Em um piscar de olhos, estavam novamente em Belo Horizonte.
O céu estava claro, como se nada tivesse acontecido. O som dos carros, as pessoas andando nas calçadas, o metrô funcionando... tudo parecia normal. Por um instante, houve um silêncio entre o grupo.
E então, alegria.
— Deu certo! — gritou Bárbara, pulando. — A missão foi um sucesso!
— Conseguiram! — Tadeu sorriu, batendo palmas.
William girou no próprio eixo, rindo.
— Vocês são demais, sabia que ia conseguir.
Thales correu até Cristian, envolvendo-o num abraço apertado.
— Vocês voltaram! Eu sabia! — disse ele, rindo. — Sabia que ia dar certo!
Carlos fez o mesmo com Cristóvão, abraçando-o com tanta força que quase o derrubou.
Mas então... eles notaram.
Os rostos de Cristian e Cristóvão estavam sérios. Silenciosos. Pesados. Sem o mínimo brilho de vitória.
— Ei... — murmurou Bárbara. — O que houve?
Carlos franziu o cenho, se afastando um pouco de Cristóvão.
— Vocês não estão felizes?
Cristian desviou o olhar.
E foi Cristóvão quem quebrou o silêncio, sua voz carregada de peso.
— Nós não voltamos pra ficar.
Todos congelaram. O ar ao redor pareceu ficar mais denso.
— Como assim? — perguntou William, com a voz falhando.
Cristóvão respirou fundo, olhando diretamente nos olhos de Carlos.
— Essa missão era só o início. Um teste. Agora... agora vem o verdadeiro desafio. Eu e Cristian precisamos passar um ano treinando no Domínio dos Soberanos. Um lugar fora do tempo comum. Lá, um ano será necessário para nos prepararmos pro que está por vir.
— Um ano?! — gritou Thales, a felicidade sumindo do rosto em um segundo.
Carlos deu um passo pra trás, como se tivesse levado um soco.
— Isso é brincadeira... né? Por favor, diz que é brincadeira...
— Eu queria que fosse — disse Cristian, finalmente falando, com os olhos marejados. — Mas não é. E se a gente não for agora... não vai sobrar ninguém pra proteger.
— Mas um ano?! — Thales insistiu, a voz quebrada. — Sempre foram agentes juntos... sempre em todas as ocasiões ou até mesmo uma missão. Por que agora vai mudar?!
— Porque agora... — respondeu Cristian, tocando o rosto dele — é o fim que está vindo. E precisamos estar prontos.
Cristian então olhou para o grupo e assumiu uma postura firme, mesmo com a dor evidente.
— Enquanto estivermos fora, Thales... eu quero que você governe o submundo por mim. Cuide da Emilly. Controle os portais. Treine quem puder ser treinado. Proteja Belo Horizonte.
— Eu... — Thales hesitou, os olhos cheios de lágrimas.
— Você é o único que pode — completou Cristian. — Você é o mais forte entre todos aqui. E sabe... o tempo passa voando, né? Deus do tempo.
Thales mordeu o lábio e assentiu devagar, mesmo com o coração despedaçado.
Cristóvão se virou para Carlos e o puxou para um beijo longo, cheio de saudade, seguido por um abraço forte.
— Me espere. Um ano não é nada perto do que vamos conquistar. Cuide do nosso grupo, por favor.
Ele então olhou para Bárbara.
— E você... sem loucuras por vingança. Tudo no seu tempo, entendeu?
Bárbara chorava baixinho, mas assentiu com a cabeça.
William e Tadeu seguravam as lágrimas. Sentiam que o grupo estava se partindo... mesmo que fosse por uma boa causa.
Cristian puxou Thales para perto e o beijou intensamente. Um beijo que falava tudo o que as palavras não conseguiam.
— Eu te amo — disse ele, baixo. — E eu prometo... vou voltar mais forte do que nunca.
Thales apenas sussurrou:
— Então vá... antes que eu congele esse tempo.
O círculo mágico surgiu ao lado deles, invocado pelos próprios soberanos.
Cristian e Cristóvão entraram juntos, sem olhar para trás. O ar brilhou, e os dois desapareceram.
Foram levados de volta ao Domínio dos Soberanos, onde o tempo correria de forma cruel. Um ano de dor, treinos, quedas e renascimentos.
Um ano longe de quem mais amavam.
Mas eles voltariam. Com força o suficiente pra acabar com essa guerra.
"Em tempos onde deuses choram e monstros são apenas crianças perdidas em corpos de guerra, o mundo se curva diante daqueles que herdaram o direito de reescrever a realidade."
Era o início de uma nova era.
