Alice 💖
Acordei sob o edredom num frio imenso com o ar-condicionado marcando 17°C. Tateei a cama vazia. Olhei no visor do celular na mesa de cabeceira e o dele estava ali carregando, liguei a tela vendo uma foto dele no protetor de tela e várias inúmeras mensagens de grupos e mulheres. Olhei as horas, 3h12 da manhã. Antes de tirar conclusões precipitadas, vesti a camisa dele que estava jogada na cadeira e desci as escadas da casa quieta.
A iluminação da sala vinha toda da TV, projetando sombras frias. Alemão estava sentado na ponta do sofá, o corpo jogado pra frente e os ombros travados, segurando o controle do videogame com um foco quase doentio. O som do jogo estava no mudo, mas o estalo seco dos botões ecoava na sala.
Assim que meu pé encostou no último degrau, ele pausou a partida e virou o rosto pra me encarar.
- Que foi, pô? Aconteceu algum bagulho? - perguntou, a voz rouca extremamente sexy.
- Não, só vi que você não estava lá em cima. Não conseguiu dormir? - perguntei, me aproximando e sentando ao lado dele.
- Mente tá fervendo. A cabeça não desliga nem a pau. - respondeu, sem tirar os olhos da tela despausando o jogo de tiro.
- Quer conversar sobre isso?
Ele me encarou por uns segundos. Deu pra ver a barreira subir instantaneamente nos olhos dele.
- Papo de visão tu não precisa saber, não. Negócio da comunidade é fita minha, tu não tem nada a ver com isso.
Fiquei em silêncio entendendo o recado.
Por mais que a gente tivesse tido momentos até que íntimos na varanda, o Alemão chefe do tráfico ainda não confiava em mim a ponto de abrir os bastidores do crime. Ele seria burro se saísse contando a vida do morro pros outros.
- Tá bom. Não precisa falar. - murmurei, me aproximando mais dele no sofá. - Mas eu posso te ajudar a relaxar.
Ele me olhou de canto de olho, com o esboço de um sorriso debochado.
- É mermo? E como tu pretende fazer isso, patricinha?
Sem responder, engatinhei para o colo dele, ficando de frente, com uma perna de cada lado da sua cintura. Passei as mãos pelo seu pescoço quente, subindo os dedos pelos cabelos e comecei a distribuir beijos lentos pelo seu rosto, na testa, na bochecha, na cicatriz do lábio e na curva da mandíbula.
Senti a respiração dele falhar, os ombros cederem e ele largar o controle do videogame no sofá, finalmente fechando os olhos, soltando o ar pesado pela boca enquanto acariciava minhas pernas devagar.
Ao me movimentar devagar sobre ele, senti a rigidez marcando o calção de leve. Deslizei do seu colo para o chão, ficando de joelhos entre as pernas dele.
Encarei seu sorriso cínico enquanto ele segurava meu queixo com a mão, desferindo um tapinha devagar no meu rosto.
- Gostosa do caralho..
Sem dar tempo pra ele protestar, envolvi a base firme dele e coloquei inteiro na boca. O gemido grave e profundo que saiu da garganta dele foi o som mais gratificante da minha vida.
Ele jogou a cabeça pra trás no encosto do sofá, as mãos fortes cravando no meu cabelo, não pra me apressar, mas pra guiar meu ritmo. Trabalhei com calma, usando a língua, sentindo o corpo dele inteiro tencionar até o limite.
Quando ele avisou que ia gozar, eu não parei.
Ele avisou mais uma vez e eu continuei lá, senti o líquido quente na minha boca e engoli, limpando a boca enquanto ele me olhava.
Eu tava mortinha de vergonha, quase querendo sair correndo, mas ele me puxou pra cima se levantando do sofá.
Subimos abraçados pro quarto e ele finalmente dormiu pesado, todo jogado do meu lado.
Quando acordei no domingo de manhã, eu tava sozinha de novo.
Tomei um banho rápido, vesti a camisa dele e desci.
Liandra tava na cozinha fazendo uma coisa que ela jura que é café.
- E esse chafé? - perguntei tomando um gole do café dela.
