Armadilhas de Amor

By Nale07

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- Até quando, Ricardo? - a voz de Sandro saiu rasgada, quebrando a postura que vinha mantendo por semanas... More

Vou fazer de tudo, pra trazer você pra perto de mim
É caminhando que se faz o caminho
Um homem embriagado por seus goles de amor
Hoje preciso de você
Me abraça, me beija
Só love
Somos tão jovens, temos todo o tempo do mundo
Quem inventou o amor...
Eu nasci pra te amar

Quando deus te desenhou

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By Nale07

O ar quente e úmido do Rio de Janeiro parecia abraçar Ricardo com a familiaridade de um velho amigo. O cheiro de maresia misturado com o aroma de café torrado e o ruído distante das ondas em Copacabana faziam seu peito expandir.

Depois de ficar quase um ano inteiro fora, viajando ao lado do padrinho, mergulhado em reuniões exaustivas e aprendendo a como gerir os negócios da família, estar de volta à sua terra natal era como finalmente poder respirar sem esforço.

E, claro, seus dois melhores amigos não perderam tempo para se encontrar com ele.

- Oxente, Ricardo, pare um pouco! - ofegou Buco, puxando com força o braço do carioca, que o arrastava pela calçada como uma criança hiperativa em um parque de diversões. - Tu tá parecendo um cavalo doido, homem! Calma!

Caio, logo ao lado, ajustou os óculos escuros e soltou uma risada curta, balançando a cabeça diante do entusiasmo desenfreado do amigo.

- Deixa o cara, Buco. O garoto ficou preso em terno e gravata ouvindo o Luciano falar de diretoria por meses. Tá parecendo bicho solto da gaiola.

- Eu tô em casa, porra! - Ricardo riu, virando-se para os dois com os braços abertos, o sol da tarde dourando sua pele. - Vocês não têm noção da saudade que eu tava disso aqui. Vamos pro café do Rogério logo, pago a primeira rodada do que vocês quiserem.

Ricardo girou nos calcanhares e continuou caminhando a passos largos em direção ao tradicional café de esquina, mas, um pouco antes de chegar ao estabelecimento, seus pés simplesmente travaram.

A risada de Ricardo sumiu. O ruído do trânsito, as conversas dos pedestres e a brisa do mar pareceram desacelerar até virarem um zumbido distante.

Servindo uma das mesas da varanda do café, estava o homem mais bonito que ele já viu.

Ricardo piscou uma, duas vezes, achando que o calor carioca estava pregando uma peça em sua vista.

O rapaz parecia esculpido em mármore. A pele era de uma palidez irreal, um branco que lembrava a de um vampiro saído de uma pintura antiga, destacando-se de forma quase hipnótica sob a luz tropical do Rio, os cabelos que eram negros como a noite, caindo em fios sobre a testa, e os olhos escuros brilhavam como duas onix contra a luz.

Ele vestia o uniforme simples do café, um avental escuro e uma camisa branca, mas o tecido se ajustava a seu corpo esguio, delineando uma cintura marcada que chamava a atenção sem que o rapaz fizesse o menor esforço.

Os lábios então... pareciam tracejados em uma tela branca.

Era uma visão angelical. Perfeita. Se Deus realmente cria cada um deles com suas próprias mãos, Ricardo tem a certeza de que ao moldar o outro, ele deveria estar o mais inspirado possível.

- Cara, sai dessa. Esse aí é problema - a voz de Caio ressoou de repente ao lado do seu ouvido, puxando Ricardo de volta para a realidade com um banho de água fria.

O carioca piscou, ainda um pouco hipnotizado, e olhou de canto para Caio, franzindo o cenho.

- Como assim? - A pergunta saiu quase indignada. Como poderia um ser tão belo e sereno ser problema? Para Ricardo, a única propensão daquele garoto era a de deixar o peito, e as calças, de qualquer um apertados apenas com um olhar daquela imensidão escura.

- Ele é conhecido do 'Gério, sabe? Já nos cruzamos algumas vezes - interveio Buco, ajeitando a postura e assumindo um tom mais sério, cauteloso. - É gente boa, honesto... mas ele não é do mesmo meio que o nosso, Ricardo.

