O reboliço de sentimentos que se contorceu em meu peito nunca esteve tão fora de controle, gritando para serem libertos. A fúria que me toma é descomunal, e quando vejo a mão de Jorge enlaçar a cintura de Scarlatti, é como se eu enxergasse vermelho.
- De forma alguma - ele me responde, prepotente.
Meu corpo todo treme, pois estou travando a maior batalha dos tempos ao reprimir meus instintos. Tenho que usar de todo meu autocontrole para não avançar sobre Jorge, puxar Scarlatti para atrás de mim e dar um murro na cara dele em seguida. Meus pés estão coçando para dar o primeiro impulso, e quando sinto que não vou mais suportar, uma mão me contém bem a tempo pelo ombro. Pelo agarre firme, sei que é meu irmão.
- Jorge Lucas! - Meu irmão diz de sobressalto, ainda com os dedos me segurando firme. A outra mão ele estende para cumprimentar seu sócio - É um prazer revê-lo.
Desviando os olhos de mim por um momento, o babaca dedica sua atenção ao meu irmão. Porém seu braço ainda está em volta de Scarlatti. Meu lado possessivo nunca foi tão testado antes.
- É um prazer revê-lo também, meu caro - ouço-o corresponder ao meu irmão - Nora - ele acena solenemente para minha cunhada.
- Jorge - ela retruca num timbre similar.
Meus olhos estão sobre Scarlatti o tempo todo. Aquele ar imponente e desafiador faísca em sua íris, e ela sustenta o meu olhar com determinação. Pelo que sou capaz de ler em seus olhos, ela não me deseja ali. Posso até dizer que está aborrecida com minha presença.
- Scarlatti - meu irmão a cumprimenta em seguida, e em troca o vejo ganhar dela apenas um sorrio apertado.
- Scarlatti, como você está linda! - Minha cunhada exclama, rompendo qualquer contato visual enquanto pega Scarlatti num abraço surpreendente. Eu pisco, mas não deixo de continuar olhando-a, agora por completo. Scarlatti realmente estava linda. Não havia ninguém que equiparasse sua beleza naquele salão. Nem mesmo minha doce cunhada.
- Obrigada - ela sorri meigamente para Nora, e me lança um rápido olhar antes de se voltar para ela - Você também está linda! Amei o vestido.
Nora ri enquanto se solta dela, e posso ver suas bochechas corarem levemente.
- Obrigada, mas nem se compara a você. Acredita que foi o Derik quem o escolheu?
Scarlatti entreabre os lábios em sútil surpresa.
- É mesmo? - Ela desvia seu olhar para meu irmão, que está numa envolvente conversa sobre negócios com seu sócio.
Nora assente, ainda sorridente.
- Me diga se ele não tem bom gosto, hum?
Scarlatti sorri.
- Ele não estaria casado com você se não o tivesse - ela pisca para minha cunhada, e eu me impressiono um pouco mais com tamanha beleza numa única mulher.
- Verdade - Nora ri enquanto assente.
Um momento constrangedor de silêncio surge entre as duas, e vejo ambas me lançarem olhares inquietantes. Provavelmente porque sou o único dos homens que ainda está prestando atenção em suas conversas. Mas quem liga? Eu com certeza não! Enquanto Scarlatti estiver a minha frente, não serei capaz de me concentrar em mais nada. Disso estou convicto.
- Então... Huh! Como está indo tudo na agência? - É Scarlatti quem puxa assunto comigo, deixando-me surpreso e desorientado.
Eu agito a cabeça mentalmente e volto a mim.
- Bem - respondo-a - Seu assistente não lhe contou? - Alfineto.
Os olhos de Scar diminuem e se tornam facas lançadas direto para meu coração. Eu sabia que devia ter ficado calado ou apenas ter respondido o que me foi perguntado. No entanto, agora que sei da verdade, não é fácil pensar que ela tem mantido contato com seu assistente o tempo todo e comigo limitou-se apenas em mandar e-mails.
- Falamos sobre tanta coisa o tempo todo, que não tive tempo para questiona-lo a respeito - embora sua voz soe doce e suave, seu sorriso e seu olhar são duros.
- Imagino - sibilo, mau movendo os lábios. Scarlatti e eu trocamos um olhar desafiador, e ao mesmo tempo indulgente, pelo que parece uma eternidade. Ainda estou embasbacado com sua transformação, mas não tem jeito do meu humor melhorar agora que fui provocado - Isso reflete muito seu carácter profissional.
Ela arfa, ligeiramente ofendida, e seu olhar se torna incrédulo.
- Dylan! - Nora exclama em tom de advertência - Desculpe, Scarlatti, ele não quis dizer isso...
Sem tirar os olhos de mim, Scarlatti força um sorriso.
- Não, está tudo bem, Nora - tranquiliza-a, mas pela cor que vejo preencher suas feições percebo que está mentindo. De fato, eu me toco que peguei pesado. Mais uma vez. Merda. - Se me deram licença... Eu vou ao toalete - Ela diz, e retira-se antes mesmo que alguém se manifeste ou que eu possa me retratar.
Xingo-me internamente de tudo que é nome, e passo uma mão pelo cabelo, alterado.
- Droga! - Murmuro.
- O que deu em você? - Nora me questiona.
Eu respiro forte e sacudo a cabeça.
- Eu não sei!
- Você quer ou não esta mulher de volta, Dylan Sanchez? - Pergunta-me, o olhar acusador.
Eu esbaforo, estarrecido.
- Mais do que tudo - confesso, vendo o rastro que Scarlatti seguiu - Mas ela não é exatamente a miss simpatia!
- Se eu tivesse sido chamado de vadia, também não seria - ela rebate.
Eu olho para minha cunhada, pasmo. Pelo visto, ela também está zangada comigo. Perfeito.
- Onde está Scarlatti? - Jorge se vira para nos perguntar.
Eu dou a ele meu melhor olhar fuzilador. Não tenho certeza se ele sabe o quanto o odeio, mas provável que agora não reste mais dúvidas.
- Ela foi ao toalete - Nora explica - Acho que também vou. Retocar a maquiagem - ela sorri amarelo para Jorge, me lança um olhar reprovador e se espicha para dar um beijo em meu irmão - Já, já estou de volta.
- Fique a vontade - ele retribuiu ao seu selinho com carinho e sorri para ela.
Fico a ver se afastar em direção a outra porta dupla, seguindo a mesma trilha que Scarlatti. Culpa e remorso me tomam imediatamente. Como se já não bastasse chamar Scarlatti de vadia, agora ponho em dúvida seu profissionalismo. Fui completamente injusto. Estupido! Se tem algo que sei sobre Scarlatti, é que dá o sangue pelo trabalho. Mais até mesmo que eu. E se hoje sou capaz de entender alguma coisa, é graças a ela e sua eficiência.
- Então, Dylan, como tem sido lidar com a agência? - Jorge me pergunta. Eu me viro para ele lentamente, surpreso por ver que ainda me dirige a palavra - Imagino que difícil, não?
De solsacio, eu olho para meu irmão, e capito como aparenta estar apreensivo. Na certa, Derik teme que eu cometa alguma loucura - como avançar sobre Jorge, por exemplo. Conhecendo-me, ele bem sabe que isso não seria improvável. Nunca fui bom na arte de dormitar meus instintos, e no momento estou me sentindo o homem das cavernas, o que torna tudo ainda pior. Meu temperamento nunca esteve tanto no limite.
Sem saco para aturar aquilo, e me recusando a bancar o diplomata educado com o sujeito que mais odiei nos últimos tempos, eu bufo e saio, sibilando apenas um "com licença" em resposta. Sei que ambos se espantam com minha atitude, mas nem dou a mínima ou sequer para trás afim de me certificar. Tudo o que preciso no momento é conversar com Scarlatti. Minha situação já não era das melhores, agora então que terei que gastar mais saliva para persuadi-la.
Seguindo o rastro das duas mulheres mais irredutíveis daquele salão, eu terminei no corredor que dava para os banheiros. A iluminação ali era diminuta, mas não afetava minha visão. De quebra, ainda sou capaz de observar o restante da festa mesmo às sombras.
Esperei com inquietação e temor Scarlatti sair pela pequena porta a qual eu não desgrudava os olhos. O que tanto elas faziam ali eu não tinha idéia, e a demora somente servia para me por mais louco.
Enquanto as aguardava recostado na parede, fiquei pensando sobre todas as asneiras que a disse. Tendo resumido tudo, acabo deduzindo que só dava mancada. É difícil admitir, mas se eu fosse Scarlatti, também não me perdoaria. Nem se parecesse pintado de ouro.
Minha mente corre atrás dos melhores textos para um pedido de desculpas aceitável, mas entro em desespero com o branco que me atinge. O que irei dizer a ela!? Como dizer!? Meu Deus! Scarlatti jamais irá me perdoar. Isso é fato.
Como estou susceptível em a qualquer movimento e barulho, o trinco da porta me arrebata dos meus pensamentos. Em seguida, vejo Nora sair por ela. Minha cunhada me fita com carinho e condescendência, e quando passa por mim dá um suave aperto em minha mão. Sei que sua intenção é me reconforta, mas nem de longe me sinto assim. Muito pelo contrário. O que quer que elas tenham conversado, não parecia estar ao meu favor.
Trinta e oito segundo mais tarde - porque sim, eu contei cada maldito segundo daquele tormento - Scarlatti sai pela mesma porta.
Congelo. E quando nossos olhos se cruzam, sinto o peso do iceberg que os dela carregam. Como esperado, a situação não está nada boa para mim.
- Será que podemos conversar? - Digo, me xingando mentalmente ao ouvir minha voz vacilante.
Scarlatti ergue o queixo e rompe a minha frente.
- Não temos o que conversar.
Eu grunho, odiando a mim mesmo, pois sua frieza é inteiramente culpa minha.
Agindo rápido, eu apresso meus passos para alcança-la.
- Por favor - peço, metendo-me em seu caminho.
Scarlatti trava a tempo de evitar colidir em mim. Sua expressão não é das mais convidativas.
- É algo sobre a agência? - Ela quer saber.
Eu hesito, incerto sobre o que falar. Se não for sobre o trabalho, sei que ela vai me dispensar. Eu não queria ter que mentir, mas não me encontro tendo outra escolha.
- Sim - aceno com a cabeça - Estou preocupado com algo - e a medida que vou falando, percebo que não é inteiramente mentira.
Scarlatti vacila, e sei que é por estar avaliando se deve ou não levar fé em mim. Quando a vejo suspirar, sei que ganhei.
- Tudo bem - ela cede - Diga.
Eu reprimo um sorriso pela pequena vitória. Como não quero conversar ali, sentindo que não há privacidade, aponto para a porta que nos dá acesso ao jardim.
- Pode me acompanhar?
- Dylan-
- Por favor.
Scarlatti pensa por tempo, porém relutante, ela cede. Deixo que vá na frente, pois, não sendo bobo nem nada, quero apreciar o movimentos que sua bunda obtém com o quebrar do seu quadril. Suspiro, vendo a falta que senti daquela visão caminhando pelo meu escritório todos os dias. E como!
Já ao lado de fora, eu fecho as portas de vidro atrás de mim, e fico ainda mais impressionado ao constatar como Scarlatti consegue ficar mais linda a cada cenário diferente. Debaixo daquele véu de estrelas brilhantes, e cercada por flores enquanto se encontra de pé sobre um gramado verdinho, Scarlatti se torna ainda mais bela. Tudo parece aumentar e realçar ainda mais sua beleza, dando ênfase aos seus traços já perfeitos. A luz da lua ilumina suas novas madeixas douradas, e o brilho que parece exalar deles me deixa hipnotizado.
- E então - ela se vira para mim com aquela arrogância de sempre. Porém, nem isso me faz perder o encanto.
- Você está linda, Scar - consigo exalar, perplexo com tanta formosura. Meus olhos nunca viram nada igual. Talvez o fato deu estar apaixonado desse proporções maiores do que aparentava, mas já não sou mais capaz dizer se estou certo.
Por um momento, Scarlatti parecia balançada com minhas palavras, o que me dá esperanças de que sou capaz de fazê-la mudar de ideia.
Ela pigarreia audivelmente, despertando do deslumbre.
- Achei que tivesse me trazido aqui para falar de negócios.
Eu pisco e me forço a recobrar os sentidos.
- Sim, claro - aceno.
- E então?
- Eu... - não suportando nossa distancia, dou alguns passos em sua direção. Scarlatti nota, e embora fique visivelmente mais inquieta, não se move - Não sei se vou conseguir levar isso adiante - confesso.
Ela pisca, aturdida.
- Do que está falando?
- A agência. Não sei se serei capaz de conduzi-la. Não sem você por perto, Scar - sou sincero. Meus dias não tem sido nenhum pouco fácil sem ela na agência, me conduzindo. Scarlatti era meu poeto seguro no trabalho. Quando me via incerto, era a ela que eu recorria. Somente ela era a responsável por me fazer sentir capaz. Agora me vejo confuso e cada vez mais perdido.
Scarlatti fica em silencio por um tempo, ao que noto, sem reação.
- Dylan... - ela trava, a respiração presa. Porém tão logo a libera, exausta - Acho que não me enganei ao ouvi-lo questionar minha capacidade profissional a menos de meia hora atrás - acusa.
- Eu sei, eu sei! - Concordo, e deslizo a mão pelo cabelo, exasperado - Mas... Eu não quis dizer aquilo. De verdade... - Eu solto o ar que contenho, derrotado - Droga! Tem muita coisa que eu não ando querendo dizer, Scarlatti, mas que simplesmente acabo falando.
- Bom, nesse caso, eu não sei o que quer que eu faça.
- Que me desculpe - solto depressa - Só... escuta - eu lhe peço, alcançando suas mãos antes que ela se afaste. Scarlatti tenta se livrar, mas meu agarre é firme - Eu fui um imbecil, Scar...
- Dylan, eu não quero ouvir...
- Por favor, só... Só me ouve - imploro.
- Para quê? - Ela rebate, conseguindo puxar as mãos para longe das minhas - Porquê eu te ouviria, Dylan? Para ser ofendida outra vez?
Eu nego com a cabeça, desesperado.
- Eu não quis dizer nada daquilo...
- Você nunca quer dizer nada!
- Exatamente! - Concordo de prontidão - Eu nunca quero. E o engraçado... - eu me aproximo dela, bebendo da sua face, sua beleza, e então fitando seus olhos - é que o que preciso dizer... Eu nunca consigo.
Scarlatti engole a seco e me encara de volta. Os olhos um pouco esbugalhados. Não sei o que ela está pensando ou se encontrou o real sentido das minhas palavras em meu olhar faminto e ressentido, ou se subentendeu aquilo como uma declaração ou não, mas é fato que algo em minha face a assustou.
- Dylan...
Eu dou um passo em sua direção, sendo levado pelos meus sentimentos. Estou a poucas palavras de declarar meu amor por ela, sem nem mesmo avaliar as consequências deste ato. É possível que minha situação piore após isso, mas sinto que devo arriscar.
- Scarlatti, eu... Scarlatti! - Eu grito, segurando-a bem a tempo antes que caia sobre o gramado. Seu corpo fica mole em meus braços, e ela tenta se apoiar em mim sem muito sucesso - Scarlatti? - Chamo-a - Scarlatti, fala comigo - imploro, dando leves tapinhas dm seu rosto. O desespero me aflige de imediato, e enquanto a observo me apavoro ao notar um tom esverdeado tomar rosto.
- Scar? - Choramingo, implorando que ela me atenda. Em resposta ela pisca e sacode com a cabeça, meio desnorteada. Parece zonza, mas aos poucos recobra os sentidos quase perdidos.
- Scar? - Chamo-a, passando suavemente as costas dos meus dedos por sua face.
- Eu... - Ela engole nada com dificuldade e faz uma careta de dor. Despois de um tempo, o suficiente para me deixar assustado, ela abre os olhos e respira fundo. Tenta se desvencilhar de mim, mas mantenho meu agarre forte sobre ela.
- Você está bem? - Pergunto, aflito.
Com dificuldade, ela acena positivamente. Tenta se colocar de pé, e vendo que ainda não se encontra no seu estado normal, eu a auxílio como posso.
- Eu estou bem - ela me diz, insistente quanto a querer que eu a solte. Porém, não sou idiota, então não a deixo sozinha.
- Vem, vamos entrar. Acho que está frio para você... visto que está praticamente pelada - eu não digo a ultima parte em voz alta.
- Eu não estou doente, Dylan - Ela rebate, a mão pousada no topo da cabeça como se sentisse dor ou ainda se recuperava da tontura.
- Não é o que me parece - retruco.
- Já disse que estou bem - ela tenta me empurra sem muita força, mas não a libero.
- Nós vamos entrar, e fim de papo! - Sou firme.
Contra sua vontade, Scarlatti finalmente me deixa conduzi-la. Sem esforço, eu abro a porta que antes fechei afim de um pouco de privacidade, e a ajudo entrar. Encontrando uma mesinha ao lado, eu a deixo apoiada ali enquanto vedo as portas novamente para protege-la do vento. Não está frio, mas o vento vem geladinho, e, como eu disse, Scarlatti está praticamente nua.
Já tendo as portas trancadas, eu me viro para ela.
- Você bebeu? - Questiono.
- Isso não é da sua conta - ela devolve. Estreitando o olhos, me lembro de vê-la com uma taça na mão.
- O que era... - tento me lembrar - Champanhe, certo? Quantas taças, Scar?
- Dylan...
- Quantas? - Exijo.
Ela respira fundo e joga para o lado uma das mexas curtas que cai sobre a testa.
- Uma - responde.
Eu assinto.
- Não é muito para que já esteja bêbada - reflito.
- Ah, ótimo! Primeiro, eu sou uma vadia, depois uma péssima profissional, agora, me taxa de pinguça! - Ela se enfurece.
- Você disse que não está doente! O que quer que eu pense? - Rebato.
- Escuta aqui, Dylan... - ela tenta se por ereta para me encarar, mas tonteia e vacila mais uma vez. No mesmo instante, voo para acudi-la.
- Você comeu alguma coisa hoje? - Pergunto-a, apoiando seu corpo em volta do meu braço.
- Não é da..
- Facilita pra mim, Scar - urro, um tanto bravo.
Ela se apoia em meus braços e recosta a testa em meu peito. A respiração mais ofegante do que eu gostaria.
- Fora o café da manhã... Não que eu me lembre - ela assume.
Eu grunho, puto da vida.
- O que você é? Alguma criança?
- E você? Algum médico? - Devolve.
Eu trinco os dentes, aporrinhado.
- Pelo menos sei que devo me alimentar antes de beber.
- Não bebi o suficiente para estar neste estado!
- Então me diga o que tem! - Exijo entre dentes, alucinado.
Parecendo exausta, ela ergue o rosto para mim. Nossos olhos se encontram, e eu noto como ela parece vulnerável.
- Scarlatti... - Minha voz falha, e sem pensar eu passo um dedo por sua testa, afastando uma das mexas caidas sobre ela.
- Não deve ser nada - me garante, a respiração um pouco melhor - Eu é que não tenho me alimentado direito.
Estou indo lhe dar uma bronca, quando avisto por cima da sua cabeça um garçom. Para chamar sua atenção, solto um rápido e baixo assobio. Esperto e ágil, o homem de meia idade vira a cabeça para mim. E faço um gesto com a mão e em seguida o vejo se aproximar com uma bandeja.
- Senhor?
- Você pode me trazer uma garrafa d'água, por favor? - Peço-o.
- Dylan, não precisa...
Eu ignoro completamente o que Scarlatti tenta dizer.
- Perfeitamente, senhor - o garçom acena para mim e faz menção para se retirar. Exceto que eu o travo pelo paletó e olho por sobre a bandeja que carrega.
- Isto é Panqueca de Salmão Defumado e Dill? - Pergunto-o.
- Sim.
- Ótimo. Vou ficar - e sem esperar por sua resposta, já estou retirando a bandeja de suas mãos.
O homem me encara com espanto, e eu me viro para deixar a bandeja ainda repleta de panquatas sobre a mesinha atrás de nós. As mãos de Scarlatti me seguram firme pela cintura, e eu tento não pensar na sensação boa que é tê-las ali.
Quando volto a me virar para abraçar Scarlatti, encontro o garçom ainda ali, me encarando com cara de nada.
- A água pode ser pra hoje ainda? - Pergunto-o, sendo mais grosso do que costumo.
O homem parece voltar a si com minha frieza, e acena solenemente.
- Sim, senhor.
Ainda abraçada a mim, Scarlatti ergue o rosto para me encarar.
- O que deu em você?
Eu pisco e engulo a seco, agora com um medo estranho pairando em meu peito. O medo que devia ter tido mais cedo ao pensar em declarar meus sentimentos por ela, mas que tenho agora ante a possibilidade dela se dar conta disso sozinha.
- Nada - eu minto, então dou um passo pro lado e apoio meu braço em cintura, por precaução. - Melhor você comer.
Quando se vira para a bandeira, Scarlatti arfa.
- Tudo isso!? - Ela exclama.
Eu sorrio, por um momento a achando parecida com uma criança birrenta.
- Se quiser tudo... - encolho os ombros - Não vou me opor. Mas pelo menos metade eu exijo que você coma.
Ela respira fundo, depois olha da bandeja para mim outra vez.
- Eu estou bem, Dylan.
- Até que me prove ao contrário, e eu digo medicamente falando, vai ter que comer assim mesmo - sou firme.
- Olha para mim - ela pede, e isso eu já estou fazendo - Eu pareço mal?
Eu passeio minuciosamente meus olhos por sua face, mas não encontro vestígios da fraqueza de antes, nem o tom esverdeado. Ela também não está mais ofegante ou parecendo precisar do meu apoio, e as bochechas voltaram a coloração habitual. Mesmo assim, ainda não me sinto seguro.
- Coma pelo menos alguns - estou irredutível, sei disso, mas não abro mão de vê-la melhor do que aparenta.
Com um rodar de olhos, Scarlatti se vira para a mesinha e pega alguns cubinhos de panqueca. Eu não quero me afastar dela, amando o formigamento que percorre meu braço e então meu corpo ao senti-la tão perto outra vez, mas me forço a dar-lhe algum espaço. Eu cruzo meus braços e a observo comer.
- Você não quer um? - Ela me oferece - Acho que posso dividir.
Eu sorrio, e fico aliviado por ela parecer mais amigável, coisa que é raro.
- Não, obrigado. - Nego.
O garçom chega bem a tempo com a água que pedi.
- Obrigada - ela sorri educadamente para o homem e então empurra a bandeja redonda em sua direção. Eu faço menção de intervir, mas ela me trava com uma mão no peito - Eu estou bem. De verdade - me assegura - Se comer mais um destes, acredito que vou vomitar!
Eu entro em alerta.
- Está se sentindo mal de novo?
Ela nega com a cabeça.
- Não! Foi somente modo de dizer - ela ri um pouco. Sentindo-me mais aliviado, eu aceno para o garçom, permitindo que leve a bandeja com os petiscos que sobraram.
Observo Scarlatti beber da água em goles sedentos, e me sinto bem ao saber que estou cuidando bem dela. Um orgulho diferente se inflama e expande por meu peito, e estou satisfeito comigo mesmo.
- Quanta sede - brinco.
Scarlatti para de beber e limpa com o pulso o canto da boca. Como tudo o que faz, o gesto só salienta sua beleza. Como isso é possível, eu não faço idéia.
- Não tenho bebido muita água também - ela faz uma careta, se auto sentenciando culpada.
- Scarlatti... você precisa se cuidar.
Ela parece surpresa com meu comentário. Mas logo que se recupera, o queixo se eleva em arrogância.
- Eu me cuido! Só me descuidei nos últimos dias. Não ter ido a agência me fez redobrar a carga horária de trabalho... Não que seja culpa de vocês - ela se adianta em dizer, prevendo que estou indo em nossa defesa.
- Ainda não entendo porque saiu - admito.
Ela ergue ainda mais o queixo, toda simpatia de antes perdida.
- Precisei - Como seu tom não me sugere questionar os motivos, eu não o faço.
- E quanto pretende voltar? - Pergunto, dando meio passo para ainda mais perto - Está sendo horrível sem você lá, Scar.
Scarlatti estende a mão para espalmar meu peito e se afasta.
- Dylan... - ela suspira - Não. Olha, eu agradeço por ter me acudido - ela começa, e nem preciso que termine para que eu saiba o que está pra dizer - Mas isso não muda nada. Não tira o peso das palavras que me disse.
- Eu não queria ter dito aquilo! - Rebato, rompendo nossa distancia mesmo contra sua vontade - Scar, eu...
- Scarlatti?
Nós viramos nossa cabeça ao mesmo tempo para a voz que a chama. Jorge Lucas entrar na sala, um tanto alarmado. Instantaneamente, meu sangue ferve.
Scarlatti se afasta ainda mais de mim, se virando para ele.
- Você está bem? - Ele a segura pelos braços, os olhos vasculhando seu rosto em busca de sinais de fraqueza. Chegou tarde, babaca. Penso, tanto triunfante quanto enfurecido. - Um funcionário me disse que passou mau...
- Eu estou bem, não se preocupe - ela sorri fraquinho para ele, e reparo como evita me olhar.
- Quer ir lá fora pegar um ar fresco? Eu posso lhe acompanhar...
Ela nega com a cabeça, e assisto como se aconchega em seus braços.
- Acho que só preciso me sentar um pouco - ela o diz.
- Claro - ele assente, e antes que eu possa opinar, o vejo abraça-la e caminhar com ela para longe.
O sentimento de impotência e revolta me tomam, e uma dor estranha formiga em meu peito. Meus braços, ela rejeita, mas nos dele ela se debruça. Pra mim, paga de fortona, mas para ele não se importa em bancar a donzela frágil.
Grunhindo, eu soco o ar. A do e a fúria me consumindo por inteiro agora. Decidido a reivindicar o que consider ser meu por direito, vou atrás deles. Exceto que não dou nem dois passos quando ouço alguém me chamar.
Virando-me, reconheço a criatura de estatura familiar e sorriso deslumbrante no rosto que mantém a porta escancarada. A menina que a há muito não vejo, mas que percebo ter se transformado numa mulher. E como não reconhecer? É minha ex, e melhor amiga de infância, Cleonice.
- E então? - Ela questiona, os braços já abertos - Não vai dar um abraço nessa velha amiga?
Sem pensar, corro para recebe-la, sentindo meu sorriso já estamoado em meu rosto.
- Pequena! - Eu murmuro, apertando-a contra mim e tirando seus pés do chão - Senti saudades.
Ouço sua risadinha rouca no pé do meu ouvido, e percebo que de fato senti falta daquele som.
- Eu também, meu amigo. Eu também.