Eduarda Hippler
(Música do capítulo: Camisa 10 — Turma do Pagode)
Eu não me separaria nunca daquela mulher. Estava apresentada para sua família, agora só faltava nos casarmos. Onde quer que ela fosse, eu a seguiria.
A reação de sua mãe foi totalmente inesperada para nós duas. Ficamos completamente surpresas. E percebi que havia ficado nervosa à toa.
Não era atoa que Sofia era daquele jeito. Sua mãe era encantadora e divertida, havia criado sua filha do mesmo jeito.
Descobrir que nossas mães eram amigas também me deixou feliz e surpresa. Com certeza ficavam tramando planos para nós duas quando eu contava meus sentimentos para minha mãe. Sofia era predestinada a ser minha, não tinha como evitar.
Se Shirley não nos aceitasse, ou se fossemos fingir, não conseguiríamos. Pelo menos eu não. Meus olhos certamente iriam dizer mais do que a minha boca. Aquele jeito meio louca dela me fazia muito feliz, era impossível esconder minha admiração observando cada uma de suas ações.
Após o almoço, Sofia e eu fomos deitar para descansar depois das horas de viagem. Eu finalmente pude relaxar e olhar as mensagens do meu celular.
Quando postamos uma foto dentro do avião, só nós duas, houve uma enxurrada de comentários.
Tinha avisado meus pais que viajaria, apenas eles porque sabia que ficariam preocupados quando vissem meus stories sem algum aviso prévio. Esqueci apenas de uma pessoa específica: Caick.
Caick: Eu não acredito que você foi para Recife e não me contou. Prostituta.
Eu: Desculpa, amigo. Foi tão do nada que acabei me esquecendo.
Caick: Tudo bem. Já conheceu a sogrinha? Deu tudo certo? A tia Shirley é uma diva, né? Pode falar!
Mostrei as mensagens para a Sofia e ela riu concordando. Sua mãe realmente era uma "diva."
Pegamos no sono abraçadas, mas ela saiu enquanto eu estava dormindo, me deixando sozinha ali.
Quando acordei e vi que ela não estava, quis morrer de vergonha. Estava sozinha com sua mãe.
— Duda, vem aqui! — Dona Shirley me chamou.
— Oi! — Falei aparecendo na porta de seu quarto — Você viu a Sofia? — Perguntei.
— Pedi para ela ir ao mercado para mim. — Assenti e quando fui saindo ela me chamou — Quero conversar com você, senta aqui. — Bateu na cama.
Eu sabia que aquela conversa chegaria, mas não quer dizer que estava preparada. Engoli seco e pude sentir meu coração acelerar.
— Pode falar. — Sentei e respondi apreensiva, com medo do que estava por vir.
— Não fique nervosa, eu só preciso fazer meu papel como mãe e assustar a minha nora. — Disse rindo.
— Tudo bem, eu entendo. — Falei relaxando um pouco.
— Quais são as suas intenções com a minha filha? — Perguntou de uma vez. Acho que seria mais fácil do que pensei.
— Fazê-la a pessoa mais feliz do mundo. — Respondi na lata, como um bom e velho clichê.
— Pretendem casar? Como está a divisão da casa de vocês? — Tinha uma expressão séria até demais.
— Eu pretendo sim, com certeza. Se pudesse, pularia a fase do namoro e me casaria de uma vez. Nossa casa vai continuar a mesma por enquanto. Mas, num futuro próximo, quero morar em uma casa nossa e sair do aluguel. — Respondi sincera e muito feliz com a minha resposta.
— Certo, gosto da sua visão de futuro. Quantos filhos?
— Não conversamos sobre. Na verdade, não conversamos sobre quase nada, estamos ficando oficialmente há menos de uma semana.
— E você já quis vir aqui? — Perguntou surpresa. Com certeza pensou que estávamos ficando há um bom tempo.
— Sim. Ela me chamou, e eu sempre faço o que ela quer e o que está ao meu alcance.
— Sempre apoiei vocês duas, sabe? — Relaxou seu tom de voz — Sempre soube que você era a pessoa certa para ela, nas pequenas ações e nas preocupações que você tinha. Acho que demorou até demais para ela perceber novamente os sentimentos dela e os que você tinha.