Cristian e Cristóvão estavam longe de casa, distantes das ruas agitadas de Belo Horizonte, da presença calorosa dos amigos e das lembranças que ainda queimavam em seus corações. O que os aguardava não era um simples treinamento... era o chamado de sangue. Uma convocação ancestral que ressoava apenas entre os escolhidos.
Diante deles, o céu era vermelho como brasas vivas, e uma escadaria esculpida em ossos de titãs levava até os portões negros de um lugar que jamais deveria ter sido tocado por mãos humanas. Ali, começava o Domínio dos Soberanos.
Suspenso entre dimensões, envolto em névoa estelar e protegido por entidades milenares, este mundo era lar da Academia dos Soberanos — o coração de todos os mistérios e heranças divinas. Era ali que os filhos de entidades supremos, demônios antigos e deuses esquecidos aprendiam a controlar os poderes herdados, em preparação para o lendário Jogo dos Tronos Eternos ou jogo dos soberanos.
A academia era imensa, uma cidade em forma de fortaleza. No centro, uma arena dourada chamada Arena da Eternidade, onde batalhas épicas eram travadas diante de arquibancadas que pulsavam com energia viva. Em torno da arena, sete torres se erguiam, cada uma representando um clã, uma linhagem e um destino.
Os Sete Clãs Supremos:
Clã Éterion – Os Filhos da Criação e da Ordem
Descendentes de deuses celestes como Zeus, Odin e Amaterasu. Comandavam a luz, os raios e a energia cósmica. Arrogantes, leais à hierarquia universal, e obcecados pela balança entre caos e equilíbrio.
Clã Vultros – Os Guardiões da Morte e da Transição
Nascidos das sombras de Anúbis, Hades e Hel. Eram necromantes, dominavam os véus entre a vida e o além. Frígidos, calculistas, e eternos sentinelas da travessia espiritual.
Clã Nexus – O Sangue do Caos
Herdeiros da fúria de Lúcifer, Belzebu e Surtr. Suas chamas negras consumiam o que tocavam. Rebeldes, brutais, mas com uma honra ardente e selvagem que apenas os verdadeiros guerreiros compreendiam.
Clã Nirayel – Protetores da Vida e da Natureza Sagrada
Filhos da terra, das florestas e das estações. Gaia, Freyja, Inari... seus nomes ecoavam entre folhas e raízes. Eram curandeiros, metamorfos e feras com rostos angelicais.
Clã Lúnaris – Senhores do Tempo e do Destino
Banhados pelo toque de Chronos e das Nornas. Manipulavam a linha do tempo, previam possibilidades, e caminhavam sempre um passo à frente de todos. Eram enigmáticos, como se soubessem de algo que o mundo ainda não descobriu.
Clã Arkanum – Discípulos do Conhecimento Proibido
Sedentos por sabedoria, descendentes de Thoth e entidades arcanas. Mestres das runas vivas, da magia caótica e dos pactos esquecidos. Amavam enigmas, e nada os encantava mais do que manipular a mente dos outros.
Clã freyja – Regentes da Loucura e da Inspiração
Filhos de Pan e entidades do êxtase. Comandavam as emoções, criavam ilusões perfeitas e enlouqueciam com beleza. Eram poetas, assassinos e artistas em um mesmo corpo.
Mas havia um oitavo clã...
Um clã proibido. Um clã esquecido.
Clã Bezeque – A União Proibida do Abismo, Inferno e Submundo
Um poder que nunca deveria ter existido.
Nascido da junção de três forças que, por eras, foram mantidas separadas por medo do que poderiam criar juntas. O Abismo. O Inferno. O Submundo.
Banido, apagado dos registros, silenciado em cânticos antigos. Até agora.
Cristian e Cristóvão, ao despertar seu sangue oculto, traziam de volta a chama negra desse clã perdido — e junto dela, o nome esquecido da espada de Cristóvão: Bezeque, a lâmina que ecoava o grito de mil horrores selados.
Seus dons não seguiam lógica alguma. Suas sombras tinham vontade própria. Alimentavam-se do medo. Absorviam sangue e essência. Fundiam-se com criaturas além da sanidade, invocando fragmentos de um vazio onde nem os deuses ousavam espiar.
Eles eram o começo do fim... ou o fim de um novo começo.
A Academia dos Soberanos não era apenas uma escola. Era um santuário entre mundos, uma prisão para monstros, um campo de batalha, e, acima de tudo, um trono preparado para moldar futuros reis — ou criar os piores tiranos que o universo já conheceu.
Suspensa em um plano oculto da realidade, cercada por um firmamento vivo de estrelas mortas e constelações pulsantes, a academia se erguia como um castelo infinito. Torres espiralam até tocarem as nuvens douradas. Portais dimensionais flutuavam em corredores de vidro celestial. Estátuas colossais de entidades esquecidas observavam os recém-chegados com olhos esculpidos em fogo azul.
