Taehyung passou o dia inteiro fingindo-se de abatido, enganando a todos com sua atuação impecável. Sua expressão sombria e os suspiros ocasionais pareciam convencer até os mais atentos de que ele estava profundamente abalado. No entanto, havia alguém que não caiu na encenação.
Seu priminho, com os braços cruzados e uma expressão irritada, observava Taehyung à distância.
— Você acha que engana quem? — Resmungou o menino, chutando uma pedra no chão enquanto lançava um olhar furioso na direção do mais velho.
Taehyung manteve a máscara de melancolia, mas seus olhos brilharam com um toque de cansaço ao encarar o garoto.
[Por que está tão bravo, pequeno?] — Sinalizou, com um olhar calmo que só aumentou a irritação do garoto.
O rapazinho bufou, balançando a cabeça como se a paciência estivesse no limite.
— Porque você sabe muito bem por que Mikha foi embora! — Ele apontou um dedo acusador. — Ela percebeu que você não a amava de verdade. E agora está magoada por sua causa!
As palavras do menino atingiram Taehyung, mas ele não deixou sua expressão se alterar. Ele apenas suspirou, desviando o olhar.
[Mikha tomou suas próprias decisões. Eu nunca prometi nada que não pudesse cumprir.] — Sinalizou, com um olhar firme.
— Mas você a deixou acreditar que era algo mais! — O garoto insistiu, sua voz subindo uma oitava. — E agora está aí, fingindo que está triste, quando na verdade você não sente nada por ela!
Taehyung apertou os lábios, evitando responder imediatamente. Ele sabia que o menino estava certo em parte, mas não podia admitir. Afinal, suas ações faziam parte de algo maior, algo que Mikha entendia melhor do que qualquer outra pessoa.
[Ela vai ficar bem.] — Sinalizou finalmente. — [E um dia você também vai entender.]
Mas o menino apenas bufou novamente, virando-se de costas e se afastando com passos pesados, ainda carregando sua raiva infantil contra o primo.
Momentos depois, uma criada aproximou-se de Taehyung, trazendo uma correspondência selada. Ele franziu a testa ao recebê-la. Era do palácio real, Taehyung estranhou imediatamente, pois ele e Jimin haviam combinado que não trocariam cartas enquanto estivesse longe. Além disso, ele tinha um motivo pessoal para o incômodo: não sabia ler ou escrever.
Sentiu um aperto no peito, temendo que o conteúdo da carta fosse revelador demais. Ansioso, voltou apressadamente para a casa grande, pensando no que fazer.
Assim que entrou, sua bisavó, a matriarca da família, notou a carta em suas mãos. Antes que Taehyung pudesse sinalizar qualquer coisa, ela pegou o envelope com surpreendente agilidade para alguém da sua idade.
— Oh, isso é muito ruim... — murmurou a idosa enquanto lia, seus olhos se estreitando com preocupação. — Pensei que ele já teria melhorado a essa altura.
[O que foi?] — Sinalizou Taehyung, os movimentos rápidos denunciando sua aflição.
A senhora parou de ler, levantando os olhos para encará-lo. Ela hesitou por um momento, como se ponderasse a melhor forma de responder.
— Eu não queria te contar... — começou, com um tom quase maternal. — Você é muito apegado a ele. E estava tão feliz com sua noiva que achei melhor não azedar o ambiente.
["Apegado"? Vovó, me diga o que aconteceu!] — Sinalizou Taehyung, os movimentos mais desesperados agora.
Ela suspirou, claramente relutante, mas sabia que não podia mais esconder a verdade.
— É o príncipe, meu querido. Ele está muito doente há dias, ninguém consegue fazê-lo melhorar e acordar.
O coração de Taehyung parecia parar por um instante. Antes que pudesse reagir, um poço próximo explodiu em um jato d'água que subiu com força, deixando todos ao redor assustados. A súbita explosão atraiu os olhares para o poço, desviando a atenção de sua expressão carregada de choque e preocupação.
Enquanto os murmúrios sobre o fenômeno se espalhavam pela casa, Taehyung respirava fundo, tentando processar a notícia. Mas a inquietação que crescia em seu peito era impossível de disfarçar, mesmo que ninguém estivesse olhando diretamente para ele naquele momento.
Sem perder mais tempo, ele se virou e correu para o quarto. Precisava encontrar uma forma de voltar. Ele tinha que ver Jimin.
