Entre as florestas de diferentes climas, existem também criaturas encarregadas de proteger e cuidar de seus próprios territórios. Para as fadas, os lugares mais importantes eram as florestas, cada uma marcada pela beleza e pelo encanto de uma estação.
E é justamente na floresta de outono que começa a história de hoje.
Entre folhas douradas que dançam ao vento, uma pequena fada corre apressada, carregando consigo uma bolsa repleta de coisas. Seus olhos castanhos lembram a delicadeza da brisa que atravessa as árvores, enquanto seus longos cabelos acompanham o ritmo da ventania.
Suas vestes, belas e majestosas, parecem ter sido feitas para uma própria deusa das estações.
Seu nome era Evangelline, uma jovem fada que estava apressada para mais uma aula de escrita. Por pouco, não chegou atrasada, mas conseguiu entrar a tempo.
Durante a aula, estudou como sempre e, mais uma vez, mostrou por que era a melhor da sala. Sua dedicação encantava o professor, mas era principalmente sua alegria contagiante que tornava sua presença impossível de ignorar.
Evangelline tinha tudo para brilhar.
Mas talvez aquela luz não durasse para sempre.
Quando a aula terminou, ela começou a reunir suas anotações e guardá-las cuidadosamente em sua bolsa. Estava prestes a partir quando ouviu uma voz conhecida atrás de si.
- Ei... será que posso conversar com você? - perguntou uma de suas amigas, em um tom carregado de raiva.
Evangelline parou por um instante.
Algo naquela voz dizia que aquela não seria uma conversa qualquer.
- Ah, sim... claro. Pode falar - respondeu Evangelline, ainda sem entender o motivo daquela raiva.
Sua amiga se aproximou de repente e, antes que ela pudesse reagir, deu-lhe um tapa, fazendo-a perder o equilíbrio com o empurrão que veio em seguida.
- Você nunca mais inventa de querer ser minha amiga! - disparou, tomada pela irritação. - Eu estou cansada de ver você perto do meu namorado. E essas suas atitudes... nossa, parecem as de uma pequena fada sem noção!
Evangelline levou a mão ao rosto, sentindo a ardência do golpe. Seus olhos, antes tão vivos, agora carregavam apenas confusão.
- Mas... eu e ele somos apenas amigos. Eu só o considero assim. E, além disso, eu já namoro. Eu simplesmente estou sendo eu mesma...
- Não interessa! - interrompeu a garota. - Você não passa de alguém que acha que é boa em tudo, quando, na verdade, não é nada.
As palavras atingiram Evangelline de uma maneira que o tapa jamais conseguiria.
Por alguns segundos, o mundo ao seu redor pareceu ficar em silêncio. As folhas do outono continuavam dançando lá fora, mas, dentro dela, alguma coisa começava a desmoronar.
- Mas eu só estou sendo eu mesma...
- Suas atitudes irritam. Você irrita! Ninguém nunca teve coragem de lhe dizer, mas ninguém aguenta ficar perto de você, garota. Você irrita demais... E ninguém nunca considerou você uma amiga. Nem mesmo eu.
Evangelline ficou em silêncio.
Sentiu um aperto no peito, um sentimento estranho e difícil de compreender. As palavras ecoavam em sua mente, como se cada uma tivesse encontrado um lugar para permanecer.
Sua amiga virou as costas e deixou a sala, sem olhar para trás.
Por alguns instantes, Evangelline permaneceu ali, imóvel, olhando para o vazio. Pensou nas palavras que havia acabado de ouvir, tentando descobrir se, em algum lugar dentro delas, existia alguma verdade.
Mas, depois de alguns minutos, respirou fundo.
Não permitiria que aquelas palavras apagassem sua luz.
Evangelline recolheu suas coisas, ajeitou a bolsa sobre os ombros e deixou a sala.
Lá fora, o vento de outono continuava soprando entre as árvores, carregando as folhas para longe.
