O Chá Frio

By bananaah_

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Depois de uma missão exaustiva, infiltrado em um bordel, Loid Forger retorna para casa convencido de que deix... More

O Riso do Coelho
Lustre e Chumbo
Tijolos Vermelhos

Apenas Chá

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By bananaah_

A chave girou lentamente na fechadura, disparando um clique metálico que ecoou pela quietude do apartamento antes que a porta cedesse. Loid entrou primeiro, fechando-a com cuidado rigoroso atrás de si. Por alguns instantes, permaneceu imóvel no hall de entrada, reconhecendo o conforto familiar daquele lugar como quem busca se ancorar de volta à realidade. A missão havia terminado há menos de uma hora, mas o cheiro impregnado de perfumes caros e fumaça de charuto ainda parecia perseguir seus sentidos.

Com movimentos fluidos e automáticos, afrouxou a gravata com a ponta dos dedos e desfez-se do paletó, pendurando-o no cabideiro. O gesto tinha a precisão mecânica de um hábito repetido mil vezes. Contudo, sua mente recusava-se a acompanhar o ritmo do corpo; ainda percorria os corredores excessivamente iluminados e aveludados do bordel de luxo onde passara a tarde inteira infiltrado.

Operacionalmente, a missão fora um sucesso. O contato fora estabelecido, as informações obtidas e a identidade do financiador confirmada. Tudo ocorrera em perfeita concordância com o plano. Ainda assim, algo daquela noite permanecia preso em sua mente.

Loid lembrou-se das mulheres em trajes provocantes e luxuosos, ostentando sorrisos perfeitamente ensaiados e olhares treinados que mudavam conforme o homem diante delas. Lembrou-se, sobretudo, dos clientes. Homens de riso fácil e vozes altivas que cruzavam aqueles salões convencidos de que podiam tocar, julgar e descartar vidas humanas como se fossem meras mercadorias expostas em uma vitrine requintada.

O maxilar de Loid se contraiu num gesto imperceptível. Quantos deles sequer enxergam aquelas mulheres como seres humanos?, questionou-se em silêncio. Não era a primeira vez que testemunhava a sordidez velada da alta sociedade em suas missões de espionagem, e certamente não seria a última. Como Twilight, aprendera há muito tempo a separar sentimentos de missão. Ainda assim, absorver aquilo como algo aceitável ou normal transcendia até mesmo sua extraordinária capacidade de desapego.

Um suspiro abafado escapou de seus lábios no instante em que o som do metal na fechadura o trouxe abruptamente de volta ao presente. A porta se abriu pela segunda vez, revelando Yor.

Ela entrou devagar, fechando a porta atrás de si com um cuidado quase tímido antes de descalçar os sapatos. Bastou um único olhar clínico para que Loid lesse as entrelinhas de sua postura: os ombros sutilmente descaídos, a lentidão quase imperceptível dos passos e as articulações travadas pela tensão acumulada. Os ombros estavam baixos, os passos mais lentos do que de costume. Até o sorriso parecia exigir esforço. Ainda assim, ao erguer os olhos e encontrá-lo ali, o rosto de Yor iluminou-se em um sorriso genuíno e doce.

— Estou em casa — disse ela, com a voz suave pelo cansaço.

— Bem-vinda de volta — Loid retribuiu de imediato, e a suavidade no tom surgiu sem qualquer esforço de atuação.

Yor caminhou alguns passos até ele e, por um segundo suspenso no tempo, ambos apenas trocaram um olhar silencioso e cúmplice no espaço pequeno da entrada. Loid ofereceu-lhe um pequeno sorriso de acolhimento.

— Foi um dia difícil na prefeitura?

— Bastante... — Yor soltou uma risada baixa e cansada enquanto retirava o casaco. — Hoje apareceu trabalho atrás de trabalho. Parecia que a pilha de arquivos nunca diminuía. Achei que não veria o fim daquela papelada.

Uma mentira impecável. Na realidade, boa parte de sua tarde fora gasta nas sombras, eliminando silenciosamente alvos estratégicos de uma organização criminosa sob as ordens diretas do Garden. Ela limpara as mãos com sabão neutro até a pele ficar vermelha, garantindo que não restasse nenhum vestígio de ferro ou sangue. Mas o cansaço físico que pesava em seus músculos era brutalmente real.

Depois de pendurar o casaco cuidadosamente ao lado do paletó dele, voltou a atenção ao marido:

— E você? Como foi o seu dia no hospital?

— Tivemos bastante movimento hoje também — respondeu Loid, mantendo exatamente a mesma frequência de naturalidade. — Muitos pacientes agendados, além de alguns casos mais delicados que exigiram atenção extra.

Outra mentira. Horas antes, ele interpretava o papel de um homem fútil e abastado no meio de criminosos perigosos, jogando um xadrez psicológico de alto risco para coletar segredos de Estado.

