IZZAT

By PatrciaGalucio

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Durante uma onda de ataques terroristas que assolavam a Europa, Paris tornou-se uma cidade desolada. A políci... More

Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Epílogo

Capítulo 1

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By PatrciaGalucio

Seus olhos ardiam. Ele os cerrava o máximo que podia sem perder a visibilidade mas, ainda assim ardiam. Apesar disso, a luz não o incomodava. Pelo contrário, há meses esperava, ansioso, por esse momento. A brisa refrescante que soprava era um bálsamo para a sua dor e um lembrete de que chegara a hora de recomeçar.

Deu alguns passos, tonto pela maresia. Seu corpo ainda buscava o equilíbrio em terra firme ao tempo em que sentia que a qualquer momento vomitaria. Suas vísceras rangiam, talvez pela instabilidade sentida no helicóptero que o transportara até o continente ou então, pela imprevisibilidade do momento.

Ele caminhava devagar pelo estreito corredor cercado por grades altas e escoltado por dois agentes federais. Um deles carregava uma mochila, enquanto o outro sacudia um molho de chaves, cujo tilintar estridente demonstrava que em seu poder havia muito mais do que alguns gramas de metal; havia a liberdade. Com as mãos unidas à frente do corpo, rodeadas por algemas, levantou os braços devagar para livrar a visão da franja que caia sobre sua face. Não via a hora de se livrar dela de uma vez por todas. Mas isso era o menor de todos os seus problemas.

Parou diante do último portão. Um dos agentes se aproximou da fechadura e deslizou um cartão magnético sobre o leitor. Logo o barulho do destravamento foi ouvido. Do outro lado não havia rangidos, lamentações e tristeza. Depois de viver o inferno na Terra, sentia-se diante do paraíso. O agente que portava as chaves se aproximou e olhou pra ele com uma feição enigmática. Um olhar duro, porém piedoso. Procurou, com uma tranquilidade inoportuna para o momento, a chave que abriria as algemas. A demora fez o coração de Izzat disparar. Uniu as sobrancelhas enquanto soltava o ar pela boca, impaciente. Não queria ficar um minuto sequer além do que lhe era requerido pelo governo. Por fim, o homem encontrou a chave e a enfiou no pequeno fecho. Girou para direita e puxou o acessório.

Os olhos de Izzat brilharam ao ver a linda Paris, em plena primavera. Era cedo. A manhã ainda estava pela metade. O céu estava num tom de azul belíssimo. Decerto, depois de meses de frio, cinza e escuridão, a primavera chegou trazendo uma explosão de flores e de alegria. A cidade estava cheia de canteiros de tulipas e de gramados repletos por margaridas. Flores em vários tons de rosas pipocavam em cerejeiras, e depois que caíam, formando belos tapetes coloridos pela rua. Cada esquina, cada beco, cada lugar, produzia uma cena digna de ser pintada por qualquer artista.

Deu um passo e sentiu a liberdade. Depois de colocar a mochila nas costas, olhou para os lados e não viu ninguém. Estava só. Engoliu em seco e olhou para o céu. Sentiu a angústia o dominar. O medo da rejeição o fez desejar desaparecer. Fechou os punhos e decidiu encontrar um lugar distante para viver e recomeçar, onde não precisasse ser alvo dos olhares severos do seu pai. Se pudesse, voltaria para a Inglaterra e terminaria seus estudos: tudo o que mais gostava de fazer na vida; mas foi proibido de sair do país. Era, agora, um homem marcado.

A liberdade passou a ser um peso. Um desafio. De que lhe valeria a liberdade quando sua mente é cativa de lembranças que lhe amordaçam a alma? Sentou-se na calçada, sem direção. De cabeça baixa, ouviu o som da buzina. Ergueu o rosto e um alívio tomou conta do seu corpo. Sorriu ao ver Daleeu, seu amigo de infância, fazendo sinal com a mão. Levantou e caminhou até o carro.

