Era noite — quase meia-noite.
Deitada, senti o mesmo calafrio que me acompanha desde sempre. O horror. Ele rasteja silencioso, como se caminhasse na ponta dos pés, até pousar sobre minhas costas.
A sensação é sempre a mesma: ela está ali.
Igual a mim, mas sombria.
Um reflexo distorcido — mais real do que eu.
Ela me conhece.
Sabe o que penso, o que visto, o que assisto nas madrugadas insones.
Sabe o gosto do cigarro que arde entre meus dedos trêmulos.
Ela sabe demais.
Ela é mais eu do que eu mesma.
Mas ela não gosta de me ver sorrir.
Sempre que um lampejo de alegria tenta nascer, ela surge — e me lembra de tudo que quero esquecer.
Suga minha virtude, minha esperança, e cresce com isso. Ri de mim.
Quer ser maior.
Quer existir no meu lugar.
Espere...
Ela sou eu.
Ou... eu sou ela?
Diante de mim, ela sorri — um sorriso largo, quase humano.
Enrola seus longos cabelos negros, como eu faço quando estou inquieta.
E diz, com uma voz que parece vir de dentro da minha cabeça:
— Eu sou como você. Venho de você. Sou feita dos fragmentos que deixou pelo caminho. Tudo o que sente, eu sinto também. Sei do que foge... mas, no fundo, você já chegou lá.
Eu não respondo.
Porque sei que é verdade.
Era ela o tempo todo.
Está gravado na alma, entranhado no ser.
É isso que me forma.
— Você me deixou entrar — ela continua, sorrindo. — E me deixou sair.
Mas eu já sabia.
Eu sempre soube.
Por que lutar? Por que evitar?
Está tudo premeditado.
Olho para ela — e ela me olha.
Aponta para o espelho.
E eu entendo.
Chegou o momento.
Eu entro.
Ela sai.
E toma forma.
Fico aqui dentro, observando.
Do outro lado, ela vive.
Todos gostam dela — do riso fácil, das piadas sem graça, da leveza aparente.
Ela é bonita. Ela é viva.
Mas se pudessem ver o que há aqui dentro...
se pudessem ouvir o silêncio do espelho..
A agonia esmagadora de um dia dia cinzento, sem vida.
será que ainda estariam todos sorrindo?
Aos poucos, ela se aproxima do espelho.
Seus olhos encontram os meus — frios, inumanos, quase familiares.
Ouço o tilintar dos seus dedos
O sorriso dela se alarga, e com a voz que é igual à minha, mas mais firme, ela diz:
— Eu não sou você... só como você.