Narrado pelo príncipe José Fernandes:
Parti para a floresta que ficava muito longe do meu palácio, com o chama preta. Meus olhos já estavam cheios de lágrimas, e o meu coração estava completamente partido.
Eu fui para aquela floresta na expectativa de que ninguém me procurasse por lá. Eu precisava ficar sozinho e longe de tudo aquilo que me prendia.
Por que ninguém consegue me entender?
Por que ninguém consegue ver que eu só quero amar alguém que me ame pelo que eu sou, e não pelo que eu tenho?
As pessoas não são obrigadas a gostar de alguém, e nem a viver infeliz ao lado de outra pessoa sem ter amor por ela.
Todas querem ser a princesa para depois ser a futura rainha de Jadya ao meu lado quando eu me tornar rei, mas ninguém quer ser a esposa do José Fernandes. Do ser humano José Fernandes.
Porque eu sou o José Fernandes, um cara que erra, mas que tenta a todo custo dar o seu melhor em tudo que faz. Mas, para todo mundo em volta de mim, só a minha coroa de príncipe importa!
Eu já ouvi falar de uma frase que faz todo o sentido, chamada: "Dores na alma são perigosas". E essa frase tem um grande significado por trás dela, que quer dizer que as dores que a gente carrega ao longo da vida ficam fincadas nas nossas almas e elas, pouco a pouco, se tornam muito perigosas.
E era isso que eu estava vivendo. Eu estava vivendo cercado de pessoas que só queriam mandar em mim, como se eu não tivesse vontade própria. Eu era um estranho aos olhos de todos, só por querer fazer o que o meu coração pede que eu faça.
Sim, eu queria muito me apaixonar. Sim, eu queria muito me casar. E sim, eu queria muito formar uma família. Mas tudo isso eu só quero fazer com a mulher que fizer o meu coração bater mais forte.
Eu nunca desejei a infelicidade das pessoas, mas o que custa pra elas deixar de egoísmo e fazer o mesmo por mim também?
Eu era atormentado pelo meu passado, e agora estava sendo atormentado pelo meu futuro.
Me atormentavam pelo fato de eu nunca ter pensado em um casamento antes, e agora estão me atormentando para que eu me case, nem que seja sem amor.
A vida toda, sempre me disseram: "José Fernandes, um dia você assumirá o reino de Jadya, e não pode desapontar os seus súditos, porque você deve ser leal a eles sempre".
Durante toda a minha vida, eu só segui ordens, e já não aguentava mais que todos tivessem sempre a palavra final pra mim.
Eu amava tanto os meus pais, mas às vezes parecia que eles não se importavam comigo.
Eu só queria que eles me respeitassem sem questionar as minhas decisões.
Eu queria perguntar pra eles uma dúvida que não cessava dentro de mim...
Eu queria perguntar se eles sabem como é difícil pra mim ter sempre que abaixar a minha cabeça para todos ao meu redor o tempo inteiro, só pelo fato de eu ser o príncipe herdeiro do trono de Jadya.
Eu já engoli muitos insultos, e recebi de graça tudo o que só me machucou a vida inteira, esbanjando no rosto um sorriso que nunca saiu dos meus lábios, apesar de ser alguém que não gosta muito de sorrir.
Era um sorriso que não significava alegria, mas sim tristeza por eu não ter o controle total sobre a minha vida.
Jadya não faz ideia de quem eu sou.
Os meus pais não fazem ideia de quem eu sou.
E talvez, infelizmente, eu nunca tenha me permitido passar por cima de todo mundo para descobrir quem eu realmente era, e quem eu queria ser no futuro.
Acho que eu sempre fui tão pressionado pelos meus pais que me acostumei a não ser nada sincero quando me perguntavam se ser um príncipe herdeiro era algo do meu agrado.
Eu poderia assentir, fazer gestos positivos que iriam contra o meu verdadeiro sentimento, e dizer palavras afirmativas que mostrassem uma grande convicção do que era considerado o meu destino: único sucessor do poderoso rei Gabriel. Mas acontece que o meu coração saberia de toda a verdade e se recusaria a fazer parte dessa farsa!
