Meu Reflexo Em Seus Olhos - (...

Por Elise-Morgana

2.4K 232 448

Quando dois caminhos opostos se cruzam, eles nunca mais se separam. Elisa Martin parece ter a vida dos sonhos... Más

DEDICATÓRIA + PLAYLIST
INTRO - (IMPORTANTE!)
(001)
(002)
(003)

(004)

311 29 68
Por Elise-Morgana

Presente

4152 Palavras

"Então me diga por que meu coração acelera quando eu vejo seu rosto?
Você já fez sua decisão
Me colocar no meu lugar
E as mentiras que você
vem escondendo
Ocupando o meu espaço
Então me diga por que meu coração acelera desse jeito
quando eu vejo seu rosto"

Wafia - Heartburn

Nunca imaginei minha vida tomando um rumo.

Eu pensava que eu não seria capaz de atender as expectativas de meus familiares, justamente pelas inúmeras frases desmotivacionais que eram impostas sobre mim. Dei a volta por cima e mostrei que eu poderia ser diferente. Mas hoje, eu só vivo em função do meu trabalho, e em fingir que levo uma boa vida estabilizada, e até que não é mentira, pois ganho um salário incrivelmente bom. Mas sinto que estou sempre vazia e incompleta. É algo emocional, que fodidos cinco anos de terapia não adiantaram de nada.

As vezes sinto falta da minha antiga cidade. Falta dos meus primos, das senhorinhas atenciosas que moravam perto da minha casa, de ir brincar nos campos de girassóis escondida aos fins de tarde, e também, do ar puro e fresco, que a cidade grande não é capaz de proporcionar por causa da poluição.

Há coisas em nossa vida que realmente não voltam mais. A primeira paixão de escola, a professora do jardim de infância, os amigos...

Parei de viver intensamente há algum tempo, mas não percebi quando. E hoje, tenho inúmeras amizades abandonadas, apenas alguns colegas de profissão, - pois alguns chegam a ser inimigos - a família separada, e meus vizinhos eu nem sei quem são.

Por mais que Adriana seja minha melhor amiga - única -, sinto que eu ainda sou apenas um segundo plano.
Adriana tem tantas amigas, uma vida bastante popular e badalada, diferente da minha. Ela é bonita, e não depende de um cigarro para ter sanidade mental. Eu a admiro pra' caralho, e se eu fosse uma criança, diria que quando eu crescesse, eu gostaria de ser igual a ela.

[...]

Todos da equipe estavam no elevador, subindo para o terraço.

Estávamos devidamente preparados e trajados com luvas, toucas e uma roupa própria para cirurgias

Não recebemos muitas informações além do necessário sobre o que deveríamos fazer. Sei que vou operar um homem importante, que ele tem algum tipo de envolvimento com o governo e que seu caso é de risco. Ele teve uma fratura exposta na perna, depois de cair de uma escadaria, e pela demora do resgate a perna dele está com um enorme risco de amputação. O homem também levou uma facada na barriga, e disseram que há algumas balas perdidas pelo corpo dele.

Que tipo de trabalho alguém como ele presta?

Eu poderia dizer que fato dele estar vivo é um milagre, pois isso não parece humanamente possível. Mas também considerando que ele, como um militar do exército, foi treinado para sobreviver em situações de riscos como estas, ele se saiu bem.

O homem tem trinta e três anos e em sua ficha diz que seu nome é Romanov, mas isso não parece ser seu primeiro nome.

Associei o nome com o do hospital, mas acho que é apenas uma coincidência.

Ele será o único homem que terei que operar, pois os outros que também estavam gravemente machucados foram divididos para outras equipes. E os que não precisam de cirurgia, ficaram em uma ala separada, sendo observados e cuidados por algumas enfermeiras.

As portas do elevador se abrem, e saímos de lá empurrando a maca vazia que estava no nosso meio. Vejo alguns homens parados segurando armas na frente do helicóptero que havia pousado a menos de cinco minutos.

