O Vale de Elah

By carlamontebeler

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Samah é um jovem sem posses que deseja apenas continuar o legado de seu pai e ser um pastor de ovelhas. Sua m... More

Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 5

Capítulo 4

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By carlamontebeler

Vamos continuar a história de Samah? Venham comigo...


No dia seguinte, com a cabeça ainda fervendo pela conversa que tinha tido com minhas irmãs, acordei antes do nascer do sol para levar as ovelhas até o melhor pasto na região. Enquanto saía da aldeia com os animais, encontrei com meu primo, Salatiel. Ele seguia calmamente o seu rebanho, sabendo que mais à frente havia outro curso de água. Enquanto muitos pastores tinham com seus rebanhos um relacionamento que beirava a afeição, atribuindo até nomes para suas ovelhas, Salatiel sabia que estava conduzindo a riqueza da família de pasto em pasto. A ovelha lhe fornecia lã, carne e vasilhas feitas de chifre, nada mais. Ele as via nas suas roupas, nas ofertas para sacrifícios ou no toque do shofar e reconhecia que, graças a elas, tinha melhores condições que muitos dos moradores da nossa vila. O tecido feito de pelo de cabra, em pano de saco, lhes garantia as tendas mais lindas da região. Seu pai havia sido um excelente pastor, sabendo negociar e multiplicar o seu rebanho; comercializando o leite e o queijo, e aumentando seu lucro em muitos bens com a troca das suas mercadorias. Era um talento que Salatiel não tinha herdado, por isso ficou incumbido do pastoreio, que ele fazia de má vontade. Ele desprezava a ideia de se apegar às ovelhas! A não ser Pequena, a cabra que fornecia leite exclusivamente para a família. Aquela era a alegria das irmãs, das servas e da casa toda.

Esses pensamentos o faziam me considerar um tolo. Salatiel não conseguia entender que eu era tão veloz nas corridas que os rapazes apostavam entre si. Sempre o primeiro nas brincadeiras e o último a parar de dançar nas festas. Na visão dele, eu contagiava a todos com minha alegria e, nem mesmo a morte do meu pai, ou a debilidade crescente de minha mãe, conseguiam abater meu ânimo. Mas quando se tratava daqueles bichos burros, eu não conseguia ser prático nem racional. E olha que minha casa só tinha nove ovelhas e quatro cabras. Imagine se eu conseguiria nomear cada uma se tivesse um rebanho como o dele!

No lado oposto do monte onde estava Salatiel, meus pensamentos não eram tão felizes quanto ele imaginava. Estava em conflito com a situação de Adaliah, que era bonita demais para ficar sem compromisso por longo tempo. Os rapazes da cidade a respeitaram sempre, mas, na última festa da colheita, eu me metera numa briga com visitantes que beberam vinho demais. Foi uma das vezes que ser um rapaz tão alto me valeu de muita coisa. Precisava ver logo esta questão do casamento, porque acreditava que se esta preocupação não estivesse mais nos ombros de minha mãe, ela poderia voltar a ser o que era antes de se casar: feliz, tranquila e serena dona de casa.

Olhar minhas ovelhas trazia um consolo e um conforto que eu não tinha quando estava em casa.

Como tinham acabado de fazer a colheita, não precisava ir muito longe com os animais, por enquanto, porque, depois do cereal colhido, as ovelhas tinham permissão para comer tudo o que restasse. Como as nossas eram poucas, não haveria tanto problema assim. Mas nas outras luas eu teria que deixar a região e procurar a erva seca que permanecia sob o sol quente. Mas Haniel havia me ensinado onde havia suprimento de águas que mantinham a erva fresca, e quais daquelas pedras imensas protegiam um manancial. Naquela manhã, eu usava o cajado que fora de meu pai e seu bastão.

Respirei fundo o ar daquele amanhecer esplêndido. O peso do meu alforje dizia que Yoná havia caprichado na refeição do meio dia, e o azul do céu prometia a tranquilidade que estava precisando.

Ao chegar ao trecho da encosta de onde se avistava o rio, uma cena quebrou toda aquela serenidade.

Avistei, com um único olhar, o pote quebrado. Um rapaz segurava as rédeas dos camelos enquanto outros dois tentavam forçar Nazaré a entrar na água. Deixando o cajado, desci correndo a encosta com meu bastão. Não pensei na loucura dos meus atos, estava apenas sendo um tolo apaixonado...

