Rhys me levou até a Casa do Vento na manhã seguinte. Lá, eu encontraria Feyre e Mor. Hoje, iríamos visitar minhas irmãs nas Terras Mortais.
Por mais que eu quisesse acreditar que estava preparada, sabia que era apenas uma mentira conveniente.
A verdade? Minha família provavelmente nos odiaria.
Eu odiava o que nos tornamos.
Feyre e eu não nos víamos desde aquele jantar inicial com o círculo.
O caos ao meu redor era incessante, sugando toda a minha atenção, deixando pouco ou nada para ela. Mas eu sentia falta dela.
Desde Sob a Montanha, algo mudou entre nós. Um abismo silencioso começou a se formar.
Distância, fria e implacável, se instalou onde antes havia calor e proximidade. E, mesmo que fosse doloroso admitir, isso parecia inevitável.
Eu sabia que as cicatrizes deixadas por Amarantha eram profundas. Não apenas físicas, mas invisíveis, corroendo tudo por dentro.
Tentávamos seguir em frente, mas o que isso nos custava? Algo essencial foi quebrado, e talvez nenhuma de nós soubesse como consertar.
Nos meses que antecederam minha ida à Corte Noturna, nós nos vimos. Algumas vezes. Mas não era real. Estávamos lá, mas não presentes. Sombras. Fantasmas do que costumávamos ser.
Agora, eu estava finalmente indo vê-la, e isso deveria ser um alívio.
Mas a culpa pesava mais.
Decidimos usar a casa de nossa família sem perguntar, sem consultar. Foi necessário, claro, mas isso não tornava a decisão menos amarga.
Eu não deveria ter concordado tão rápido. Mas em tempos de guerra, escolhas precisam ser feitas, e hesitação pode custar caro.
Sacrifícios são inevitáveis - bons ou ruins, isso não importa. O caos reina, e eu...
Eu sou especialista em caos.
A Casa do Vento parecia maior do que eu lembrava. Cada parede gravada, cada janela que deixava entrar o vento frio, parecia refletir minha própria confusão.
Não havia tempo para admirar ou odiar o espaço. Havia apenas o vazio, o peso das decisões, e a incerteza do que viria a seguir.
Hoje não seria fácil. As coisas nunca são. Mas se eu aprendi algo no caos da guerra, foi a necessidade de seguir em frente, mesmo que tudo ao redor estivesse em ruínas.
Porque, no final, é isso que fazemos. Nós sobrevivemos ao caos.
Enquanto procurava Feyre e Mor pela Casa do Vento, percebi o quão imensa ela era.
Até aquele momento, nunca tinha reparado nos detalhes - as paredes meticulosamente entalhadas, as janelas altas que traziam o vento frio lá de fora, e os tapetes... Cujas escolhas me fizeram questionar o gosto de quem os escolheu.
Entrei em um corredor estreito, repleto de portas idênticas, alinhadas como se escondessem segredos antigos.
Era quase sufocante, mas ali, no silêncio, ouvi passos. Sabia que apenas Feyre e Mor estavam na casa, então segui o som, meu coração batendo mais rápido a cada passo.
Parei diante de uma porta como qualquer outra. Nada nela chamava atenção, mas algo me fez hesitar por um momento.
Depois, bati duas vezes, ouvindo os passos se aproximarem até que, finalmente, a porta se abriu.
Feyre.
"Oi", ela disse, a voz baixa, quase tímida.
"Oi."
Ficamos ali, nos encarando. O silêncio entre nós era espesso, desconfortável, mas carregado de coisas que nenhuma de nós conseguia colocar em palavras.
"Mor ainda não chegou", ela comentou, desviando os olhos, como se olhar diretamente para mim fosse demais.
Era estranho. Estranho, mas esperado. Tudo entre nós parecia diferente agora, tão distante do que já foi.
Mas, de alguma forma, isso parecia certo. Talvez precisássemos desse desconforto para começar.
"Na verdade," falei, devagar, escolhendo as palavras com cuidado, "Eu estava procurando por você. Podemos conversar?"
Ela franziu o cenho, como se a proposta fosse algo que não esperava ouvir, mas acabou assentindo, embora relutante. Abriu mais a porta para que eu entrasse, e o fiz.
A sala estava arejada e cheia de luz. As grandes janelas abertas traziam o cheiro salgado do mar.
Feyre foi até dois pequenos assentos próximos à janela, e nos sentamos.
Olhei para Velaris, a cidade que sempre parecia tão viva, tão brilhante, mesmo em tempos de incerteza.
Mas, enquanto a admirava, um cheiro me chamou a atenção. Era sutil, mas estava impregnado na cadeira ao meu lado.
Não era fresco, mas parecia tão presente quanto o vento que entrava pela janela. Familiar, como algo que eu conhecia há muito tempo.
"Mor vem muito aqui?" Perguntei, minha voz suave, tentando não soar acusatória.
A curiosidade pesava mais que qualquer outro sentimento.
Feyre me lançou um olhar breve, quase indecifrável, antes de acenar com a cabeça.
"Ela me visita quase todos os dias."
Uma pontada de culpa atravessou meu peito, rápida e cruel. Mor esteve aqui. Ela esteve ao lado de Feyre, enquanto eu...
Enquanto eu não estava.
Sorri para Feyre, tentando que o sorriso fosse algo mais do que uma fachada.
"Isso é bom. Fico feliz por saber disso." Mas mesmo enquanto falava, o peso da distância entre nós parecia crescer, tornando o ambiente ainda mais apertado e difícil de suportar.
O silêncio voltou, pesado, com um gosto amargo. Eu queria acreditar que estava conseguindo lidar com aquilo, mas estava claro que essa conversa seria mais difícil do que eu imaginava.
