Seria apenas mais uma noite normal de verão se não fosse pela forte tempestade que estava acontecendo e o som incessante do choro de Lincoln Scofield, apenas dois dias após perder sua esposa Sarah e sua filha recém nascida após complicações no parto. Sentado em uma cadeira na cozinha e com uma garrafa de whisky na mesa, o que lhe restava era se embriagar e lamentar as suas perdas recentes.
As lembranças da esposa gravida não saiam de sua cabeça, ainda mais depois de vê-la falecer naquela mesa de cirurgia, olhava pra sua garrafa de whisky e pensava com ele mesmo que apenas uma garrava não seria o suficiente.
Fazia alguns duas dias que Lincoln não tomava banho, o cheiro do whisky e de outras bebidas que já tivera tomado já tomava conta do seu corpo, a dias que não ia pro trabalho, a casa estava toda bagunçada após um ataque de fúria ao chegar do enterro de sua família. A dor que sentia era imensa e a única saída que encontrou era tirar sua própria vida e se juntar com sua família.
Lincoln correu para seu quarto e ao abrir a porta paralisou, olhou os retratos de Sarah no criado mudo ao lado da cama de casal deles e outros pendurados na parede. Sentiu um aperto enorme no peito ao lembrar-se dela vestida de branco no dia do casamento, a felicidade ao olhar pra ela após dizer "Sim!" e os meses incríveis que viveram juntos.
Revirou o armário de roupas até encontrar o velho revolver calibre 38 que ganhara de seu pais antes de morrer, recarregou-o com apenas uma bala, a única que precisava para tirar a própria vida e quando estava prestes a puxar o gatilho ouviu algo que o fez parar, pensou estar delirando mas ouviu aquele som novamente agora um pouco mais alto, jogou a arma no chão e foi procurar o lugar de onde saia aquele som e ao se aproximar da porta da frente de sua casa, a viu aberta e foi se aproximando devagar até olhar pro chão e ver que o barulho vinha do choro de uma criança recém nascida que estava num cesto coberto com mantos e cobertores para o aquecer daquela fria tempestade.
Lincoln pegou o bebê em seus braços, viu aquilo como um presente de Deus para consola-lo de suas perdas. A criança tinha a pele morena com os olhos e cabelo tão negros quanto um céu noturno sem estrelas e ao ser pega por Lincoln parou de chorar e logo dormiu em seus braços, olhou para o cesto e viu um bilhete escondido entre as cobertas, pegou-o e leu a mensagem:
"Por favor, cuide bem do meu pequeno Jhonnathan."
*****
Sabe quando você já acorda animado, disposto e com um sorriso no rosto? Era exatamente assim que Jhonnathan acordou naquele 25 de março. Levantou-se e saiu correndo para o banheiro; tomou um banho, escovou seus dentes, se arrumou e desceu correndo para a cozinha, onde encontrou Lincoln, seu pai, preparando algo para eles comerem
- Bom dia, Jhonny! - Disse seu pai animado.
- Bom dia pai!
- Parece que acordou animado hoje.
- Não é todo dia que se faz 18 anos - Respondeu Jhonnathan e ambos sorriram.
- Então... Eu estava pensando... Que tal sairmos hoje à noite? Um programa de pai pra filho para lembrar dos seus velhos tempos de criança... - Disse Lincoln meio se jeito se aproximando e colocando o café sobre a mesa.
- É... Então, pai... Seria uma boa, mas... Eu já marquei de sair com a galera, eles combinaram isso há um tempo já e não seria legal desmarcar. Mas que tal amanhã? A gente vai pra um barzinho, até porque eu já tenho 18 e posso beber socialmente - Disse Jhonny com leve sorriso no rosto. - e relembrar os velhos tempos.
Lincoln apenas concordou balançando a cabeça e voltou a preparar as coisas para o café.
Antes de sair de casa para ir pra faculdade, Jhonny deu uma breve olhada no espelho; a cor escura de seus cabelos e o negro profundo de seus olhos se destacavam, mesmo com a pele morena. Com apenas 18 anos de idade, Jhonny até aparentava ser mais velho, pois sua barba cobria boa parte de seu rosto; olhou para o seu corpo e lembrou do menino gordinho que era na infância, das brincadeiras de mal gosto que faziam com ele e dos apelidos que recebia. Mas agora tudo tinha mudado, a barriguinha gorda deu lugar a um abdômen definido e com os braços musculosos, Jhonny agora era popular e fazia sucesso com as garotas.
*****
Jhonny se encontra com seus amigos Alex e Brad antes das aulas e começam a conversar sobre o programa de hoje à noite.
- Cara, você não tá ligado na festa que a gente armou, vai ter muitas garotas e bebidas, vai ser a melhor festa de sua vida! - Disse Brad animado.
- Festa? Como assim festa? A gente não ia sair só a gente pra tomar umas? - Respondeu Jhonny confuso.
- Era isso que queríamos que pensasse que fosse, mas o estraga prazer ai acabou estragando a surpresa. - Comentou Alex após dar um soco no ombro de Brad.