A coroa de rei já pesava na minha cabeça antes mesmo que eu pudesse sequer colocá-la. O peso sempre foi ocasionado pelas minhas responsabilidades, que eram verdadeiramente amontoadas...
Ser um príncipe jamais foi algo que eu quis!
Meus pais até podem dizer, alegremente, que sim, que eu sou feliz por ser um príncipe que ainda por cima é um substituto qualificado para o rei de Jadya. Mas o meu interior sempre vai falar um estrondoso "não"!
Eu não me conformo com nada disso... e talvez nunca me conforme!
À medida que eu ia cavalgando, o meu cavalo aumentava ainda mais a velocidade dele.
– IAH! – gritei, atiçando o meu cavalo.
Então, de repente, sem que eu me desse conta, começou a chover.
Olhei para o céu e disse:
– Meu Deus, a minha mãe estava certa. Está chovendo, Chama Preta, e nós temos que voltar para o palácio. Anda, vamos!
Chama Preta deu meia volta e correu até o caminho que ficava fora da floresta para que a gente fosse embora.
Então, trovões foram ouvidos, e relâmpagos clareavam o céu.
– Rápido, Chama Preta, a tempestade está aumentando! – gritei.
Os passos do meu cavalo aumentavam mais e mais.
Ele corria muito, e eu até poderia jurar que esse astuto animal já não sentia mais os próprios pés no chão. E eu, modéstia à parte, só ouvia os batimentos do meu coração.
E me arrependi de não ter ouvido a minha mãe quando ela falou sobre o que poderia acontecer. Mas eu estava tão chateado que, na hora da raiva, não consegui pensar direito.
E dei graças a Deus quando chegamos na estrada para voltarmos para o meu palácio.
Só que então aconteceu uma coisa bastante imprevisível: um raio cortou uma árvore perto da estrada, fazendo ela cair na nossa frente.
– Santo Deus! – gritei assustado, mesmo que isso não fosse adiantar.
O meu pobre cavalo se assustou tanto que perdeu totalmente o controle. Então, ele me arremessou para perto daquela árvore.
– AAAAAAAAAAAAAAAAH! – gritei desesperado, temendo que o pior fosse acontecer comigo.
Caí no chão perto daquela árvore e perdi a minha consciência. Já temia que aquilo fosse ser o meu fim...
Narrado pela rainha Cláudia:
Naquela noite, eu me encontrava olhando pela janela do meu quarto, na espera do José Fernandes. Eu amava sim o meu filho, mas às vezes ele me irritava bastante, e me questionava de onde ele havia herdado aquele coração tão controlador do jeito que ele tinha.
Às vezes, o coração não pode falar mais alto do que a razão. Ele era o príncipe herdeiro e deveria ficar ciente de suas obrigações reais.
Então, de repente, Gabriel entra no quarto, e eu olho para ele, o questionando:
– Nada do José ainda?
– Não, meu amor, e eu estou muito preocupado com ele, Cláudia... – confessou o meu marido, com um semblante triste no rosto.
– Preocupado? Eu tenho certeza de que já, já o José Fernandes vai estar de volta, Gabriel.
Ao menos eu esperava que sim.
– Não é por causa disso o motivo da minha preocupação, Cláudia – confessou Gabriel.
– Ah, não? Então por que você está preocupado? – perguntei.
– Cláudia, acha que nós dois estamos sendo severos demais com ele? – questionou o meu marido.
– Claro que não, Gabriel – respondi. – Você já foi um príncipe antes de ser um rei, e sabe perfeitamente bem que você precisou se casar para assumir o reino de Jadya com bastante devoção ao lado de uma rainha digna.
– Mas acontece, Cláudia, que a gente se amava. Foi sim um casamento arranjado, mas a gente se apaixonou. Lembra? – Ele arqueou a sobrancelha.
– Mas é claro que eu me lembro, Gabriel – disse eu – Mas agora o amor não está em questão aqui, porque nós precisamos achar o nosso filho.
Eu disse isso com preocupações invadindo o meu coração.
– Mandarei o exército de Jadya procurar por ele – disse meu marido.
– Ótimo, faça isso – disse eu, em um tom de ordem.