Taehyung estava sentado na beira da cama, arrumando apressadamente uma mala. Suas mãos tremiam ligeiramente enquanto jogava roupas que ganhou da familia, documentos e itens pessoais de qualquer jeito, quase sem se importar com a organização. Ele precisava ser rápido.
Sungjae entrou no quarto sem bater. Seus olhos imediatamente captaram a cena e, ao ver o primo em meio à bagunça, seu rosto se iluminou.
— Você vai atrás da Mikha, né?! — exclamou Sungjae, correndo até a mala com um sorriso largo. — Sabia que você não ia deixá-la sozinha por muito tempo!
Taehyung parou por um instante, erguendo os olhos para encarar o menino. Sua expressão era hesitante, quase culpada, e Sungjae, apesar da idade, percebeu na hora que algo estava errado.
— Não é isso, né? — Sungjae perguntou, o sorriso sumindo de seu rosto. Ele cruzou os braços, encarando Taehyung com uma mistura de frustração e desconfiança. — Se não vai atrás da Mikha, então... é de quem?
Taehyung desviou o olhar, ocupando-se novamente com a mala. Ele sabia que não podia enganar Sungjae por muito tempo.
— [Jimin está doente.] — sinalizou, depois de um tempo com movimentos mais lentos desta vez.
A confusão tomou conta do rosto de Sungjae por um momento, mas logo deu lugar à raiva. Ele bateu o pé no chão com força, a testa franzida em uma expressão teimosa.
— Doente? E você vai correr até ele enquanto Mikha... Mikha fugiu! Ela está lá fora, sozinha, e você nem pensou em procurá-la! Todo mundo vai perceber que tem algo errado se você só for ver o Jimin e nem se preocupar com sua noiva!
Taehyung fechou os olhos por um momento, tentando controlar a crescente frustração. Ele sabia que Sungjae estava certo, mas a ideia de não ir até Jimin agora, quando ele mais precisava, era insuportável.
— [Mikha não precisa de mim. Ela está bem, Sungjae. Fugiu porque quis e eu não sou o motivo. Nunca fui.] — sinalizou com firmeza, mas Sungjae estreitou os olhos em descrença. — [Você é só um garoto, o que sabe sobre essas coisas? ] — sinalizou Taehyung, voltando a focar na mala, tentando encerrar a conversa.
— Talvez mais do que você, primo. — Sungjae rebateu com firmeza, os olhos brilhando com a teimosia.
Taehyung fechou a mala com força, respirando fundo. Sua voz mental parecia vacilar nas mãos que agora sinalizavam lentamente.
— [Eu preciso estar lá. Ele está doente e se eu não fizer nada... se ele morrer...] — A pausa foi inevitável. Ele apertou os punhos, as emoções à flor da pele transparecendo na tensão em seu rosto.
A expressão de Sungjae suavizou por um momento. Ele não era cego à dor de Taehyung, mas precisava garantir que ele pensasse antes de agir.
— Eu entendo que você quer ajudar, de verdade, mas precisa pensar. — A voz de Sungjae era menos acusatória agora, carregando um tom de preocupação. — Se você for direto, vai colocar tudo a perder. Até o que sente por ele.
Taehyung ficou quieto, mas Sungjae sabia que ele estava ouvindo.
— Você olha para ele de um jeito... diferente. Nunca olhou assim para a Mikha. — Sungjae mordeu o lábio, hesitando antes de continuar. — Você gosta mais dele do que dela, não é?
A quietude de Taehyung foi resposta suficiente. Ele desviou os olhos, a tensão em seu corpo denunciando o quanto a pergunta o incomodava.
— [Você é muito mais inteligente do que eu gostaria que fosse, sabia?] — sinalizou com um pequeno sorriso amargo.
Sungjae revirou os olhos, cruzando os braços.
— Alguém tem que ser.
Por um instante, o garoto ficou parado, analisando Taehyung, como se decidisse a melhor forma de ajudá-lo. Finalmente, respirou fundo e voltou a cruzar os braços.
— Pense no que eu disse, Taehyung. Você sabe que estou certo. — Sungjae deu um passo para trás, parando na porta e olhando o primo mais velho com uma expressão séria. — Só não faça nada que vá se arrepender depois.
E com isso, ele saiu, deixando o quarto em silêncio, exceto pelo som da respiração pesada de Taehyung.