E ela seguiu seu caminho, tentando fazer o mesmo com aquelas palavras.
Antes de levantar voo e seguir para casa, Evangelline avistou seu namorado sentado em um dos galhos de uma árvore. De longe, percebeu que ele observava alguém atentamente.
Ela imaginou que ele estivesse apenas perdido em seus próprios pensamentos e, sem hesitar, aproximou-se.
Ao chegar perto, Evangelline o abraçou por trás, envolvendo-o com carinho. Porém, para sua surpresa, ele não retribuiu o abraço.
Por um instante, seu corpo ficou tenso. Ele chegou a erguer o punho, como se fosse golpeá-la, mas, ao perceber quem estava atrás dele, conteve-se e se afastou rapidamente.
Evangelline ficou confusa, ainda com os braços suspensos no ar.
- Ei... sou eu! - disse ela, com um sorriso tímido, tentando entender o que havia acabado de acontecer.
Quando ele finalmente olhou para Evangelline, não havia em seu rosto qualquer sinal de culpa ou arrependimento por quase tê-la atingido. Apenas a encarou por alguns segundos e disse, de maneira fria:
- Ah... é você.
Evangelline conhecia bem aquele jeito. Ele sempre fora duro e, muitas vezes, violento com ela. Seu amor parecia existir apenas de um lado, enquanto ela continuava oferecendo carinho, esperando receber o mesmo em troca.
No fundo, Evangelline ainda acreditava que, algum dia, ele perceberia a maneira como a tratava e decidiria mudar. Talvez passasse a enxergar o quanto suas atitudes a machucavam.
Mas esse dia nunca chegou.
Ela respirou fundo, sentou-se ao lado dele no galho e ficou alguns instantes em silêncio, contemplando a floresta tingida pelas cores do outono.
Então, com a voz baixa, começou a contar tudo o que havia acontecido naquela tarde.
Enquanto falava, as folhas continuavam a cair ao redor deles, como pequenas lembranças sendo levadas pelo vento.
Ele apenas a escutava, permanecendo em silêncio, sem oferecer qualquer palavra de conforto.
Enquanto falava, Evangelline não conseguia deixar de pensar no que sua ex-amiga havia dito. As palavras voltavam à sua mente, uma após outra, como espinhos que insistiam em feri-la.
"Ninguém aguenta ficar perto de você."
A lembrança apertou seu coração.
Pouco a pouco, sua respiração começou a ficar descompassada. O peito apertou, as mãos tremeram e seus pensamentos se atropelaram, como folhas levadas por uma ventania.
A ansiedade havia chegado.
E, naquele momento, Evangelline não conseguia simplesmente mandá-la embora.
- Para com isso! - ele ordenou, irritado.
Mas uma crise de ansiedade não desaparece apenas porque alguém manda.
Ao perceber que ela não conseguia se acalmar, ele perdeu ainda mais a paciência. Segurou seu pulso com força e, com a outra mão, segurou seu queixo, obrigando-a a encará-lo.
- Para com isso! Parece coisa de maluco!
As palavras dele não trouxeram calma.
Pelo contrário.
Naquele instante, o pouco de segurança que Evangelline ainda sentia pareceu desaparecer entre seus dedos.
Naquele momento, Evangelline sentiu medo.
Um medo puro e instintivo, como o de um pequeno coelho diante do lobo. Seu corpo permanecia imóvel, enquanto seu coração disparava dentro do peito.
Quando ele percebeu que ela havia parado, soltou-a e se afastou.
Evangelline abaixou os olhos para o próprio pulso. A pele estava marcada e arroxeada onde ele a havia apertado.
Ela permaneceu em silêncio.
Ele também ficou alguns segundos calado, observando a marca em seu pulso. Mas, em vez de demonstrar arrependimento, apenas desviou o olhar.