Viviam sob o mesmo teto, dividiam refeições e dormiam no mesmo quarto, mas ainda escondiam um do outro as cicatrizes, as armas e os perigos de suas verdadeiras vidas. Contudo, alheios às sombras que cada um carregava, naquele instante eram apenas um casal comum buscando refúgio no conforto do lar após um exaustivo dia de trabalho.

Yor levou a mão à nuca, massageando discretamente os músculos rígidos do pescoço.

— Acho que um chá resolveria metade do meu cansaço...

Loid sorriu, sentindo a tensão em seus próprios ombros ceder um pouco.

— Eu estava pensando exatamente a mesma coisa.

— Então concordamos — ela respondeu, com um brilho mais leve e aquecido no olhar.

Lado a lado, caminharam até a pequena cozinha. Aos poucos, o apartamento preenchia-se com os sons ritmados e reconfortantes da vida doméstica: o chiado constante da água enchendo a chaleira, o estalo do fogão a gás ao acender, o tilintar suave das xícaras de cerâmica sendo retiradas do armário e o aroma sutil das folhas de chá começando a se espalhar pelo ar.

Enquanto esperavam a água atingir o ponto de fervura, deixaram a conversa fluir sobre banalidades sem importância. Yor contou, rindo com doçura, sobre uma colega de trabalho que derrubara uma montanha de documentos e passara quase meia hora no chão tentando organizá-los na ordem alfabética correta. Loid retribuiu a gentileza contando sobre um paciente particularmente teimoso que insistia em caminhar sozinho pelo corredor da clínica mesmo estando com a perna inteiramente engessada.

Havia um conforto precioso e silencioso em cada palavra compartilhada. Ali, sob a luz amarelada da cozinha, nenhum dos dois precisava impressionar ninguém, performar para um público ou manter defesas erguidas. Pelo menos naquelas pequenas conversas, podiam simplesmente respirar.

Com as xícaras fumegantes entre as mãos, seguiram juntos para a sala e acomodaram-se no sofá macio. A televisão permaneceu desligada; não havia a menor necessidade de ruídos artificiais para preencher o ambiente. O calor da cerâmica contra a pele dos dedos e a presença silenciosa do outro eram mais do que suficientes para dissipar o frio da rua.

Durante longos minutos, apenas beberam o chá em silêncio. Sem pressa, sem relógios, sem obrigações operacionais urgentes. Yor foi a primeira a esvaziar a xícara. Colocou-a sobre a mesa de centro e apoiou a cabeça no encosto do sofá, deixando escapar um suspiro profundo que pareceu descarregar o restante de sua energia.

— Acho que exagerei hoje... — murmurou com a voz já embargada pelo sono iminente, mais para si mesma do que para ele.

— Você deveria descansar um pouco — Loid aconselhou baixinho, mantendo o tom suave.

Ela abriu os lábios para responder, mas a exaustão venceu qualquer intenção articulada. Seu corpo cedeu gradativamente à gravidade e, quase inconscientemente, sua cabeça tombou para o lado até encontrar o ombro macio de Loid. Ele olhou-a de relance, contendo um sorriso e mantendo-se perfeitamente imóvel para não assustá-la ou despertá-la.

Instantes depois, Yor escorregou um pouco mais até repousar a cabeça suavemente sobre o colo dele. Sua respiração tornou-se ritmada, profunda e cadenciada. Adormeceu por completo.

Loid ficou imóvel, em seguida abaixou os olhos para contemplar o rosto sereno da esposa. Uma mecha escura de cabelo caía-lhe sobre a testa e, com extrema delicadeza, ele a recolheu para trás da orelha dela. Seus dedos demoraram-se ali por alguns segundos, acariciando os fios macio.

Depois um dia inteiro cercado por mentiras, paranoia e violência implacável, aquele pequeno apartamento parecia resguardado em uma dimensão à parte. Um microuniverso privado onde existiam apenas o perfume suave do chá pairando no ar e o peso delicado da cabeça de Yor descansando sobre suas pernas.

Aos poucos, o peso acumulado nos ombros de Twilight começou a cobrar seu preço inevitável. Suas pálpebras tornaram-se incrivelmente pesadas. O silêncio acolhedor da sala, o calor do ambiente e o cansaço psicológico da farsa formaram uma força irresistível contra sua vigilância militar treinada.

Sua mão ainda repousava suavemente sobre os cabelos de Yor quando seus olhos finalmente se fecharam. E, naquele breve e raro intervalo em que a guarda do maior espião do mundo desmoronou completamente, seu subconsciente abriu as cortinas para um território caótico e surreal — um espetáculo absurdo que nem mesmo a mente brilhante de Twilight seria capaz de prever ou controlar.

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