A espinha de Ricardo gelou com um incômodo imediato, o tom do amigo atingindo um ponto doloroso.

- Que porra é essa? - Ricardo disparou, encarando Buco com incredulidade e uma irritação crescente no olhar. - Desde quando tu é elitista, mermão? Ficou esnobe enquanto eu tava fora, é?

- Não é isso... cacete, Ricardo! - Buco praguejou baixinho, olhando ao redor para se certificar de que ninguém na calçada estava prestando atenção. - Esse aí... ele é da noite. Da noite mesmo.

- E o que que tem? - Ricardo cruzou os braços, a voz subindo de tom pela defensiva. - Só porque o cara é um CLT fudido tentando se virar, como a maior parte desse país, não quer dizer que seja coisa ruim! Pelo amor de Deus, o mano tá aqui trabalhando honradamente!

Buco suspirou, trocando um olhar exasperado com Caio antes de voltar a encarar o carioca com pena da sua ingenuidade.

- Tu é lerdo mesmo, homem. O Sandro é garoto de programa. Trabalha como acompanhante de luxo quando não tá aqui no café.

A frase caiu entre os três com o peso de uma pedra lançada em um lago calmo.

Ricardo travou. O nome Sandro ecoou na sua mente, fixando-se de imediato. Ele voltou o olhar para a varanda do café a tempo de ver o rapaz recolher uma xícara com uma graciosidade silenciosa.

Não havia vulgaridade nos gestos de Sandro; havia apenas um cansaço contido, um mistério denso e uma dignidade triste. Longe de afastar o interesse do carioca, a revelação fez o coração de Ricardo acelerar.

O fascínio inicial não diminuiu, pelo contrário, ganhou contornos de uma obsessão inevitável que lhe deu a certeza que ele encontrou um novo desafio.

Ignorando completamente a troca de olhares desprovidos de esperança entre Buco e Caio, Ricardo ajeitou a gola da camisa de linho e deu um passo em direção à parte externa do café, o piso de tacos de madeira parecendo vibrar sob seus pés.

A curiosidade e o fascínio já tinham ultrapassado qualquer barreira do bom senso, ele precisava ouvir a voz que pertencia àquele rosto de porcelana.

Sandro estava de costas, limpando a superfície de mármore de uma mesa recém-desocupada. O movimento contínuo do pano revelava a linha de suas costas e a firmeza de uma postura que parecia incapaz de se curvar, independentemente do cansaço.

Ricardo se aproximou com a desenvoltura natural de quem sempre ocupou os espaços com privilégio, encostando-se na cadeira mais próxima e abrindo um sorriso fácil.

- O serviço daqui costuma ser rápido assim ou é só porque o sol do Rio decidiu abrir uma exceção hoje para valorizar a vista? - a provocação saiu leve, com aquele charme meio abusado que Ricardo dominava sem esforço.

Sandro não se sobressaltou, apenas terminou de passar o pano, dobrou o tecido com uma rapidez de quem já está calejado com o trabalho e ergueu o olhar devagar.

A proximidade permitiu a Ricardo ver os detalhes de perto, a pele de Sandro era de uma palidez tão pura que parecia translúcida sob a luz que passava pelas frestas do toldo. Mas foram os olhos, dois poços escuros, absolutamente calmos e desprovidos de qualquer fascínio, que congelaram a risada no rosto de Ricardo.

- O cardápio está sobre a mesa, senhor. Se quiser pedir algo, posso trazer em dois minutos - a voz de Sandro veio baixa, aveludada, mas cortada por um tom tão profissional e distante que funcionou como uma parede de gelo.

Ricardo soltou uma risada baixa, inclinando o corpo ligeiramente para a frente.

- Eu não estava falando do café. Estava falando de você. Meu nome é Ricardo Costa. Acabei de voltar de viagem e acho que acabei de encontrar a melhor razão para não querer ir embora nunca mais.

De longe, perto do balcão principal, Buco cobriu o rosto com a mão, soltando um gemido abafado, enquanto Caio apenas balançava a cabeça negativamente.