Ainda irritado, levantou-se do galho e foi embora, deixando Evangelline sozinha.
O vento continuava soprando entre as árvores, espalhando as folhas pelo chão.
E, pela primeira vez, aquela floresta que antes parecia tão acolhedora começou a parecer grande demais para ela.
Os dias e meses continuavam se repetindo.
Evangelline estava cada vez mais sozinha. Entre comentários cruéis, brincadeiras de mau gosto e um amor que nunca parecia ser correspondido, sua alegria começava a desaparecer aos poucos.
Certo dia, em casa, sentiu um vazio profundo. Era como se todo aquele peso estivesse lentamente consumindo aquilo que havia de mais bonito dentro dela.
Então, por um instante, uma esperança surgiu.
Talvez aquele relacionamento ainda pudesse mudar. Talvez ele pudesse perceber seus erros e, quem sabe, tudo pudesse finalmente ser diferente.
Movida por esse pequeno fio de esperança, Evangelline se arrumou com cuidado. Colocou suas melhores vestes e, naquele dia, parecia ainda mais bonita do que de costume.
Então, saiu para encontrá-lo.
Enquanto voava pela floresta, imaginava como seria aquele encontro. Pela primeira vez em muito tempo, um sorriso verdadeiro surgiu em seu rosto.
Até que o avistou.
Ele estava sozinho, sentado entre os galhos de uma árvore.
Evangelline pousou discretamente em um galho próximo, planejando fazer uma pequena surpresa. Seu coração estava leve, e ela se preparava para voar até ele.
Mas, antes que pudesse fazê-lo, viu alguém se aproximar.
Era outra garota.
Ela tinha cabelos ruivos, tão vivos quanto as folhas do outono, e um rosto de beleza quase encantadora, como se tivesse saído das profundezas de um conto de sereias.
Evangelline permaneceu imóvel.
Então, diante de seus olhos, os dois se beijaram.
Um beijo demorado, íntimo, daqueles que pareciam dizer tudo sem precisar de nenhuma palavra.
Naquele instante, seu coração apertou.
Aquela pequena esperança que havia carregado consigo finalmente se desfez.
Ela não precisava de explicações.
A cena diante de seus olhos confirmava tudo aquilo que, no fundo, já temia.
Sem dizer uma palavra, Evangelline deixou cair a pequena surpresa que havia preparado.
E, antes que qualquer um pudesse perceber sua presença, abriu as asas e partiu.
Dessa vez, não havia alegria em seu voo.
Apenas o vento frio do outono acompanhando suas lágrimas.
Dois anos se passaram.
Era o dia de seu aniversário de vinte anos. Às margens de um rio, Evangelline cortou os próprios cabelos. Agora estavam curtos, mas, para ela, aquilo significava muito mais do que uma simples mudança de aparência.
Era o símbolo de tudo aquilo que havia decidido deixar para trás.
Um pedaço do passado que, finalmente, conseguia soltar.
E também o começo de uma nova vida.
Com um sorriso como nunca antes havia usado, Evangelline vestiu roupas mais leves e confortáveis, sem perder sua beleza. Então, abriu as asas e levantou voo.
Voou rápido.
Cada movimento parecia arrancar um pouco do peso que carregava havia anos. Pela primeira vez, não voava para fugir de alguém, mas simplesmente porque queria sentir a liberdade.
Ao longe, encontrou um enorme tronco oco e entrou por sua abertura. Seguiu subindo por dentro dele até enxergar a saída.
Então, uma luz surgiu diante de seus olhos.
Como a luz no fim de um túnel.
Evangelline atravessou a abertura e, ao sair, subiu ainda mais alto, deixando o vento envolver seu corpo.
Por alguns instantes, fechou as asas e permitiu que a gravidade a levasse para baixo.
Ela caiu.
Mas, antes de tocar o chão, abriu novamente as asas.
E voltou a voar.
Dessa vez, não havia medo.