O chão era feito de pedra negra encantada, refletindo a verdadeira essência de quem por ela caminhava. Muitos viam seus rostos distorcidos, marcados por pecados ocultos. Outros viam apenas o vazio. Poucos — pouquíssimos — viam uma coroa.
Cada um dos Sete Clãs ocupava sua própria torre sagrada, com símbolos antigos gravados em suas paredes e guardiões elementais em suas entradas.
Dentro das torres, os clãs viviam como reinos próprios:
Dormitórios vivos, que mudavam de forma conforme o humor dos moradores.
Arenas de treinamento, onde a gravidade podia ser anulada, duplicada ou distorcida.
Bibliotecas amaldiçoadas, onde o conhecimento vinha com um preço — e onde certos livros sussurravam segredos em troca da sua sanidade.
Salas do Julgamento, onde relíquias ancestrais escolhiam seus portadores ou os consumiam.
Espelhos de Sangue, capazes de mostrar o futuro... ou os horrores que o aguardam.
Aqueles que ousavam violar regras sagradas desapareciam. Alguns diziam que eram levados para a Torre Esquecida, onde o tempo não passava e a dor nunca cessava.
No centro da academia, erguia-se o Salão dos Tronos Eternos. Era ali que quatro tronos se mantinham elevados sobre todos, feitos de ossos de dragões, joias do infinito e sombras cristalizadas.
Sentados sobre eles estavam os quatro seres que governavam aquele mundo:
Destino,Balthazar, Dionísio e Lilith Era sob os olhos desses quatro que Cristian e Cristóvão agora caminhavam.
Um ano inteiro se iniciava. Um ano longe do mundo humano. Um ano onde seriam testados, desafiados e talvez destruídos. Um ano onde clãs iriam tentar dominá-los... ou eliminá-los.
Mas ali, dentro da Academia, os dois irmãos despertariam o verdadeiro poder do Clã Bezeque.
E quando voltassem a Belo Horizonte, não seriam mais simples sobreviventes.
Seriam os herdeiros do fim.
E os quatro soberanos estariam os observando
As portas do Salão dos Tronos Eternos se abriram com um estrondo abafado, como se o próprio tempo hesitasse em deixar os recém-chegados entrarem.
Cristian e Cristóvão caminharam em silêncio pelo corredor de mármore escuro, onde símbolos antigos brilhavam sob seus pés a cada passo. As sombras das colunas pareciam se mover, sussurrando segredos em línguas esquecidas.
Quando pararam diante dos quatro tronos, o ambiente os envolveu como uma maré invisível de pressão e poder.
Foi então que Dionísio se levantou.
Seus pés descalços tocaram o solo como se ele flutuasse entre a realidade e o delírio. Seus cabelos ondulavam sozinhos, mesmo sem vento, e ao seu redor, pequenas notas musicais dançavam no ar como partículas de luz viva.
Com um sorriso tão encantador quanto perigoso, ele desceu os degraus com passos leves, observando os irmãos como se fossem uma pintura prestes a ganhar vida.
— Sejam bem-vindos, meninos. — Sua voz era doce, embriagante, com um eco leve que parecia atravessar a mente de quem ouvia. — Não imaginam o quanto esperávamos por isso... O retorno do Clã Bezeque. O clã do abismo, do inferno e do submundo, fundido em carne e sombra novamente.
Cristóvão manteve a postura firme, mas seus olhos refletiam cautela. Cristian sentia o próprio coração bater mais rápido, não por medo — mas por algo antigo, primal, despertando dentro dele.
Dionísio então girou no próprio eixo, como se dançasse ao som de uma melodia silenciosa, e com um gesto gracioso apontou para uma passagem lateral oculta atrás de uma tapeçaria viva.
— Sigam-me. Vamos para a Torre Bezeque.
— Ele se virou parcialmente, os olhos agora mais sérios, quase proféticos:
— Amanhã será o primeiro dia de vocês na Academia... e o início de uma nova era.
Cristóvão lançou um olhar breve a Cristian. Algo mudava dentro deles. As sombras em seus corpos estavam mais vivas. A sensação de pertencer a algo maior... mais perigoso... mais antigo que o próprio tempo.
E enquanto seguiam Dionísio, rumo à torre esquecida e agora renascida, uma certeza os acompanhava:
tudo era apenas o começo
E com ele, o equilíbrio dos mundos começava a ruir.
A torre Bezeque se erguia nas sombras mais profundas da Academia. Não se podia vê-la do pátio principal — ela simplesmente não existia aos olhos comuns. Só aqueles marcados pelo sangue do abismo podiam atravessar seus portões e enxergar o que estava oculto.