Confesso que sinto um pouco de medo dos homens. Eles são em média trinta centímetros mais altos que eu, - e eu não sou uma mulher baixa -, os seus braços são fortes o suficiente para me enforcar e me matar asfixiada em menos de dois minutos. E fora que não é possível enxergar seus rostos, por causa da balaclava assustadora que os faz parecerem criminosos.

Nos aproximamos e eles abriram espaço para que pudéssemos passar e transferir o paciente para a maca do hospital.

Não pude ter um vislumbre muito bom do homem, que gravemente machucado se encontrava desacordado na minha frente. Mas teve algo que não pode passar despercebido, que foi seu enorme corpo. O homem é um brutamontes. Eu poderia dizer que ele não tem menos do que dois metros de altura. Sua estrutura era admirável.

Voltamos para dentro do grande elevador com o paciente.

- Elisa, ele está perdendo o pulso - Elexander me olhou assustado.

Me aproximo do rosto de Romanov e rapidamente retiro sua balaclava sem prestar atenção em seu rosto.

- Eu vou precisar subir em cima dele para fazer a massagem cardíaca, segurem bem a maca - Aviso.

Quando voltei meu olhar para Romanov, eu entrei em um estado de choque. Eu não soube como reagir. Aquele rosto que em alguma encruzilhada de minha vida eu já havia encontrado, me fez estremecer.

A sensação de déjá-vu me inundou por completo. O homem com seus cabelos pretos que caem suavemente sobre sua testa. Seu nariz reto complementando sua mandíbula angular. Seus lábios bem desenhados e ligeiramente carnudos, conferindo um ar sedutor ao seu rosto. Sua pele, que mesmo estando suja e com alguns machucados rasos era impecável, realçando ainda mais a beleza do homem.

Meu subconsciente me dizia que já havíamos nos encontrado em algum lugar, mas onde?

- Elisa? - Ouço uma voz me tirando de meus devaneios.

- S-sim? - Infelizmente gaguejo.

- Rápido, faça alguma coisa, ou ele irá morrer! - Gritou Carlos.

Ainda submersa em meus pensamentos, ascenei em concordância, e então subi na maca com cuidado para não o machucar mais do que ele já estava, e assim ficando por cima dele. Juntei minhas mãos uma em cima da outra e então comecei a massagem cardíaca.

O que eram apenas alguns minutos em um elevador, se pareceram mais com uma eternidade inteira.

Meus braços já estavam doendo.

E finalmente chegamos no terceiro andar novamente. As portas se abriram, e minha equipe mais que depressa empurrou a maca em direção a sala de cirurgia.

E eu continuava em cima do paciente tentando o salvar.

Suor escorria por minhas costas e testa, mas isso não me fez parar e descer da maca. Não até a pulsação dele estar estável novamente, e estarmos dentro daquela sala começando a cirurgia.

Começamos de fato a cirurgia meia noite e dezenove. E eu não faço a mínima ideia de quando iremos terminar.

[...]

São cinco da manhã novamente, e eu estou cansada e com fome.

Mas o importante é que e mesmo com todos os pensamentos negativos, tudo deu certo.

O homem misterioso sobreviveu, mas seu quadro permanece instável.

Foi uma madrugada de completo caos no hospital.

- Se você fizer os exames de rotina dos meus pacientes, eu juro que compro café e bolo pra você, na sua cafeteira favorita - Adriana me propõem algo tentador e eu semicerro os olhos.

- Fechado! - Sorrio. - Seria difícil recusar uma proposta assim. Você, como sempre, me comprando com café da manhã, não é mesmo senhorita Adriana?

- E você, sempre se vendendo por café da manhã, não é mesmo senhorita Elisa? - Rimos juntas.

- Bem, deixe a ficha de cada paciente seu no meu armário ok? Vou indo então, já que tenho muito trabalho. Quero o café e o bolo na minha frente até as sete e meia.

