Elle Martins
Deitada na cama, fiquei um tempo observando o teto do quarto enquanto pensava e tentava descobrir o que estava acontecendo comigo... Nem percebi quando adormeci.
***[...]***
- Elle... acorde. - escutei uma voz me chamar.
Continuei com os olhos fechados querendo voltar a dormir.
- Elle! - me balançou.
- Hummmm... - resmunguei.
- Acorde...
Massageei meus olhos, tentando espantar o sono, e os abri de pouco em pouco levando um tempo para me acostumar com a claridade que vinha da janela.
Procurei pela pessoa que me acordara e dei de cara com um par olhos azuis me fitando.
Meu coração acelerou.
- Bom dia... Viviam. - sorri, um pouco desapontada.
- Bom dia, menina. Dormiu bem? - sorriu amigavelmente.
Eu anuí.
- Que bom... Eu trouxe um lanchinho para você.- apontou para uma bandeja com o café da manhã.
A olhei, me sentindo a pessoa mais especial do mundo.
Ninguém nunca tinha feito aquilo por mim.
Ninguém nunca tinha se importado de levar um café na cama para mim, e agora...
- Obrigada - agradeci envergonhada e me sentei na cama para receber a comida enquanto observava Viviam pegar a bandeja com cuidado para não derrubar nada.
A examinei de leve e senti que ela me lembrava alguém. Eu só não sabia quem.
Mas esses olhos...
- Aqui...- me entregou a bandeja e sorriu.
- Quer que eu saia? - perguntou alguns segundos depois.
- Não! - neguei com a cabeça - Fique... por favor.
Eu precisava de uma companhia. Ainda mais se ela fosse a tal.
Me sinto tão bem perto dela.
Ela sorriu e assentiu. Sentou-se em uma cadeira próxima á cama e me observou comer.
A bandeja estava repleta de comida.
Tudo o que eu já mais imaginei ter à minha disposição.
Pães, frutas, iogurt, geleia...
- Como foi parar naquela vida? - ela me perguntou do nada.
A olhei um pouco sem reação. Aquele era um assunto no qual eu não gostava de tocar.
- Oh! Desculpe minha intromissão, senhorita. - baixou a cabeça.
- Elle - a corrigi - Pare de me chamar de senhorita. É estranho - franzi o cenho..
Ela riu.
- Desculpe.
- Mas, Viviam... Você não disse que já sabia de onde eu vim, essas coisas?
Ela meneou a cabeça.
- Em parte. Eu só sei que você era... Er... - ela se mostrou incomodada - Uma garota da vida... E que o Ethan te trouxe para fingir que é a noiva dele. Mais nada.
- Ah... - sorri de boca fechada - Entendi.
Ficamos um momento em silêncio e eu voltei a comer.
....***....
- Fui enganada- declarei.
- Desculpe... o que? - ela perguntou confusa.
Eu suspirei, procurando a coragem para repetir.
- Me enganaram... Por isso virei uma... "garota da vida".
Seus olhos azuis vidraram em mim e ela se curvou um pouco, mostrando interesse. Esperou que eu continuasse, mas não o fiz.
Eu não queria ter que mexer com isso...
Os outros podem até não me entender, mas é difícil para uma pessoa admitir em voz alta coisas do tipo.
Abri minha boca algumas vezes, sem conseguir emitir qualquer som, abaixei minha cabeça, respirei fundo e comecei.
- Eu... eu cresci em um orfanato, sabe? Fui abandonada lá pelos meus pais quando eu ainda era uma recém nascida... - sorri de boca fechada - Nunca tive amigos, a equipe de gestão me tratava mal... - gesticulei com as mãos - Nunca tive muitas chances na vida. E na única vez que eu achei que poderia dar a volta por cima, a vida me pregou outra peça. Quando completei 18 anos...
E expliquei a minha história
Aquela que todos já estão cansados de saber.
Aquela que me fez sofrer tanto...
Procurei por seus olhos, que agora me olhavam com pena.
Era por esse motivo que eu não queria contar.
Agora vou ser mais uma coitadinha para ela.
- Como conseguiu? - me perguntou de repente,
- Consegui o que? - perguntei sem entender.
- Aguentar tudo isso... Se fosse eu, teria desistido na primeira semana. Nunca seria tão forte à esse ponto.
A olhei confusa.
Eu?
Forte?
- Como assim? - franzi o cenho.
- Ah, garota... Você não imagina o tamanho do seu potencial, não é? - sorriu e fez mais uma pergunta: - Posso te abraçar?
Olhou nos meus olhos, e um brilho no seu olhar se formou.
Hesitei um pouco, mas eu sabia que precisava daquilo.
Assenti, e assim, senti seus braços me envolverem em um abraço carinhoso e terno.
- Quando quiser conversar pode me procurar...
- Obrigada - sussurrei, sentindo que estava a ponto de chorar.
Nos abraçamos por mais algum tempo, cada uma apertando bem forte.
- Bem... Chega desse negócio meloso.
Eu ri da cara que ele fez ao falar.
- Concordo. - falei.
- Ótimo... Agora termine de comer e se arrume. Quero te mostrar uma coisa. Estarei na cozinha te esperando.