- Enfia no seu cu, Alice. - falou mandando dedo pra mim.
Eu ri sentando na bancada.
- Cadê seu irmão?
- Tá na boca com o Taliba desde cedo. - assenti e ela continuou. - Tá com uma carinha de quem deu ein. - falou me analisando.
- Meu Deus, cala a aboca, menina. - respondi rindo totalmente envergonhada.
Ficamos conversando e tomando o chá dela. Quando estávamos lavando a louça juntas, a porta da sala bateu.
Alemão entrou com aquela marra inconfundível, o rádio chiando no peito, muito gatinho.
Cabelo cortadinho, sem perder a essência dele.
Sem falar nada, ele tirou um saquinho do bolso e jogou no balcão, bem na minha frente.
Antes que eu pudesse pegar, Liandra passou a mão no remédio e fez um escândalo fingindo estar chorando.
- Ah não, Alemão. Pra quê ela tomar isso, caralho? Eu quero ser tia, porra. Alice, joga isso fora agora.
- Você é completamente maluca né, Liandra? Com certeza você tem algum probleminha. - falei enquanto tomava a caixinha da mão dela, peguei um copo de água e tomei o comprimido na mesma hora, bem na frente dele, pra mostrar que eu não tinha palhaçada nenhuma sobre aquilo, pra depois não acontecer e ele vir de historinha pra cima de mim.
Alemão deu uma risada curta de canto de boca, encostado no balcão, me encarando.
- Vou juntar minhas coisas. Preciso ir pra casa organizar matérias da faculdade. - avisei a Lia.
Resultado, não arrumei nada.
Passamos a tarde jogadas na sala assistindo filmes da Barbie e comendo besteiras.
Quando deu umas cinco da tarde, ele apareceu na sala perguntando a Lia onde tava a chuteira dele.
- Você pode me levar em casa agora? - pedi.
-Já vai tu? Fica aí, pô. - ele questionou, franzindo a testa.
- Preciso ir. - respondi.
Ele concordou, subiu e tomou banho. Eu peguei no quarto de Lia a bolsa que eu trouxe ontem com uma peça de roupa e desci esperando ele.
Depois de uns minutos ele desceu todo cheiroso, de calção de futebol e sem camisa, carregando uma chuteira nas mãos.
-Vai jogar? - perguntei entrando no carro com ele.
- Ainda. - respondeu.
- Aqui no morro mesmo?
- É, lá no campo da baixa. - falou sem dar muita importância. - Ia te levar, mas tu vai chegar. - as vezes eu tinha que e esforçar pra entender o que as gírias ali significavam.
- Outro dia eu vou. - falei.
🕒
A rotina da faculdade me engoliu. Sentei no pátio com a Viviane no intervalo das aulas, segurando meu copo de café.
- Amiga, você tá com uma cara ótima, mas ao mesmo tempo distante. - Vivi comentou, me analisando. - Como foi o fim de semana no morro?
- Foi intenso, Vivi. Muito intenso. - confessei, olhando pro nada. - Ele me levou pra passear no morro, fomos até comer juntos, dormi lá e tal, parecia que a gente era um casal de verdade. Mas depois o cara ge estranho, nem me manda mensagem, nem porra nenhuma, não tô acostumada com isso.
- Alice, acorde meu amor. - Vivi me alertou, séria. - Você tá criando expectativas com um homem que vive em outra realidade. No fim de semana é lindo, durante a semana ele não tá nem aí.
Eu queria ignorar os sinais, mas Vivi não deixava.
Na terça-feira, passei a tarde trancada no meu quarto estudando para a prova de anatomia.
A cada dez minutos, meus olhos iam direto pra tela do celular. Nenhuma notificação dele.
Mandei mensagem pra Lia, e conversamos por horas sobre coisas aleatórias enquanto eu reclamava da faculdade e ela fazia marquinha de fita na piscina da casa dela. Que invejaaaa.
Mas havia um acordo tácito entre nós de não citar o nome nem do Alemão e nem do \taliba nas nossas conversas de garotas.
Aquele silêncio dele me corroía por dentro. Eu me sentia uma idiota por esperar um "boa tarde" de um traficante.