- Sim, senhora. Você sabe que eu te amo, não mesmo?

- Ah, e como sei. - Dou as costas para a mesma e vou em direção a uma das salas de leitos.

Abro a porta silenciosamente pois alguns pacientes ainda estavam dormindo.

Caminho até o leito número dez, e me aproximo da cama.

Depois de ler as informações da paciente, eu a encaro por alguns segundos. Uma garota tão jovem passando por situações tão devastadoras.

Uma tentativa de suicídio.

- Bom dia, senhorita Lilian... - Ela permanece dormindo, - Bom dia? - digo um pouco mais alto, e ela se remexe na cama.

- An? - A garota murmura baixinho.

- Eu me chamo Elisa, estou aqui para fazer seus exames de rotina. A doutora Adriana não pode comparecer.

Ela lentamente abre os olhos confusa. E me encara de cima a baixo.

- Ah, entendo. Bom dia, eu acho - bocejou.

- Bom dia... novamente. Agora que você acordou, eu vou tirar um pouco de sangue de você, para enviar para o laboratório, tudo bem? E se tudo der certo, você terá alta ainda essa semana.

- É mesmo? - Vejo certa empolgação em sua pergunta, e um brilho em seus olhos aparece.

- Sim!

- Você sabe se alguém veio me procurar, além de meus pais?

- Bem, eu acabei de voltar das minhas férias, mas nos pequenos momentos em que fiquei por essa ala, não vi ninguém aqui, além deles... - A garota que antes havia mostrado um pouco de felicidade, agora se encontrava triste, por uma simples expectativa quebrada. - Seria sua amiga?

- Meu ex namorado. - ela abaixa a cabeça.

- Oh... Creio que ele deve ser muito importante pra você.

- Sim. A gente terminou a um mês, e eu pensei que ele teria um pouco de pena de mim, ou talvez até mesmo se sentisse culpado pelo que eu fiz. Eu amo ele, eu realmente o amo... isso - a garota se refere a sua tentativa de suicídio, - pelo menos teria que servir como uma espécie de carma pra ele. Eu dei meu amor pra ele, todo meu amor. Por que ele não podia fazer o mesmo? Ele me deixou, como seu eu fosse uma roupa que não servisse mais pra ele.

- Eu realmente sinto muito... - Não gosto de ouvir os problemas dos outros, pois já se é difícil para mim lidar com os meus próprios problemas, imagina com aqueles que eu nem tenho consciência.

- Não, não sente. - Ela me olhou, e tudo que eu vi, foi a Elisa de catorze anos, que fazia de tudo pra ser amada.

- Aprenda criança, o carma é apenas uma invenção humana, feita para nos sentirmos menos mal quando alguém faz mal a nós. Nem tudo que fazemos para os outros vai ser retribuído da forma correta. Eu salvo várias vidas diariamente, mas ninguém nunca me salva. E é isso, sempre buscamos a validação das pessoas de fora, e aí esquecemos da nossa família, que é quem realmente nos ama - ou pelo menos deveria, - seus pais te amam muito, pense neles como sua âncora para continuar... - dou um sorriso para ela, e por incrível que pareça, ela retribui. - Você é jovem, tem a vida inteira pela frente, pense nas coisas boas que ainda estão por vir... Já parou pra pensar em quantas comidas diferentes vai comer, quantos lugares vai visitar, quantas pessoas vai conhecer... A vida é linda, do jeito dela, mas é. - Um silêncio se instala na sala, e o medo de ter falado algo que eu não deveria me incendeia.

- Uau...

- Perdão. Talvez eu tenha falado de mais. Não é da minha conta.

- Não. É que na verdade, eu estou surpresa, eu nunca tinha parado pra pensar nisso que você falou, - me sinto aliviada. - A vida é bela, do jeito dela, mas é - repete minhas palavras. - Têm razão doutora Elisa. E aliás, você é muito boa com palavras. Deveria ter feito psicologia.

