Sussuros Da Mata Antiga

By Rayzaxx_r

254 17 38

Na Lapa, onde a boemia encontra o mistério, existe mais do que música, luzes e histórias de madrugada. Entre... More

Boêmia carioca
Verdadeira natureza
Sob a pele
Cobra muda de pele, mas não perde a mordida
Sentimentos humanos

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia

63 4 16
By Rayzaxx_r


Então, pra quem tá acompanhando esse perfil a uns dias tem percebido que eu não escrevia nada, e do nada comecei. Loquinha tem me inspirado umas ideias muito loucas e eu só gostaria de não deixar elas somente na minha cabeça. Essa ideia nasceu em um sonho na madrugada. Se vocês gostarem, curtirem a ideia, votem na enquete no final da leitura. Se possível, comentem. Uma ótima leitura a todos!


A noite caía devagar sobre o Rio de Janeiro, tingindo o céu com tons profundos de laranja e roxo, como se o próprio dia resistisse a ir embora. Na Lapa, o ritmo da cidade mudava - não diminuía, mas se transformava. As luzes começavam a acender, uma a uma, refletindo nos arcos como pequenos faróis que guiavam tanto os vivos quanto aquilo que caminhava entre eles sem ser visto.

Era ali, no coração desse movimento, o cafofo bar de Inês existia.

Para qualquer um que passasse pela rua, era só mais um bar: música baixa, mesas de madeira gastas pelo tempo, clientes rindo alto demais depois de algumas bebidas. Um lugar acolhedor, até. Familiar.

Mas nada ali era apenas o que parecia.

Atrás do balcão, Cidade Invisível ganhava vida de um jeito que poucos humanos poderiam sequer imaginar.

Inês estava parada, como sempre, no ponto exato onde conseguia ver tudo. Seu olhar percorria o ambiente com uma calma que não era comum - não era vigilância nervosa, mas algo mais antigo, mais instintivo. Havia séculos naquele olhar. Séculos de histórias, de perdas, de ciclos repetidos.

Ela apoiava uma mão no balcão, a outra segurando um pano que mal usava. Não precisava limpar nada. Aquilo era mais um gesto automático, quase um disfarce.

Porque Inês não era só a dona daquele bar.

Ela era mãe daquela família.

E, apesar de toda a sua natureza imprevisível, ali - naquele lugar - ela era o eixo.

O centro.

A casa.

Ao lado dela, Camila secava copos com movimentos lentos e suaves, como se estivesse sempre no ritmo de uma música que ninguém mais ouvia. Seus dedos deslizavam pelo vidro com delicadeza quase hipnótica, e de vez em quando ela levantava os olhos para observar os clientes.

Havia algo no olhar de Camila que fazia as pessoas se sentirem vistas... e, ao mesmo tempo, completamente expostas.

Ela sorria pouco.

Mas quando sorria, era como um reflexo na água - bonito, perigoso, impossível de esquecer.

- Você vai acabar quebrando esse copo se continuar assim - comentou Inês, sem olhar diretamente.

Camila arqueou uma sobrancelha, divertida.

- Eu nunca quebrei um copo.

- Ainda.

Inês soltou um suspiro leve, apoiando o peso do corpo no balcão enquanto observava o movimento do bar crescer aos poucos. O tilintar dos copos, as conversas cruzadas, a música baixa ao fundo - tudo parecia pedir por algo mais.

Ela virou o rosto na direção de Camila, dessa vez encarando de verdade.

- Já tá na hora... - disse, com um meio sorriso. - Vai lá pro palco.

Camila continuou secando o copo por mais alguns segundos, como se estivesse decidindo se obedecia ou não. Seus dedos pararam no vidro, e ela ergueu o olhar devagar.

- Você acha mesmo que eles precisam disso hoje?

Inês deu de ombros, mas havia certeza no gesto.

- Eles sempre precisam.

Um pequeno silêncio se formou entre as duas. Então, finalmente, Camila colocou o copo no lugar, alinhando-o com os outros com precisão quase ritualística.

Ela passou por Inês sem pressa, roçando levemente o ombro no dela - um toque breve, mas carregado de intenção - antes de seguir em direção ao pequeno palco do Cafofo Bar.

