O Estrangeiro no Reino de Tatú

By VernonCorraSimes

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Um conto sobre a infância de Menino, quando ele conheceu Canastra, seu fiel escudeiro , e jurou lutar pelo a... More

O Estrangeiro no Reino de Tatú

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By VernonCorraSimes

Cresci numa casa na beira da estrada, sem vizinhos ou comércio adjacentes. É de se pensar que uma infância dessas fosse monótona, só que a minha fora cheia de aventuras e desventuras. A história que contarei agora é sobre um dos eventos de quando ainda era menino e que, junto com outros, conferiu àquele tempo uma característica única. Também me forço a afirmar: não contarei nada feliz ou triste, abstrair-me-ei de tais qualidades e apenas garantirei se tratar de uma história interessante.

Naquela época, eu costumava brincar em um balanço de madeira barulhento, construído pelo meu pai. Isso, ficar assobiando os hinos entoados pelos pássaros e ler todos os livros da biblioteca de meus pais eram a minha diversão. Em uma das balançadas, lembro-me de ter visto em meu quintal um bicho estranho, que me pareceu estar perdido. Como toda criança, curiosa e insolente, resolvi pegar o bicho sorrateiramente para que pudesse o ver melhor. Era um tatú.

- Por favor, me poupe senhor gigante! – disse o tatú como quem suplicava pela vida - Eu estou perdido e não sei como vim parar aqui. Nunca ousaria invadir morada de outros, ainda mais a de gigantes.

- Você entrou em minha casa sem ser convidado, e isso é um fato, senhor tatú. Pode não se considerar ousado invasor, mas pede clemência ousadamente sem sequer se apresentar.

- Mil perdões, senhor gigante! Meu nome é Canastra e farei de tudo para reparar minha ofensa. Então, por tudo que tens de mais querido, peço que me considere a suas ordens.

- É um prazer te conhecer, senhor Canastra. Meu nome é Menino e assim você pode me chamar. Como se pôs às minhas ordens e tendo você conhecido minha casa, mesmo sem ter sido chamado, então, peço que me convide para conhecer a sua.

- De certo eu te levarei a minha secreta morada, Menino, se assim considerar perdoada minha ofensa. Mas, em consideração a sua estima, peço para que aja não como um gigante, e sim como um tatú, pois de onde eu venho estranhos não são vistos com bons olhos.

-Não sou um gigante e nem um estranho, senhor Canastra, mas, como desejo muito me aventurar por um mundo desconhecido a mim, assim o farei.

Assim que entramos pelo buraco em meu quintal, tive a sensação de ter descido a uma caverna, com raios de sol que entravam por outros buracos, reluzindo os túneis como lanternas na escuridão. Fingindo ser um tatú, rastejei por todo o caminho, maltrapilhando as minhas vestes e sujando os meus joelhos. Depois de um tempo, finalmente chegamos ao nosso destino: um espaço imenso embaixo da terra.

- Bem vindo ao salão principal do Reino de Tatú. – disse Canastra.

Estava impressionado com o lugar. Era majestoso e organizado, com muitos corredores e túneis que desembocavam ali. Jamais imaginaria existir um lugar desses embaixo da terra. Minha comoção me fez levantar para ver tudo mais de perto, o que de pronto acabou com o meu disfarce de tatú.

Sem demora, após ter levantado, eu e Canastra fomos pegos pelos outros tatús que ali habitavam e levados a julgamento até o Rei Tatú, líder do Reino. Eu não havia compreendido a situação até ter ouvido os outros tatús chamando Canastra de traidor durante o caminho. Imaginei o pior e o vi se tornar realidade quando chegamos à presença do Rei Tatú. Aparentemente a presença de estranhos no Reino não era apenas uma questão socialmente reprovável entre seus habitantes, e sim uma ameaça ao seu funcionamento.

- Desprezível Canastra, por que traístes seus conterrâneos trazendo até nossos salões tão temeroso gigante? – disse o Rei Tatú.

- Jamais tive intenção de atraiçoar e não considero o ter feito, majestade. Apenas me encontrei em débito com este gigante, pois, em minhas andanças, acabei por adentrar sua propriedade sem sua permissão. – disse Canastra.

- Sabe que somos animais pacíficos e nos acovardamos em nossas defesas diante sinal de perigo para assim nos proteger. Por tal razão, não conseguimos proteger nossos bens e nossa morada, o querido Reino de Tatú. Assim, como nos protegeremos de estranhos gigantes? Terrível crime cometeu. – replicou o Rei Tatú.

- Majestade, com todo o respeito que é permitido a um estrangeiro versar, não acredito existir traição por parte de Canastra, tampouco ameaça vinda de mim. – eu disse.

Nesse momento fui interrompido pelo falatório geral dos presentes, que se mostraram espantados por minha manifestação, cortês e imperativa. Percebi que os olhares de dezenas de tatús me tornaram, por alguns segundos, o único foco de atenção no lugar. O que aproveitei para continuar a falar.

- Não tenho intenções depravadas por desejos maliciosos voltados a este belíssimo reino. Dou minha palavra de que mal algum jamais farei para com vocês. Quanto a Canastra, que culpa feroz ele tem se apenas cumpriu com sua palavra a fim de resguardar-se a honra? E acrescento que sempre pensei os tatús como seres honrosos, incapazes de viverem maculados pela desonra.

- Acredito pouco em você, estrangeiro. Por mais que digas não desejar mal algum, o que nos garantirá que, se revelando nossa localidade a algum de seus semelhantes, nenhum mal recairá sobre nós? – indagou o Rei e continuou – Concordo com você, por outro lado, quanto a Canastra não ser um traidor. De fato, por mais que sondássemos a alma dele, jamais acharíamos intenção alguma de mal nos causar. No entanto, querendo ou não, mal objetivo já nos causou, razão de toda essa comoção.

