— Fritz! — Liz disse ríspida ao parar na frente do garoto na escadaria da escola onde ele estava com alguns amigos.
Ele que estava rindo e fazendo piadas se calou no mesmo instante e virou com um sorrisinho cafajeste em sua direção.
— Fala minha querida. Tava com saudade de mim hein?
Liz já com os braços cruzados revirou os olhos.
— Vai se ferrar Thiago. — Mostrou o dedo do meio — Para de graça. Eu tenho que falar um assunto sério com você.
Ao ouvir isso os amigos que estavam ali começaram a cutucar Thiago e fazer comentários perguntando sobre o que ele tinha aprontado.
Webber não gostava deles. De nenhum deles na verdade, eram um grupinho secundário do garoto no colégio, composto por quatro pessoas detestáveis.
Daniel, um herdeiro mimadinho que publicou um livro de terror com o dinheiro do pai e se acha o próprio Machado de Assis da nova geração. Alex, um garoto nerd de história e sociologia viciado em power ranger. Gonzales, o menino bonzinho, mas meio bobo apaixonado pela ex e que obedece a tudo que Thiago pede e a pior de todas. Victoria Opspor. Um demônio de saia e cabelo loiro. Uma garota podre de rica que namora um mala e que tudo mundo sabe que só está naquele grupo porque está doida para trair ele com o Thiago.
E por fim, o Thiago. Filho de Arnaldo Fritz, o famoso ator de Hollywood, ele era o garoto mais popular da escola.
Com a cara do pai, um sorriso bonito, a cicatriz misteriosa na bochecha, o cigarro na boca e o papo fácil ele era um cafajeste. Já ficou com mais meninos e meninas do que Liz pode contar, mas apesar da incapacidade de firmar um relacionamento ainda é uma pessoa boa.
Ele e Liz são amigos desde o jardim de infância. Uma relação que beira o amor e o ódio e que com o tempo aumentou de uma dupla para um trio quando Lucille adotou o pequeno Joui a oito anos atrás, depois um quarteto quando Cesar, o filho do melhor amigo de Arnaldo precisava de amigos no colégio e acabou como um quinteto quando Arthur se mudou de Carpazinha no oitavo ano.
E agora toda essa estrutura que eles lutaram tanto para construir e manter durante anos poderia estar ameaçada, e isso apavorava Liz porque ela odeia desorganização.
— Putz minha querida. É por causa do trabalho de física, né? Tá eu confesso que eu pedi pro Gonzales fazer minha parte mas...
— O que? — Liz perguntou indignada e Thiago se calou na hora.
— Não era sobre..? Ah, esquece então. Eu não pedi nada e...
— Não. Não era sobre isso mas agora eu tenho mais uma preocupação. — Cruzou os braços e franziu o cenho — Depois a gente fala sobre isso. Mas agora eu preciso falar com você. — Fez uma pausa e olhou para cada um dos quatro pares de olhos curiosos naquela escada antes de voltar a olhar para Thiago. — Só com você. É sobre o Kaiser.
Ouvir essa parte fez o sorriso de Thiago morrer e dar lugar para uma expressão preocupada.
— Que que tem o Cesinha? Ele tá bem?
— Por enquanto sim. Agora podemos conversar?
Thiago não diminuiu sua preocupação, mas se levantou da escada jogou a mochila sobre um dos ombros e desceu os degraus até estar no mesmo nível de Liz. Murmurou um "já volto" para os amigos e fez um sinal com a cabeça para que Liz o acompanhasse.
Não precisou ditar o caminho nem dizer para onde iam. Ela já sabia. Era o lugar deles afinal. A pequena praça abandonada atrás da quadra de basquete.
Não era exatamente uma praça. Talvez tenha sido nos primórdios do colégio, mas hoje em dia não passava de um único banco de cimento que resistiu ao tempo, cercado de mato e ervas daninhas em uma parte esquecida daquele enorme terreno que só podia ser acessado passando por um buraco na cerca.