Ainda assim, não estava ali para me esconder atrás do silêncio, nem por mais confortável que ele fosse.
"Sinto muito," finalmente disse, minha voz trêmula. Evitei olhá-la, preferindo focar na janela, nas linhas do horizonte que pareciam se perder em alguma parte distante. Minhas mãos estavam geladas, meu peito apertado, mas precisava dizer isso. "Eu não estive lá para você. Depois de Sob a Montanha... Eu deveria ter estado."
Cada palavra me parecia falha, quase inútil, mas o peso da culpa precisava sair.
"Eu estava tão envolvida com o que senti, com o que ela fez comigo, que acabei ignorando o que ela fez com você." Respirei fundo, sentindo o nó se apertar na garganta. Então, finalmente, a encarei, tentando fazer as palavras soar como algo sincero. "Me perdoe, Feyre. Sinto tanto."
Feyre engoliu em seco e, por um instante, parecia pesar cada palavra antes de dizer algo que me fez sentir como se o chão tivesse desaparecido sob meus pés.
"Tamlin costumava dizer que você não era confiável." Sua voz estava baixa, mas carregada com uma mágoa que não escondia. "Ele dizia que seus laços com este lugar iriam corrompê-la."
Fechei os olhos, a dor de suas palavras cortando mais fundo do que eu queria admitir. Claro que ele dizia isso. Ele sempre acreditou que me controlar seria a resposta para tudo, até mesmo ao que não conseguia entender.
"Eu disse a ele que estava errado," ela continuou, o olhar desviado. "Disse que você me amava e que nunca nos trairia." Sua voz vacilou por um segundo, como se cada palavra carregasse o peso de algo que ela já não sabia mais acreditar.
O silêncio tomou conta de nós, mais denso do que qualquer outra coisa, até que ela o quebrou com algo que me atingiu como um soco.
"Mas, toda vez que você voltava, você ficava... Um pouco mais distante."
Aquelas palavras me atravessaram.
Ela pensava que era por causa de Rhys.
Mas, ao perceber o que estava acontecendo, entendi: Feyre nunca soube a verdade sobre o que Tamlin fez comigo. Parte de mim sempre acreditou que ela sabia, que em algum lugar, no fundo, ela já tinha percebido, mas... Não sabia.
Não tinha ideia.
"E então..." Sua voz falhou e ela se calou por um momento, como se as palavras fossem difíceis demais para sair. "Ele me trancou naquela casa. E você me trouxe para cá."
Ela me encarou diretamente, seus olhos agora tão firmes quanto seu tom.
"No começo, eu não entendi. Não entendi por que você me trouxe para a Corte Noturna, um lugar que eu achava tão... Violento, tão cruel, mesmo depois de tudo o que passamos." Ela balançou a cabeça, como se tentasse afastar os fantasmas do passado. "Mas então conheci essas pessoas. Elas não eram o que eu esperava."
Sua expressão se suavizou, mas havia uma tristeza ali, algo quebrado que ela não conseguia esconder.
"Mas eu não entendi. Você foi embora. E não apenas para a Corte Noturna." Sua voz falhou, como se as palavras se partissem antes de chegar à superfície. "Aonde você foi?"
Eu sabia o que ela queria dizer, mesmo sem as palavras completas. Mas, mais do que nunca, naquele momento, os segredos que escondi dela pesavam em meu peito, como uma carga insuportável.
Segredos.
Tantos segredos que mantive entre nós, como uma muralha que fui erguendo aos poucos até nos separarmos sem nem perceber.
Feyre não sabia. Ela nunca soube que, sob a Montanha, ainda estava aquela garota amedrontada, encolhida em uma cela escura e fria, enquanto ela pensava que eu estava em algum quarto, distante, mas segura.
O veneno que eu guardei por tanto tempo dentro de mim se infiltrou sem que eu soubesse, e, aos poucos, ele corroía tudo - até mesmo a nós duas. Até o que restava da nossa irmandade.
Eu não deveria ter escondido isso dela.
Não deveria ter sufocado minha dor em silêncio, escondida de sua visão, como se o peso fosse só meu. Mas, como uma loucura, foi isso que fiz.
E então... Eu disse.
Contei tudo.
Cada pedaço da minha verdade mais escura, cada medo que carrego como um fardo indesejado.
E, ao fazê-lo, percebi que a lâmina estava em meu peito. Eu mal consegui aguentar o impacto de ver sua expressão mudar, de ver os olhos dela se encherem de lágrimas, e eu não pude evitar.
O nó na minha garganta se tornou impossível de ignorar.
Eu também chorei. Não queria. Eu nunca queria chorar. Mas ali, naquele momento, parecia ser tudo o que restava de mim.
Quando a última palavra saiu de minha boca, um silêncio profundo tomou conta da sala.
Pesado.
Incômodo.
Como se o mundo estivesse esperando por algo, por uma reação, mas eu não sabia o que mais poderia ser dito. Só que, então, algo inesperado aconteceu.
Feyre me abraçou.
E, por um breve momento, senti como se o laço entre nós, aquele laço frágil e dilacerado pelo tempo e pela dor, finalmente se conectasse de novo.
Pela primeira vez em muito tempo, eu me senti como sua irmã de novo, como se as sombras que nos cercavam pudessem se dissipar, mesmo que fosse só por um segundo.
Ela começou a falar também, compartilhando seus próprios segredos, as coisas que ela guardou tanto tempo, o que a feria e o que ela nunca conseguiu colocar em palavras.
E, embora a dor fosse palpável, e o peso de tudo que enfrentamos ainda estivesse sobre nós, naquele momento, algo próximo da felicidade se instalou.
Não pela dor que havia em nossas histórias, mas pela simples verdade de estarmos, finalmente, juntas.
Pela primeira vez em muito tempo, éramos irmãs de novo.
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