Ainda acreditava que qualquer problema pudesse ser resolvido com retórica e sofismas. Pobre pensamento pueril que fiz questão de abandonar ainda nesse dia. Assim como pensam as crianças, por sorte também pensam os tatús. Sua confiança é facilmente obtida e suas mentes se voltam com facilidade àqueles que falam com beleza.

- Rei Tatú, por mais que eu desse em garantia a minha palavra de jamais revelar esse lugar, não sou capaz de garantir que nenhum mal recairá sobre vocês. Sei que anseiam por me julgar e sabem que não me conterão caso eu deseje partir; porém, não desejo que a meu mais novo amigo seja imputado delinquência alguma. Assim, submeto-me a julgamento se a Canastra cessar o importuno. – eu disse – Mas que utilidade vocês teriam se me aprisionassem em qualquer lugar, ó Rei? Sou maior, mais forte e me comunico melhor do que vocês, podendo ser mais útil se me fizerem de protetor ou embaixador, provando assim de minha amizade para com o reino. Acaso vocês não têm nenhum inimigo por todo campo?

Nesse momento, lembro-me de Canastra ter me olhado como alguém que teria dito as palavras corretas, que todos do reinam desejavam ouvir: um protetor para o reino. Quem diria que os tatús também replicavam a capacidade humana de fazer inimigos.

- Inimigos temos. Mais fortes e mais poderosos que a gente, que de súbito passaram a nos atacar a vista, por razão que desconhecemos. As onças são feras que, apesar de já considerarmos traiçoeiras, agora também as consideramos maliciosas. Não nos deixam outra saída senão pedir ajuda estrangeira nesta causa – disse o Rei Tatú.

- E se eu ajudar vocês contra seus inimigos, estaremos Canastra e eu absolvidos?

- Mais do que isso, meu caro gigante. Você será considerado o herói oficial do Reino de Tatú. – replicou o Rei Tatú.

Há muito eu já era amigo de Marcos, o príncipe das onças. Talvez fora a amizade mais rápida que eu fiz entre os animais, que costumam ser desconfiados conosco. Se não o fosse seu amigo, talvez, tentasse as persuadir ou, com a bravura de um menino, me pusesse a enfrentar as onças com paus e pedras, as quais sem dúvida terminariam por me rasgar. Mas conhecia Marcos, e acreditava que uma simples conversa me ajudaria a resolver todo o problema.

Utilizando o labirinto de túneis construídos pelos tatús, visitei o príncipe das onças, que habitava nas matas além dos campos que circunvizinhavam a minha casa.

- Caro Menino, o mais bondoso e inocente entre os que tenho como amigos, a que lhe devo esta visita? – disse Marcos.

- Amigo, venho hoje em nome dos tatús do Reino de Tatú, e com grande favor a lhe pedir.

- Não tenho prazer em ouvir falar de tatús, mas suas palavras me soam sempre como belas melodias. Qual favor vem pedir em nome alheio, querido amigo?

- Vocês, onças, por algum motivo, passaram a atacar os tatús e foram considerados seus inimigos. Venho com uma oferta de paz e o favor que lhe peço é de que aceite. Caso contrário, perderei um amigo que me foi fiel mesmo que isso lhe custasse a liberdade. – falei me referindo a Canastra.

- Qualquer amigo de Menino também é portador de minha amizade e de meu favor. Pode de imediato retornar ao Rei Tatú com a mensagem que partir de hoje nenhuma onça lhes fará mal. Só que já é de noite, amigo, e pelas florestas pode correr perigo. Deseja companhia em seu retorno para o Reino de Tatú?

- Agradeço a oferta de companhia, Marcos, contudo, ela não me será necessária. Cheguei aqui através de túneis construídos pelos tatús os quais pretendo voltar.

Depois de agradecer e conversar mais um pouco com Marcos, ainda no final daquele dia retornei ao Reino de Tatú. No entanto, para a minha infelicidade, quando cheguei ao antes majestoso salão, deparei-me com uma cena terrível, de extermínio e desolação. Todos os tatús estavam mortos e todos os seus pertences estavam destruídos. Até que ouvi um grito, vindo de onde se encontravam as prisões.

- Canastra, mas o que aconteceu? – perguntei.

- Ó, Menino. Que dia mais terrível. As onças mataram todos e destruíram tudo. Chegaram logo antes de você e também logo foram embora. Só sobrevivo porque enjaulado e escondido esperei seu retorno. Não compreendo como acharam nossa secreta morada. Provavelmente te seguiram, mas não posso culpá-lo, pois, não vejo maldade em você e sei que jamais conspiraria com as onças. – disse Canastra aos prantos.

Marcos não faria isso comigo, ele é meu amigo. Mas ele me ofereceu companhia para voltar e, quando recusada, acabei por soltar uma informação confiada apenas aos tatús: os túneis. E aquele traiçoeiro ainda protelou o meu retorno para liderar as onças as quais cria serem minhas amigas até o lar secreto daqueles que me pediram auxílio. Meu consolo foi a vida de Canastra permanecer intocada, caso contrário, a culpa que amargaria por completo a minha infância.

Mas, a realidade permanece: ao tentar ajudar, traí os que temiam o mal advindo de minha presença e nada posso fazer para reparar o que foi feito. Nada senão apaziguar a tristeza de Canastra, e, por isso, pedi que ele escondesse das onças o fato de estar vivo. Eu as enganaria como fui enganado e faria com que todas elas pagassem pela moléstia feita. Mas essa é uma história para outro dia.


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