Na quarta-feira, a Vivi me tirou do apartamento na marra.
- Você vai sair desse quarto sim, aff. Vamos pra uma festa na Barra, você precisa ver gente normal.- ela decretou.
O salão do evento estava lotado, luzes neon e bebida liberada. Eu estava no balcão do bar pedindo um drink quando um cara alto, de camisa social dobrada até os cotovelos, se aproximou.
- Te vi de longe e achei que você tinha a cara de quem prefere gin tônica. Acertei? - ele perguntou, dando um sorriso simpático e estendendo um copo com um drink.
- Acertou em cheio. - ri fraco pegando o copo da mão dele.
Eu que não ia ser louca de beber aquilo, mas não fui mal educada.
- Meu nome é Gustavo. Eu faço Engenharia na mesma faculdade que você. Te vejo sempre lá com outra garota.
- Ah, então você sabe que a gente devia tá em casa estudando pras provas. Que bom, não me sinto culpada sozinha.
Ele riu concordando.
- O que uma garota tão bonita faz sozinha olhando pro celular no meio da festa? - questionou.
Conversamos por quase uma hora.
Gustavo era educado, cheiroso, e claramente interessado. Acabei tomando um drink com ele.
Ele era tudo o que meus pais aprovariam. Ele pagou meu drink, me fez rir e pediu meu Instagram.
Mas, enquanto ele falava sobre a viagem dele pra Europa, minha mente viajava.
Eu olhava para os braços dele e sentia falta das tatuagens, olhava pra o sorriso dele e sentia falta de um bigodinho ali, o cheiro do perfume Tom Ford dele não chegava nem perto do cheiro gostoso do Bvlgari. Eu estava fisicamente ali, mas minha cabeça continuava acorrentada na favela.
Na quinta-feira, sentei no sofá do consultório no Leblon para a minha consulta.
- E como foi a sua semana, Alice? - Dra. Helena perguntou, ajeitando a caneta sobre o bloco de notas.
Desabafei tudo. Contei sobre a vulnerabilidade dele no fim de semana, minha aparente necessidade de ter um homem vinte e quatro horas falando comigo, como eu já nem pensava mais no passado e como eu achava que estava repetindo o ciclo.
- É horrível, Doutora. Porque quando a gente tá junto, é real. Mas durante a semana ele simplesmente finge que eu não existo. Que ódio, cara.
Dra. Helena me olhou com empatia, mas com uma firmeza necessária.
- Alice, você já percebeu que está tentando romantizar um padrão de conveniência?
- Como assim?
- Para ele, você é a companhia perfeita do fim de semana. Você traz paz, cuida dele e atende as necessidades dele de sexta a domingo. E de segunda a quinta ele vive a vida dele, sem o peso ou a responsabilidade de te dar satisfação. Ele tem o melhor dos dois mundos e você está dando isso a ele, como ele quer.
- Mas não é só sexo. Ele se abriu comigo, me contou sobre o passado dele...
- Homens mentem, Alice. E também se abrem quando querem desabafar. Isso não significa que ele esteja disposto a construir algo com você no seu dia a dia. Você precisa entender se está disposta a aceitar esse lugar de 'refúgio de fim de semana' ou se quer alguém que esteja presente na sua rotina de verdade.
Um murro teria doído menos.
Na sexta-feira saí da faculdade com Gustavo me acompanhando enquanto conversávamos em direção ao estacionamento. Passei perto de um carro familiar demais e vi o vidro fumê descer e Alemão me olhar de relance.
- Entra aí. - ele falou, curto e grosso.
A raiva que ficou acumulada a semana toda explodiu. Fechei a cara e passei direto pelo carro. Gustavo perguntou se eu conhecia e eu afirmei.
Ouvi a porta do carro bater e ele vir atrás de mim.
Me virei de uma vez, pedindo pra Gustavo ir que depois eu falava com ele.
- Não vou subir em lugar nenhum. - falei alto.
Voltei a caminhar e ele me alcançou e segurou meu braço. Não apertou pra machucar, mas o suficiente pra me fazer parar.