— Eu também acho que demorou. Mas antes tarde do que nunca, né? — Rimos juntas e me lembrei — Eu tenho um presente para você.
— Para mim? — Perguntou surpresa e animada.
— Sim, vou buscar. — Levantei animada, fui até o cômodo onde estava minha mala e busquei uma caixinha embrulhada.
Quando lhe entreguei, ela ficou completamente admirada com a delicadeza da jóia de ouro. Seu sorriso era parecido com o da Sofia. Me deu um abraço de mãe, que me deixou com saudade da minha própria mãe.
Precisava levar Sofia para vê-la também.
Um dia eu estava sofrendo pelos cantos de amor por ela; no outro, estava na sua casa, com sua mãe, vendo suas fotos de criança.
Ela desenterrou algumas fotos guardadas de anos da Sofia e eu ria de cada uma delas, ouvindo as histórias mais engraçadas.
— Mãe, não acredito que você está fazendo isso! — Sofia estava parada no pé da porta, observando nós duas. Entrou quase correndo e se jogando em nossa direção, me impedindo de olhar mais.
— Eu já vi quase tudo. — Falei rindo de sua tentativa de esconder as coisas.
— Mãe, assim você espanta ela antes mesmo de namorarmos. — Reclamou.
— Sô, eu já te vi em situações piores, se fosse para ser espantada, já era para ter sido há muito tempo. — Disse rindo, segurando seu rosto para lhe dar um selinho.
— Ok, vão para outro cômodo porque eu estou muito velha para ver minha filha beijando na boca. — Forçou uma cara de nojo, nos impedindo de nos beijar. Nós duas nos levantamos e saímos.
*
Estava surpresa como a semana poderia passar rápido naquela cidade. A qualquer momento teríamos que voltar a nossa realidade e eu teria que voltar a trabalhar já que estava gastando quase todo o meu dinheiro passeando.
E olha que nem tínhamos ido a Japaratinga ainda.
Comemos em alguns restaurantes diferentes durante a semana. Comprei uns presentes para a Sofia, mesmo com ela insistindo que não queria que eu gastasse meu dinheiro com ela. Chocolate e ursinho de pelúcia. O presente maior estava por vir.
Finalmente experimentei os doces de sua irmã. Definitivamente os melhores do mundo.
Passei muito calor. Muito mesmo. Pensei que fosse derreter ou morrer. Meu guarda-roupa repleto de roupas pretas não estavam preparados para um calor como aquele.
Quase todas as noites, saímos para andar, aproveitando o vento e a noite fresca. Na sexta-feira, fomos a uma sorveteria.
Fazia tempo que não tomava sorvete de massa num cascão.
Sofia pediu duas bolas para cada. Escolhi de coco e chocolate, ela; pistache e café mocca e pagou pelos nossos sorvetes.
Voltamos a andar de volta para casa.
— Estou tão feliz por estar aqui com você. — Falei sorrindo e olhando para ela, que tinha a silhueta iluminada pela luz da lua. Até de noite o céu estava completamente limpo, sem nenhuma nuvem.
— Estou feliz por você estar aqui. — Respondeu na mesma intensidade que eu, sorrindo — Obrigada.
— Pelo o quê? — Perguntou confusa.
— Por existir, por viajar comigo, por apoiar minhas ideias, por me dar a chance de compartilhar seus dias comigo, por ser você.
— Eu que deveria te agradecer por cada uma dessas coisas.
Meu amor por ela, com toda certeza, duraria para toda a vida. Lhe dei um beijo apaixonado. Nenhuma palavra seria párea para alcançar sua declaração.
No Domingo, fomos a um churrasco na casa de sua tia.
Sofia tentou me convencer que não precisávamos ir se eu não quisesse, mas eu realmente não me importava de ir. Seria interessante conhecer mais pessoas da sua família. Talvez estava com medo de comentários ruins.
Shirley levou uma travessa de salada de maionese, e chegamos no local por volta das onze horas.
— Duda, você quer que eu te apresente como? — Sofia me puxou de canto e perguntou assim que saímos do carro.
Aquele nervosismo havia voltado.
— Não sei, por que a pergunta?
