__ Nossa, Benjamim... É, é maravilhoso, é inacreditável!
__ Esse é apenas um dos lugares que tentaram esconder de vocês por todo esse tempo.
__ Eu não acredito que estávamos perdendo tudo isso.
__ É, mas agora já passou, você ta livre e pode curtir, pode fazer o que quiser aqui.
__ Não sei nem por onde começar.
__ Que tal começarmos pela comida? Te trouxe para jantar não é mesmo? Vou levá-la a um restaurante maravilhoso que tem aqui.
__ Hm... Preciso mesmo comer, minha barriga já está roncando. - digo, dando uma risada.
__ Então vamos bela donzela, é por aqui. - diz ele, se curvando para mim.
__ Deixa de ser bobo. - digo, sorrindo. É tão bom saber que mesmo em meio a tantos problemas, posso contar com alguém que me faz sorrir sempre. __ o que vamos comer?
__ Algo diferente, mas é claro, diferente para você e não para mim, porque eu como todos os dias, sou viciado.
__ Hm... E o que é? - pergunto, curiosa.
__ Batata frita, é bom demais, você vai adorar.
__ Batata frita? Hm... Espero que seja bom. - digo. Sigo Benjamim até um pequeno e reservado restaurante, ele me indica uma mesa, nos sentamos e ele chama o garçom.
__ O que vão querer?
- pergunta o garçom.
__ Vou querer duas porções de batatas fritas e duas coca-colas em lata, por favor.
__ Ok. - responde o garçom.
__ Ei, o que foi? - pergunta Benjamim.
__ Nada, não é nada.
__ Quem mente mal não pode mentir pra quem mente bem, Tris. O que está havendo? - pergunta ele. Parece que ele já me conhece muito bem e sabe que está havendo alguma coisa, e essa coisa tem nome e sobrenome. Tobias Eaton. Eu não quero entrar nesse assunto com ele.
__ É que eu to sentindo muito a falta dos meus amigos, é isso. - digo, tentando ser convincente.
__ Tem certeza que é só dos amigos que você sente falta?
__ Sim, sinto falta dos amigos, da minha mãe, do meu pai, da minha antiga vida e tudo mais.
__ Do Tobias... - diz ele, com um tom de voz cabisbaixo.
__ É claro que sinto falta dele e sinto muito!
__ Você se arrependeu de ter escolhido a Audácia como facção não é? Você não imaginava que uma escolha poderia ter todo esse retorno.
__ Não, eu não me arrependi e nem me arrependerei, pois foi essa escolha que me fez ver a vida como ela é de verdade, foi essa escolha que me fez conhecer o amor da minha vida, foi essa escolha que me fez ser forte, corajosa.
__ Se você diz, quem sou eu para dizer o contrário? - diz ele, desviando os olhos dos meus e fitando-os no chão.
__ Ei, o que foi? - pergunto.
__ Nada.
__ Quem mente mal não pode mentir pra quem mente bem, Benjamim. - digo, sorrindo.
__ Aqui está o pedido. - diz o garçom, pondo duas bandejas sobre a mesa.
__ Obrigado. - respondemos, em uníssono.
__ O que foi? Ficou estranho do nada. - pergunto.
__ Não é nada, é sério, não vou passar uma noite maravilhosa dessas me queixando da vida. Vamos aproveitar!
__ Também acho perda de tempo ficarmos nos lamentando disso e daquilo, enquanto temos essa noite maravilhosa pra curtir.
__ É.
__ Benjamim, me explica uma coisa?
__ Sim, claro.
__ Como conseguiu que saíssemos sem sermos notados? No Departamento há muitas câmeras e tudo mais, podem ter nos visto.
__ Bom, eu tenho um amigo que trabalha na sala de controle, o Eric, ele congelou as imagens antes de passarmos.
__ Ah, entendi. Me explica uma outra coisa?
__ Você é bem curiosa dona Tris, mas sim, respondo.
- diz ele, sorrindo.
__ Por que tem uma estátua do busto de Edith Prior no salão principal do Departamento?
__ Bom, Edith foi alguém muito importante, ela foi quem deu a idéia de cada cidade ter um Departamento e não é que deu certo? Ela também foi uma das fundadoras do Experimento Chicago, como já deve saber.