- Ah, não, - faço uma careta em repreensão e a garota ri, - eu gosto mais das emoções que as cirurgias podem me proporcionar.

- Vou tentar levar isso pra minha vida, daqui a diante.

- Exatamente. Que recomece um novo ciclo, Lilian. - Termino de tirar o sangue dela e coloco um pequeno band-aid no local perfurado.

- Mas já? Você tem mãos muito leves doutora. Nem notei quando você fez o procedimento.

- Sim. Fico muito feliz que ache isso. Mostra que minha missão como médica tem dado certo. Mas você só não percebeu por que estava entretida de mais com nossa conversa.

- Realmente. Muito obrigada, doutora - sorri.

- Não me agradeça, é só meu trabalho. - Sorrio. - A doutora Adriana, virá a tarde para te ver. Espero que você se recupere logo.

- Eu também espero. - A felicidade ressurge em seu rosto.

- Eu vou indo, tenho mais alguns pacientes para fazer coletas e exames. Bom dia Lilian.

- Bom dia Elisa.

[...]

- Eu nunca mais faço isso pra você!

- Calma amiga, - olho com um olhar mortal para Adriana que neste momento, em vez de me ajudar, apenas ri como uma hiena, - nem foi tão ruim assim.

- NÃO FOI TÃO RUIM? O seu paciente do leito seis vomitou em mim. Vomitou! Eu estou nojenta - solto pequenos gritos de raiva.

- Ei, também não precisa se alterar tanto, - ela coloca seu olhar de Bambi pra jogo.

- Não me olha assim, eu começo a me sentir mal! - Adriana ri descaradamente - Sua cobrinha!

- Está me chamando de Vânia? - Caímos na gargalhada juntas.

- Ei!

- O quê?

- Meu bolo e meu café!

- Merda... - diz baixinho.

- Você não esqueceu, não é mesmo? - a pressiono, pois sabia desde o início que ela iria esquecer.

- Amiga. Calma.

- Eu estou calma, Vânia.

- Você disse sete e meia, e não especificou se era da manhã ou da tarde...

- Quem toma café da manhã as sete e meia da noite? - ela me encara em silêncio.

- E se eu, hipoteticamente falando, esqueci o seu café e o bolo?

- Então eu diria, que eu, hipoteticamente falando, ficaria muito puta.

- Me perdoa amiga, eu realmente esqueci, Carlos não me deixou em paz.

- Se casem logo, pelo amor de Deus!

- Nem se eu me odiasse muito.

- Fala isso, mas sempre observa ele as escondidas.

- Cale a boca! Mudando de assunto, aceita minhas desculpas? Eu imploro por seu perdão, rainha má! - Diz ironicamente.

- Rainha má? Poxa, assim eu fico triste. - faço um biquinho com os lábios.

- Como forma de mostrar meu arrependimento, você gostaria de ir trocar de roupa e depois tomar café da manhã? Eu cubro seu horário.

- Olha, eu acho mais que justo depois do seu vacilo. Estou morrendo de fome. - Suspiro. - Ah, e sim, eu te perdoou jovem plebeia. - Rimos juntas por longos minutos.

- Tudo bem, agora eu acho melhor você ir. Essa roupa suja de vômito e esse cheiro insuportável definitivamente não combinam com você.

- Você tem razão. Vou indo então, até de tarde.

- Até!

Saio da sala e então vou direto para onde ficam os armários dos funcionários. Pego minha bolsa dentro do meu armário e tiro um novo uniforme limpo. Vou até o banheiro, me troco e coloco o antigo uniforme dentro de uma sacola plástica, guardando para lavá-lo quando eu chegar em casa.

Me olho no espelho redondo que há em minha frente, e novamente eu estava linda, limpa e apresentável.

- Por que você tem quer ser tão confusa, hein, Elisa? - Digo pra mim mesma.