– Mas acho bom que o nosso filho esteja bem, Cláudia, porque se consequências amargas acontecerem, a culpa será toda nossa... – disse Gabriel, com uma expressão preocupada.
O Gabriel estava começando a me deixar nervosa.
– Não fale bobagem, Gabriel! O nosso filho vai aparecer! – disse eu, com convicção.
– Eu espero de verdade que isso seja assim, Cláudia. Convocarei os guardas do palácio e os soldados do exército para ajudar nas buscas – disse Gabriel.
– Gabriel, a culpa não é nossa de termos um filho tão teimoso como nós temos. Porque eu avisei que com certeza iria chover – disse eu, tentando justificar a situação.
– Mas vocês andam discutindo muito ultimamente, Cláudia, e isso não é normal. Nós não podemos forçar o nosso filho a fazer algo que ele não quer – disse Gabriel.
– Gabriel, ele já tem vinte anos – disse eu, repreendendo o meu marido.
– Mas e se ele não quiser se casar tão jovem? – perguntou Gabriel.
Eu não esperava que o Gabriel fosse me fazer essa pergunta.
– Outros na idade dele já são pais, Gabriel! – disse eu, enfurecida, porque já estava mais do que na hora do José Fernandes dar um neto pra mim, e um novo herdeiro para Jadya.
– Cláudia, sinceramente, eu já não sei mais o que fazer com você – disse Gabriel, chateado.
– Olha, rei Gabriel, a culpa não é minha se só eu quero colocar ordem no José Fernandes, e ensinar a ele as disciplinas certas que um príncipe deve fazer – respondi, cruzando os braços.
– Cláudia, às vezes você me assusta. Os interesses de Jadya não podem ser maiores do que a felicidade do nosso filho! – disse Gabriel, aumentando o tom de voz, e isso me enfureceu.
– Você está dizendo que eu não sou uma boa mãe? É isso, Gabriel? – perguntei, olhando-o de cima a baixo, sem acreditar que ele estava insinuando isso.
– Não, Cláudia, mas às vezes você exagera muito, e essa sua superproteção está fazendo mal ao nosso filho. Ele não é algo que você pode controlar como você bem entende – disse Gabriel, também cruzando os braços e me olhando com raiva.
– Gabriel, chega de tolices! Eu amo o nosso filho mais do que tudo nesse mundo, mas acontece que eu só estou pensando no bem-estar dele, e de quebra no bem-estar do reino de Jadya. E você não é o mais indicado para ter esses assuntos comigo – respondi com convicção, sabendo que eu estava certa, embora estivesse sendo mal interpretada como sempre.
– Quer saber de uma coisa, Cláudia? – disse ele, respirando fundo. – Eu não quero mais conversar com você. Esse assunto se encerra aqui, porque eu vou sair e vou procurar o nosso filho.
– Você já deveria ter feito isso há muito tempo – disse eu em um tom entendido, porque eu já estava entediada mesmo com aquele assunto.
– Eu só vim te avisar, mas é lógico que a grande rainha Cláudia iria entender tudo errado, né? – disse Gabriel com um deboche bastante irritante.
– Vai logo, Gabriel, ache o nosso filho e não perca o seu precioso tempo comigo – respondi com o mesmo deboche que ele me lançou.
– Eu mandarei o nosso exército seguir em duas frentes para procurar o José Fernandes de uma vez por todas, porque um jovem saindo de casa com a cabeça quente pode acabar ocasionando coisas terríveis – disse ele com autoridade.
– Desculpe, Gabriel, mas agora tudo indica que o José Fernandes só está fazendo drama. Você vai ver que logo, logo ele vai aparecer – disse eu, com um tom de desdém.
Eu conhecia o meu filho com a palma da minha mão. Não era atoa que eu era a mãe dele.
– Mas e se não, Cláudia? – ele questionou.
– Então se apresse, homem! – disse eu, relaxando os ombros e voltando a olhar para a janela.
– Eu desisto. É inútil tentar conversar com você. Os seus ouvidos estão surdos para a razão – disse Gabriel, antes de se retirar do meu quarto.
E eu disse comigo mesma:
– É só drama. O José Fernandes capricha quando o assunto é esse.