- Lá vai ele de novo, o homem não aprende - murmurou Caio, observando o desastre se formando.

Sandro nem sequer piscou diante do flerte. Seu olhar desceu sutilmente para o pulso de Ricardo, notando o relógio importado e o corte impecável do tecido de sua camisa, para em seguida retornar aos olhos do carioca com indiferença.

- Se o senhor não vai consumir nada, peço licença. Tenho outras mesas para atender - disse Sandro, a voz desprovida de qualquer emoção, dando meia-volta sem o menor pudor de deixar o rapaz falando sozinho.

Ricardo estendeu a mão, segurando levemente o bordo da bandeja de inox que Sandro carregava, impedindo sua passagem apenas o suficiente para forçar a atenção do outro.

- Ei, calma. Não precisa dessa pressa toda. Eu pago o seu turno inteiro agora mesmo se você se sentar aqui por dez minutos para tomar uma água comigo.

Foi um erro. A menção indireta ao dinheiro fez os olhos escuros de Sandro se estreitarem ligeiramente, ele não recuou, em vez disso, deu um passo à frente, diminuindo a distância entre os dois com uma altivez que fez o sorriso de Ricardo congelar.

- O meu trabalho no café é servir o que está no menu, senhor. Para comprar o tempo de alguém na mesa, sugiro que procure um lugar com outro tipo de atendimento - a resposta de Sandro saiu afiada, ríspida. - E, com todo o respeito, o meu tempo aqui não está à venda por dez minutos de conversa fiada. Licença.

Sandro puxou a bandeja com firmeza e caminhou em direção à cozinha, os passos calmos e a cabeça erguida, sem olhar para trás nem por uma fração de segundo.

Ricardo ficou parado no meio da varanda, a mão ainda suspensa no ar. O silêncio durou três segundos até que ele soltou uma gargalhada genuína, alta e divertida, cobrindo o rosto com a mão enquanto tentava absorver o impacto da patada.

Geralmente, qualquer rapaz ou garota a essa altura estaria se desdobrando para manter a conversa ao escutar seu sobrenome e realmente ver sua aparência.

Mas esse... vestindo um uniforme simples de garçom, simplesmente o reduzira a nada com duas frases bem colocadas, sem demonstrar o menor receio diante de suas roupas de grife ou da sua postura abastada.

Sandro era genioso, arisco, orgulhoso e completamente fascinante.

Ricardo voltou para o balcão onde Buco e Caio o esperavam, o olhar ainda preso à porta da cozinha por onde Sandro desapareceu, um brilho perigoso e obstinado queimando aparecendo em suas orbes.

- Eu disse que era desastre na certa - Buco resmungou, empurrando o copo de água na direção do amigo. - Levou um fora ao vivo e a cores, sem direito a recurso.

- Ele é incrível - Ricardo disse, a voz cheia de um entusiasmo novo, os lábios curvados em um sorriso largo. - Ele é absolutamente incrível.

- Tu é doido, Ricardo - Caio riu, balançando a cabeça. - O cara te tratou como se tu fosse um cachorro de rua e tu tá aí com cara de bobo?

- Ele não abaixou a cabeça, não ficou me bajulando só pelo meu nome - Ricardo respondeu, o tom de voz ficando mais sério - Ele me olhou nos olhos e não deu a mínima para quem eu sou ou quanto dinheiro eu tenho no bolso.

O carioca continuava com a mão no peito, um sorriso largo e desacostumado desenhado no rosto enquanto acompanhava, de longe, o movimento gracioso de Sandro que já havia retornando ao pátio, recolhendo uma xícara em outra mesa.

- Cara, você tá com uma cara de babaca... - Caio comentou, puxando a cadeira e se ajeitando com um suspiro derrotado. - Eu avisei que o garoto não era para o seu bico.

- Ele é... perfeito - Ricardo murmurou, quase para si mesmo, ignorando o tom de reprovação do amigo.

Em seguida, puxou a cadeira com força, debruçando-se sobre a bancada com os olhos brilhando. - Onde é que ele fica de noite?

- O quê? - Buco parou o copo de suco no meio do caminho até a boca, franzindo o cenho.

