Sem Limites

By dosarof

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Vitória, uma jovem negra da periferia de São Paulo, vê no universo da tecnologia a chance de transformar sua... More

Capítulo 1 I A Nova Jogadora

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"— Vity, vai rápido, eles tão chegando!"

O grito de Juninho ecoava pelo beco e latejava dentro da minha cabeça. Eu não piscava. Não respirava. Os olhos grudados na tela do computador, dedos correndo sobre o teclado.

"Estou quase acessando!", respondi, sem desviar dos números que corriam como um enigma hipnótico.

"— Vai dar errado, Vity!", a voz fina da minha irmãzinha Emily — a Tchuca — atravessou a sala. Ela tremia, de pé na porta.

Mas eu não podia parar. As linhas de código se desenrolavam na tela até que, de repente, um clarão digital: eu consegui. Madrugadas em claro, noites roubadas do sono, e ali estava — eu tinha invadido o sistema da lan house vizinha.

Era só internet, mas pra gente, em 2011, internet era luxo de outro mundo. Não era vandalismo. Quer dizer... talvez um pouco. Mas juro: era por uma boa causa. A gente precisava estudar. Eu precisava estudar.

Meu nome é Vitória — mas ninguém me chama assim. Sou Vity, ou Ratinha98 quando mergulho na web. Aprendiz de hacker, sobrevivente da quebrada. Filha da metrópole, nascida e criada no coração de uma comunidade na Grande São Paulo.

E é daqui, desse quarto abafado, que eu sonho. Porque neste ano a Dosschol, a escola mais conceituada da cidade, abriu seletivo de bolsas. É meu último ano do ensino médio. Minha última ficha. Minha cartada final pra conquistar uma faculdade internacional. E eu vou jogar essa partida.


Os Donos do Jogo


No outro extremo da cidade, o cenário era outro. A Dosschol, palco dos sonhos de Vity, era a realidade monótona e fria de outros.

Entre as árvores de uma reserva privada, uma cabana improvisada se escondia da mansão iluminada ao fundo. Pedro ajeitava suas coisas quando ouviu passos pesados atrás de si. O coração acelerou por um instante: Até reconhecer a voz.

"— Até quando você vai preferir pular o muro a usar a porta da frente, Pedro?"

Era seu pai. O senador Albuquerque. O homem sorria como quem repreende brincando, mas os olhos estavam cheios de cobrança.

Pedro soltou um riso curto, ácido.

"— Eu me sinto mais seguro aqui, no meio da mata, do que naquela casa. Você sabe."

A mansão brilhava ao fundo, imponente e fria.

"— Seguro? Você devia parar de bancar o aventureiro. Some pelo mundo, chega sem avisar, não responde minhas mensagens. Que tipo de filho você acha que é?"

Pedro ajeitou a mochila nas costas, indiferente.

"— O mesmo de sempre. Eu me viro sozinho. Sempre me virei. Não é agora que vou pedir ajuda pro papai."

O senador suspirou fundo.

"— Pelo menos não suba essa escada de novo. Há animais perigosos na reserva."

Pedro sorriu, venenoso.

"— Tenho mais medo dos animais que moram dentro daquela casa do que dos que ficam aqui fora."

Antes que a tensão estourasse, outra voz surgiu:

"— Está tudo bem por aqui?"

Felipe, o filho mais velho, surgiu no portal da mansão. Postura impecável, olhar calculado.

Pedro não perdeu a chance.

"— Finalmente, o filho perfeito chegou. O filhinho do papai."

Felipe o encarou, firme.

"— Você não tem mais oito anos, Pedro. Mas continua agindo como se tivesse."

O pai ergueu a mão, cortando o ar.

"— Chega. Entrem os dois. Agora."

Pedro arrastou os pés até seu quarto. Felipe subiu para o dele, indiferente. O silêncio da mansão logo foi quebrado por passos delicados e um perfume doce. Uma mulher jovem, ultraloura, atravessou o corredor ao lado do senador. Mais uma namorada nova. Mais um rosto passageiro.

Pedro riu sozinho, carregando o veneno na voz:

"— Mais uma. Sempre uma diferente. Antes era ruiva. Agora, loira platinada. Que coleção bonita, papai."

Enquanto Vity sonhava com uma chance de mudar de vida, Pedro alimentava sua raiva em silêncio. Dois mundos distintos, mas prestes a colidir.


O Vazio no Espelho


Enquanto a tensão se instalava na mansão dos Albuquerque, Sayuri encarava o espelho iluminado por lâmpadas de seu próprio quarto — e não se via.

