Todos nós esperamos de senhoras velhinhas uma postura frágil, meiga e até doce.
Esperamos, isso é verdade, continuem esperando... não é isso que você querido leitor de "Os véus de Antônia" - Livro 2 - A flor do deserto irá encontrar nessa senhora.
Através destes fragmentos do livro 2 vocês conheceram a verdade.
Apresento-vos a" RAINHA ENTRE TODAS AS MEGERAS", A "águia do Saara", A SHEIKHA ANUSHA LAMAR HASSAN.
COMPILAÇÃO DE TRECHOS DO LIVRO SOBRE ANUSHA, DIVIRTAM-SE:
HAFIQ
A porta abre-se lentamente e a figura mais poderosa da minha família emerge no leito imenso, me observando com o olhar duro, porém saudoso.
Ela parece que nunca envelhece e apesar de sua frágil e pequena estatura, sempre me fez encolher-me perante a sua força e altivez.
Levanto-me da cama e beijo-lhe as mãos.
- Anusha, a senhora não envelhece?
- Eu deixo isso para os fracos, não tenho tempo para doença e para morte, ainda tenho algumas coisas pra resolver.
Ela curva os lábios quase em um sorriso.
- Onde está Kaled e a sua esposa?
- Lá em cima, eu a levo lá.
Ela me acompanha até a minha suíte, com os seus costumeiros passos rápidos e firmes.
Abro a porta e Antônia ainda está terminando de se vestir.
Minha avó vira de costas e aguarda ela terminar de se arrumar, depois se vira, cravando os olhos em Antônia e Kaled.
Antônia observa-nos, curiosa, sem saber quem é essa figura ousada que circula por nossa suíte como se tivesse algum direito, pego Antônia pela mão e de repente eu me sinto um menino de cinco anos aguardando a aprovação da avó intratável e rabugenta.
- Antônia, está é a minha avó, Anusha.
Antônia abre-lhe um sorriso e estende a mão para cumprimentá-la.
Anusha analisa Antônia com o seu olhar mortal de águia, meneia a cabeça cumprimentando-a com toda a sua educação e frieza e o sorriso de Antônia morre em seu rosto, quando a sua mão cai ao longo do corpo.
- Então foi você que roubou o nosso Aziz.
Eu começo a replicar, Anusha levanta a mão, o dedo indicador em riste para eu calar-me, ela fala mais alto.
- Shh, Hafiq, Pegue algumas peças de roupa da sua mulher e deixe na suíte ao lado, vocês podem até ter casado em Londres, mas ainda não receberam a benção segundo os costumes. A cerimônia será daqui a três dias, até lá, ela dorme no quarto ao lado, compreendeu Hafiq?
Eu vou argumentar, mas ela me impede de novo.
Não adiantará eu discutir agora, ela nunca pede, nunca perde e nunca recua.
Se há alguém nesta família mais casca grossa e mais intimidante do que eu, esse alguém se chama Anusha Lamar Hassan, minha avó e testemunha viva do meu passado e dos motivos de todos os meus pesadelos.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------
HAFIQ
Anusha insistiu para que descêssemos para o jantar e sem pedir licença, tirou Kaled dos braços de Antônia. Fazendo um sinal para eu acompanhá-la, sigo-a indeciso, sem saber ainda ao certo o que afinal ela quer.
Ela entrou novamente no quarto de meu pai, sentando-se na cama, os seus frágeis braços circundam Kaled, segurando-o no colo.
- Karim, esse é o seu neto, Kaled. Você tem o dever de ensiná-lo a honrar o nosso sangue, a honrar o nome dos Hassan. Ele vai aprender com você a ser um governante e um homem, portanto, é melhor você se recuperar logo, antes que eu perca a paciência e o tire dessa cama com a lambida da minha chibata em suas costas.
Um nó esmaga a minha garganta, ela nunca permitirá que meu pai esmoreça, parece que nós dois, tão fortes, másculos e viris, fomos invadidos pela força assombrosa dessa velha pequena. Só uma lágrima solitária escorre dos olhos de meu pai e sem que nenhum de nós esperasse, os dedos da sua mão esquerda se mexeram, assim como tudo acabou de se revirar, bem no fundo do meu coração.
..............................................................................................................................................................
ANTÔNIA
Eu não sei se gosto ou detesto essa avó de Hafiq.
Acho que definitivamente não gosto dela ou seu jeito me incomoda de uma forma estranha.
Entretanto, há uma aura nessa mulher, algo ao seu redor, que eu me identifico.
Ela é firme e dura, uma rocha impenetrável, eu agora percebo de onde vem toda a altivez e a voz de comando de Hafiq.
..............................................................................................................................................................