A conversa no ambiente foi diminuindo aos poucos, como se algo invisível estivesse puxando a atenção de todos para o mesmo ponto.

Camila parou sob a luz amarelada, fechou os olhos por um instante... e quando abriu, já não era apenas uma mulher ali.

Era presença.

Era mar.

A primeira nota saiu suave.

Então veio a melodia.

- Sou loba, sou fera, sou bicho...

A voz de Camila se espalhou pelo bar como água calma invadindo um espaço seco. Envolvente. Densa. Hipnótica.

Os clientes foram silenciando um a um.

Copos pararam no meio do caminho.

Conversas morreram antes de terminar.

Alguns sorriram sem perceber.

Outros apenas ficaram... imóveis.

Era como se cada palavra cantada encontrasse um espaço escondido dentro de quem ouvia.

Como se Camila não cantasse para eles - mas dentro deles.

Atrás do balcão, Inês observava.

Braços cruzados.

Olhar atento.

Conhecia aquele efeito.

Já tinha visto inúmeras vezes.

E mesmo assim...

Nunca deixava de sentir.

Porque ali, sob aquela luz, com aquela voz que acalmava e dominava ao mesmo tempo...

Camila não era só parte do bar.

Ela era o perigo que fazia todo mundo querer ficar.

Do outro lado do salão, Erick passava entre as mesas com facilidade, desviando de cadeiras e pessoas como se dançasse com o espaço. Ele carregava uma bandeja cheia, mas seu olhar estava sempre na porta.

Sempre.

Atento.

Protegendo.

Era instintivo.

O tipo de coisa que nem precisava ser pensada.

Porque Erick sabia o que podia entrar por aquela porta.

E o que não deveria.

Às vezes, quando o vento batia de um jeito específico, ele sentia o cheiro do rio. Não o cheiro comum - mas o profundo, o que vinha de dentro, o que carregava histórias.

Ele respirava fundo... e voltava.

Porque aquele não era o momento.

Ainda não.

Mais ao fundo, perto de uma mesa onde três clientes discutiam futebol, um redemoinho quase invisível de poeira se formou por um segundo - e então desapareceu.

- Isaac - murmurou Erick, sem olhar.

- Tô quieto hoje - a voz veio, leve, carregada de ironia.

Num piscar de olhos, ele apareceu sentado em uma cadeira vazia, girando um palito de dente entre os dedos. Uma perna só, cruzada com naturalidade, como se aquilo nunca tivesse sido estranho.

Isaac, o Saci.

O caos controlado da casa.

- Quieto? - Erick soltou uma risada curta ao passar. - Isso eu quero ver.

- Eu posso ser tranquilo - retrucou Isaac, com um sorriso enviesado. - Só não gosto.

Inês bufou baixo, mas havia carinho ali.

Sempre havia.

E então... havia ela.

Eduarda Fragoso.

Ela se movia entre as mesas com uma naturalidade que passaria despercebida para qualquer um. Bandeja firme nas mãos, passos silenciosos, olhar atento.

Mas diferente dos outros... ela se escondia melhor.

Ou tentava.

Eduarda carregava a mata com ela.

Não como metáfora.

Como presença.

Algo em seu jeito de andar lembrava trilhas invisíveis, caminhos que não estavam ali para serem vistos. Seus olhos, escuros e profundos, pareciam sempre calcular mais do que o ambiente exigia.

Ela observava tudo.

Sempre.

Mas falava pouco.

- Mesa três - disse Erick, passando por ela.

Ela apenas assentiu.

Sem palavras.

Era assim com quase todo mundo.

Exceto com eles.

Quando Eduarda voltou para o balcão, colocando a bandeja vazia com cuidado, Inês a observou por alguns segundos antes de falar:

- Você tá mais quieta que o normal.

Isaac riu.

- E isso é possível?

Eduarda lançou um olhar breve pra ele.

- Engraçado.

Seco.

Mas não frio.

Nunca com eles.

Inês inclinou a cabeça levemente, analisando.

- A mata tá inquieta.

Não foi uma pergunta.

Eduarda respirou fundo.

E por um instante... hesitou.

Aquilo não era comum.