Eles não podiam ir ali. Nenhum aluno podia e eles estariam em problemas se fossem descobertos, mas em todos os anos que estudavam ali nunca foram pegos e acabaram perdendo o medo disso com o tempo.
Thiago olhou em volta antes de segurar a parte solta da cerca para que Elizabeth passasse e foi logo em seguida. Andaram abaixados até chegarem ao banco para não serem vistos e Liz tirou algumas folhas dali antes de se sentar. Thiago não se importou com as folhas na sua parte do assento.
Eles ainda ficaram em silêncio por alguns instantes. Liz conferiu se não tinham sido seguidos, olhou na direção de onde vieram tentando localizar a aproximação de alguém e Thiago aproveitou para acender um cigarro.
Até que ele finalmente quebrou o silêncio.
— Lizinha, é por causa do cigarro, não é? — Falou preocupado — Eu te juro que não fui eu quem ensinou o Cesinha a fumar! Isso aqui faz mó mal! Eu sempre falo "Cesinha, não vai nessa não" mas ele não me escuta! — Deu um trago apesar da contradição com suas palavras. Estava nervoso.
Ele sempre fumava quando estava nervoso.
— Não é por isso, Thiago! Eu sei que não foi você que ensinou ele a fumar, foi o Arthur. Mas o assunto é mais importante.
Agora perdendo a paciência e morto de ansiedade, Thiago bufou soltando a fumaça do cigarro pelo nariz.
— Então fala!
Liz franziu o cenho e encostou as costas no assento como se se preparasse para dar uma notícia péssima e bombástica e então disse.
— Acho que o Kaiser gosta do meu irmão.
Um silêncio se estendeu depois da declaração. Nenhum dos dois disse nada por algum tempo. Liz achou que Thiago estivesse absorvendo a informação antes de ouvir um riso anasalado e a sua resposta.
— Ah, não diga. — Falou irônico, mas brincalhão ao mesmo tempo.
Se sentindo ofendida e ridicularizada, Liz lançou um olhar fulminante para Thiago e ele finalmente caiu na gargalhada.
— Porra, minha querida. Mas isso aí qualquer um sabe! O Kaiser nem tá tentando esconder! Sério que a nossa incrível investigadora Elizabeth Webber só percebeu agora?
Ele ainda ria quando recebeu um tapa na nuca.
— Claro que não cabeção! Mas isso não era problema meu até eu descobrir que ele chamou o Joui pra sair. E ele aceitou!!
Dessa informação Thiago não sabia. Ele abriu a boca em surpresa e depois deu mais um trago e abriu um sorriso e se esticou no banco passando um dos braços por trás do encosto de Liz.
— Mentira? Ah muleque! Cesinha atacante camisa 10! Tô muito feliz véi! Vou dar parabéns pra ele depois.
— Não não não não não! Isso é péssimo! Eles não podem sair em um encontro! — Ela falou brava. — Você não vê o que isso significa?
Agora muito confuso Thiago negou com a cabeça e olhou para Liz esperando que ela contasse todos os detalhes que ele deixou passar da forma mais inteligente possível. Ele amava que ela fizesse isso.
— Significa que o nosso grupo vai estar arruinado! Somos um quinteto, Thiago. Nós funcionamos muito bem assim desde sempre, mas nesses últimos tempos o Arthur tá abandonando a gente pra ficar se beijando pelos corredores com o loirinho do seu irmão. Aí por causa disso você e o Cesinha viraram uma dupla, eu e o Jojo somos outra, e vez ou outra eu e você nos damos bem, mas o seu melhor amigo mesmo é o César, não é?
Ele concordou com a cabeça, mas ainda não entendia onde ela queria chegar.
— Então! Eu sou a melhor amiga do Joui. Você ainda é melhor amigo do César por enquanto, mas se os dois começarem a namorar isso acabou! Eles vão ser uma dupla, vão ser os melhores amigos um do outro e quem se ferra somos nós dois! O grupo vai acabar de vez. A gente não pode deixar isso acontecer.