HAFIQ
No outro dia Hafiq acordou bem cedo com Anusha batendo em nossa porta.
Ele vestiu correndo uma calça de moletom surrada, só dando tempo de eu me cobrir com o lençol, ainda anestesiada pelo sono.
- Bom dia Hafiq, precisamos conversar sobre as manobras que vamos pôr em prática nesse momento. Daqui a quinze minutos vamos nos reunir com algumas lideranças políticas para decidir o melhor caminho a seguir.
Os olhos atentos de Anusha acompanharam os movimentos relaxados de Hafiq pelo quarto. Ele se vira em minha direção pra falar comigo, me tirando da lerdeza matinal.
- Habibi, eu não vou poder tomar café com você hoje, mas prove os Kleejas de Basmah e guarde alguns pra mim que eu vou comer depois, você verá, são deliciosos.
Hafiq se aproximou displicentemente da janela e os raios de sol evidenciaram ainda mais os vergões vigorosos em suas costas arranhadas. O seu peito e os ombros também têm marcas bem nítidas e avermelhadas dos meus dentes.
Anusha caminha até Hafiq, falando mais alto.
- Ontem eu não fui clara de que a sua mulher dormiria no outro quarto? Componha-se Hafiq Zafir.
E observa minunciosamente um arranhão no peito de Hafiq, olhando pra mim e depois pra ele.
- Eu tenho uma jaula bem grande em minha fazenda, perfeita para dois tigres.
......................................................................................................................................
ANTÔNIA
Esbarro com Anusha no corredor indo para o meu quarto e peço-lhe desculpas.
- Pegue sua bolsa para sairmos agora, temos que fazer algumas compras.
- Compras? Não é necessário, Anusha! Eu já tenho muitas roupas e, além disso, eu nem falei com Hafiq,
- Você agora vai querer me convencer de que é o tipo de mulher que pede permissão ao marido para sair, eu duvido! Senão meu neto não estaria casado com você, ele gosta que o desafie, o que é? Tem medo de mim?
Não vou me deixar intimidar por ela, eu também sei ser bem cadela quando é preciso.
- Eu não tenho medo de nada nessa vida, Anusha.
- Agora você falou certo, é assim que eu gosto! Garras de fora, menina! Com o meu neto eu me entendo, precisamos de suas medidas para ajustar a vestimenta do casamento que será amanhã.
- Ah, amanhã, já?
- Já não, você quer dizer tarde, não é? Essa cerimônia tinha que ter acontecido a mais de quatro meses, ao invés disso, vocês ficaram esse tempo todo se engalfinhando, feito dois guepardos no cio, sem receber benção alguma, um absurdo!
Não sei se rio ou se xingo, essa velha me dá calafrios.
......................................................................................................................................................
ANTÔNIA
Anusha me tira dos meus pensamentos e se levanta, jogando cinquenta Riyal Qatari na mesa da cafeteria que paramos para lanchar e reclama como sempre.
- Vamos, rápido! Você e Jamal parecem duas lesmas, ainda temos que comprar uma roupa pra você para a festa de hoje, antes que você ponha esses peitos para fora com os decotes que você teima em usar.
Eu sussurro pra Jamal.
- Ih! A Manusha ataca novamente.
Ele levanta a sobrancelha sem entender.
- Manusha? Não entendi.
- Acorda Jamal, por isso que ela fica te chamando de lesma, Manusha é a junção de Má com Anusha, Manusha entendeu agora?
- Eu sou velha, mas não sou surda, você merecia umas boas chibatadas nessa sua bunda gorda, mas eu gostei, Manusha é bom, pode me chamar assim, menina, impõe respeito aos inimigos.
- Eu me chamo Antônia, Anusha e não menina.
- Sim, eu sei, mas é muito bom implicar com você, menina.
- Se continuar me chamando de menina, continuarei te chamando de Manusha!
- Fique a vontade, menina insolente.
E lá vai ela balbuciando, trombando nos pedestres do mercado com a sua bolsa tão pesada, que mais parece um saco de boxe.
- Manusha, eu gostei desse apelido...
.................................................................................................................................
ANTÔNIA
A minha pergunta de um milhão de dólares é somente uma, por que será o inferno que essa velha maluca, sendo uma rainha, não compra as suas malditas quinquilharias pela internet? Ou pede para os lojistas levarem à domicílio?
Pois eu mesmo tenho a resposta, certamente é pra me torturar.
Então por que não arranca logo as minhas unhas à pinça, ou os bagos que eu não tenho com um torniquete?
Meus pés doem, estou com a sola dos pés ardendo como se andasse sobre brasas.
O tanto que eu já rodei pelo mercado, acho que dava pra ter feito o caminho a pé até Londres, quem sabe até a Bahia.