- Tá - respondeu, por fim. - Tem alguma coisa errada.

O silêncio que se seguiu não era pesado.

Era atento.

Familiar.

Era o tipo de silêncio de quem já enfrentou coisas demais juntos.

- Você sentiu onde? - perguntou Erick.

- Mais fundo. Perto da divisa.

Inês estreitou os olhos.

- Isso não é bom.

Isaac girou o palito entre os dedos.

- Nunca é.

Eduarda cruzou os braços, apoiando-se levemente no balcão.

- Não é só movimento... é como se alguma coisa tivesse sido mexida. Tirada do lugar.

Inês parou completamente.

- Mexida... ou libertada?

A pergunta ficou no ar.

Porque todos sabiam o que aquilo podia significar.

E nenhum deles gostava da resposta.

-

Horas depois, o bar começou a esvaziar.

As risadas diminuíram.

As cadeiras foram sendo empilhadas.

As luzes ficaram mais baixas.

E, pouco a pouco, o mundo humano foi embora.

O silêncio voltou.

Mas ali... o silêncio nunca era vazio.

Era descanso.

Era retorno.

Inês trancou a porta, girando a chave com um clique seco.

- Chega por hoje.

Isaac estalou os dedos, e uma das luzes piscou antes de apagar.

- Finalmente.

Erick fechou as janelas, uma por uma.

Camila organizava o balcão com calma.

E Eduarda...

Eduarda já estava indo.

Não embora.

Mas para baixo.

Para casa.

-

A parte de baixo do bar não aparecia em planta nenhuma.

Não oficialmente.

Era um espaço que existia porque eles precisavam.

E porque, de algum jeito... sempre tinha existido.

As escadas rangiam baixo quando Eduarda desceu, os passos agora mais pesados - não de cansaço, mas de relaxamento.

Ali... ela não precisava fingir.

O ambiente era diferente.

Mais escuro.

Mais quente.

Mais vivo.

Plantas cresciam pelos cantos, mesmo sem luz direta. Algumas se moviam levemente quando ela passava, como se reconhecessem sua presença.

Ela passou a mão por uma folha ao entrar.

E, pela primeira vez naquela noite...

Sorriu de verdade.

-

Quando todos se reuniram lá embaixo, o clima mudou completamente.

Isaac já estava jogado em um sofá velho, mexendo em algo que parecia um rádio desmontado.

- Isso aqui já devia ter sido jogado fora - comentou Erick.

- E perder essa obra de arte? - retrucou Isaac.

Camila  sentou-se perto de uma mesa baixa, observando um pequeno recipiente com água que refletia luz mesmo sem fonte aparente.

Inês apareceu por último, trazendo uma garrafa de whisky.

- Vocês falam demais - disse, servindo copos.

Eduarda encostou na parede por um momento, observando todos.

Aquela cena.

Aquela rotina.

Aquilo...

Era raro.

Era tudo.

- Vem - chamou Camila, suave.

Eduarda hesitou um segundo.

E então foi.

Sentou-se.

Aceitou o copo.

E deixou os ombros relaxarem.

-

- Você vai ter que ir lá - disse Inês, direta.

Eduarda sabia.

Desde o começo.

- Eu sei.

- Sozinha? - perguntou Erick.

- Sempre foi assim.

Isaac fez uma careta.

- Sempre foi assim não significa que tem que continuar sendo.

Eduarda olhou pra ele.

E dessa vez... havia algo mais ali.

Algo mais aberto.

- Eu não vou arrastar vocês pra algo que é da mata.

Camila inclinou levemente a cabeça.

- A mata também é nossa, de um jeito ou de outro.

Silêncio.

Mas não de discordância.

De cuidado.

Eduarda passou a mão pelo rosto.

- Eu só... preciso entender o que tá acontecendo primeiro.

Inês cruzou os braços.

- E depois?

Eduarda sustentou o olhar dela.

- Depois... eu volto.

-

Era sempre essa promessa.

E, até agora...

Ela sempre tinha cumprido.

-

Mais tarde, quando todos já tinham se dispersado, Eduarda ficou sozinha por alguns minutos.

Sentada.

Em silêncio.

O bar acima dela estava quieto.