- Onde é o ponto dele? Onde ele costuma ir? - Ricardo insistiu, a voz carregada de um entusiasmo impaciente. - Ele trabalha de garçom de dia, mas vocês disseram que ele é da noite. Em qual boate, em qual bar ele fica?

Caio soltou o ar ruidosamente pelo nariz, balançando a cabeça.

- Meu irmão, de boa? Isso vai dar merda. Uma merda gigantesca. Esquece essa história, Ricardo. Você acabou de voltar de viagem, o seu padrinho tá de olho em você, seu pai tá cobrando presença na empresa... Você não precisa se meter com gente da noite.

- Vocês não tão entendendo - Ricardo disse, sério, batendo a levemente na mesa para dar ênfase. A brincadeira tinha sumido da sua voz, dando lugar a uma certeza absoluta que assustou os dois amigos. - Eu tenho certeza. Eu acabei de achar o amor da minha vida.

Buco soltou uma gargalhada alta, quase engasgando com o suco, atraindo o olhar de duas senhoras em uma mesa próxima.

- Ô, homem emocionado da porra! - Buco riu, enxugando o canto da boca. - Tu trocou três frases com o rapaz, levou uma patada que deu para ouvir de Niterói e já tá falando em amor da vida? Pelo amor de Deus, Ricardo!

- Tu é o sujo falando do mal lavado, né, Buco? - Ricardo rebateu na hora, apontando o dedo com um sorriso debochado. - Esqueceu que tu conheceu a tua esposa numa quinta-feira, falou que ia casar com ela no sábado e no mês seguinte tava morando junto? Não vem dar uma de certinho pra cima de mim não!

Buco abriu a boca para defender com unhas e dentes a história de como conquistara a mulher, mas Caio ergueu a mão, interrompendo a discussão antes que os dois transformassem o café em um ringue.

- Chega, os dois - Caio suspirou, esfregando a ponta do nariz. Ele olhou de relance para a porta da cozinha por onde Sandro passara e depois voltou a encarar Ricardo, resignado. - Se eu não te contar, tu vai sair perguntando para metade do Rio de Janeiro e vai arrumar confusão.

Ricardo se ajeitou na cadeira, atento a cada palavra.

- O Sandro não roda bolsinha na rua e nem fica dando bobeira em balada, Ricardo - explicou Caio, baixando o tom de voz. - Ele não é esse tipo de acompanhante. O garoto trabalha para uma agência fechada. Atende público restrito, com hora marcada e com contrato. É tudo esquematizado. Quer falar com ele fora do café? É só ligar para a agência, pagar a taxa de reserva e marcar o dia, o horário e o local.

Para qualquer outro, a frieza de tudo seria um balde de água fria, um lembrete cruel de que aquela relação se basearia estritamente em transações financeiras.

Para Ricardo, porém, foi a porta de entrada que ele precisava.

Um sorriso lento, carregado de uma determinação inabalável, desenhou-se nos lábios do carioca.

Se o dinheiro era a única ponte que Sandro permitia entre ele e o mundo exterior, Ricardo usaria essa ponte.

Não para comprá-lo, mas para obrigá-lo a sentar e ouvi-lo sem a pressa do uniforme de garçom ou o barulho da varanda do café.

Ele não iria desistir tão fácil.

- Qual é o número da agência? - Ricardo perguntou, já puxando o celular do bolso do jeans, os olhos cravados em Caio com uma intensidade firme. Ele estava disposto a pagar o preço que fosse para ter o belo homem.

________

Sandro fechou a porta do pequeno apartamento no Flamengo com um suspiro pesado, encostando a testa na madeira por alguns segundos.

O silêncio do lugar parecia absorver a exaustão acumulada de um dia inteiro em pé, o cheiro impregnado de café torrado e a memória recente daquele cliente abusado com sorriso fácil e relógio caro que tentara comprá-lo com palavras vazias pairando em sua cabeça.

Com um cansaço que pesava em seus ombros e a resignação que marcava cada movimento seu, ele começou a tirar os sapatos na entrada.

Sabia que, dentro de poucas horas, precisaria tomar um banho demorado, trocar o uniforme do café por roupas de tecidos melhores e assumir a sua outra persona.