— É que se alguns parentes específicos estiverem aqui, eles podem ser homofóbicos. — Ela disse tristonha.
Sua mãe ouviu nossa conversa e se manifestou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
— Você vai apresentar ela como sua namorada, mesmo que não namorem com aliança ainda. — Ordenou — E se tiverem comentários ácidos, pode deixar que eu defendo vocês. — Disse, sem nos dar espaço para discordar.
Meu coração acalmou quando ouvi essas palavras. Tudo parecia um sonho de tão bom que era. Apenas assentimos e ela tocou a campainha do portão cinza.
Sua tia, Teresa, eu acho, abriu o portão e nos comprimentou com um sorriso no rosto.
— E você é quem? — Perguntou se virando para mim, que não tinha dito nada ainda.
— Essa é Eduarda, a minha namorada, tia. — Sofia respondeu primeiro.
— Sério? — Perguntou surpresa. Estava com medo de sua reação — Seja muito bem-vinda, Eduarda. Sinta-se em casa e se quiser me chamar de tia, também pode. — Me abraçou calorosamente. — Entrem, todo mundo já chegou, vocês estão atrasadas. — Nos deu passagem para entrar e pedimos licença.
Da porta dava para ouvir as conversas de uma família que parecia ser enorme. Era música tocando alto, grito de criança correndo e brincando, conversa fiada e muita fofoca.
— Elas chegaram, finalmente! — Alguma das outras tias dela falou alto quando nos viu chegando — E trouxeram companhia.
Sofia era badalada naquela família, isso era fato. Todo mundo ficou feliz de vê-la. Ela apertou minha mão, tentando passar mais segurança. Adorava quando fazia aquilo.
Era uma área enorme e completamente aberta. Parecia estar separada por gênero. As mulheres ficavam logo no começo, sentadas ao redor da mesa. E os homens, estavam perto da churrasqueira, provavelmente conversando sobre futebol.
— Sofia vindo para o churrasco é sinônimo de chuva fortíssima vindo para cá. — Sua tia ruiva disse sorridente, abraçando ela.
— Desculpa o sumiço. — Sofia disse envergonhada.
— Nós perdoamos porque entendemos que você está longe fazendo sucesso. — Uma outra mulher, estava em dúvida se era tia ou prima, disse completamente.
— Apresente-nos sua amiga, Sofi. — Essa era uma prima adolescente.
— Galera, essa é a Eduarda. — Disse alto, chamando a atenção de todos — Ela não é minha amiga, Clara, é minha namorada!
Todos ficaram em silêncio. Acho que até desligaram a música depois disso.
— Namorada? — Uma das tias mais velhas perguntou escandalizada — Shirley, você está sabendo disso?
A mãe da Sofia tinha uma postura relaxada e um sorriso despretensioso enquanto conversava com sua mãe.
— Estou. — Respondeu simples e voltou sua atenção para outra coisa.
— Estão juntas a quanto tempo? — Uma outra prima perguntou.
— Namorando oficialmente, há uma semana, mas somos amigas há 5 anos. Nós moramos juntas.
— Vocês moram juntas? Não é possível. — A mesma velha reclamou — Desde quando esse tipo de coisa foi normalizada?
— Mas é super normal. — Clara tentou nos defender.
— Normal? Duas mulheres juntas? Isso não tem nada de normal. — Disse abismada.
— Maria, — Shirley se virou para ela, chamando sua atenção com uma voz calma — eu sei que você é minha irmã mas não vou aceitar esse comportamento para cima da minha filha e da namorada dela. Se você não gostou que ela está feliz, se retire ou guarde seus comentários para si mesma. Ela está feliz, eu também, e sou completamente a favor dessa relação. Você não deve opinar ou achar nada a não ser que seja a sua filha. — Disse sem levantar a voz um segundo sequer e voltou sua atenção para o que estava fazendo antes.
O clima ficou completamente tenso. Eu me sentia mal de causar tamanha intriga.
Sofia, parecendo que lia meus pensamentos, sussurrou um "está tudo bem, relaxe" no meu ouvido quando fomos comprimentar seus tios e primos.
Todos tinham um sotaque igual ao da Sofia. Sou completamente apaixonada por ele e era tão bom ouvi-lo em todo canto.