- Que marra é essa, pô? Tá maluca? Falando com tu na moral e tu passando reto.
- Me solta. - puxei meu braço. - Marra nenhuma, só não quero falar com você.
- Por quê, pô?
- Você some a semana inteira. Não manda uma mensagem, não quer saber nem se eu tô viva, finge que eu não existo de segunda a quinta, e acha que é só aparecer na porta da minha faculdade na sexta-feira que eu vou correndo pra tua cama? Eu não sou sua opção de fim de semana.
Ele riu abafado, negando com a cabeça.
- Porra, Alice, tu acha que minha vida é novela, carai? Eu passei a semana em guerra na pista, cobrando os cara, resolvendo invasão de facção. Não tenho tempo e nem paciência pra ficar mandando mensagenzinha com 'bom dia, amor'. Tu sabe onde eu tô e quem eu sou, e também nem teu número eu tenho, pra começar.
Fiquei parada pensando e era verdade, eu nunca dei meu número a ele mesmo.
Puta que pariu, que idiotice do caralho.
Segurei a minha risada desacreditada. Até porque quem quer, dar um jeito. Se ele quisesse tinha pedido a Lia.
- Pois deveria ter tempo pro o mínimo de consideração. Se você quer uma mulher só pra ser depósito de porra, procura outra.
- Entra na porra do carro. - ele ordenou, a voz baixando num tom perigoso.
- Eu vou pra casa. - falei.
- Alice, não me faz te botar a força dentro daquele carro. Entra no carro que eu te deixo lá.
Entrei na porra do carro bufando, vendo ele segurar o riso.
- Tá rindo de quê, palhaço? - perguntei irritada.
- Ih, nem tô rindo. - respondeu rindo.
- Mas é muito idiota mesmo viu. - fiquei de braços cruzados o caminho todo até meu prédio. Desci do carro e subi com ele me seguindo não sei pra quê.
- Fala o que tu quer falar, maluca. Joga logo essa tua neurose de uma vez. - ele disse, sentando no sofá me encarando enquanto eu andava de um lado pro outro controlando a raiva.
- Não é neurose. É respeito, porra, se você quer estar comigo, você precisa entender que eu não sou uma das suas marmitas do morro que aceitam qualquer resto de migalha.
Antes que ele respondesse, meu celular tocou em cima da mesa.
Era Lia. Atendi no viva-voz de propósito.
- Amiga, cadê você? - a voz da Lia saiu alta. - Tô organizando um churrasuinho aqui em casa com o Taliba. Vem logo pra cá.
Olhei bem nos olhos do Alemão, que me encarava sério encostado na minha estante, e respondi para ela.
- Eu vou sim, Lia. Mas tô indo exclusivamente pra ficar com você, tá? Porque você tá se tornando uma amiga incrível. - falei explicando mais para o homem na minha frente do que pra ela.
Fixei o olhar nele e completei com toda a firmeza do mundo.
- E avisa pro seu irmão nem pensar em ficar na minha cola. - Lia estranhou mas respondeu só um 'Tá, eu ein, maluca.'.
Alemão soltou uma risada baixa e debochada, balançando a cabeça e negando com ar de quem não acreditava na minha marra.
- Vai nessa.. - ele sussurrou.
Saí juntando umas roupas e biquíni numa bolsa, peguei só o básico e segui pra sala, encontrando ele mexendo no celular.
- Anda logo, antes que eu desista.
Saí trancando a porta e desci com ele calado.
Entrei dentro do carro e ele deu partida rumo ao morro.
- O que você foi fazer na minha faculdade? - perguntei.
Ele continuou dirigindo e respondeu sem olhar pra mim.
- Fui te cobrar, porra. - ele soltou, a voz grave e seca. - O que tu tava arrumando quarta-feira de noite, cheia de risadinha e conversinha fiada com um engomadinho na minha boate?
O choque me fez olhar pra ele praticamente gritando.
- Na sua o quê? - encarei ele, de queixo caído. - Na sua boate? Desde quando você tem boate na Barra?