Apenas o vento, a floresta e a sensação de que, finalmente, ela estava livre para seguir seu próprio caminho.
Enquanto voava, Evangelline abriu sua bolsa e retirou o caderno. Entre as páginas, começou a anotar algumas ideias que gostaria de apresentar ao Guardião da Floresta de Outono.
Depois de algum tempo, finalmente chegou ao seu destino.
O guardião estava diante da paisagem, contemplando a imensidão da floresta. Seus longos cabelos trançados dançavam suavemente ao sabor do vento, misturando-se à melancolia dourada daquela estação.
Evangelline se aproximou devagar.
- Ah... Sr. Apollo?
O homem virou o rosto e, ao reconhecê-la, esboçou um sorriso sereno.
- Evan, minha querida... bom dia. E feliz aniversário.
Evangelline sorriu, aproximando-se com o caderno apertado contra o peito.
- Obrigado, Sr. Apollo. Eu trouxe algumas ideias novas para a floresta. Queria saber o que o senhor acha.
Apollo observou a jovem por alguns segundos. Havia algo diferente nela. Não era apenas o cabelo curto ou as roupas mais leves. Havia uma luz em seu olhar que antes parecia escondida.
- Vejo que você está diferente, Evan.
Ela tocou os próprios cabelos e soltou uma pequena risada.
- Acho que finalmente consegui deixar algumas coisas para trás.
Apollo sorriu de canto, como se entendesse mais do que ela havia dito.
- Às vezes, para florescermos novamente, precisamos permitir que algumas folhas caiam.
Evangelline olhou para a floresta. As folhas douradas eram levadas pelo vento, girando pelo céu antes de repousarem no chão.
- Eu passei muito tempo achando que precisava ser outra pessoa para ser aceita - confessou. - Mas agora... quero apenas ser quem eu sou.
Apollo ficou em silêncio por um instante.
Então, voltou os olhos para ela.
- E talvez esse seja o presente mais bonito que você poderia dar a si mesma aos vinte anos.
Evangelline sorriu.
Dessa vez, seu sorriso não escondia nenhuma tristeza.
Era simplesmente felicidade.
Apollo estendeu a mão, pedindo o caderno.
- Então, vamos ver o que essa nova Evangelline tem preparado para a nossa floresta.
Ela entregou o caderno com entusiasmo.
Apollo começou a folhear as páginas. Havia desenhos, anotações e pequenas ideias sobre como tornar a floresta ainda mais acolhedora para as criaturas que viviam ali.
- Você pensou em tudo isso sozinha?
- Passei algumas noites escrevendo - respondeu ela, orgulhosa. - Acho que o outono pode ser mais do que uma estação de despedidas. Ele também pode representar recomeços.
Apollo parou de folhear.
Por alguns segundos, apenas observou aquela frase.
- Interessante...
- Eu pensei que, assim como as árvores deixam suas folhas cair, nós também podemos deixar algumas coisas para trás. E isso não precisa ser triste.
O guardião fechou o caderno lentamente.
- Você aprendeu muito nesses dois anos.
Evangelline sorriu.
- Acho que sim.
Uma rajada de vento atravessou a floresta, fazendo as folhas dançarem ao redor deles.
Apollo devolveu o caderno.
- Continue escrevendo, Evan. Talvez um dia essas ideias se tornem histórias que outras pessoas precisem ouvir.
Ela segurou o caderno contra o peito.
- Eu gostaria disso.
Apollo voltou a contemplar a paisagem.
- E lembre-se de uma coisa: nem toda folha que cai está morrendo. Algumas apenas estão abrindo espaço para aquilo que ainda vai nascer.
Evangelline olhou para as folhas espalhadas pelo chão.
Naquele momento, compreendeu que talvez o outono nunca tivesse sido uma estação sobre o fim.
Talvez fosse sobre aprender a recomeçar.