Durante as aulas, Jhonny ouvia comentários por todos os lados sobre uma festa de aniversário que teria naquela noite e concluiu que, se Brad não tivesse contado, ele descobriria do mesmo jeito, e assim foi o resto do dia, todo mundo sabia da festa, mas Jhonny não estava tão animado, algo no fundo do seu peito dizia que era melhor ir comemorar com seu pai, mas ele ignorou esse pensamento e foi pra casa tomar um banho.
Ao chegar em casa, notou que seu pai ainda estava trabalhando, ele era um policial famoso na cidade de São Paulo por prender vários criminosos perigosos. Jhonny foi para seu quarto, abriu a janela e deu uma bela olhada no lugar. A cama desarrumada cheia de cobertores e lençóis usados na noite fria passada, várias roupas jogadas no chão misturadas com meias e tênis que dificultavam a passagem até o criado mudo do lado de sua cama onde colocou seu celular para carregar. Pegou seu notebook, deitou em sua cama, revisou alguns trabalhos feitos para a faculdade, uns prontos e outros ainda nem perto de terminar e por fim foi para o seu armário escolher a roupa que usaria em sua festa, pegou uma camiseta preta normal, uma calça jeans, uma cueca qualquer e foi para o banheiro.
Minutos depois de entrar, Jhonny saiu do banheiro quase pronto, faltava apenas por um tênis, seu boné e sair. Ante de sair, pegou sua carteira, seu celular e olhou para o retrato de sua falecida mãe, ou para a pessoa que ele pensava ser sua falecida mãe e então saiu, ainda sentindo aquela sensação de que não deveria sair
Alguns metros à frente de sua casa, notou a presença de dois homens, um loiro de olhos azuis e o outro era careca e com os olhos castanhos vestidos com ternos e sapatos brancos parados o encarando e depois saíram andando na direção oposta, Jhonny achou aquilo um pouco estranho, mas logo deixou pra lá e foi para sua festa.
*****
- Velho, quem são todas essas pessoas? - Disse Jhonny rindo olhando para a cara dos amigos já bêbados e a festa ainda nem tinha começado direito. - Eu não conheço nem metade das pessoas que estão aqui.
- Nem a gente. - Respondeu Brad rindo, com um copo de alguma bebida que Jhonny não fazia ideia de que era. - Mas olha quanta garotas lindas, isso é o paraíso!
- E de quem é essa casa? - Era uma casa enorme, três andares, uma piscina gigante onde já tinha várias pessoas nadando e uma cozinha enorme onde se encontrava inúmeras pessoas bebendo.
- Meu tio Bruce é rico e foi viajar. - Disse Alex. - Então eu contei que era a festa de aniversário de um amigo meu e ele liberou, mas com a condição de ela estar limpa quando ele voltar, então não pensem que vou fazer isso sozinho, vocês vão ajudar, e boa parte das pessoas que conhecemos também.
Jhonny se afastou um pouco dos amigos e começou a caminhar sozinho em volta da piscina, várias garotas o chamava para entrar, mas ele recusava, o pensamento de que não era para ele estar ali tinha voltado, mas dessa vez veio com uma forte dor no peito, como se alguém tivesse posto um ferro quente sobre seu peito e começasse a desenhar algo, ele abaixou a gola de sua camisa e viu que uma marca tinha aparecido no eu peito esquerdo, e parecia ainda não estar completa, a marca ainda parecia estar se desenhando no seu peito e aquilo se causava uma dor inimaginável, saiu procurar por Alex e Brad mas não achou nenhum dos dois, então decidiu voltar pra casa, antes que algo pior acontecesse.
No caminho de volta a dor já tinha tomado conta de seu peito, ombros e abdômen, olhou em sua volta e tudo parecia fora de foco, as luzes da cidade e dos carros pareciam embaçadas em sua vista, os sons pareciam estar distantes, não conseguiu ouvir a buzina de um carro quando ele atravessou uma avenida movimentada e quase foi atropelado. Coisas sem sentidos vinham em seus pensamentos, imagens de anjos com suas grandes asas brancas segurando grandes espadas nas mãos como se estivessem prontos para uma grande batalha e lembrou dos dois homens de branco que viu antes de sair de casa, nada daquilo parecia fazer sentido, a dor e as alucinações só aumentavam, parecia estar bêbado ou drogado, provavelmente era o que as pessoas pensavam quando o viam andando cambaleando pelas ruas sem prestar muita atenção no que fazia.
Parou em uma rua escura não muito longe da sua casa e olhou novamente para seu peito, o desenho estranho parecia estar completo, aquilo brilhava como brasa quente, e ardia da mesma forma, era como uma tatuagem feita a ferro e fogo, não tinha menor ideia do que aquilo significava, tirou toda a camisa para que pudesse ver a marca por completo: eram duas asas, uma em cada lado do peito que acabavam em seus ombros, cortadas no meio por uma espada que começava, logo abaixo do seu pescoço e acabava no fim do seu abdômen. Aquilo era muito estranho para Jhonny, não conseguia entender o que estava acontecendo, mas algo no fundo da sua consciência estava admirado com aquela marca. A dor diminuía aos poucos e o brilho também, agora podia ver a verdadeira cor daquilo, essas novas e estranhas linhas que marcavam seu corpo, eram tão negras quanto seus olhos.