- Está precisando de carona? - disse Daleeu com o vasto sorriso.

Daleeu saiu do carro e caminhou até ele. Deu-lhe um forte abraço e um beijo na bochecha.

- Irmão, que saudades! - Izzat falou.

- Também senti muito sua falta. Vamos, estamos atrasados.

Izzat entrou no carro um pouco mais animado. Durante a viagem, observou cada detalhe da cidade e, apesar de ter ficado longe por apenas nove meses, tudo parecia muito diferente. Embora estivesse na primavera, era como se Paris tivesse com as cores mais vibrantes do que o esperado, um tom acima do que estava acostumado. Mas a mudança, de fato, não ocorrera com ambiente, e sim, com o ponto de vista. Ele era um novo homem e não podia negar isso.

Por anos viveu no seu mundinho fechado e antissocial do laboratório da universidade. Quase se tornou um doutor em Bioquímica pela Universidade de Oxford. Nunca se preocupou muito com política, relacionamentos e muito menos, religião, apesar de se considerar um muçulmano praticante. Seguia todos os ritos sem questionar; fora criado para isso, e sentia-se feliz em obedecê-los. Porém, nunca se aprofundou na fé. Fazia mais como hábito do que como um ritual de libertação e aproximação com seu deus. No entanto, tudo isso mudou.

Ele desceu do carro em frente à casa dos pais, em Gennevilliers, um subúrbio de Paris, habitado por maioria árabe e lugar escolhido pelo avô quando imigrou da Turquia com seus filhos adolescentes, nos anos 60. Olhou para a rua, onde correu de bicicleta e jogou futebol na infância e estranhou o fato de haver muitos veículos estacionados.

Logo ouviu um grito vindo do quintal: La ilaha illal-lah que significa "Não há outra divindade além de Alá". Não demorou e pessoas surgiram por todas as saídas da casa para cumprimentá-lo, bradando a mesma frase. Sua mãe passou pela porta e correu até ele. O abraçou forte e com o rosto banhado de lágrimas.

Izzat paralisou. Seu coração acelerou, confuso. Seus amigos o cercaram e guiaram-no até o pequeno quintal da propriedade onde percebeu, surpreso, que haviam preparado uma festa. Mas como? Por que fariam isso para quem lhes proporcionou tanta tristeza? Talvez ele preferisse a rejeição. Quem sabe seria o mais digno para alguém que colocou a honra acima do amor e do perdão.

Há quem diga que o amor é a força mais poderosa que existe. Talvez para muitos, sim, mas para Izzat nenhum outro sentimento foi mais forte do que o ódio e o desejo de vingança. Desejo, este, que o fez passar os piores dias da sua vida na prisão Cassandra: fruto de um acordo entre os países europeus que enfrentavam uma onda de ataques terroristas, e que, a fim de não ferir nenhum dos direitos humanos previstos em suas constituições, a instalaram em um grande navio que geralmente navegava entre as águas do Atlântico Norte e do Mar do Norte. Uma vez nela, você estava lançado à própria sorte e a mercê de todo o tipo de praticas cruéis, tidas como necessárias para combater o terrorismo. Poucos, de fato, foram muito poucos os que saíram dela, e por mais estranho que parecesse, Izzat conseguiu. Segundo as autoridades francesas não tiveram como provar sua participação em nenhum esquema terrorista.

Ele estava em casa diante do seu pai. O ser que mais lhe deu amor e educação; por quem tinha extremo respeito e admiração. Os olhos do senhor Raaji estavam duros, cansados, e, de certa forma, decepcionados. Na mira de todos os olhares silenciosos, os dois fitavam-se severamente. Izzat o encarava pedindo clemência, afinal, tal como ele mesmo, seu pai sabia que era culpado. Só não conseguia imaginar se os demais também sabiam de sua falta, ou se o homenageavam justamente por ela.

