"A dança é a única arte na qual nós mesmos somos a matéria do que ela é feita."
O estúdio de dança clássica L'Étoile cheirava a lavanda, madeira encerada e ao algodão limpo das sapatilhas de ponta guardadas no armário dos fundos. Era um santuário de luz. As paredes eram pintadas em um tom quase imperceptível de rosa-pastel, as janelas iam do chão ao teto, banhando o piso de linóleo claro com o sol suave do fim de tarde, e os grandes espelhos verticais refletiam apenas a busca pela simetria perfeita.
Park Jimin vivia por aquela simetria.
Com os olhos semicerrados e a postura impecável que havia levado duas décadas para construir, ele ajustou a postura de uma de suas alunas mais jovens. O toque de seus dedos nas costas da garota foi sutil, mas firme.
— Alinhe os ombros com os quadris, Soo-ah. Sinta o peso descer pelo calcanhar, não pelos dedos — instruiu Jimin, sua voz suave ecoando pelo espaço silencioso. — O balé contemporâneo exige a gravidade, mas você precisa dominá-la, não se render a ela.
Ele se afastou com passos tão silenciosos que parecia flutuar. Jimin vestia uma calça de alfaiataria bege larga o suficiente para permitir seus movimentos, uma blusa de tricô branca de gola canoa que caía levemente por um dos ombros e meias brancas grossas.
Ele era a personificação do seu próprio estúdio: limpo, elegante, metódico e, acima de tudo, controlado.
Jimin caminhou até o aparelho de som antigo sobre o balcão de madeira. Ele apertou o play, e os primeiros acordes de um prelúdio de piano de Chopin começaram a preencher a sala. As cinco alunas se posicionaram na barra, os braços subindo graciosamente em uma primeira posição.
— E um... plié... dois... estica... — Jimin ditava o ritmo, movendo as próprias mãos no ar como se conduzisse uma orquestra invisível.
O piano era o seu oxigênio. Aquela melodia suave era o que mantinha sua mente organizada em um mundo exterior que ele considerava caótico demais.
Então, o chão pareceu tremer.
Não foi um tremor metafórico. O linóleo sob as meias de Jimin vibrou de verdade. Um segundo depois, as notas melancólicas do piano de Chopin foram completamente engolidas por uma batida de subgrave tão violenta que o vidro das janelas estremeceu.
MONDAY, TUESDAY...
Um ritmo de trap pesado, arrastado e ensurdecedor começou a ecoar diretamente da parede leste do estúdio. A parede que separava o santuário de Jimin da nova sala comercial que havia sido alugada na semana passada.
As alunas pararam no meio do movimento. Soo-ah perdeu o equilíbrio na barra, os olhos arregalados enquanto olhava para a divisória de drywall que parecia prestes a rachar.
Jimin congelou. Seus lábios se transformaram em uma linha fina e reta. Ele tentou respirar fundo, puxando o ar com cheiro de lavanda, mas a única coisa que conseguia focar era no ritmo mecânico e barulhento que vinha do vizinho.
— Continuem — pediu Jimin, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. Ele aumentou o volume do piano.
O som do vizinho aumentou proporcionalmente. Agora, além do grave, dava para ouvir o rangido de solas de borracha arrastando no chão e gritos abafados de empolgação. Era um caos urbano, barulhento e perfeitamente audível através da maldita parede fina de drywall.
— Professor Park... eu não consigo ouvir o piano — Soo-ah disse, encolhendo os ombros.
Jimin desligou o aparelho de som. O piano parou, deixando apenas o hip-hop estridente do outro lado reinar absoluto no ambiente. A teimosia que corria nas veias de Park Jimin — aquela mesma teimosia que o fez dançar por doze horas seguidas com o tornozelo torcido na faculdade apenas para provar um ponto — ferveu instantaneamente.
— Esperem aqui, meninas. Deixem as sapatilhas nos pés — disse ele, a voz perigosamente mansa.
Jimin cruzou a sala de dança com passos firmes. Ele não flutuava mais; cada pisada carregava o peso de sua indignação. Ele abriu a porta de vidro do L'Étoile, saiu para o corredor do prédio comercial e parou diante da porta ao lado. Ali, onde antes havia uma placa de "Aluga-se", agora ostentava um letreiro em acrílico preto com luzes de neon roxas: GOLDEN STUDIO.
Ele nem se deu ao trabalho de bater. Jimin empurrou a porta com força, pronto para o confronto.
O ambiente no Golden Studio era o oposto exato do seu. A iluminação era baixa, composta por fitas de LED azuis e roxas que cortavam o teto escuro. O chão era de cimento queimado, e as paredes eram cobertas por grafites estilizados. No centro da sala, cerca de quinze jovens suados, vestindo calças cargo largas, moletons gigantes e bonés, seguiam uma coreografia rápida e agressiva.
E no comando de tudo, de costas para a porta, estava o culpado.
