Lucca
— Ainda não, Lucca. Quem sabe na terceira ultrassom? — Ela continua o seu trabalho de medição e prescreve mais exames para Alice. E quando o exame termina, uma enfermeira limpa o gel e eu ajudo Alice a se levantar.
No consultório ouço atentamente as informações da Jenny. Muito repouso, nenhum aborrecimento, alimentação saudável e algumas vacinas. A consulta termina. Faço menção de sair da cadeira, quando escuto Alice perguntar.
— E o sexo? — Alice indaga me deixando de boca aberta.
Cacete, que porra de pergunta é essa?
— Está liberado. — Jenny diz toda profissional. Entretanto, ela troca olhares comigo.
— Sexo selvagem? — Minha noiva continua. Mortificado, eu fecho os olhos e respiro fundo.
Ela não perguntou isso!
— Aí depende da selvageria de vocês. Do que exatamente estamos falando?
Não fala!
Não fala!
Não fala!
— Tapinhas na bunda, puxões de cabelos, estocadas deliciosamente fortes... Essas coisas.
Ela falou!
Jenny segura o riso.
— Uau! Depois dessa estou querendo umas com o Cris. — Ela comenta.
Um buraco, pelo amor de Deus! Preciso enfiar a minha cabeça.
— Tudo bem! Não vejo nada demais em um bom e gostoso sexo selvagem.
Porra, até parece que elas estão tricotando o assunto, enquanto eu não tenho cara de olhar para a esposa do meu melhor amigo!
Puxo a respiração devagarinho. Pensando bem, foi melhor que a Jenny a acompanhasse. Não sei o que faria se essas perguntas chegassem ao Cris.
— Então explica para o meu noivo que não vamos matar o bebê com o nosso sexo?
— Já chega, Alice! — ralho baixo e entre dentes. Jenny arregala os olhos em espanto.
— Noivo? Desde quando? — Inquire espantada. — Alice ergue a mão em resposta e mostra o anel.
Mudança de assunto para minha alegria.
— Lucca me pediu nesse cruzeiro. — Ela segura a mão da Alice e analisa o anel.
— É lindo, Alice! Pelo visto nesse cruzeiro aconteceu de tudo, hein? — Alice me lança um olhar sugestivo e depois olha para a cunhada.
— Você não faz ideia. — Minha noiva retruca, fazendo graça.
Jenny ri do seu comentário, mas eu permaneço sério e sem graça.
***
No dia seguinte...
— E por que o jantar não acontece aqui em casa? — Papai inquire, olhando de mim para Alice.
Estamos na casa dos meus pais, passando uma tarde de domingo e tentando jogar conversa fora. E claro que eu tive que tocar no assunto de fazer um jantar de noivado na mansão dos Ávila.
— Porque vamos oficializar o noivado, pai. E nada mais justo que seja na casa dos pais da noiva. — Tento explicar.
— Não concordo. Vocês podem oficializar o noivado aqui. O que há de mal nisso? — Retruca.
Inferno!
— Ana, me ajuda aqui, por favor! — Peço quase em desespero.
— Ok. Posso sugerir um jantar em um restaurante com as duas famílias? Irão oficializar o noivado sem privilegiar nenhum dos lados. O que acha, Alice? — Inquire.
Minha noiva sorri satisfeita.
— Eu acho ótimo! E você amor? — Dou de ombros.
— Eu amo você, baixinha! — sibilo para minha irmã e todos riem. Entretanto, Edgar me encara sério.
— Tudo bem. Marquem o jantar e estaremos lá. Lucca, podemos conversar em particular?
Bufo internamente.
Porra, ele não desiste mesmo!
Contra minha vontade eu assinto e antes de segui-lo até o escritório, beijo a minha noiva na testa. Entrar nesse escritório sempre que sou convidado para uma conversa me causa irritação. Nós sempre discordamos. E sempre brigamos e no final saio aborrecido disso tudo. Meu pai vai até o seu bar de canto e serve um copo de uísque.
— Aceita? — Ele me oferece e eu faço não com a cabeça. Edgar assente e toma um gole da bebida, indo para um dos sofás isso me chama a atenção, porque ele sempre se senta em sua cadeira se sentindo o rei do pedaço.
— Sente-se aqui, filho. — Pede calmamente. Eu me acomodo no sofá de frente pra ele.