A cidade lá fora... nunca totalmente.

Mas ali, naquele momento...

Havia paz.

Ela fechou os olhos.

E por um instante, a forma humana pareceu... insuficiente.

A floresta chamava.

Sempre chamava.

Mas agora...

Havia outra coisa também.

Algo novo.

Algo que ela ainda não entendia.

E talvez...

Algo que ela não pudesse controlar.

Quando abriu os olhos novamente, havia decisão ali.

Mas também... dúvida.

Porque proteger a mata era quem ela era.

Mas aquele mundo...

Aquela família...

Aquela vida construída entre o humano e o impossível...

Também era.

E talvez, pela primeira vez em muito tempo...

Eduarda Fragoso não estava apenas lutando contra algo externo.

Mas contra o que crescia dentro dela.

Algo que não tinha nome ainda.

Mas que... mudaria tudo.

-

Do outro lado, Botafogo, a mudança ainda estava espalhada pela sala como um rastro físico da decisão impulsiva que tinham tomado.

Caixas abertas ocupavam quase todo o espaço. Algumas ainda fechadas, outras reviradas, com roupas misturadas a objetos sem lógica - um liquidificador ao lado de livros, um porta-retrato perdido entre toalhas. Os colchões improvisados no chão deixavam claro que ninguém ali tinha energia suficiente pra montar nada direito.

Mas ninguém parecia se importar.

Lorena Ferette se jogou no sofá - que ainda estava sem capa e com um dos pés apoiado em um pedaço de madeira improvisado - e soltou o corpo como se tivesse finalmente chegado em algum lugar seguro.

- A gente realmente fez isso... - murmurou, olhando pro teto, ainda meio incrédula.

O ventilador girava devagar, fazendo mais barulho do que vento.

Leonardo abriu uma cerveja com um estalo seco, encostado na parede, observando tudo com um sorriso de canto.

- Fugimos de São Paulo - disse, levantando a garrafa como se fosse um brinde. - Parabéns pra gente.

- Fugimos nada - respondeu Maggye, sem nem olhar pra ele, já ajoelhada no chão abrindo mais uma caixa. - A gente se salvou.

- Dramática - murmurou Júnior, sem tirar os olhos do celular.

- Realista - ela rebateu, jogando um pano na direção dele. - E você podia ajudar.

Júnior desviou no último segundo, rindo.

- Tô ajudando psicologicamente.

- Inútil - disse Paulinho, largado no chão só de bermuda, abanando o rosto com uma tampa de caixa. - Isso aqui é um forno. Como vocês vivem assim?

- A gente chegou hoje - respondeu Lucélia, sentada no colchão, tentando dobrar roupas que insistiam em não colaborar. - Calma.

- Eu tô calmo - disse ele, dramático. - Tô derretendo, mas tô calmo.

Gerluce surgiu da cozinha com dois copos de água.

- Bebe isso antes de desmaiar, por favor.

- Você é um anjo - disse Paulinho, pegando o copo.

- Futura enfermeira - ela corrigiu, com um meio sorriso que carregava mais orgulho do que ela deixava transparecer.

O comentário fez alguns deles levantarem o olhar.

- Como assim futura? - Lorena virou o rosto no sofá, apoiando a cabeça no braço, curiosa.

Gerluce respirou fundo, como quem segura uma notícia boa tempo demais.

- Porque eu consegui.

Silêncio.

Curto.

Mas pesado.

- Conseguiu o quê? - Júnior finalmente tirou os olhos do celular.

- O emprego - ela disse, simples. - Num hospital aqui perto. Começo semana que vem.

Por um segundo, ninguém reagiu. Como se a frase precisasse de tempo pra cair.

- Tá de sacanagem - Leonardo foi o primeiro a falar, descrente, mas já sorrindo.

- Não tô - ela respondeu, agora deixando o sorriso escapar de verdade.

E foi o suficiente.

- CARALHO! - Paulinho praticamente pulou do chão, esquecendo o calor por um instante. - A gente mal chegou e já tem gente virando adulta funcional!

- Fala por você - Maggye levantou a cabeça de dentro da caixa. - Porque eu e a Lucélia também já estamos encaminhadas.