Era imensa, construída em um estilo antigo, com colunas negras esculpidas em ossos de criaturas esquecidas e vitrais vivos que pulsavam como corações. Cada andar da torre parecia ter sua própria essência, com corredores que se transformavam, portas que murmuravam, e chamas negras que iluminavam tudo com uma luz fria e densa.
Dionísio os guiou até o grande salão central — uma mistura entre santuário e câmara de guerra, decorado com brasões desaparecidos da história, mapas interdimensionais e tronos vazios, esperando pelos novos herdeiros.
Com um sorriso provocativo e um brilho selvagem nos olhos, ele estendeu os braços e anunciou:
— Fiquem à vontade, meninos... tudo aqui é de vocês.
— Dionísio se virou lentamente, tocando um dos pilares que imediatamente brilhou em roxo profundo. — Servos estão por toda parte, prontos para atender cada desejo, cada comando. Vocês são os soberanos dessa torre agora. O clã Bezeque voltou... e os ventos do caos dançam novamente.
E com isso, desapareceu. Literalmente. Como fumaça sendo tragada por um riso abafado que ecoou pelas paredes.
Cristóvão soltou um longo suspiro, caminhando até uma das varandas que dava para o nada — um espaço onde estrelas vermelhas pairavam em uma escuridão sem fim.
— Isso tudo é... uma loucura. — disse ele, sério, com os olhos fixos no vazio. — Primeiro os portais, depois aquele maldito sistema... e agora uma academia com clãs, entidades, monstros, uma guerra que a gente nem entende...
Cristian, por outro lado, riu baixinho, passando a mão pelos cabelos.
— É... eu já não duvido de mais nada.
— Ele olhou ao redor, vendo as sombras se curvarem em respeito ao seu toque. — Tudo pode acontecer agora. Tudo mesmo.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio. Apenas o som da torre viva, pulsando em sincronia com suas presenças, preenchia o ar.
Eles não eram mais apenas dois irmãos tentando sobreviver.
Agora, eram peças centrais em um tabuleiro cósmico.
E o primeiro movimento havia acabado de ser feito.
Cristóvão encostou em uma pilastra enegrecida, ainda observando o vazio lá fora.
— Sabe o que é pior? — ele disse em voz baixa, a sombra do cansaço e da dor finalmente escapando por sua garganta. — Não é o sistema, nem os monstros, nem essa porra de clãs... é pensar que a gente vai ficar um ano inteiro aqui. Sem eles. Sem ninguém.
Cristian se aproximou devagar, com as mãos nos bolsos, o olhar perdido no chão de pedra viva, onde símbolos antigos pulsavam sob seus pés.
— Eu também pensei nisso. — murmurou. — A gente saiu da nossa vida toda sem nem dizer um "até logo" direito. Nem Thales... nem Carlos... nem os amigos...
Cristóvão olhou para o irmão com uma expressão amarga.
— Eles devem estar tristes neste momento e espero que o grupo continue juntos.
Cristian se virou para ele e, com um suspiro profundo, deixou o peso do silêncio cair.
— Eu fico me perguntando se, quando a gente voltar, tudo ainda vai estar no lugar.
— Sua voz era pesada, mas firme. — Se as pessoas ainda vão lembrar da gente... ou se vamos voltar diferentes demais.
Cristóvão riu sem humor.
— Cristian... a gente já mudou. Só de pisar aqui, de tocar essa torre viva, de sentir as sombras sussurrando... já não somos os mesmos.
— Ele tocou o próprio peito, sentindo a energia negra se mover como se tivesse vida. — Isso aqui dentro... já não é normal.
Cristian concordou com a cabeça, se aproximando da grande janela que dava para a arena da eternidade, onde outras torres brilhavam à distância, como estrelas guerreiras no campo inimigo.
— Mas quer saber?
— Ele disse, com os olhos escurecendo, como se a própria torre falasse por ele. — Se for pra proteger quem a gente ama... se for pra nunca mais sermos tratados como peças descartáveis... então que venham as guerras, os testes, os malditos clãs.
Cristóvão o encarou com um leve sorriso, algo entre orgulho e loucura.
— "Os herdeiros da escuridão"... hein? Nunca pensei que isso um dia seria a gente.
— Nem eu. — respondeu Cristian, sorrindo de volta. — Mas agora... é melhor a gente se acostumar com isso. Porque estamos no meio de um jogo que não tem botão de pausa.
E então, ambos se sentaram diante do trono vazio no centro do salão da torre Bezeque — um trono forjado das correntes que prendem os deuses esquecidos — e ficaram em silêncio por um tempo.
Longe de casa.
Longe de tudo.
Mas finalmente... em seu verdadeiro lugar.