__ Ela nunca se casou? Nunca teve um marido?
__ Até onde sabemos, não, mas há más línguas que dizem que ela tinha sim um marido.
__ Se ela tiver tido mesmo um marido, há chances de ele estar vivo?
__ As chances são bem poucas, mas quem sabe?
__ Entendi.
__ Mas e ai, gostou das batatas fritas? - pergunta ele.
__ Se eu gostei? Adorei! É a coisa mais gostosa que já comi em toda a minha vida! - digo, com a boca cheia de batatas.
__ Oh, não diga isso, porque você não viu nem a metade.
__ Então me mostra. - digo.
__ Claro. - diz ele, sempre sorrindo. Estamos tão entretidos na conversa que nem temos noção da hora. Confiro o relógio e me espanto, são 02:30.
__ Nossa, Benjamim! Já viu a hora? - digo, nervosa.
__ Caramba! Nós temos que ir agora!
__ Ai meu Deus, estamos ferrados, muito ferrados!
__ Se acalme!
__ Vão descobrir que saímos da base!
__ Calma, vamos dar um jeito, ninguém vai nos pegar. Garçom, a conta, por favor. - grita ele. O garçom vem até nós e entrega a conta, Benjamim entrega o dinheiro e se levanta, eu o sigo.
__ Espero que já estejam todos dormindo. - digo.
__ Fique calma, vai dar tudo certo. - diz ele. Re fazemos o caminho de volta pra casa, mas o caminho parece estar mais longo e frio.
__ Nossa, que frio. - digo. Benjamim pega sua jaqueta e põe em meu ombro.
__ Pronto. - diz ele.
__ Benjamim, não precisa, é sério.
__ Não, pode ficar, eu não to com frio mesmo.
__ Você não existe sabia? - digo, sorrindo. Ele sorri de volta.
A caminhada é longa e a noite cada vez mais fria, parece que estamos andando por um século e meu sono começa a chegar.
__ Tris, chegamos à Margem e temos de ficar de olhos bem abertos. Eles montam guarda às madrugadas e podem nos pegar, porque saberão que somos do Departamento e irão nos matar. - diz ele, sussurrando.
__ Não diga uma coisa dessas Benjamim! - sussurro.
__ É só a verdade Tris. - ele sussurra.
Não posso ter medo de enfrentar o que vier. Eu enfrentava tudo na Audácia, sem medo, sem dó. Não pensava em nada e nem nas consequências que poderiam me trazer as minhas atitudes, sei la, eu me jogo de cabeça nas coisas e encaro mesmo.
Não posso recuar aqui. Nesse momento, lembro-me das palavras que Tobias me dissera na primeira vez que passei pela paisagem do medo: "seja corajosa!"
Serei corajosa e se não for por mim, serei por ele.
Quando nos aproximamos da grade que dá entrada ao túnel que vai de volta para o Departamento, vemos 6 homens com armas enormes penduradas em seus ombros, estão montando guarda, como Benjamim havia dito.
__ Olha Tris, eles estão de guarda.
__ Como você disse.
__ Isso, vamos ter que esperar alguma brecha, uma oportunidade para passarmos.
__ O quê? E se eles não deixarem uma brecha? Vamos ficar aqui pra sempre?
__ Tris, eles são seis e nós dois, o que acha que podemos fazer?
__ Sei la, só não quero ficar aqui.
__ Olha, você vai ter que ter paciência, não vou por sua vida em risco dessa maneira. Melhor ficarmos aqui até aparecer alguma oportunidade.
__ Tudo bem, tudo bem. - digo. Sento-me no chão, pois sei que nem tão cedo os rebeldes vão abrir alguma brecha para que possamos sair daqui. Enquanto esperamos, o sono vai me pegando, quando percebo, estou com a cabeça no ombro de Benjamim.
__ Desculpa. - digo.
__ Imagina, pode deitar, você está exausta, pode deixar que eu vigio.
__ Obrigado, obrigado por tudo.
__ Não foi nada. - diz ele. Ponho novamente a cabeça em seu ombro e apago.
Vejo ele, Tobias, de joelhos, com as mãos amarradas nas costas. Um homem alto, moreno, se aproxima dele e aponta uma arma para sua cabeça.