- Oi, pai! - disse a fim de quebrar o silêncio constrangedor.

Raaji passou a mão na cabeça, como se pedisse forças para ser piedoso. Deu alguns passos se aproximando e o abraçou. A princípio, um abraço fraco, receoso, mas que logo se intensificou enquanto lágrimas escorriam pelo rosto dos dois. Depois de alguns instantes, olhou para o filho e falou:

- Prometa-me que nunca nos decepcionará novamente.

Izzat virou o rosto e fitou o chão, mudo. O silêncio foi a forma que pôde expressar a vergonha que sentia em seu peito. Raaji abaixou a cabeça para disfarçar o choro. Sabia que o filho aprendera a lição a duras penas. O encarou novamente, dizendo:

-Eu sei, filho. Se pudesse... sofreria tudo o que sofreu no seu lugar. Temi tanto por sua vida; desejei tanto que estivesse aqui; sua mãe e eu choramos tantas noites seguidas - esfregou a testa como se desejasse arrancar as lembranças. - Quero que volte para Oxford e termine seus estudos - com as duas mãos, segurou-lhe o maxilar. - Você é um cientista brilhante, sempre nos encheu de muito orgulho. Não podemos deixar que esse incidente atrapalhe sua carreira.

Izzat abaixou a cabeça, sem reação, enquanto sentia o pai se distanciar. Raaji era um homem rústico, sem estudos. Mas, desfrutara de uma educação familiar exemplar. Com muito sacrifício, criara seus três filhos em caminhos retos. Suas virtudes eram inumeráveis. Um exemplo de pai, marido e muçulmano fiel. Ele caminhou até a estante da sala de jantar, abriu uma gaveta e pegou um envelope. Voltou-se para o filho e disse:

- Estive em Oxford no mês passado. Fui pessoalmente à universidade. Expliquei que você seria liberado em dias e que desejava voltar para terminar o PhD. O coordenador do curso foi muito atencioso e compreensivo. Fez um pedido diretamente ao reitor solicitando sua readmissão - sorriu, enquanto olhava para o filho, que estava com os olhos arregalados e com a respiração lenta. - Eles o aceitaram de volta. - estendeu o braço com a carta de readmissão na mão, esperando um abraço em comemoração.

Diante de todos, o rapaz não reagiu da maneira esperada. Tentou esboçar um sorriso ao pegar o envelope, mas fracassou. Passou a mão pelo cabelo, tentando, mais uma vez, em vão, colocá-los para trás enquanto percebia o olhar do seu pai se transformar diante de sua hesitação.

- Obrigado, pai!, mas não voltarei para Oxford, ainda - o homem balançou a cabeça com um olhar incrédulo e antes mesmo que fizesse a pergunta obvia, Izzat continuou: - quero me casar.

Um murmúrio se seguiu; as pessoas se encaravam enquanto trocavam sorrisos admirados; sua mãe soltou um grito de alegria: Subhana Allah (Glorificado seja Alá). Mal podia acreditar que agora o seu único filho homem desejava construir uma família e recomeçar a vida de modo tão sublime. Sonhava todos os dias em ver sua casa cheia de netos, porém, a morte do seu filho mais velho, o desinteresse de Izzat em sair dos laboratórios e a pouca idade de sua filha, lhe causavam arrepios ao pensar que isso não aconteceria tão cedo. - Já passei do tempo de fazer isso - disse ele, enquanto via o pai ainda mudo. - Sei que sempre foi isso que o senhor e a mãe quiseram que fizesse, antes mesmo de começar o PhD... pois, bem, chegou a hora.

O semblante do seu pai se transformou, enquanto uma lágrima solitária escorria por sua face. Finalmente Alá demonstrava compaixão por sua família e os abençoava de maneira abundante.

