2003
Bill
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──Por que chegou atrasado?── Eu ouvi a voz rouca de Tom ao entrar no meu quarto, oque ele estava fazendo aqui no meu quarto?
──Por que está aqui deitado na minha cama?── Eu deixei minha mochila cair desleixadamente dos meus ombros no chao, enquanto me sentava ao pé da cama pra retirar os tênis.
──Fiquei com saudade...── Eu pude ver ele revirar os olhos com minha cara de convencido.
──E você não respondeu minha pergunta, por que chegou tarde hoje? Aconteceu alguma coisa hoje que eu não fui pra te proteger?── Eu não ia mentir, não pra Tom. Ele era o único que sabia de absolutamente todos os meus problemas. Ou quase todos.
──Adivinha.── Eu ergui a barra da minha blusa, revelando um hematoma vermelho grande no meu abdômen.
──Foi aquele Desgraçado do Friedrich de novo? Eu juro que eu acabo com aquele maldito, filho da── ele parou de falar imediatamente quando nossa mãe entrou no quarto. Por sorte eu já tinha abaixado a minha blusa novamente.
──Como você está? Tomou os remédios que eu deixei na cozinha pra você hoje de manhã?── ela beijou a testa de Tom, verificando sua temperatura corporal com a palma da mão em suas bochechas.
──Você está ardendo em febre. Já pro banho mocinho ── ela retirou os cobertor grossos que estavam sobre Tom enquanto ele reclamada de frio. Se levantando forçadamente.
──Ei! é pra ligar o chuveiro no frio.── Ela acrescentou.
──Mas mãe.── Tom resmungou, mas foi imediatamente interrompido.
──Mas nada, como quer que a sua febre abaixe com um banho quente?── entre resmungos e gemidos baixos Tom saiu do meu quarto.
──Ei.── Minha mãe me chamou, me olhando fixamente nos olhos. Droga, isso não era bom.
──Senta aqui, precisamos conversar.── Ela deu duas batidinhas no colchão ao seu lado. Seu tom era sério, mas não severo. Isso me tranquilizava um pouco, mas mesmo assim eu ainda sentia um calafrio na espinha enquanto me sentava ao seu lado na cama.
──Está acontecendo alguma coisa na escola?── Ela perguntou calmamente desta vez, passando os dedos pra afastar os cabelos rebeldes da minha testa. Mas apesar de estar calma eu ainda podia sentir a preocupação em cada uma de suas palavras.
──Está tudo bem mãe... Eu perdi o ônibus hoje por que eu... Por que eu acabei brigando com um garoto.── Eu revelei, não tudo, é claro. Eu não falaria pra minha mãe que sofria bullying e me metia em confusões quase todos os dias, e até sofria ameaças de morte de alguns neonazistas da vila. Eu não queria que minha mãe tivesse mais preocupações, eu queria protegê-la do caos do meu mundo particular.
──Foi um motivo bobo, por causa de um jogo da aula de educação física. O diretor acabou pedindo pra você ir a escola na segunda, se não estaríamos suspensos.──Eu menti. Hoje era sexta-feira, e eu sabia que o diretor nem se lembraria mesmo o motivo da briga na segunda-feira.
──E Aqueles seus colegas, os vizinhos?──ela perguntou, parecendo intrigada com algo.
──Eles meio que também estavam na briga, mas foi por outro motivo. Mas já nos entendemos com o garoto. Está tudo bem agora.── Ela me deu um olhar incerto, então sorriu levemente beijando minha testa enquanto me abraçava.
──Você pode falar sobre tudo comigo, está bem, filho? Eu nunca vou te julgar ou te apedrejar como as outras pessoas lá fora, eu sou sua mãe, eu te amo mais do que a minha própria vida. Nunca sinta medo ou se sinta apreensivo quando quiser me contar algo. Ok? ── Ela me abraçou novamente, mais forte dessa vez. Eu confesso que me sentia culpado por mentir pra ela assim. Mas eu não queria preocupa-lá ainda mais com os meus próprios problemas pessoais.
──Obrigado, mãe... Eu também te amo.──Eu me aconcheguei nos seus braços.
2003
Michael
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Eu sai do meu quarto já vestido com uma bermuda e uma blusa de gola alta que cobria as marcas no meu pescoço. O meu choro no banheiro tinha me acalmado um pouco de certa forma, como se eu tivesse liberado toda tensão que eu havia vindo reprimido. A casa estava silenciosa, exceto pelo barulho da TV na sala, que estava ligada em um canal evangélico com um padre que mais gritava do que pregava as orações.
──Você não lavou o rosto?── Eu perguntei ao notar o hematoma de Victor ainda coberto pela base que Bill avia aplicado. Diferente de mim, que com o rosto limpo e sem maquiagem já tinha um roxo avermelhado na maçã do meu rosto, e um pequeno corte no meu lábio inferior, começando lentamente a cicatrizar.
