha, mas ele esperava por minha resposta.
- Talvez - disse, finalmente.
Ele levou os olhos a minha face e sorriu com a boca fechada.
- Até há poucos minutos também achava isso.
- A pergunta foi o início de explicação do motivo de você estar aqui?
- Talvez - disse, ao voltar o olhar para o anel. - Estive aqui, talvez, pelo mesmo motivo seu.
Quando eu me preparava para dizer algo sobre o que ele havia afirmado, me deti ao vê-lo guardando o anel.
- Só voltei aqui por causa disto - ele se referia ao anel. - Mas quando a ouvi tocando... Enfim...
Naquele momento, me perdi por completo em meus pensamentos. ***