O reflexo lhe parecia estranho, distante, como se aquela não fosse ela. O nó na garganta virou enjoo. Correu para o banheiro e vomitou tudo o que acabara de comer.

Sayuri era brasileira, mas trazia no sangue a herança coreana. Trazia também as cicatrizes. Voltou ao Brasil depois de uma infância marcada por abusos psicológicos na Coreia, abandonando tutores cruéis. Hoje vivia com os tios, José e Marcos, um casal afetuoso que cuidava dela como se fosse filha. Mas havia dores que nenhum afeto conseguia apagar.

Sayuri tinha um olhar triste, sempre perdido, sempre fundo. Encontrava refúgio nos jogos online, onde podia ser qualquer coisa além dela mesma. Fora dali, sua vida se confundia em máscaras.

Ela namorava Felipe. Mas não por amor. Ficava ao lado dele mais por status do que por vontade. Para Felipe, ela era apenas um adorno. Um paradoxo vivo que lhe dava um ar de poder. Ele a tratava mal, e ela suportava em silêncio.

Um som de batida leve na porta interrompeu o vazio.

"— Sayuri... podemos conversar?" Era José, o tio.

"— Vai embora, tio..." A voz dela saiu fraca, quase engasgada.

"— Não. Não vou até você sair daí. O que está acontecendo, minha menina?"

Silêncio. Então, com os olhos marejados, ela finalmente respondeu:

"— Eu não sei. Só... eu não consigo me ver no espelho como realmente sou. É como se aquilo me destruísse. Talvez isso esteja acabando comigo."

Marcos, o outro tio, apareceu no corredor. A voz dele era mais calma, mas não menos preocupada.

"— Você tem ido ao terapeuta, Sayuri?"

Ela negou com a cabeça, lágrimas escorrendo.

"— Não. Eu não vejo saída. Às vezes penso que a única saída seria voltar pra onde vim... e resolver tudo que deixei pendente."

José apertou os punhos, engolindo a raiva do que não podia mudar.

"— Você precisa dormir. Precisa se cuidar."

Marcos foi mais firme.

"— Você vai voltar ao terapeuta. Vai retomar a medicação. Não pode se afundar nesse ritmo. Você ainda é só uma jovem. E precisa viver."

Sayuri foi para seu quarto. As lágrimas escorreram livres, silenciosas. O espelho à frente devolvia um rosto que ela não reconhecia. 


O Brilho na Escuridão


Do outro lado da cidade, diante de um espelho iluminado por lâmpadas coloridas, Léo se produzia como uma estrela de palco. Maquiagem impecável, cílios longos, brincos cintilantes, roupas ousadas. Uma drag queen em sua própria pele, mesmo que a casa inteira tentasse negar.

A mãe bateu à porta.

"— Não acredito que você vai sair de novo, Léo. E desse jeito..."

Léo girou nos saltos, fazendo graça.

"— Ai, mãe, por favor. Pelo amor de Deus, vamo se organizar? A mana aqui tá de férias. Então, não me estressa."

A mãe insistiu:

"— Você avisou seu pai? Ele não gosta que..."

"— Avisar, pra quê? O motorista me deixa, o motorista me pega. Tá tudo certo. Vou estar com a galera da escola, todo mundo junto. Aliás, Pedro me chamou pra jantar antes. Depois a gente sai."

O olhar da mãe percorreu a roupa justa e cheia de brilho.

"— Mas você vai mesmo vestida assim?"

Léo cruzou os braços, firme.

"— Vestida assim, mãe. Por favor. Eu respeito vocês, mas não aceito desrespeito comigo. A gente já conversou sobre isso, achei que tava bem claro, né."

A mãe respirou fundo, pedindo desculpas.

"— Eu só... Tenho medo, eu ainda tô tentando me acostumar com os pronomes, com tudo..."

Foi quando o pai entrou no quarto, a voz carregada de autoridade.

"— Você não vai sair desse jeito. Ele não vai. Escute bem, ELE."

Léo revirou os olhos, cansada.

"— Pra mim não importa mais. Eu vou sair, sim. E não vou me esconder atrás de um paletó, vivendo uma mentira. Essa sou eu, ESSA. Se não gosta, paciência."

Tirou o celular da tomada e pegou a bolsa e abriu caminho.

"— Licença."

O pai ficou vermelho de raiva. A mãe, aflita, tentou acalmá-lo. Mas Léo já descia as escadas do condomínio dançando, bailando sozinha, transformando cada passo em espetáculo.

Indo pra noite. Sem saber, com as outras almas que, assim como ela, também lutavam para serem vistas.

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