Sério, eu amo o meu pai e o respeito acima de muita coisa. Mas ele tem o dom de me tirar do sério. Depois de tomar mais um gole, ele larga o copo sobre a mesinha de centro, se encosta no sofá e os braços se abrem se apoiando nas costas do sofá.
— Filho eu compreendo que você ame a sua profissão. E de verdade, eu respeito isso. Mas eu tenho uma proposta para você... — Faço menção de me levantar, mas ele faz um sinal me impedindo. — Só me escute e se depois disso ainda me disser não, eu prometo que não tocarei mais no assunto.
Opa, isso é novidade!
Edgar Fassini está desistindo de insistir?
Faço um gesto de mão para ele continuar.
Ele puxa a respiração e bebe um pouco mais da sua bebida.
— Maria Flor está se desdobrando para conseguir manter a empresa no lugar. Estamos abrindo mais uma filial. O seu tio está tomando conta de uma delas em Manaus e eu não posso deixar a presidência para cuidar de mais uma empresa. — Ele respira fundo. — Não estou pedindo pra largar a sua profissão Lucca. Você trabalha dois dias corridos e folga dois dias. O que eu estou te pedindo é que compareça a empresa e faça a sua parte como administrador, pelo menos três horas por dia.
Ele termina de falar e me encara aguardando que eu diga algo.
— Deixe-me ver se entendi. Você quer que eu administre uma das indústrias, por três horas corridas todos os dias? O que eu posso fazer em três horas em uma empresa de grande porte papai? — Ele dá de ombros.
— Muito ou nada. Só depende de você. E se depois de assumir a empresa por um ano, você não quiser mais, eu ponho outra pessoa em seu lugar.
— Simples assim? Sem protestos? Sem brigas? Sem nada? — Ele faz um não com a cabeça.
— E sem exigências.
Respiro fundo e olho para o homem que é a fortaleza dessa família. Edgar Fassani é um coroa duro na queda. Aprendi com ele a ser resistente, persistente e a lutar pelo que eu quero. Somos iguais e por isso estamos sempre nos confrontando. O fato de ele dar o braço a torcer e desistir da nossa guerra significa muito para mim.
— Feito! — Digo de repente e lhe estendendo a minha mão. Um meio sorriso surge no canto da sua boca à medida que ele segura firme na minha mão. Então ele se levanta e quando estou de pé, sinto o abraço forte do meu pai.
— Obrigado, filho! — O olho nos olhos, abrindo um sorriso verdadeiro e logo saímos do escritório abraçado ao meu pai e as mulheres relaxam quando nos veem sair rindo e conversando amigavelmente
***
— Tudo bem aí? — Alice pergunta quando entramos no carro.
É de noite e nós estamos indo para o meu apartamento. Meu apartamento. Temos que discutir sobre isso.
— Está — Digo evasivo. Ligo o carro e aceno para os meus pais na porta da casa.
— Tem certeza?
— Tenho, amor — retruco atento ao trânsito. Ela bufa audível.
— Ok Lucca, estou esperando. O que você e o seu pai conversaram no escritório? — Eu a olho rapidamente.
— Curiosidade, Senhorita Alice? Eu não te conheci assim. — ralho, fazendo graça.
— Conta logo Lucca! — Pede impaciente.
— Ele me fez uma proposta e eu aceitei.
— Qual?
— Eu vou administrar uma das empresas durante uma semana. Nos meus dias de folga. — Ela sorri.
— Nossa, você já é uma delícia como bombeiro. Agora vou babá em você como CEO. — Sorrio.
— Você não é normal, Alice — resmungo sarcástico
— Claro que sou! — rebate me fazendo rir.
Contudo, logo ela entra em uma conversa pelo telefone com sua cunhada e obstetra, e eu tenho tempo de pensar na decisão que acabei de tomar. Administração de empresas não é muito o meu forte. Trabalhar trancado entre quatro paredes. Assinar papéis. Participar de reuniões. Não sei se tenho saco para isso. Mas não custa fazer a vontade do velho um pouquinho.
Quando paro o carro na garagem, o meu celular toca. É estranho que seja uma ligação do meu chefe de departamento, já que ainda tenho três dias de folga.
— Chefe? — O atendo prontamente.
— Lucca, desculpe interromper o seu descanso. Estou precisando da sua ajuda.
— O que aconteceu?
— Um incêndio dos grandes. Todos os bombeiros foram solicitados. E quanto mais ajuda melhor. — Respiro fundo e olho para Alice.
— Claro, chefe. Pode contar comigo!