Thiago escutou tudo atentamente, mas abriu um sorriso despreocupado por fim.
— Lizinha, ce não acha que tá exagerando não, minha querida? Não é bem assim não. Pra começar que a gente não sabe nem se o Joui gosta tanto assim do Kaiser. E mesmo se ele gostar e os dois começarem a ficar eu não acho que eles vão se afastar desse jeito não. Sabe o que eu acho?
Liz já havia começado a morder a cutícula da unha ansiosa quando murmurou um "hm?" E ele deu de ombros tragando e soltando a fumaça antes de dizer em tom de provocação.
— Eu acho que você tá é com ciúmes!
Ouvir isso fez com que ela virasse o rosto em sua direção imediatamente. As sobrancelhas franzidas, o dedo ainda perto na boca por causa da cutícula.
— Tá doido, Thiago? Ciúmes de que?
Como se fosse a coisa mais óbvia do mundo Thiago respondeu.
— Do seu irmãozinho, ué. Todo mundo sabe que você é uma irmã superprotetora com o Jojo, e é paia quando algum cara mais velho começa a dar em cima dele. Eu sei como é! Passei pela mesma coisa com a Bea e o Tristan! Com o Dante eu não liguei muito porque o Tutu é gente boa, mas...
— Cala a boca, Thiago! — Falou ainda mais brava — Eu não tô com ciúmes do Jojo!
Em um tom ainda mais provocativo ele se inclinou para mais perto e olhou em seus olhos se divertindo com a situação para perguntar.
— Será que não?
Bufando Liz o empurrou de leve irritada com a provocação e ele se afastou bem quando ela pegou o cigarro pela metade de seus dedos.
— Não! O Jojo é grandinho e pode fazer o que bem entender da vida dele! Mas isso não significa que eu como irmã mais velha não vá ficar preocupada — Ela tragou uma vez e Thiago não disse nada sobre o roubo que sofreu — E eu conheço o Jojo! Se tem alguém na nossa família que é ciumento essa pessoa é ele! Ele já ficou morrendo de ciúmes quando o Arthur começou a namorar o Dante, agora imagina como ele não deve ser grudento e possessivo com o próprio namorado! E o Kaiser já obedece a tudo que o meu irmão fala mesmo sem terem nada, se eles começarem mesmo a namorar vão se fundir em um só corpo e alma!!
Fumou mais uma vez. Thiago apenas observou com muita atenção enquanto o cigarro ia em direção aos lábios avermelhados da garota, depois desviou para a pintinha que ela tinha logo abaixo deles. Não falou nada, só permitiu que Liz falasse mais e mais.
— ... E eu não quero que isso aconteça. Vou perder meu melhor amigo e você vai perder o seu! — Ele ainda permaneceu em silêncio a observando. Liz se virou em sua direção furiosa. — Fala alguma coisa, Thiago!
Acordando de seu devaneio, ele balançou a cabeça para afastar os pensamentos e falou.
— Ah Liz... é que... sei lá, eu conheço o Cesinha. Não acho que ele iria abandonar a gente assim não.
Ainda mais irritada Liz voltou a argumentar.
— É claro que você não acha. Você não liga, Thiago! Não desde que começou a sair com aqueles quatro idiotas. Pra você tanto faz! Você já abandonou a gente primeiro de qualquer forma. Quer saber? Esquece.
Ela ia se levantando do banco, quando ele a impediu.
— Liz! Não é verdade! — Ele disse olhando em seus olhos. — Eu não abandonei vocês, ainda gosto muito mais de vocês do que deles. Eu sou do grupo de vocês! Equipe E, lembra? Ou será que não sou mais?
Ele realmente parecia preocupado ao perguntar e Liz amoleceu um pouco ao olhar em seus olhos.