Se arrumar para seu outro "emprego"... se é que a barganha corpo a corpo podia ser chamada dessa forma.

"-Está vendo, meu filho? É desse tipinho que você tem que manter distância."

Sandro fechou os olhos com força. Um nó familiar apertando a garganta ao pensar na mãe.

Se ela o visse assim...

Ele balançou a cabeça rapidamente, afastando o pensamento como quem espanta um fantasma.

Não. Ele não iria pensar nela. Não hoje. Nem nunca.

Não quando sabia, no fundo, que tudo seria completamente diferente se aquela mulher tivesse pensado nos filhos ao menos uma vez. Se tivesse tido a coragem de protegê-los em vez de assistir, omissa e covarde, ao marido tentar vender a filha e espancar o filho.

A única coisa boa que a mãe fez foi entregar um pedaço de papel amassado com o endereço daquele apartamento no Rio de Janeiro e a promessa vazia de que poderiam ficar ali até o "pai se acalmar".

Sandro abriu os olhos. O apartamento era simples, pequeno, mas era o porto seguro que ele construiu do nada.

Ele passou o olhar pela sala, procurando pela irmã, e o cansaço pareceu evaporar por uma fração de segundo ao notar um amontoado disforme sob as cobertas no sofá velho.

Ele se aproximou em passos largos, puxando com tudo a coberta, um sorriso genuíno se formando em seus lábios.

- Hora de acordar, dorminhoca!

- Ai, meu Deus! - Catarina deu um pulo no sofá, os olhos azuis arregalados de susto, a fresta de luz da janela fazendo-a piscar desorientada enquanto a cabeleira clara estava completamente desgrenhada.

Mas, ao reconhecer a figura do irmão em pé ao seu lado, o susto se tornou instantaneamente em uma gargalhada alta que preencheu todo o ambiente.

Antes que Sandro pudesse se esquivar, Catarina lançou-se para a frente sem aviso, seu peso atingiu o peito de Sandro com força, fazendo o fazendo se desequilibrar para trás e quase ir ao chão, tropeçando nos próprios pés até conseguir firmar o corpo e desabar de lado no sofá junto com ela.

- Você quase me matou de coração, Sandro! - ela riu, afundando o rosto no pescoço do irmão e abraçando-o pela cintura com uma firmeza que parecia querer colar os dois.

Sandro envolveu a mais nova nos braços, apertando-a contra o peito, enterrando o queixo nos cabelos dela enquanto fechava os olhos. O cheiro de sabonete infantil e a quentura do abraço de Catarina agiram como um anestésico para todas as dores que se acumularam.

- Catarina... - ele murmurou baixinho, a voz ligeiramente embargada pelo alívio.

Sentindo o corpo franzino da irmã, lembrando-se das contas de água, luz e dos boletos da escola particular que precisava pagar no fim do mês para garantir que ela tivesse o futuro que lhes fora negado, toda a amargura de sua rotina dupla se justificava.

Sandro desfez o abraço devagar, embora mantivesse as mãos apoiadas nos ombros de Catarina. Ele a olhou de cima a baixo, procurando qualquer sinal do dia agitado da garota, antes de inclinar a cabeça e perguntar com o tom suave que reservava apenas a ela.

- E a prova de matemática de hoje? Como foi?

Catarina travou. O sorriso largo que estampava o rosto da garota segundos atrás desaparecendo. Ela desviou o olhar para o tapete, mordendo o lábio inferior com tanta força que a pele ficou esbranquiçada.

Sandro franziu o cenho de imediato. A preocupação acendeu um alerta em sua mente, fazendo o cansaço do dia evaporar.

- Catarina... o que foi? Fala pra mim.

Catarina abaixou a cabeça, o pescoço corando pelo constrangimento, seus olhos marejando e a voz saindo em um fio quase inaudível.

- Eu... eu não fui muito bem, Sandro. Tirando a nota que tirei, não vou conseguir passar... Me desculpa, de verdade. Eu sei o quanto você se mata trabalhando em turno duplo naquele café só para poder pagar essa escola para mim... Eu estudei, juro que estudei, mas me deu um branco na hora de responder....