Durante a refeição, as conversas acaloradas não cessaram. Todos conjecturavam sobre quem poderia ser a futura senhora Izzat Kaya Hassan, o que se dependesse das moças da comunidade árabe, pretendentes não faltariam, já que o rapaz é o que poderíamos achar, a representação do mais belo espécime otomano: alto, atlético, queixo quadrado, ombros largos, além de possuir um leve tom caramelado na pele que se harmonizava divinamente com seus olhos avelã. Embora só recentemente houvesse ultrapassado os trinta, era um cientista promissor e conhecido na comunidade acadêmica. Além disso, tinha a mente aberta e moderna. Era obediente aos pais, o que, decerto, o tornaria cuidadoso com sua esposa. Mas isso, como já foi dito, não era algo que delas dependesse.

Enquanto as suposições e sugestões surgiam de todos os lados, ele olhava fixamente para o relógio da parede da sala de jantar; não prestava atenção nas histórias que o seu primo Almir contava, nem ligava para as guloseimas que a todo instante sua irmã lhe oferecia. Sua mente estava distante, como se estivesse em outra dimensão e como se todos em volta estivessem falado de qualquer outra coisa que não lhe dissesse respeito. Engoliu saliva enquanto tentava visualizar a sua mochila. Precisava pegá-la e levá-la para um lugar seguro. Levantou-se e caminhou com passos leves, tentando ser o mais discreto possível. Pegou a mochila de cima do sofá e subiu as escadas em direção ao seu quarto.

Depois de entrar, fechou a porta e o silêncio o envolveu. Olhou para os lados e viu, admirado, que tudo estava exatamente como ele havia deixado. Até mesmo o relógio que desistiu de usar na noite em que fora preso continuava em cima da mesa de estudos. Colocou a mochila na poltrona, jogou-se na cama e sentiu o perfume de lavanda que exalava dos lençóis. Respirou fundo enquanto os ossos de sua coluna se acomodavam confortavelmente sobre o colchão. Agradeceu por não ter de dormir mais naquele lugar sombrio, fétido e aterrorizante.

Cruzou os braços sob a nuca, suspirou fundo e lembrou-se dos últimos momentos na prisão. Olhou para a mochila com os olhos semicerrados. Levantou-se da cama e a pegou. Depois de abri-la, jogou seu conteúdo sobre a cama. Viu alguns pertences que possuía no momento da sua prisão. Revirou todos os bolsos e não encontrou nada. Coçou a testa, incomodado. Abriu novamente todos os bolsos da mochila e não achou o que procurava. Jogou a mochila no chão, preocupado. De repente, lembrou-se que faltava conferir as alças. Abriu a gaveta da escrivaninha e encontrou uma tesoura. Sem demora, cortou as alças e o preenchimento de esponja. Sentou-se na cama e começou a revirar a esponja. Enfim, encontrou o celular e com ele, um pequeno cabo. Balançou a cabeça como se não acreditasse.

Sem avisar, seu pai abriu a porta. Izzat colocou o telefone debaixo do travesseiro. O homem não percebeu sua atitude suspeita, mas estranhou o fato da mochila estar despedaçada.

- O que houve aqui?

- Nada! Fiquei com medo que a polícia tivesse colocado alguma escuta na mochila. Não posso confiar.

- E se tivessem colocado, o que eles escutariam?

Izzat encarou o pai demonstrando que não gostara da pergunta.

- Percebo que não sou digno da sua confiança, pai. - semicerrou os olhos enquanto o encarava.

- Não é isso, filho. Só quero que esqueça as tristezas e tente recomeçar. Esqueça essa vingança boba. Ela não nos trará o seu irmão de volta. Se você realmente o ama... seja feliz. Viva a vida que ele não teve a chance de viver. Case-se e tenha filhos. Experimente o maior amor que existe. Nada pode ser mais belo do que o amor de um pai e de um marido por sua família. Por eles, será capaz de morrer... e por eles, desejará ter forças para viver. Entenderá o que realmente é importante na vida de um homem. E, por isso, vale a pena qualquer sacrifício.

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