[...]

Me dirijo até a cafeteira do hospital, que fica um andar abaixo do que eu estava. Pego um café expresso e um bolo de chocolate, pago pelo lanche e me sento em uma mesa cujo a solidão a rondava.

Meu estômago agradecia pela comida. E a felicidade pelo prazer de saciar a minha fome surgiu como fogos de artifício explodindo em meu cérebro.

Sinto a presença de alguém, que sem classe alguma se senta a minha frente, sem ao menos perguntar se poderia. O medo se espalha por meu corpo e a felicidade se esvai.

O cheiro familiar que eu tanto sinto repulsa invade minhas narinas me causando enjoo.

E sem ao menos precisar levantar minha cabeça, eu sei exatamente que está a minha frente.

Meu pior pesadelo.
Daniel...

- Quanto tempo, minha Lisa. Tem fugido de mim?

Engoli em seco.

- O rato comeu sua língua Elisa? - Diz mais rígido. Meu coração está a mil, e ele - coração - quer gritar, chorar, pedir por ajuda. Mas o meu cérebro se encontra em estado de choque. E tudo o que ele quer, é silêncio e paz, longe de tudo e todos.

- Por favor, vá embora. - Digo baixo para não sermos notados pelas outras pessoas que estão no local.

- Antigamente você não tinha vergonha de mim querida.

- Não me chame assim! - Finalmente tenho coragem de inclinar meu rosto para se e encará-lo. Me deparo com o seu magnífico rosto, que me fez pecar e ir contra tudo que eu acreditava, apenas por migalhas de amor. - Eu sinceramente não sei o que quer aqui, mas este é meu ambiente de trabalho, então, não apareça aqui novamente, ou irei denunciá-lo e pedir uma medida protetiva contra você! - Novamente sou obrigada a dizer baixo para que os outros não nos notem, mas Daniel não parece ligar muito para privacidade, pois me responde em um tom, muito acima do meu.

- Querida, não me faça rir. Mesmo sabendo a influência que minha família tem, você ainda insiste em me ameaçar com uma medida protetiva? - Ele ri como um psicopata me fazendo estremecer na cadeira e eu abaixo a cabeça. - Até a polícia resolver fazer algo para lhe ajudar, você já estará sendo desovada, por mim, em uma vala qualquer. - Sinto minha pressão caindo, meu corpo tremendo, meu estômago se revirando e meu cérebro parando de pensar. - Mas isso, apenas se você continuar com essas rebeldias, claro. Você sabe como eu te amo. - Ama? - Então, se você se comportar direitinho, prometo ser um bom menino com você.

Meu mundo desaba a cada vez que aquela boca imunda se abre para dizer uma nova asneira. Eu não deveria, mas eu tenho muito medo dele. Ele me assusta, e com isso, sempre me lembra de que os verdadeiro demônios, são os homens que habitam esta terra como bons rapazes.

Tentando ser forte para que as lágrimas não escapem dos meus olhos eu o encaro.

- Por favor, apenas vá embora Daniel. Eu imploro. - O desespero era nítido em minha face. Mas na face do demônio que se encontra a minha frente, eu via apenas o prazer pela agonia que eu sentia. Ele se satisfazia com a minha dor e sofrimento. Um completo sádico. E o pior, era que há um tempo atrás ele conseguia me conver de que isso era bom.

- Já que pediu com carinho, eu vou. Mas eu volto, minha querida Lisa. Eu te dei o tempo suficiente para pensar e repensar, agora, é hora de voltarmos as raízes. - O filho da puta sorri diabolicamente novamente. - Tenha um bom dia, querida. - Ele se aproxima e susurra a última palavra em meu ouvido logo em seguida depositando um beijo molhado em minha bochecha. E então vai embora para o seu submundo, sem nenhum ressentimento, depois de arrancar o último pedaço que havia de meu arruinado coração.