──Não, se não iria tirar a base e eu ia ficar com a cara feia igual a sua.── Victor disse com um tom zombeteiro antes de ir pro quarto sem nem me dar a chance de responder.
──Pirralho! É sua culpa da minha cara esta ferrada assim. Seu linguarudo.── Eu disse baixo, indo até a escada e descendo-a nas pontas dos pés pra não fazer barulho.
Vovó estava no sofá, roncando baixo enquanto dormia sentada na poltrona em frente a TV, que agora falava sozinha nos ouvidos adormecidos de sua velha espectadora adormecida.
Eu fui até a sala com cuidado, cobrindo a com sua manta de tricô, que ela mesma avia feito, e desligando a TV.
──Boa noite vovó.── Eu sussurei, deixando um beijo em sua testa antes de ir até a cozinha. Abrindo o freezer e retirando alguns cubos de gelo da forma, sempre tentando ser o mais silencioso possível pra não acordá-la.
Eu coloquei os cubos de gelo dentro de uma pequena trouxa feita com um dos panos de prato da gaveta dobarmario, e coloquei a forma cheia no freezer da geladeira.
Eu parei quando estava prestes a sair da cozinha, algo tinha me impedido. Uma garrafa de Steinhäger, meu pai tomava quando estava estressado, e a vovó tomava quando não conseguia dormir.
Eu nunca entendi o por que os adultos e adolescentes gostavam tanto de beber bebidas alcoólicas, como eles achavam graça em beber isso? Eu já tinha bebido um gole de cerveja uma vez, tinha um gosto péssimo amargo que me dava ânsia só de lembrar.
Eu balancei a cabeça me despertando dos meus devaneios e subindo as escadas devagar pra não fazer barulho, mas o universo parecia não querer colaborar comigo hoje, pois quando já estava quase no último degrau a escada rangiu alto.
──Victor?── a voz rouca de sono da minha avó chamou, e por um segundo eu paralisei onde estava com uma onda de susto passando pelo meu corpo.
──Não, sou eu vovó.── Eu respondi, ouvindo ela se espreguiçar e se levantar da poltrona. Lentamente, ainda se recuperando da soneca.
──Boa noite meus netinhos. Vovó vai dormir, Já está cansada...── Eu podia ouvir seus passos lentos a arrastados se aproximando das escadas.
──Boa noite vovó.── Eu falei antes de terminar de subir as escadas e rapidamente ir oro meu quarto. Trancando a porta atrás de mim.
Eu me sentei na minha cama, suspirando com o frio ao colocar a pequena trouxa com os gelos embalados na minha bochecha, onde a carne estava magoada e dolorida.
Espero que pelo menos isso desinche um pouco até amanhã, não sei mesmo o que eu vou fazer pra esconder isso da minha avó e do meu pai amanhã.
Sentindo aquele cheiro familiar de cigarro aceso eu me virei, e ao me virar pra janela aberta ao lado da minha cama eu pude ver ele, na janela do seu quarto soprando aquela fumaça ao vento. Ele realmente era um fumante aos treze anos.
Ele notou que o encarava e me encarou de volta. seus olhos, que antes adimiravam o céu azul marinho escuro da noite, pontuado por estrelas distantes, agora se fixaram na compressa gelada na minha bochecha. Ele deu uma última tragada no seu cigarro antes de jogá-lo fora pela janela, soprando a fumaça e entrando pra dentro do quarto fora do meu campo de visão.
Eu me virei, voltando me preocupar mais em solucionar esse problema bem no meio da minha cara. Até que eu escutei algo cair no chão do meu quarto, parando perto do meu guarda-roupas.
──Que porra é essa?!── Eu perguntei a mim mesmo, com o senho franzido em confusão eu fui até aquela coisa no chão, a pegando.
Era uma base pra pele, o que aquilo estava fazendo ali no meu quarto? Ou melhor, de onde tinha sido arremessada?
Ao me virar pra janela, Bill estava escorado no batente da sua própria janela, me olhando como alguém que acabava de entregar um presente cheio de expectativa.
Eu ergui as sobrancelhas lisonjeado, apontando pro meu próprio peito com se pergunta-se silenciosamente 'isso é pra mim, mesmo?'. Porra, isso me agudaria tanto a esconder do meu pai e da minha avó essas marcas que o idiota do Friedrich havia feito em mim. Ele sorriu, piscando pra mim em confirmação logo antes de dar um suave tchau com a mão e desaparecer no seu quarto.
Droga, aquela sensação de novo. Eu sentia meu coração saltar do peito com batidas mais fortes e revigoradas, e um estranho bem estar repentino. Como se eu estivesse mais feliz depois de vê-lo. Ou melhor, depois daquela piscada que ele deu pra mim. E aquele sorriso...
Eu balancei a cabeça, assustado com meus próprios pensamentos, e os afastando no mesmo instante.
Eu só devia estar contente de derrepente estar trocando mais do que 'bom dia' ou 'boa tarde' com um dos garotos mais populares da escola. Isso já era um começo pra quem era o excluído e feito de chacota por todos.
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