- Certo. - concordei e logo em seguida assisti ela sair do quarto.
***[...]***
Terminei de comer, tomei banho e visitei meu imenso closet.
Tantas roupas e acessórios...
"Ao menos uma coisa boa aconteceu em minha vida" pensei.
***
Desci as escadas e me encaminhei para a cozinha, a procura de Viviam.
- Viviam? - perguntei já entrando.
- Olá, garota! - sorriu - Estava te esperando.
- Desculpe a demora - falei envergonhada.
- Não tem problema... Podemos ir? - apontou para fora da casa.
Eu anui.
- Ótimo - pegou em minha mão e me puxou.
***
Passamos pela porta e logo demos de cara com o deserto que Ethan cultivava.
Eu ainda não entendi a o porquê dele não plantar ao menos uma flor alí.
E por isso fiz essa pergunta à Vivian.
Quem sabe ela soubesse.
- Não sei - deu de ombros - Acho que foi a falta de uma mãe que o tornou assim... Tão seco ao ponto de não gostar da natureza.
A observei por um momento.
Ela realmente parecia triste ao contar aquela história. E eu realmente estava interessada em ouvir.
- O que aconteceu?
Ela hesitou em responder.
- Não deveria te contar... mas... Venha... Sente-se.
Apontou para o chão que era coberto pela sombra de uma única árvore que se encontrava lá.
Assim que nos sentamos o silêncio tomou conta do ambiente, mas, como eu fiz antes, ela suspirou e por fim começou a dizer.
- Eu comecei a trabalhar com a família Leger quando o Ethan ainda era uma criança... Conheci o senhor Victor, pai de Ethan, mas não cheguei a conhecer a mãe dele, Karla... - se entristeceu de repente - Eu só cheguei aqui alguns meses depois que a mãe dele foi embora...
A olhei surpresa e ela continuou.
- Eu cheguei contratada pelo próprio Victor. Ele me disse que tinha um filho que iria precisar de cuidados e, como eu amava crianças, aceitei. Mas quando cheguei aqui, encontrei um garoto triste e fechado para o mundo. Não entendi muito bem. Tentei me aproximar dele, mas nunca consegui... Então eu resolvi procurar saber o que tinha acontecido com ele e foi aí que eu descobri tudo isso...
- Elle!? - ouvi alguém me chamar.
Viviam se apavorou e se levantou rapidamente comigo a acompanhando.
- Por favor, menina, não conte para ninguém que eu lhe falei isso, sim? Preciso que me prometa - suplicou.
- Está bem... Eu prometo - falei confusa.
- ELLE! - chamou novamente.
- Vá. É o Ethan.
Eu anuí e segui a voz que me chamava.
***
- Até que enfim. - falou assim que me viu. Ele parecia preocupado.
- Eu estava andando... não pude vir antes. - me expliquei.
- Tudo bem. - soltou o ar - Preciso que você vá no meu escritório novamente.
- Agora?
- Daqui a pouco.
- Tudo bem.
Ele sorriu e saiu.
***[...]***
- Vou passar alguns dias viajando - Ethan declarou quando eu entrei no escritório.
"Graças as Deus" Agradeci.
- E?
- Quero que até la, você já saiba como age uma submissa - falou sem rodeios.
- Como? - franzi o cenho sem entender.
- Estou falando em grego, por acaso?
- Para que diabos eu vou querer saber como age uma submissa? - perguntei sem entender.
- Pra ser uma - fechou os olhos e eu arregalei os meus.
- Você está brincando, não é?!
Ele me olhou sério. Acho que pelo modo como eu falei
Eu até tinha uma ideia de como elas agiam, até porquê, tecnicamente, eu era uma,mas ainda sim...
- Já disse isso, mas vou repetir! Sou seu dono! Você não foi barata! Faço o que eu quiser com você! - esbravejou.
- Já disse, mas vou repetir - o imitei - Não sou mercadoria!
- Não...- murmurou.
"Não"?
Ele balançou a cabeça e me olhou intensamente.
- Eu espero que quando eu voltar, você já esteja mais que preparada. - declarou e saiu do escritório.
......***......
Desabei na cadeira e me curvei para a frente, levando as mãos ao rosto.
- Por favor... - supliquei para o nada - Que isso seja só um pesadelo.
E finalmente deixei o choro me atingir novamente.
Era demais... além de ser obrigada a ser uma prostituta, agora teria que me transformar em uma submissa.
- E agora? - me pergunto. Estava indo tudo tão bem... Por que isso agora?
Eram muitas surpresas para um único dia. E eu não sabia o que fazer.
Era incrível como meu mundo desabava de uma hora para a outra, mas isso não poderia acontecer.
"Tem que ter outro jeito".
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Longe dalí...
- Você é um imbecil! - o homem esbravejou.
- E você queria que eu fizesse o que?! Eu disse que isso não daria certo!
- Chega! - a mulher interviu - Vão ficar aí brigando por bobeira ou vão preparar os próximos passos?!
- Me tire fora dessa. Estou sendo obrigado a estar aqui - se defendeu.
- Você quer ou não quer o amor dela? - ela perguntou.
- Mas do que tudo nesse mundo - admitiu.
- Então fique calado e pare de reclamar!