— É! É claro que você é! Me desculpa. Eu só tô meio estressada com essa história toda. — Percebeu o quão rígido estavam seus músculos e os forçou a relaxar contra o banco duro antes de dar uma última tragada e deixar o cigarro no braço do assento.
— Pronto, então eu vou te ajudar a resolver essa coisa e impedir que o nosso grupo se separe. Qual o seu plano sabidinha?
Liz já ia respondendo quando ouviu o apelido. Era uma pequena piada interna deles desde que Thiago leu os cinco primeiros livros de Percy Jackson por ela. Ele não conseguiu ler os outros porque percebeu que era um esquema de pirâmide, mas sabia o suficiente para compará-la a Annabeth e roubar o apelido que Percy deu para ela. A da pintinha riu com a lembrança antes de responder.
— Nós precisamos arruinar esse encontro, cabeça de alga.
Muito interessado ele inclinou a cabeça como um cachorrinho curioso.
— Vá em frente minha querida.
E ouviu todo o plano que Liz tinha em mente atentamente. Não se importou quando o sinal do fim do intervalo tocou, nem quando seu celular apitou com a chegada de uma mensagem. Liz estava tão entretida que sequer deve ter notado essas duas coisas. Ela nunca mataria aula de forma premeditada assim.
Por fim, ela terminou de contar e ele terminou de perguntar as dúvidas que surgiram.
— Temos um combinado então, Thiagão? — Ela perguntou finalmente lhe lançando um sorriso pela primeira vez no dia enquanto estendia a mão em sua direção.
— Temos um combinado, minha querida. — Respondeu pegando sua mão para deixar um beijo galanteador ao invés de apenas apertá-la em um cumprimento como o esperado. Liz revirou os olhos rindo.
Ela se levantou e desamassou a saia do uniforme. Esticou as costas e perguntou.
— Que horas são?
O mais velho olhou no relógio do celular para responder.
— Onze e quarenta e seis.
Ela arregalou os olhos preocupada.
— Meu Deus! Já faz um tempão que o intervalo acabou. Não acredito que a gente perdeu a aula!
Dando de ombros, Thiago se levantou do banco também e pegou a própria mochila.
— Acontece, né? Quem nunca matou aula que atire a primeira pedra. — Pegou a mochila dela também, mas ao invés de entregá-la ele a jogou sobre o outro ombro e estendeu a mão na direção do caminho de volta para que Liz andasse.
— Será que se eu falar para o senhor Veríssimo que estávamos resolvendo alguma coisa do Grêmio ele acredita e deixa a gente entrar na sala? Não queria ganhar falta hoje.
Thiago se aproximou e puxou uma mecha de seu cabelo para cheirar.
— Com esse cheiro de cigarro? Só se você falar que o Grêmio tá vendendo tabaco e você tava ajudando a bolar.
Liz tentou, mas não conseguiu segurar um risinho. Depois o empurrou de leve no ombro.
— Bobo! Culpa sua por ficar comprando esses cigarros de péssima qualidade que impregnam o cheiro desse jeito!
— Minha querida, se você acha meus cigarros assim tão ruins então porque continua roubando eles de mim? Tô começando seriamente a pensar que é só pra me beijar de tabela.
— Nossa, vai se fuder, Fritz!
Nota da autora:
Oii gente, tudo bem? Sejam bem vindes a mais uma fic de lizago!
Eu sou a Kate (ela/dela) e essa é a minha segunda fic para esse fandom. Ela foi escrita em menos de uma semana durante um surto criativo e por isso pode ter alguns erros de ortografia e continuidade além de algumas inconsistências de informações, principalmente no que diz respeito a "Força G", já que é algo que eu não tenho tanto conhecimento, mas achei um detalhe legal para agregar na história e inventei uma historinha e personagens seguindo um pouco a premissa principal dela. Mesmo assim, fiz o possível para escrever algo legal e tentei revisar para diminuir os erros, mas me desculpem se eu tiver deixado algo passar.
Enfim, acho que é isso. Boa leitura para vocês!