- O quê? - Lucélia olhou pra ela, surpresa.

- Ué - Maggye deu de ombros. - A mulher da galeria no centro respondeu meu e-mail. Quer que a gente vá lá amanhã. Disse que precisa de gente.

- Sério? - Lucélia abriu um sorriso, leve, aliviado. - Mas... a gente nem terminou de organizar nada.

- A gente organiza depois - Maggye respondeu, prática. - Prioridades.

- Olha só - Júnior se espreguiçou. - O grupo se estruturando... gostei.

- Gostou nada - Gerluce lançou um olhar. - E você?

Ele levantou as mãos em rendição.

- Calma, calma. Eu tenho entrevista também, tá?

- Milagre - Paulinho murmurou.

- Ajudante em suporte de TI - Júnior continuou, ignorando. - Amanhã à tarde. Não é glamouroso, mas paga boleto.

- Orgulho - Maggye disse, seca, mas com um canto de aprovação.

Leonardo deu um gole na cerveja, ainda encostado na parede.

- Então... já que estamos nesse clima produtivo... - ele começou.

- Lá vem - Lorena murmurou.

- Eu também consegui um teste - ele completou. - No mesmo hospital da Gerluce. Segurança.

Gerluce virou pra ele, surpresa de verdade dessa vez.

- Sério?

- Sério - ele deu um meio sorriso. - Se tudo der certo, você cuida das pessoas por dentro... e eu cuido por fora.

- Ou seja, ninguém entra sem passar por você - Paulinho comentou.

- Exatamente.

Lorena observava tudo em silêncio, absorvendo aquela sequência improvável de boas notícias. O peito ainda carregava o cansaço da mudança, mas algo ali... era diferente.

Era começo.

- E você? - Maggye perguntou, olhando direto pra ela. - Vai fazer o quê além de ocupar o sofá?

Lorena soltou um pequeno riso, passando a mão pelo rosto.

- Eu tenho uma entrevista amanhã.

Todos olharam pra ela.

- Onde?

- Na Lapa - ela respondeu. - Num bar.

- Claro - Júnior riu. - Combina.

- Qual bar? - perguntou Lucélia.

Lorena hesitou um segundo, como se o nome tivesse peso.

- Cafofo Bar. Da Inês.

Leonardo ergueu a sobrancelha.

- Já ouvi falar.

- Eu também - disse Maggye. - Dizem que é... diferente.

Lorena deu de ombros.

- Eu só preciso que dê certo.

Antes que alguém respondesse, o interfone tocou.

Todos se entreolharam.

- Por favor, me diz que é comida - Paulinho praticamente implorou.

Gerluce levantou, indo atender. Alguns segundos depois, voltou com duas caixas grandes de pizza equilibradas nos braços... e uma sacola com mais cervejas.

- EU TE AMO - Paulinho declarou, levantando os braços.

- Eu sei - ela respondeu, rindo.

As caixas foram abertas no chão mesmo, entre roupas, livros e bagunça. O cheiro tomou o ambiente, abafando por um momento o calor, o cansaço e qualquer resquício de dúvida.

Eles se espalharam como podiam.

No chão.

No colchão.

Encostados nas paredes.

Lorena continuou no sofá, mas agora sentada, com um pedaço de pizza na mão.

Leonardo distribuiu as cervejas, abrindo uma com os dentes antes de passar pra frente.

- Isso é insalubre - Maggye comentou.

- Isso é estilo - ele rebateu.

Todos já com suas garrafas, alguém - ninguém soube exatamente quem - levantou a primeira.

- Então tá - disse Júnior. - Já que a gente resolveu virar adulto do nada...

- Não exagera - Paulinho cortou.

- ...um brinde - ele continuou, ignorando. - À casa nova.

- À cidade nova - completou Lucélia.

- Aos empregos - disse Gerluce

- À sobrevivência - Maggye.

- E às decisões impulsivas que deram certo - Leonardo finalizou.

Todos olharam pra Lorena.

Ela levantou a garrafa devagar, um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

- À gente.

O tilintar das garrafas ecoou pela sala bagunçada, se misturando com o ventilador barulhento e o riso ainda solto de quem estava começando a acreditar que aquilo tudo podia dar certo.