- E isso importa? A noite da Barra é perfeita pra lavar dinheiro. - ele respondeu com a maior naturalidade do mundo, dando de ombros. - Agora não muda de assunto não. Tu tava lá, dando moral pro cara, o mermo que tava com tu hoje.
- Como é que você sabe disso? - me sobressaltei. - Alguém me seguiu? Você mandou me vigiar?
Ele desviou o olhar pro vidro da janela, travando o maxilar.
- O que interessa é que o papo chegou no meu radar, se ligou? Entendi legal não isso aí.
- Ai, me poupe, né, meu amor? - dei uma risada irônica. - Se você não vai me dizer como descobriu, eu também não te devo satisfação nenhuma. E outra, eu sou solteira. Tu quer ter direito de cobrar o quê de mim se a gente nem tem nada. - falei já sabendo que mais cedo ou mais tarde isso ia voltar pra mim.
Ele não respondeu nada, só deu um estalo de língua irritado.
Quando subimos a favela e chegamos na casa dele, o som alto de um pagode antigo já ecoava pela área da piscina. Deixei minha bolsa na sala e fui pro quintal, dei de cara com Taliba, Lia, Falcão e outros caras que eu não conhecia. Estavam almoçando e tomando cerveja.
Passei reto por ele e fui direto abraçar Lia.
- Amiga, finalmente. - Lia comemorou, me dando um beijo no rosto.
Cumprimentei os meninos com um aceno, entrando na cozinha em seguida pra falar com Dona Maria, que estava terminando de limpar o fogão.
Alemão passou por mim e pegou uma long neck na geladeira, indo direto pro quintal. Sentou numa cadeira lá no meio dos caras.
- Tô vendo que ninguém tem serviço pra fazer não né, caralho? - ele resmungou.
- Tô de folga hoje. - Taliba respondeu.
- E quando é que tu tá trabalhando, vagabundo. - Alemão devolveu, num tom ranzinza.
- Ei, pô, nada aver. - Falcão se defendeu, mastigando. - Meu plantão é só de noite. E nóis passou a semana inteira caindo pra pista, tu me botou pra torar em nóis de segunda a quinta, pô. Foi missão atrás de missão, não dormi porra nenhuma, eu mereço descanso. - falou dramatizando fazendo todo mundo rir.
Então era verdade... ele realmente esteve ocupado a semana toda.
PARA ALICE.
Gritei mentalmente pra mim mesma.
Minha mente já tava criando desculpas a favor dele.
A voz da Dra. Helena ecoou na minha mente na mesma hora: "Ele só quer um refúgio de fim de semana".
O fato de ele estar trabalhando não mudava a falta de consideração de não mandar uma única mensagem.
Ficamos ali na beira da piscina eu e Lia, conversando sobre coisas aleatórias enquanto eles jogavam Aliado aos gritos a tarde todinha.
Já tava escurecendo quando morgaram o jogo porque os caras iam assumir plantão, Falcão também ia mas ficou dando massada sentado na mesa se intromentendo na minha conversa com Lia.
- Mas aí, patroa... papo reto. A favela toda quer saber o que ta rolando entre tu e o chefinho.. - falou rindo, fazendo Taliba e Alemão pararem de conversar. - Postaram até uma foto de vocês dois no japa na página de fofoca do morro.
Senti minha cerveja descer rasgando.
- Página de fofoca do morro? - perguntei, chocada. - Existe isso? Me mostra isso agora, Falcão.
Falcão puxou o celular do bolso e me entregou.
Não deu tempo nem eu olhar a foto, meus olhos focaram logo na legenda.
RADAR DO COMPLEXO
📸 BABADO NO MORRO! 💣👀
O nosso chefinho foi visto ontem a noite no japa perto da contenção no maior clima com umazinha aí do asfalo. A fila andou de vez ou é só um lance de fim de semana? 🔥
Pelo visto, a história com a Gabrieli ficou no passado mermo... A gata foi passada pra trás? A pergunta que não quer calar favela.
O patrão trocou a cria do complexo por uma do asfalto? Choremos juntas, sósias 😭
Comentem aí, tropa! De que lado vocês estão? 👇🔥
#FofocaDoMorro #Chefinho #BombaDoDia #PistaQuente
Me deu vontade de rir daquilo, só podia ser brincadeira.