__ Não. - grito.
O homem está de costas e não consigo ver seu rosto. Ele dá dois suspiros e atira na cabeça de Tobias.
__ Não, não! - grito mais uma vez.
O homem se vira sorrindo descaradamente e diz: "acabou, você perdeu Tris!"
Ele começa a se aproximar, mas ainda não posso ver seu rosto, pois ele está coberto com uma sombra negra, mas todo seu corpo está clarividente.
A medida que ele se aproxima, seu rosto vai se desfigurando, mas olho bem no fundo de seus olhos e o reconheço. Dr. Collins Matthews.
__ Sai de perto de mim, sai, sai! - grito.
__ Ei, Tris, fique calma, o que foi!? - diz Benjamim.
__ Eu vi, eu, eu...
__ Calma, você só estava sonhando, calma. - diz ele, pondo minha cabeça em seu peito e acariciando meus cabelos.
__ Foi tão real, até doeu o coração.
__ Calma, calma.
__ Desculpa por ter surtado desse jeito, espero que ninguém tenha me ouvido.
__ Relaxa, eles já foram embora.
__ Já? E por que não me acordou para irmos embora? Já era pra estarmos lá dentro do Departamento a essa hora.
__ Desculpa, é que, você estava dormindo tão bem que não queria te acordar.
__ Oh, você podia ter me acordado Benjamim, mas está tudo bem, podemos ir agora. - digo, com a mão atrás de seu pescoço.
__ Então vamos. - diz ele.
Nós nos levantamos, agora com o calor do sol nas costas. Embora eu não precise, Benjamim faz um apoio com a mão para que eu possa escalar a grade, logo já estou dentro do túnel e espero Benjamim escalar a grade, mas enquanto ele escala, se desequilibra e cai, provocando um barulho alto na grade. Dois homens armados aparecem e Benjamim se apressa para começar a escalar a grade novamente.
__ Espias do DAG! - grita um dos homens. Logo saem mais homens de dentro de um apartamento que parece ser abandonado.
__ Atirem! - grita o homem.
Benjamim consegue escalar, ele se joga no chão do túnel ao meu lado, puxo seu braço e sumimos na imensidão do túnel. Enquanto corremos, Benjamim cai, vejo que ele está com a mão na barriga.
__ Ei, o que foi? - pergunto.
__ Eu fui atingido. - diz ele, tirando a mão da barriga.
__ Benjamim! Precisa de um médico urgente! Vamos, se apoie em meu ombro.
__ Não, vá, eu me viro.
__ Está louco? Não vou deixar você aqui, que tipo de amiga eu sou? Só preciso dar um jeito de trazer um médico até aqui.
__ Olha, pega esse aparelho preto que está aqui na minha cintura e digita os números 88008, esse número faz contato direto com Eric, o amigo das câmeras. Peça ajuda para ele.
__ Ta, tudo bem. - digo.
Digito os números que Benjamim falou e ouço bips, o som se repete por três vezes e uma voz surge.
"__ Alô, Benjamim?" - diz a voz.
__ Não, aqui é a Tris, sou amiga dele, estou ligando, porque precisamos de ajuda, é urgente, Benjamim está ferido e perdendo muito sangue, por favor, traga um médico!
"__ Onde estão? Levo um médico ai agora!"
__ Estamos no túnel da corporação, perto das grades da Margem.
"__ O quê? Ainda estão ai? Mas o combinado era irem embora às meia noite. Benjamim não tem jeito mesmo."
__ Ei, isso não é hora de julgar, pelo amor de Deus!
"__ Ta, tudo bem, estou indo."
Espero que ele não demore, Benjamim está perdendo muito sangue.
Quando volto para mais perto de Benjamim, vejo que ele está desacordado.
__ Benjamim, Benjamim! Por favor acorda, por favor! Benjamim! Não faz isso comigo, acorda, por favor! - grito, sacudindo-o em meu colo, mas ele continua imóvel. Fico desolada, não sei se o tiro foi em algum lugar perigoso, que poderia por a vida dele em risco. Não quero pensar nisso, não quero pensar no pior!