Depois de ficar um tempo tentando encontrar sentido em tudo que havia acontecido, vestiu sua camisa e tomou seu caminho de volta para casa e não demorou muito até que chegasse, ele parou em frente ao seu portão e lembrou daquela imagem de anjos preparados pra uma grande batalha, olhou para onde tinha visto aqueles dois homens parados, tentava entender o porquê de ter visto esses homens em sua alucinação, mas não conseguia pensar em nada, e então balançou sua cabeça, abriu o portão de sua casa e entrou.
Jhonny não sabia se contava para o seu pai o que havia acontecido com ele, até por que o pai podia não acreditar, pois não iria fazer sentido algum e então ao abrir a porta de sua casa, a encontrou toda revirada, o sofá da sala estava rasgado, a televisão toda trincada, vários objetos de decoração como a estante, os vasos de flores e os retratos de família estava aos pedaços no chão e o desespero tomou conta de Jhonny.
- Mas o que... Pai? ... PAAAAAI? - Saiu correndo desesperado procurando seu pai pela casa, até ouvir um barulho vindo do quarto dele.
Ao chegar, viu novamente dois homens vestido de branco, mas agora o terno estava manchado de vermelho. Os homens olharam para Jhonny com um sorriso e então o homem careca disse:
- Olá, Jhonnathan.
- Quem são vocês? - Perguntou Jhonny desesperado. - O que faz aqui? Onde está o meu pai?
- Calma, meu jovem, daqui a pouco você o encontará e todas as suas perguntas serão respondidas. - Respondeu o homem careca se aproximando devagar.
Jhonny correu até o armário de roupas de seu pai, sabia que em algum lugar tinha um revolver, pois uma vez o achou e levou uma bronca de seu pai ao contar o que descobriu. Ao achar o revolver, ele o apontou para o homem que se aproximava e gritou:
- Eu perguntei: Quem são vocês e onde está o meu pai?
- Calma garoto, deixe-me nos apresentar. - Disse o homem loiro pela primeira vez desde que Jhonny apareceu no quarto. - Eu sou Zuriel, e esse para o qual você está apontando essa arma, é Samandriel, fomos enviados aqui para cuidar de você.
- Cuidar de mim? Quem os enviou? Onde está o meu pai?
- Você faz perguntas de mais, garoto. - Disse o Samandriel com um olhar sério para Jhonny. - É irritante igual o seu pai.
- Você não sabe nada do meu pai!
A raiva explodiu dentro de Jhonny, a preocupação o desespero de saber onde estava seu pai já não cabia mais dentro de si, então ele puxou o gatilho. A bala foi em direção a testa de Samandriel que ao ser atingido, sorriu, o tiro não lhe causou nenhum dano ao estranho.
- Se procura o homem que o enganou por toda a sua vida se dizendo ser seu pai, ele está morto, ou quase. - Zuriel disse apontando para o canto do quarto, do lado da cama de seu pai onde notava-se manchas de sangue espalhadas pela cama, paredes e pelo chão. - Mas não é desse homem que Samandriel se referiu.
Jhonny ao ver as manchas vermelhas, correu até o canto do quarto e encontrou seu pai gravemente ferido no peito e com vários hematomas no rosto o deixando completamente ensanguentado o pegou e o pôs em seus braços.
- O QUE VOCÊS FIZERAM COM MEU PAI!?!?! - Gritou Jhonny sentindo seu corpo queimar da mesma forma que queimara quando as marcas começaram a aparecer minutos antes de chegar em casa, com tudo que estava acontecendo naquele momento, ele até esquecera aquela marca, que agora voltava a queimar em seu corpo.
- Ele não é seu pai. - Disse Samandriel olhando seriamente para uma pequena adaga de cabo branco e a lâmina coberta de sangue, que Jhonny logo deduziu que foi com aquela adaga que perfuraram o peito de seu pai. - Não o seu verdadeiro pai.
- O que você está dizendo? - Perguntou Jhonny, olhando para Samandriel confuso com o que tinha acabado de escutar. - Como assim ele não é meu verdadeiro pai? Você não sabe nada de mim! E não sabe nada do meu pai!
Jhonny sentiu um leve toque em seu rosto e ao olhar, viu seu pai com os olhos levemente abertos
- Filho... - Lincoln disse com a voz fraca.
- Pai, vai ficar tudo bem, eu vou te tirar daqui
- Não... Eu preciso te dizer...
- Não diz nada, não se esforce, eu vou dar um jeito
- Ele... ele tem razão... filho... eu não sou... seu verdadeiro... pai...
- O que?
- Eu te amo... meu filho...
- Pai! O que você está dizendo? Me explica o que está acontecendo?
- Fuja...
Então os olhos de Lincoln se fecharam e sua mão, que estava no rosto de seu filho, caiu no chão. Jhonny sentiu seu corpo queimar ainda mais do que já queimava, as marcas que haviam aparecido nele começavam a brilhar e de repente uma explosão de luz branca tomou conta de todo o quarto.
- PAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI!