— O quê você fez? —disse Rob tentando estancar o sangue com a mão.
A sirene ecoa por toda a rua.
— Desculpa, meu amor... —eu olhei a sua facada no estômago. — eu acho que não te amo mais. Sabe, você não tem ligado ultimamente e nós brigamos por qualquer coisinha.
Rob olha nos meus olhos e eu coloco a aliança em seu dedo sangrento. Deito minha cabeça em seu peito, ouço sua respiração acelerada uns segundos antes dele apagar.
Ao assistir seus olhos estalados e assustados, passo a mão pelo seus olhos fechando-os.
***
A viagem inteira eu não conseguia parar de pensar no momento em que eu matara Rob. E de como os policiais me encontraram.
Dizem que os criminosos preferem os sanatórios à cadeia. Será verdade? Olho pela janela da van e só consigo ver uma grande e velha construção cercada por uma floresta bizarra.
— Está na hora, rainha-do-baile-zumbi. Sua nova casa. —o policial pateta disse.
Estou com a mesma roupa há 63 horas. Desde a morte do Rob. O juiz que decidiu que eu viria para esse inferno, me obrigou a ficar com essa roupa. Queria agradecer pessoalmente.
É o meu vestido de casamento. Já disse ao juiz, Rob deve ser enterrado com a roupa que morreu, que é o smoking do nosso casamento.
***
Sei que sou super cativante. Mas precisavam de tantas anomalias me recebendo nessa merda de lugar?
— Me solta, droga! — eu pedi educadamente ao policial troglodita que me segurava — Eu já estou no inferno, não tem mais como fugir.
— Pode abrir as algemas. —aquela diretora nojenta e engomadinha ordenou e o policial obedeceu.
— Bom dia. — disse ela com a cara mais sarcástica do mundo.
— Bom dia só se for para você, porque para mim não tá nada bom. — respondi movendo as mãos avermelhadas.
—Sente-se Lenox. —Um cara, muito gostoso, por sinal, afaga o cigarro no cinzeiro e sorri para mim.
— Não quero sentar. — expliquei.
—Entenda, que não foi um pedido, e sim uma ordem. — Cassandra, que agora sei por ver a etiqueta na mesa, diz em tom rude.
— Apenas se sente. — disse o rapaz, que deduzo ser o tal de William Hendrix, dono daqui.
Eu acabei cedendo e sentei.
— Bom, quer dizer que você é a famosa viúva negra? — ela diz delineando meu mais novo codinome.
— Acho que está me confundindo com a Scarlett Johansson. — eu respondo olhando pela janela.
— Olhe para mim quando falo com você. — Cassandra diz como se fosse importante.
— Não tem muito para ver. — respondo sorrindo, ela se mostra esbravejando e olha pra William esperando que ele diga algo.
— Isso se concerta com o tempo. — diz ele num sorrisinho enquanto dá um gole numa bebida marrom que, pelos meus conhecimentos, deve ser whisky.
— Ou com trepanação mesmo. — a mulher de cabelos escuros olha de soslaio para ele.
— Queira tirar essa fantasia de garota possuída antes do Detetive Hawkins chegar para conversar com você.
Eu me levanto e uma moça loira de uniforme estende o braço pra me acompanhar.
—Não vou pegar no seu braço para um tour, se é o quê está pensando. —eu comento e ela pega no meu braço mesmo assim.
***
— Oi viúva negra. —uma enfermeira de cabelos curtos diz sorridente. —Sou a enfermeira Kristen, e estou aqui para te acompanhar.
Não digo nada.
— Bonita roupa. —ela diz sobre o uniforme horroroso que fui obrigada a usar.
Eu reviro os olhos ao perceber que ela foi irônica.
O uniforme consistia em uma calça de moletom horrorosa, uma camiseta tamanho extra G, botas ugg e minha cara limpa.
— Enfim, sabia que seu codinome é um dos mais legais que já vi por aqui?
— Ah é?
—Isso aqui é para você se sentir melhor. — ela me diz numa voz docinha dando um copinho plástico com três comprimidos diferentes.
Eu pego o copo dou uma olhadela, arremesso os remédios longe.
— Tem razão, me sinto bem melhor. — comento sorrindo.
Mas ela arranja outros e me faz ingerir e depois mostrar a língua. Igual mãe dando xarope para a criança.
***
— Quanto mais tempo você passar na sala de recreação ou pátio, mais créditos você ganha com os psicólogos e psiquiatras. — a loira de farda respondeu. Agora eu soube que se chama French.
A sala de recreação era o lugar mais ridículo da face da terra.
Criaturas andando e brincando, coletânea de músicas ruins, xadrez, outros jogos de tabuleiro, sofás, plantas, pufes...
— Lenox, você precisa se dar bem, não seja uma cretina, não queira apanhar e nem fazer inimigos aqui, respeite as regras e nós respeitaremos você.
—Boa sorte. —ela me deu uma empurrada e os lunáticos começaram a me olhar.
Eu bufei e revirei os olhos antes de sentar-me no sofá ao lado de um cara com olhos castanhos de cachorrinho que caiu da mudança.
— Parece que esse manicômio não é tão sem-graça quanto eu imaginara. — eu disse e o cara olhou, passei a língua nos meus dentes e mordi meus lábios. Isso sempre funciona.
Ele me olhou por alguns segundos antes de ter uma reação.
—Impossível te reconhecer sem a maquiagem. —ele diz, revelando duas covinhas.
— Nem me fale! — eu disse e cruzei as pernas chegando mais perto dele.
Ao fazer isso os guardas nos fuzilaram com o olhar e ele se afastou com uma das sobrancelhas erguidas.
Ele me olhava como se eu fosse uma criatura odiosa.
— Por quê você estava vestida daquele jeito? — ele disse olhando em volta.
— Anteontem foi o dia do meu casamento. Não cheguei a casar na verdade. — eu disse dando de ombros.
— Você matou seu noivo? —eu assenti. — E aquele era seu vestido de casamento? —ele perguntou ligeiramente surpreso.
— Obviamente. Por quê? Era horrível demais? — eu disse me sentindo ofendida.
— Era demasiado creepy. —ele disse.
Entendo o porquê, o vestido estava meio manchado de sangue e rasgado. Mas a culpa era do Rob.
— Eu sou creepy, uma serial killer, segundo os noticiários, então. — digo dando de ombros.
— Qual é o gosto dessas palavras na sua boca? — ele disse levando o olhar pra mim.
— De vinagre.
— Eu gosto de vinagre. — ele confessou sorrindo de lado.
—Vinagre tem muito sódio.
—Você se importa se eu perguntar o por quê dos seus crimes? — ele disse sem me encarar novamente.
— Dizem que eu sou uma sociopata. Talvez eu seja, ou talvez não. É só que... quando meus namorados, afetos e coisa e tal viravam irrelevantes... —eu disse olhando para onde ele estava olhando.
— É incrível, a maneira que você diz isso, como se fosse normal.
— Você já matou?
— Não, nem pretendo. — ele disse palavras bem previsíveis.
— Se o tivesse feito você entenderia o alívio.
Ele arregala os olhos.
— Por quê está aqui? — continuo.
—É uma longa história... —ele disse parecendo desinteressado.
— Eu tenho tempo, amor. — ele me olhou com os olhos arregalados.
— Me acham louco.
— Ah, jura? Gênio.
— Você assusta, sabia?
— Isso se chama 'flertar bem'. — disse enrolando uma mechinha do meu cabelo. — E aí, não vejo uma aliança no seu dedo? É comprometido?
— Não namoro muito, como viemos parar nesse assunto? — ele responde me cortando.
Ele ficou meio alterado. Talvez o papo de matar realmente assustou ele.
— Nos vemos depois, Lenox. — ele se levanta rápido, sem me dar explicações e sem falar seu nome.