Ao receber o caderno de volta, Apollo fez um gesto gentil em direção à paisagem.
- Venha. Observe comigo.
Evangelline se aproximou e ficou ao seu lado.
Os dois permaneceram em silêncio, contemplando a imensidão da floresta. As folhas douradas dançavam ao vento, enquanto os últimos raios de sol atravessavam os galhos e iluminavam o caminho.
Evangelline observava tudo com os olhos encantados. Depois de tantos anos, aquela mesma floresta parecia ter ganhado novas cores.
Apollo então virou o olhar para ela e sorriu.
- Você é uma das fadas em quem mais confio para trazer essas ideias à nossa floresta.
Evangelline ficou surpresa por um instante.
Então, sorriu.
Talvez aquelas palavras fossem simples para ele, mas, para ela, significavam muito.
Depois de tanto tempo ouvindo que não era boa o bastante, finalmente havia alguém que enxergava seu valor.
Evangelline abaixou os olhos por um instante, segurando o caderno contra o peito.
- O senhor realmente confia em mim?
Apollo soltou uma pequena risada.
- Se eu não confiasse, não teria lhe chamado para conversar sobre a floresta.
Ela sorriu, sentindo o coração aquecer.
- Eu prometo que vou me esforçar.
- Não precisa se esforçar para ser outra pessoa, Evan - respondeu Apollo, olhando novamente para a paisagem. - Apenas continue sendo você.
Aquelas palavras fizeram Evangelline permanecer em silêncio.
O vento passou suavemente entre as árvores, levando algumas folhas consigo. Ela observou uma delas cair diante de seus pés.
Por um instante, lembrou-se de tudo o que havia vivido.
As palavras cruéis.
A solidão.
O medo.
O amor que nunca havia sido correspondido.
Mas nenhuma daquelas lembranças doía como antes.
Ela respirou fundo e sorriu.
- Acho que estou começando a entender o que o outono significa.
Apollo olhou para ela.
- E o que significa?
Evangelline ergueu os olhos para as árvores.
- Que algumas coisas precisam cair para que possamos ter espaço para crescer.
Apollo sorriu.
- Agora sim, você está começando a enxergar a verdadeira beleza desta floresta.
- Bom... eu tenho uma missão para você.
Evangelline arregalou os olhos.
- Uma missão?
- Sim. Maio logo chegará e, quando o mês chegar, quero que você busque uma coisa para mim.
Apollo tocou o próprio pescoço, como se já pudesse sentir a presença do objeto.
- Meu colar. Ele é muito especial para mim. Quero que você o encontre no centro onde todas as estações se encontram e se conectam, o lugar onde os guardiões costumam se reunir.
Evangelline segurou o caderno com entusiasmo.
- Você faria isso por mim?
Ela abriu um enorme sorriso.
- Sim, sim! - respondeu, quase sem conseguir esconder a animação.
Apollo sorriu diante de sua empolgação.
- Então está decidido. Quando maio chegar, essa será sua missão.
Evangelline olhou para o horizonte, imaginando o lugar onde as quatro estações se encontravam.
Sem saber que aquele simples pedido seria o começo de uma jornada que mudaria sua vida.
Então, maio finalmente chegou.
Evangelline preparou tudo o que precisava para a viagem e seguiu pelo caminho indicado por Apollo. Voava entre as árvores, deixando para trás a floresta de outono enquanto se aproximava do centro onde todas as estações se encontravam.
Mas, conforme avançava, sentia algo apertar dentro do peito.
As dúvidas começaram a surgir novamente.
As lembranças do passado voltaram como sombras, trazendo consigo antigas inseguranças e pensamentos que pareciam sussurrar que ela não merecia ser feliz.
Por um instante, sentiu como se o próprio passado tentasse puxá-la de volta.
Então, o céu começou a escurecer.
Uma chuva se aproximava.
Evangelline acelerou o voo, tentando chegar ao seu destino antes que a tempestade a alcançasse.