Em menos de cinco minutos, o assunto foi esquecido e todos voltaram a conversar normalmente.
Sentei-me em uma das cadeiras bem na ponta da mesa. Sofia nem se importou com nada e se sentou no meu colo. Eu abracei seu tronco e lhe lancei um sorriso.
Pude sentir um olhar torto vindo do meu lado direito, onde a tal Maria estava sentada, mas não me importei. Por que me importar se estava feliz e com a Sofia?
Eu não sabia, mas ela planejou tudo. Havia pedido para que seu tio comprasse carne vegetal e assasse junto com alguns abacaxis para mim comer.
Eu a amo tanto.
Depois do fecho de Shirley, ninguém se atreveu a sequer perguntar porque eu não comi a mesma carne que eles.
Após o almoço, decidimos ir interagir com os homens.
Eu estranhamente não me surpreendi quando, de repente, puxaram uma sanfona, um violão e um triângulo. Acho que já estava preparada para aquilo.
— Vai, Sofia, manda uma para a gente tocar. — O rapaz da sanfona disse.
— Toca uma para eu dançar com meu amor. — Seu amor? — Flor de Flamboyant, do Kara Véia.
Dançar? Comigo?
Os três instrumentos se sincronizaram e começam a tocar a melodia de forró. O rapaz do violão que puxou o vocal.
Você entrou na minha vida
Como uma estrela da manhã
Como uma joia preferida
Minha flor de flamboyant
Ela se levantou, se colocou na minha frente e começou a cantar para mim. Viver ao seu lado era como viver em um musical constante. Estava sempre cantando músicas, e eu adorava ouvir cada uma delas.
— Me concede essa dança, senhorita? — Estendeu sua mão.
Fiquei temerosa. Acho que nunca havia dançado forró na minha vida.
— Eu não sei dançar, Sô. — Disse envergonhada.
— Não se preocupa, vidoca. É dois pra cá, dois pra lá, eu te guio.
— Vai, Doarda, você consegue! — Ouvi a voz de Dona Shirley me incentivar de longe. Realmente me animou.
Agarrei sua mão e levantei.
Pura como a natureza
Linda como a cor do mar
Tem um encanto de sereia
Com um brilho no olhar
Juntou nossos corpos e entrelaçou nossas mãos. Quando ela disse, pareceu mais fácil do que na prática.
Acho que todos pararam para observar nós duas dançando coladas.
Eu não conhecia aquela música, mas sua letra era bonita e Sofia cantava para mim com tanta emoção que doía.
Tô num beco sem saída
Já não sei pra onde vou
Entreguei a minha vida
Me perdi de tanto amor
Eu realmente estava num beco sem saída, sem saber para onde ir. Minha vida já era dela e eu estava perdida com tanto amor dentro de mim.
Devo ter pisado uma ou duas vezes no seu pé, mas aquilo nos rendeu boas risadas. Ela sabia dançar, deslizava pelo chão de concreto tentando me guiar junto.
Sentia seu peito acelerado e sua respiração misturando com a minha.
Balançava nossos corpos devagar, um pouco fora do ritmo, mas não me importava se estávamos passando vergonha. Meus olhos estavam fechados e nossas testas estavam coladas.
Quando a música terminou, ela me rodopiou e me fez cair em seus braços. Segurou meu corpo me apoiando em sua perna e juntou nossos lábios em um selinho demorado, enquanto o ambiente era preenchido de aplausos e assobios.
Até a tia Maria havia aceitado e gostado, no final das contas.
Eu precisava colocar uma aliança no anel daquela mulher, imediatamente, para não me separar nunca dela.
Nem se a Globeleza, — depois desse show que havíamos dado — me quisesse, eu não me separaria dela. Nem se na Mega-Sena eu vencesse, não me separaria dela. Nem se fosse camisa 10, com zero habilidades futebolísticas, eu não me separaria dela.
Seu jeito meio louca era o que me fazia feliz e mesmo se tudo isso acontecesse, eu ficaria com ela, pelo resto dos meus dias.
10K na fanfic, meu Deus! Muito obrigada a todos que leem, que votam e que comentam, eu amo muito vocês. Espero que estejam gostando! 🤍