Saímos a mais de uma hora de uma boutique chiquérrima em Pearl Qatar , onde ajustei a vestimenta do casamento e essa velha doida varrida anda de um lado para o outro com os olhos injetados, entrando de loja em loja, comprando tudo o que vê pela frente.
- O que você acha dessas abayas? Será que esse tom de verde não fica muito chamativo pra uma viúva como eu?
- Não, eu acho que uma corzinha cairia bem, vestir só preto não tem graça.
Anusha me fuzila com os olhos e fala baixinho.
- O que não tem graça é esse seu vestido decotado, daqui dá quase pra ver o seu apêndice, puxe isso até em cima, allah nos ajude, onde Hafiq está com a cabeça.
- Se for pra continuar me insultando, eu vou embora.
- Não ouse menina insolente! E essa amarela aqui? Coloque em sua frente para eu dar uma olhada, ah! Ficou ótima, combina com a cor de seus cabelos. A sua bunda é grande demais, mas os seus cabelos são bonitos, mande embrulhar, e também esse colar de ouro velho com a turmalina azul.
- Onde eu vou colocar um colar com um pedregulho desse tamanho? Não há necessidade alguma de comprar isso.
- Se eu não fosse uma senhora criada nos costumes, responderia o local perfeitamente apertado, onde você poderia colocá-los.
- Ah, assim já é demais, eu vou embora, hein?
- Essa loja não tem uma cadeira para os clientes sentarem? A esposa de meu neto está passando mal de calor, não estão vendo que a menina está nervosa por que está cansada?
Eu fuzilo a velha escrota com o olhar de raio laser, estou a ponto de estrangular a "vovozinha do mal".
Em menos de um minuto, eu afundo em uma cadeira macia e confortável, ela agradece o lojista exageradamente e me olha com um sorriso quase visível, e eu penso, Hafiq comparado a Anusha é um anjo de candura, bipolar é pouco, essa velha tá completamente fora da casinha.
Resmungo baixinho.
- Aff! Dê- me paciência meu Deus.
Se ela ouviu, fingiu que não ouviu.
Quando eu me vejo, estou com os braços carregados de bolsas e Anusha dispara em direção à loja de joias, andando com as suas pernas curtas e rápidas como um foguete.
- Será possível que eu estou cercada de fracotes? Andem logo! Vocês dois são uma vergonha.
Eu olho para Jamal, o motorista, e ele balbucia.
- Não dê ouvidos, sheikha Anusha é assim mesmo.
Voltamos para o palácio e eu quase grito "Graças a Deus".
É menos cansativo correr a maratona São Silvestre do que fazer compras com a avó de Hafiq.
............................................................................................................................................
ANTÔNIA
Anusha acalmou Hafiq dizendo que teríamos uma cerimônia discreta e íntima, só que esse monte de gente me cercando, cabeleireiro, maquiador, cerimonialista do governo e a quantidade de presentes abarrotando o quarto, me faz duvidar dessa conversinha pra boi dormir.
Discreto, íntimo? Duvido, ela não me engana.
Ela nos acordou cedinho, abrindo as janelas e expulsando Hafiq do quarto.
Não deu nem tempo dele se vestir e a cena que se descerrou a minha frente, foi deplorável.
Aquele homem enorme, assustador, intimidante, sendo arrancado da cama, por puxões de orelha e safanões.
Pela única oponente capaz de encará-lo a altura... Uma velha de 77 anos.
- Você deixou a sua mulher dormir, Hafiq Hassan? Vejo que não, não tem vergonha de se comportar como um babuíno no cio? Como vamos conseguir disfarçar essas olheiras em sua mulher?
- Anusha, saia, por favor, não me faça expulsá-la daqui, eu preciso me vestir.
- Quando você nascer novamente talvez tenha a audácia de me expulsar. Não há nada aí que eu desconheça. Você tem quinze minutos para sair daqui. E você menina, se vista agora, antes que as mulheres cheguem para o seu banho.
Hafiq como um rato covarde abandonou o barco e sumiu do quarto, me deixando aqui com a "vovózinha" recém-saída do inferno.
- Olha aqui, eu não preciso de ninguém pra me dar banho, isso tudo é um absurdo, Anusha.
- Nada é de graça, junto com o meu neto, vem os nossos costumes, apenas aproveite, hoje é o seu dia, Antônia.
Eu estanquei, ela nunca me chamava pelo nome, só poderia ser consideração por ser o dia do meu casamento.
***** É meus queridos, ela pode ser classificada como qualquer coisa, "Rainha entre as megeras" "velha fora da casinha" "A vovó recém-saída do inferno", ou Manusha (Má Anusha) para os íntimos, qualquer coisa, menos uma velhinha dócil, beijos Misha Anderson.