Dez minutos depois de ligar para Eric, ele aparece com o Dr. Gail.
__ Graças a Deus! - digo.
__ O que houve? Ou melhor, o que estão fazendo aqui? - pergunta o Dr. Gail.
__ É uma longa história Dr, deixa isso pra depois, o importante agora é salvarmos a vida dele. - respondo.
__ Vamos lá, me ajude a carregá-lo, Eric. - diz o Dr.
2 dias depois...
Acordo bem cedo, aliás, nem dormindo estou ultimamente, ando muito preocupada com Benjamim, ainda não tenho notícias dele. Decido tomar um banho e depois ir até o quarto que Benjamim está internado.
Escolho algo para vestir no guarda-roupa, pego calça jeans clara, uma regata rosa, uma jaqueta de couro marrom e uma bota de couro preta.
Entro no banheiro e tomo uma ducha quente, me seco, ponho a roupa que escolhi, penteio o cabelo e escovo os dentes. Arrumo minha cama e saio, trancando a porta.
Espero que Benjamim esteja bem, espero que nada de ruim aconteça com ele. Sei la, é estranho falar, ele chegou do nada e do nada se tornou tanta coisa. Ele tanto fez para salvar minha vida, que esqueceu da dele.
Chego em frente a sala do Dr. Gail e bato na porta.
"__ Entra!" - diz a voz, que aparentemente é do Dr. Gail. Entro na sala.
__ Olá, com licença. - digo.
__ Toda. - diz ele.
__ Eu vim saber do Benjamim. Como ele está?
__ O caso dele é muito delicado.
__ O quê? Por quê?
__ Bom, o tiro perfurou o pulmão e ele só está respirando com a ajuda de aparelhos.
__ Mas apenas um pulmão foi perfurado, não é?
__ Sim, mas Benjamim já tinha alguns problemas respiratórios, quase todos os integrantes de nossa corporação contrai problemas respiratórios, por culpa dos gases letais que são lançados quando estão em guerra, nem mesmo as máscaras estão sendo capazes de bloquear os gases de passar para as narinas. Como o pulmão de Benjamim já era frágil, agora então, está mais ainda. Se não aparecer um doador, ele vai ter de permanecer em coma. - explica ele. Fico em silêncio por 2 minutos, para absorver toda a informação.
__ E se não aparecer um doador? O que vai acontecer com ele?
__ Se não aparecer um doador, nós teremos de comunicar a família e pedir que assinem os papéis para o desligamento das máquinas.
__ Não! As máquinas não podem ser desligadas, vão matá-lo! - grito.
__ Tris, se não houver um doador, não haverão motivos para deixarmos os aparelhos ligados, vamos deixá-lo em coma para sempre?
__ Se ponha no lugar dele Dr. Gail, e se fosse um parente seu? Um filho, um sobrinho, um irmão?
__ Tris, isso é muito complicado...
__ Não, não é! Não vou deixar que desliguem os aparelhos! - grito.
__ Está muito alterada Tris, assim não dá para conversarmos.
__ É que eu odeio injustiça, odeio!
__ Não há nenhuma injustiça aqui, Tris.
__ Mas é claro quem tem, você não... - alguém entra na sala e me interrompe. Eric.
__ Dr. Gail, trouxe o laudo do paciente da Ala B13. - diz Eric.
__ Ok, obrigado. - responde o Dr.
__ Tris? O que faz aqui? Estava procurando você, tenho algo muito sério para lhe contar. - diz Eric.
__ Vim saber como Benjamim estava. O que foi? O que houve? - respondo.
__Vou deixá-los a sós. - diz o Dr. Gail.
__ Não é necessário Dr, fique, por favor. - Eric responde.
__ Fala logo o que tem de tão sério pra me contar Eric!?
__ O líder do Departamento descobriu que Benjamim tirou você daqui ontem, que foram até o centro de Nova York, descobriram tudo! E agora querem levar Benjamim a julgamento e se for considerado culpado, vão executá-lo!
__ O quê!? - digo, com os olhos arregalados.