— Vamos, menina, só um banho! O que é que isso te custaria? — dizia um dos rapazes.

— Parem com isso! — a moça gritava, irritada. — Que loucura é essa que vocês estão fazendo? Tirem essas mãos de cima de mim!

— Estamos apenas nos divertindo um pouco. O que te custa nos ajudar? — O outro zombou da raiva de Nazaré. Ao que parecia, para os três, irritá-la e fazê-la tomar um banho na água gelada era um divertimento igual.

— A ela não custa nada, mas para vocês podem custar alguns dentes! — Minha voz saiu um pouco mais brava do que eu realmente me sentia. A corrida morro abaixo tinha cobrado o preço do meu fôlego, mas não queria deixar transparecer. Segurando o bastão firmemente na mão direita, sabia que significava uma figura amedrontadora. Sempre tinha sido o mais alto da aldeia, pelo menos uma cabeça maior que os outros rapazes. Essa era uma boa hora para exibir os músculos que tinha conseguido com o trabalho pesado na lavoura, que apareciam mesmo sob a túnica.

— Isto não é assunto seu, pastorzinho! — O rapaz dos camelos ainda tentou fazer um ar de quem não se importava, mas não conseguiu.

— Depois nós continuamos nossa conversa em particular, moça bonita. — Os outros largaram Nazaré e foram dando a volta num círculo bem amplo: aquele bastão não era uma arma para se desprezar...

— Obrigada. Muito obrigada! — disse Nazaré, deixando-se cair na grama. Percebi que ela estava suando e tremendo, e me sentei com ela. Na frente dos rapazes, ela parecia corajosa e irritada, mas vi que estava assustada. — Não sei como fui me afastar tanto assim da vila. Em uma manhã como esta, nossos pés tomam conta da nossa vontade... — ela se justificou com um sorriso fraco.

— Não precisa agradecer. Vi que você tinha a situação sob controle, mas ainda assim quis vir. — Sorri para ela.

— E ser o meu herói? — Tentou sorrir também...

— É que meu pai me contava uma história, que começava exatamente assim...

— Verdade? Uma moça tola tomando um banho de água gelada?

— Não. Ela fala sobre como os rapazes simplesmente parecem não se controlar na presença de uma bela jovem. Mas pensando bem, não era um rio... era um poço.

— Bom... E você se importa em me contar?

— Não... Era uma vez um rapaz. Um pastor de ovelhas, modesto, tranquilo, bonito...

— Ah... Então foi por isso que você associou. Um pastor bonito passando pelo campo... — Percebi, que apesar do tom casual que ela usava, o sangue subiu ao rosto de Nazaré enquanto suas mãos brincavam com a túnica.

— Não... Na verdade, não. É que ele estava passando junto a um poço, exatamente quando um bando de pastores tentava molestar uma jovem linda que retirava água. — Eu sorria de volta. Nunca conseguira esconder um sorriso perto dela, nas poucas ocasiões em que estivemos a sós. Aliás, fiquei subitamente consciente de que aquele era o momento mais privado que nós já havíamos partilhado, mesmo morando na mesma vila há tantos anos.

— E como termina a história? — Os olhos de Nazaré brilhavam como os reflexos do sol nas águas do rio.

— Ele dá uma surra nos pastores, salva a moça indefesa e se casa com ela, claro. — Arrematei com um sorriso.

— Por que tenho a impressão de que já ouvi isso antes? — Nazaré tentou desviar o assunto.

— Deve ser porque esta é a história de como nosso Patriarca conheceu sua noiva. — Eu tinha que manter o assunto em aberto.

— Você está falando do Legislador?

— Isso mesmo. Moisés e Zipora. A história deles também começou assim.

— Mas ele não era um pastor. Era um príncipe.

— Está bem. Então, neste aspecto, a história é diferente.

Nazaré se levantou, bateu a poeira de sua túnica e disse, enquanto se afastava:

— Você não entendeu. Neste aspecto, é exatamente igual para mim.

E eu senti a esperança crescer dentro de mim como o calor do sol daquela manhã.



- * - * - 


E aí? Gostaram?

Não esqueçam de dizer o que pensam da história! A opinião de vocês é muito importante prá mim!

Beijocas!


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