Ao ouvir a confissão, o aperto no peito de Sandro se desfez em uma onda instantânea de alívio. Ele soltou um fôlego preso e relaxou os ombros, deixando a tensão acumulada ir embora. Era só isso.

Ele temeu que algo pior tivesse acontecido na escola, que alguém a tivesse maltratado por ser bolsista ou que as sombras do passado tivessem tentado alcançá-la.

A expressão de Sandro suavizou por completo.

Ele ergueu a mão e acariciou a cabeça de Catarina, bagunçando os fios claros com extremo afeto e secando a lágrima que escorria pela bochecha da mais nova com o polegar.

- Ei, olha para mim - ele pediu docemente, esperando até que ela erguesse os olhos marejados. - Está tudo bem, Cat. De verdade. Você não precisa pedir desculpas por isso. Eu sei o quanto você se dedica. É só uma prova, e a matéria era difícil mesmo. Na próxima você vai se sair melhor. A gente senta junto este fim de semana e eu te ajudo a estudar cada tópico, tá bom?

Catarina arregalou os olhos, encarando o irmão com uma mistura de susto e culpa.

- Estudar comigo? Sandro, você mal tem tempo para dormir! Você chega caindo aos pedaços do trabalho, passa a noite toda fora e de manhã já tá de pé de novo!

Sandro deu um sorriso leve, ajeitando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha, e soltou uma brincadeira para quebrar o clima pesado.

- Dormir é para os fracos, baixinha. E nada que três xícaras de café bem forte não resolva antes de eu pegar no livro.

A menção ao café fez Catarina dar um salto no sofá, levando as mãos à boca em um suspiro assustado.

- Meu Deus, o café! Eu fiquei tão nervosa esperando você chegar para contar da prova que esqueci de passar o seu café!

- Ei, sem estresse... - Sandro tentou falar, mas a garota já estava de pé.

- Eu faço agora! Dois minutos! Muito obrigada, Sandro... você é o melhor irmão do mundo! - ela gritou, dando um beijo estalado na bochecha dele antes de disparar em direção à pequena cozinha do apartamento, fazendo barulho com as xícaras e a cafeteira.

Sandro continuou no sofá por mais alguns segundos, o sorriso carinhoso ainda gravado nos lábios enquanto escutava o mover de pratos da irmã. Aos poucos, porém, o sorriso desbotou.

A escola provavelmente vai pedir um valor extra, mais as aulas de reforço que a bolsa não cobre... isso vai custar caro. Muito caro.

Sandro se levantou devagar, apoiando as mãos nos joelhos e sentindo as articulações protestarem. Ele olhou para o próprio reflexo no espelho do corredor: as olheiras em seus olhos, o maxilar marcado destacando as maçãs do rosto, a cintura fina sob as roupas simples.

Aquele corpo era a única coisa que deixava a fome e a necessidade do lado de fora da porta de entrada.

Ajeitou a postura diante do espelho, respirando fundo e engolindo o nó amargo na garganta. Já começando a calcular mentalmente os gastos. Teria que ligar para o contratante, aceitar os turnos extras da madrugada e concordar em atender aqueles clientes a mais que costumava recusar durante a semana.

Observando Catarina voltar para a sala com pacote de bolacha para ele, um sorriso enorme emoldurando seu rosto, Sandro tem a certeza de que por ela, ele faria tudo de novo. Quantas vezes fossem necessárias.

____

Essa é a primeira parte de uma série, 'Dançando com o Diabo' que vai ser separada em "Armadilhas de amor" que conta a história de como Ricardo e Sandro se conheceram, e "Sem Controle" que se passa após um pulo de tempo de alguns anos, dando continuidade a história.

Tenho ambas as histórias já prontas, faltando só editar alguns pontos, então as atualizações serão tão frequentes quanto possível!!

Em uma nota não relacionada, tenho isso em meu google docs há anos e estou super animada em finalmente ter coragem para postar!! Espero muito que gostem 🫶

(Revisado em 24/08/26)

(Título da música "Quando Deus te desenhou - Armandinho")

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