Eles comeram direto das caixas, sem prato, sem cerimônia. Maggye ainda tentava manter alguma ordem, mas já tinha desistido de lutar contra o caos completo. Lucélia ria baixo de alguma coisa que Júnior mostrava no celular. Leonardo encostou de novo na parede, observando todo mundo com aquele ar tranquilo de quem já tinha decidido que ficaria.

Foi então que Paulinho, mastigando devagar, levantou um dedo como se tivesse lembrado de algo importante.

- Tá, eu também tenho uma coisa pra falar.

- Ih - Maggye nem olhou. - Lá vem mentira.

- Não é mentira - ele rebateu, indignado. - É informação oficial.

- Então manda - Júnior disse, curioso.

Paulinho engoliu, limpou a mão na bermuda e abriu um sorriso meio orgulhoso.

- Eu consegui transferência.

- Transferência? - Gerluce franziu a testa. - Do quê?

Ele se ajeitou, como se fosse finalmente levar aquilo a sério.

- Como eu já era detetive em São Paulo - disse, dando de ombros, como se fosse óbvio. - Só que agora consegui vir pra cá. Vou trabalhar numa delegacia no centro.

O silêncio veio mais rápido dessa vez.

Mas diferente.

Menos descrente... mais tentando encaixar a informação.

- Pera - Leonardo estreitou os olhos. - Você tá dizendo que isso aqui - ele apontou pra Paulinho largado no chão, suado, com pizza na mão - é um detetive?

- Exatamente isso - Paulinho respondeu, firme.

- Eu me recuso a acreditar -Leonardo disse, mas já rindo.

- Problema seu - ele deu de ombros. - Porque eu vou trabalhar com o delegado Jairo.

- Nome forte - Júnior comentou.

- E você não achou relevante mencionar isso antes?- Lorena perguntou, com um sorriso de canto.

Paulinho fez uma pausa.

- Eu gosto de manter um ar de mistério.

- Você gosta é de fazer drama - Lucélia riu.

- Faz parte do perfil - ele respondeu, piscando.

Gerluce cruzou os braços, analisando ele por um segundo.

- Tá... isso explica algumas coisas.

- EXPLICA O QUÊ? - Paulinho se virou pra ela, ofendido.

- Nada - ela respondeu, rindo. - Só... agora faz mais sentido.

Leonardo soltou uma risada baixa.

- Ok, isso melhorou muito.

- Eu sempre disse que eu era diferenciado - Paulinho voltou a comer, satisfeito.

- Você nunca disse isso - Maggye rebateu.

- Disse sim, vocês que não prestam atenção.

O clima voltou a ficar leve, mas agora com um detalhe novo: ninguém ali olhava mais pra Paulinho exatamente do mesmo jeito.

Ainda zoavam.

Mas tinha uma pontinha de respeito misturada.

Ou, no mínimo, curiosidade.

Leonardo levantou a garrafa outra vez.

- Então vamos atualizar esse brinde aqui.

- De novo? - Júnior riu.

- De novo - ele confirmou. - Ao hospital, à galeria, ao TI...

- À segurança - Gerluce completou, apontando pra ele.

- Ao detetive transferido oficialmente - Leonardo olhou pra Paulinho.

- Finalmente reconhecido - Paulinho levantou a garrafa, orgulhoso.

- E ao Cafofo - Maggye disse, olhando pra Lorena.

Lorena ergueu a sua devagar.

O olhar distante por um segundo.

Como se já estivesse lá.

- Ao que vem pela frente.

As garrafas se encontraram mais uma vez.

E, no meio da bagunça, do calor e das caixas ainda abertas... o futuro começou a parecer menos incerto.

E muito mais deles.

Continue Reading

You'll Also Like

23.6K 1.4K 25
One shot loquinha. Sequências de muito love de Lorena e Juquinha/Eduarda Fragoso e talvez alguns conflitos...👀
11K 1.1K 148
A descrição está no primeiro capítulo 259 capítulos
21.7K 980 6
One shots +18 de Lorena e Juquinha. Histórias curtas sobre desejo, conflitos, reconciliações, carinhos e intimidade.
Wattpad App - Unlock exclusive features