Uma lágrima escorre do meu rosto. Mas apenas uma. Eu não desabaria na frente das pessoas ao meu redor.

Como o mundo pode suportar alguém tão imundo?

Por que aquele resto de aborto insiste em me perseguir todos os dias?

São tantas questões, para serem solucionadas. Mas não consigo responder sequer uma.

Agora, tenho um vazio muito maior em meu estômago, mas já não tenho mais fome. Meu corpo apresenta sinais vitais, mas já está morto a um bom tempo. Meu cérebro ainda funciona bem, mas está impossibilitado de pensar dentro das últimas doze horas.

Bebo meu café todo de uma vez, não me importando com o fato dele estar quente, e ignorando totalmente a dor que ele me causa agora, enquanto desce por minha garganta e a queima como fogo.

Eu preciso disso. A dor. Para assim, me sentir menos culpada.

Me levanto da cadeira, pronta para voltar ao trabalho.

Tenho certeza de que minha garganta irá doer pelo resto da semana.

[...]

Passei a tarde fazendo exames, infelizmente nenhuma cirurgia, mas muitos curativos sendo trocados, já que ajudei algumas enfermeiras com os homens em massa que chegaram machucados ontem a noite. Foi uma tarde bem produtiva, mas o medo de me encontrar com Daniel pelos corredores me deixou um pouco atordoada.

É de noite, o lindo astro rei, se poz a uma hora. E já está na hora de checar alguns pacientes novamente.

E finalmente fiquei com a ficha do misterioso Romanov. O homem importante, intrigante, e estranhamente familiar.

Nunca fiquei tão empolgada para ver um paciente como fiquei com esse.

Ainda não li seu boletim médico, mas espero que ele já tenha se recuperado. O coitado estava em circunstâncias precária. Felizmente segue resistindo. Até o momento.

Paro em frente a porta de seu quarto e bato delicadamente três vezes. Mas ninguém abre. Presumo que ele esteja sem acompanhante. Então sorrateiramente, abro a porta e coloco a cabeça para dentro, para averiguar o lugar.

Não vejo ninguém, além do grande homem que está imóvel, deitado na cama do quarto.

Mas não consigo ver seu rosto de onde estou.

Entro de vagar para dentro do cômodo, e fecho a porta do quarto.

Caminho lentamente em sua direção. E sinto um frio na barriga indescritível.

Novamente paraliso vendo seu rosto. E se me dissessem "Ei Elisa, feche a boca, você está babando" eu acreditaria.

De onde eu conheço este homem?

Mas que diabos!

Parece que eu perco a consciência de quem sou ou onde estou quando o olho.

De repente, para minha surpresa, o homem suspira profundamente, e pelo seu ato repentino eu me engasgo com minha própria saliva.

- Se você continuar me secando com os olhos desse jeito, eu vou acabar pegando um resfriado. E eu já não estou em condições de saúde muito boas, doutora.

Ele abre os olhos e me encara.

Tusso.

Foi como ser atingida por um meteoro enquanto flutuava calmamente na imensidão do universo.

Seus grandes olhos, que rapidamente notei serem azuis como safira, me encaram atentamente. E alí parecia que eu estava em mais um devaneio de minha cabeça conturbada.

Eu não tenho palavras para responder o que seja lá que ele falou a segundos atrás.

- Não vai fazer o seu trabalho?

- C-como?

- Você não é médica? - Ele franze o cenho dando contraste a suas sobrancelhas grossas.

- É eu sou. Perdão. - Abaixo a cabeça. - Eu não sabia que você já havia acordado.

- Um erro médico num hospital de grande porte como esse é meio desprezível, doutora... - ele força a visão para poder ver meu nome em meu crachá. - Elisa. - Eu naturalmente não gosto de meu nome. Mas ele soou muito bem nos lábios desse desconhecido.

- Não acontecerá novamente, senhor Romanov. - Assinto.

- Silas.

Silas?

- Como?

- Meu nome.