Ele usava uma calça de moletom preta tão larga que caía um pouco nos quadris, revelando a fita elástica de sua cueca de marca. Ele estava sem camisa, apenas com um colete utilitário aberto por cima do peito musculoso, coberto de suor que brilhava sob a luz neon. O braço direito era completamente fechado por tatuagens escuras que se estendiam até o pescoço. Ele se movia com uma agilidade assustadora, travando os músculos no ritmo exato do grave antes de deslizar pelo chão com uma fluidez que, mesmo Jimin sendo de outra vertente, precisava admitir que era impressionante.
O professor novato inalizou o passo com um movimento nítido de pescoço, interrompendo a dança exatamente quando a música terminou. Os alunos aplaudiram, ofegantes. Antes que qualquer um pudesse respirar, Jimin deu três passos à frente, os braços cruzados sobre o peito, a postura ereta de um aristocrata que acabou de encontrar um invasor em suas terras.
— Com licença, você é o novo professor? — A voz de Jimin cortou o silêncio pós-coreografia como uma lâmina afiada, surpreendendo até a si mesmo.
Por dentro, o coração de Jimin parecia uma escola de samba. Ele era, essencialmente, um homem tímido. Odiava chamar atenção fora dos palcos, detestava escândalos e a ideia de encarar uma sala cheia de estranhos o deixava genuinamente ansioso. Só que a teimosia e o orgulho ferido falavam muito mais alto. Quando o assunto era seu estúdio e suas alunas, Park Jimin perdia a vergonha e ganhava uma audácia que beirava o perigo.
Os alunos do Golden Studio se calaram imediatamente, os olhares alternando entre o invasor de blusa de tricô e o centro da sala.
Jimin sentiu as bochechas arderem intensamente. A timidez, que sempre espreitava atrás de sua postura profissional, tentou fazê-lo dar um passo para trás e sumir dali. Ele odiava ser o centro das atenções daquela maneira, especialmente diante de um bando de estranhos suados e com roupas largas. No entanto, a teimosia que corria em suas veias — e um lado secretamente audacioso que ele raramente deixava transparecer — o impediu de recuar.
Ele sustentou o olhar ousado do homem tatuado. A verdade era que, apesar da marra e da petulância daquele moreno, ele era uma visão absurdamente bonita. Jimin não tinha por que fingir que não tinha olhos.
Ajeitando a gola canoa de seu tricô branco com um gesto elegantemente controlado, Jimin limpou a garganta. Ele se recusava a perder a compostura.
— Me desculpe. Eu deveria ter batido — Jimin começou, sua voz recuperando o tom suave, pausado e impecavelmente educado que usava com os pais de seus alunos. Ele forçou um sorriso polido, embora seus olhos ainda mantivessem uma faísca firme de determinação. — No entanto, a urgência me trouxe até aqui. O som do seu estúdio está realmente passando.... dos limites aceitáveis.
O professor novo inclinou a cabeça para o lado, cruzando os braços musculosos sobre o peito nu. O sorriso de lado continuava ali, mas um brilho de curiosidade genuína surgiu em seus olhos escuros ao notar a mudança rápida de postura do loiro — de uma fera irritada para um poço de educação aristocrática.
— Urgência, é? — O tatuado deu um passo à frente, quase que diminuindo a distância entre eles com aquela lentidão de quem sabe exatamente o efeito que causa. — E o que exatamente é tão urgente que faz o príncipe do lado esquecer os bons modos?
— Minhas alunas — Jimin respondeu prontamente, mantendo o queixo erguido enquanto o cheiro amadeirado do perfume do professor novo misturado ao suor atingia seus sentidos. — Tenho uma turma de cinco meninas logo ali. Elas estão no meio de uma sequência de balé contemporâneo e simplesmente não conseguem se concentrar porque o linóleo do meu chão está vibrando com a sua música. Portanto, eu peço, por gentileza, que você mantenha o som dentro do limite fornecido no contrato do prédio. Todos nós assinamos o mesmo regulamento de convivência.
Ao ouvir a palavra "meninas", o rosto do professor mudou completamente. Suas sobrancelhas se ergueram e seus olhos se arregalaram levemente em uma expressão de puro interesse. A faceta garanhão e totalmente para frente dele assumiu o controle em um piscar de olhos.
— Meninas? — Ele repetiu, a voz caindo um tom, um brilho divertido e malicioso cruzando seu rosto. Ele se virou para trás, olhando para o seu bando de alunos que assistiam a tudo de camarote. — Ei, rapazes, vocês ouviram isso? O estúdio ao lado está cheio de garotas.
Instantaneamente, um burburinho animado tomou conta da sala de hip-hop. Os caras mais jovens começaram a se cotovelar, rindo e trocando olhares cúmplices.
— Ouvimos sim, professor! — um dos alunos do fundo gritou, limpando o suor da testa com o boné. — Manda a boa!
O moreno voltou a se concentrar em Jimin, dando mais um passo descarado para a frente, invadindo completamente o espaço pessoal do bailarino. Ele abaixou o rosto um pouco, ficando na altura dos olhos de Jimin.