Mas as primeiras gotas começaram a cair.
Uma.
Duas.
De repente, a chuva tornou-se intensa.
As asas ficaram pesadas, dificultando seus movimentos. Ela tentou continuar voando, mas perdeu o equilíbrio.
- Ah!
Seu corpo despencou.
Evangelline caiu entre os galhos e atingiu o chão com força.
Um dos galhos quebrados e afiados passou por ela, cortando uma de suas asas e atingindo também seu braço.
A dor fez seus olhos se fecharem por alguns segundos.
Deitada sob a chuva, respirou com dificuldade enquanto as gotas escorriam por seu rosto.
Mesmo machucada, ainda segurava sua bolsa.
A missão precisava continuar.
E, dessa vez, ela não deixaria que a dor - nem os fantasmas do passado - decidissem por ela.
Evangelline permaneceu alguns instantes no chão, sentindo a chuva fria cair sobre seu rosto. Uma de suas asas estava ferida, e cada movimento fazia a dor percorrer seu corpo.
Ainda assim, ela tentou se levantar.
- Eu... preciso continuar.
Apoiou-se em uma árvore e respirou fundo. Olhou para sua asa machucada e percebeu que não conseguiria voar como antes.
Por um momento, o medo voltou.
E se eu não conseguir?
E se eu estragar tudo?
As antigas vozes pareciam retornar, tentando convencê-la de que era incapaz.
Evangelline fechou os olhos.
- Não... dessa vez, não.
Apertou a alça da bolsa e começou a caminhar.
A chuva havia transformado o caminho em uma trilha de lama, e seus passos eram lentos. Cada vez que tropeçava, levantava novamente.
Depois de algum tempo, entre as árvores, ela avistou algo diferente.
Uma luz.
Fraca, mas brilhante o suficiente para atravessar a cortina de chuva.
Evangelline caminhou em sua direção.
Quanto mais se aproximava, mais a floresta parecia mudar. As folhas de outono desapareciam pouco a pouco, dando lugar a flores, árvores verdes e pequenas partículas luminosas flutuando pelo ar.
Ela havia chegado.
O centro onde todas as estações se encontravam.
E, diante daquela paisagem impossível, Evangelline esqueceu a dor por alguns segundos.
Talvez aquela jornada não fosse apenas para encontrar o colar de Apollo.
Talvez fosse uma oportunidade para descobrir até onde ela poderia chegar por conta própria.
Evangelline avistou uma pequena abertura no interior de uma das árvores, um lugar escondido entre as raízes e os galhos. Sem pensar duas vezes, entrou por ela, buscando abrigo da chuva.
Ao atravessar a passagem, deparou-se com um lugar que jamais imaginara encontrar.
Era um espaço amplo e encantador, repleto de livros que preenchiam as estantes, enquanto pequenas luzes flutuavam pelo ambiente, iluminando tudo com um brilho suave e acolhedor.
Por alguns instantes, Evangelline esqueceu completamente a chuva e a dor.
Então, seus olhos encontraram algo sobre uma mesa.
Um colar.
- Finalmente...
Ela se aproximou e o pegou com cuidado. Observou o pingente, percebendo que havia algo diferente nele.
Parecia que podia ser aberto.
Curiosa, Evangelline tentou abrir o pequeno pingente.
Mas, antes que conseguisse descobrir o que havia dentro, algo caiu sobre ela.
- Ah!
Assustada, ela se desequilibrou e caiu no chão. No meio do desespero, sem sequer conseguir olhar direito para o que havia acontecido, gritou:
- Ei!!
Por alguns segundos, tudo ficou em silêncio.
Até que uma voz desconhecida ecoou pelo lugar.
- Você está bem?
Evangelline congelou.
Ela ergueu lentamente o olhar.
E foi naquele instante que sua jornada realmente começou.
Fim do primeiro capítulo.