- Uh, claro. - Há silêncio entre nós, por longos segundos. Mas que caralho de clima é esse? - Eu preciso trocar seus curativos.

- É, você precisa.

- Você consegue se sentar?

- Julgando pela drastica forma que eu estou, eu acho que a senhorita pode deduzir. - Isto então é um: "Não doutora, eu não consigo me sentar".

Me aproximo da cama, e clico no botão que a faz erguer a parte de cima. Assim colocando o grande homem inclinado.

Pego os itens necessários para trocar seus curativos e seu acesso do braço.

Ligeiramente me proximo do homem e coloco os intens ao lado do mesmo.

- Parece que você tem medo de homem, doutora. - Arregalo os olhos sem acreditar no que ouvi. - Não é o ideal.

- Ora. Eu não tenho medo de homem, tenho medo de quando eles são quietos de mais. - Ele ri do meu argumento fajuto.

- Bem, é válido.

- Com licença, eu precis...

- Apenas faça. - O arrogante homem me interrompe.

Me aproximo do mesmo, e delicadamente levanto a manga de sua camisola. A roupa que ele usa é a típica roupa que todos os pacientes do hospital também são obrigados a usar. Apenas uma simples e ridícula camisola azul, nada mais. Ela é de um pano leve e macio, e o ideal é ficar um pouco larga ao corpo do paciente, para facilitar o trabalho do médico, mas as mangas da camisola estão quase explodindo pois seus braços são grandes, e bastante musculoso.

As veias do braço dele se sobressaltam devido aos músculos, e isso facilita meu trabalho com o acesso.

- Isso dói? - Pergunto aplicando um remédio em cima de um de seus machucados no rosto.

- Não, não dói.

- Ótimo. Você sente tontura, enxaqueca ou dificuldade para enxergar?

- Não.

- Tem certeza? - Franzo o cenho.

- Eu pareço confuso?

- Não...

Mantenha a classe Elisa. Você consegue.

Termino de limpar os machucados, trocar os curativos e dar todas as medicações necessárias para ele, e então o encaro.

- Bem, você se sente a vontade? Tem algo te incomodando, como algum machucado ou alguma dor?

- Sim...

- O quê? - Pergunto preocupada.

- Você! Por favor, vá embora. Estou cansado, e você falando nos meus ouvidos apenas piora. - Não era o que eu esperava sair de sua boca, mas vindo desse escroto tudo é possível.

Eu já não gostei desse cara.

Se não fosse pelos meus seis anos, bem prestigiados de minha carreira, eu com certeza falaria algo inapropriado para esse brutamontes das cavernas.

- Certo, como quiser, bom descanso, senhor Silas. - Digo engolindo seco, e saio do quarto.

Ele era muito mais bonitinho quando estava desmaiado em um sono profundo, e com a boca bem fechada.

Depois de milhares de anos, eu finalmente voltei. Espero do fundo do meu coração, que tenham gostado. Qualquer erro ortográfico, por favor me avisem.

Beijos fantasmagóricos

- Elise, a Morgana

Seguir leyendo

También te gustarán

144 3 14
Djamila Oliveira é uma enfermeira brilhante. Fria, elegante, misteriosa. Por trás do sorriso sereno, esconde cicatrizes profundas, um passado marcado...
8.1K 557 25
Ela só queria sobreviver ao último semestre de Medicina - mas, para isso, precisou aceitar um favor inusitado: ser líder de torcida por uma tarde. Af...
445K 8.6K 38
Durante uma de suas viagens pela Itália, Enrico Lucchese - o implacável herdeiro da máfia siciliana - se vê enfeitiçado por uma jovem garçonete em um...
18.2K 764 6
DARK ROMANCE Disponível na Amazon e Kindle unlimited Uma mulher que vive num meio onde o e poder o dinheiro são dominantes, mãe, esposa e primeira d...
Wattpad App - Desbloquea funciones exclusivas