— Sabe o que é, vizinho? Nós somos muito dedicados à arte da dança. Queremos aprender sobre todas as vertentes — blefou na maior cara de pau, o sorriso de cafajeste alargando-se de um jeito que fazia duas covinhas adoráveis aparecerem em suas bochechas. — Que tal se eu e a minha turma formos lá no seu estúdio agora? A gente assiste à aula das suas meninas, avalia a técnica... e aí, quem sabe, eu decido se abaixo o som ou não. O que acha? Os caras aqui apoiam a ideia.
Ao fundo, uma salva de palmas e gritos de "com certeza!" e "apoio total, chefe!" ecoou pela sala.
Jimin arregalou os olhos, a timidez quase o fazendo engasgar com a própria saliva diante da audácia daquela proposta. Levar aquela horda de garotos do hip-hop, liderados por aquele espécime sem camisa e abusado, para dentro do seu santuário de tons pastéis e lavanda? Nem pensar.
— Absolutamente não — Jimin cortou, a voz firme, embora suas orelhas estivessem queimando de vergonha. Ele deu um passo para trás, tentando recuperar seu espaço pessoal antes que fizesse alguma bobagem, como continuar encarando o abdômen definido do tal professor. — Minhas alunas têm entre oito e dez anos de idade, senhor. São crianças. E o seu comportamento é completamente inapropriado.
O sorriso do homem congelou por meio segundo. Um silêncio constrangedor caiu sobre os alunos ao fundo, e alguns rapazes cobriram o rosto com as mãos, segurando o riso da vergonha alheia coletiva que acabaram de passar.
O moreno pigarreou, as bochechas subitamente ganhando um leve tom avermelhado sob o suor, embora ele tenha tentado manter a pose de quem não se importava com nada. Ele coçou a nuca, soltando uma risada sem jeito que perdeu toda a marra de antes.
— Ah... crianças. Certo. Entendi — murmurou, desviando o olhar por um breve segundo antes de focar em Jimin novamente, tentando recuperar o controle da situação. — Bom, isso muda as coisas. Não queremos assustar as crianças, claro.
— Fico grato pela compreensão — Jimin disse, recuperando sua postura impecável e vitoriosa. Ele deu meia-volta, caminhando em direção à porta de vidro com a elegância de quem tinha acabado de ganhar um debate difícil. — Tenha uma boa tarde. E, por favor, o som.
Jimin já estava com a mão na maçaneta, pronto para puxar a porta e retornar ao seu refúgio, quando a voz grave de Jungkook ecoou alta e firme pelo salão, fazendo-o parar no lugar.
— Ei, espera aí, gracinha.
Jimin congelou. Ele virou o corpo lentamente, uma sobrancelha perfeitamente arqueada em sinal de questionamento.
O tatuado caminhou até o centro da sala, os braços agora cruzados de forma imponente, o peso do corpo jogado em uma das pernas. O olhar dele estava travado em Jimin, carregado de uma intensidade provocativa que fez o estômago do bailarino dar uma reviravolta estranha.
— Você entra no meu salão sem bater, interrompe a minha música, desconcerta os meus alunos, dita ordens sobre o que eu devo ou não fazer com o meu volume... — listou, cada palavra saindo pausada, enquanto ele dava passos lentos na direção do loiro. Ele parou a uma distância segura, mas ainda assim intimidadora, exibindo aquele maldito sorriso de lado que parecia testar cada milímetro da paciência de Jimin. — E vai embora sem nem me dizer o seu nome?
Jimin piscou, pego de surpresa. Sua mente teimosa trabalhou rápido, procurando uma resposta que mantivesse sua superioridade, mas o olhar descarado de Jungkook sobre si o deixou momentaneamente sem fôlego. O professor de hip-hop claramente não aceitava sair perdendo, e aquela cobrança direta era a prova disso.
Sustentando o olhar desafiador de Jungkook por mais alguns segundos, Jimin permitiu-se dar um pequeno sorriso de canto — um vislumbre daquela sua faceta sem vergonha que adorava um bom jogo.
— Park Jimin — ele respondeu, a voz saindo em um tom suave, quase um sussurro que contrastava com a música que ainda murmurava nas caixas de som. — E eu espero não ter que voltar aqui para me apresentar de novo, Senhor...?
— Jeon Jungkook — o moreno completou imediatamente, os olhos brilhando com o início de algo que ambos sabiam que estava longe de ser apenas uma briga de vizinhos. — Mas você pode me chamar do que quiser, Jimin. Desde que seja alto o suficiente para eu ouvir por cima da música.
Jimin revirou os olhos mais uma vez, mas não conseguiu evitar que os cantos de seus lábios subissem de leve. Ele empurrou a porta de vidro e saiu para o corredor, deixando o Golden Studio para trás.
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Sejam bem vindos a Ritmo Imperfeito.
Gostaria de dizê-los para terem paciência com os jikook dessa fanfic pois eles >nao< se apaixonarão, se amarão logo no 2 cap.
Peço paciência com o desenvolvimento dos personagens ;)