- Você já tinha visto isso? - olhei pra Alemão, sentindo a raiva me consumir.
- Já. E daí? - ele respondeu, sem dar a mínima.
- E daí? - aumentei o tom de voz. - E daí que eu tô sendo exposta numa página de fofoca, sendo tirada de vadia e comparada com a sua ex.
- Tu tá esquentando a cabeça a toa. - ele falou frio.
- Mas e aí, tão ficando sério ou o quê? - Falcão perguntou completamente alheio a noção de quando parar.
Liandra jogou um palito de espeto nele repreendendo.
Alemão ficou em silêncio absoluto.
Eu me mudei de posição, encarando ele fixamente, esperando pra ver o que sairia daquela boca.
- Vish... - Taliba falou baixinho.
Alemão deu uma tragada no baseado, soltou a fumaça devagar calado.
- Responda a pergunta. - falei olhando pra ele.
- Eu sou desimpedido, pô. Tu quer que eu fale o quê? Tu não tem direito de cobrar nada de mim se nós nem tem nada. - aí estava o karma, quem fala o que quer, escuta o que não quer.
Soltei uma risada debochada, amarga, e virei o resto da minha cerveja de uma vez só.
Levantei jogando a garrafa no lixo e caminhando com Lia pra dentro de casa.
Ele não falou mais nada, ficou lá fora um tempo, depois vi ele saindo com Taliba.
Naquela noite, me recusei a pisar no quarto dele. Peguei minhas coisas e fui dormir no quarto com Lia, até porque eu vim pra ficar com ela né.
Enquanto estávamos deitadas no ar-condicionado, Lia tentou passar um pano pro irmão.
- Amiga, o meu irmão é um idiota, ele não sabe se expressar. - Lia me dizia, mexendo no celular. - Mas escuta o que eu tô te falando, se ele não sentisse nada por você, nem aqui dentro você pisava mais. Depois do que rolou entre vocês, se tu não importasse, ele já tinha mandado tu vazar há muito tempo.
- Não sei se acredito nisso não, ele me deixa é confusa. - murmurei, encarando o teto.
Encerramos o papo por ali e fomos assistir depois de tomar banho. Jantamos o sushi do japa depois de Lia prometer que ia dar uma chance pro coitado do Taliba se ele comprasse pra ela.
No sábado de manhã, acordei bem cedo, umas seis horas. Tava sentindo uma dor de cabeça grande e não conseguia mais dormir então desci pra cozinha quietinha pra passar um café.
Quando cheguei na ponta da escada, a porta da rua abriu.
Alemão entrou destruído, os olhos vermelhos, a cara de cansaço, foi tirando a camisa preta e jogando no sofá, com um cheiro forte de perfume feminino barato. Ele nitidamente não tinha dormido um segundo da noite.
Tentei passar por ele como se ele fosse invisível, sem nem olhar na cara dele.
- Passa reto não, patricinha. - ele provocou, com a voz rouca, parando no meio do corredor. - Perdeu a língua ou a educação?
Virei de frente pra ele, encarando aquele rosto debochado dele. O pensamento de que ele tinha passado a madrugada inteira farreando me deu vontade de voar no pescoço dele.
- Tô sem paciência. Vai tomar um banho pra tirar esse cheiro de puta antes de falar comigo. -respondi, ríspida.
Alemão deu um sorriso irônico, balançando a cabeça.
- Tu não sabe de porra nenhuma e fica abrindo essa boca linda pra dar ideia errada. Tô cheio de dor de cabeça, então não enche meu saco com essa picuinha.
Ele subiu as escadas arrastando os pés.
Eu fiquei na cozinha me odiando porque mesmo odiando atitudes dele, meu lado idiota falava mais alto, passei uma xícara de café bem quente, subi em silêncio e deixei na mesa de cabeceira dele enquanto ouvia o barulho do chuveiro ligado no banheiro.
O sol da manhã já estava estalando na piscina, e já fui colocar meu biquíni e acordar Lia.
Ligamos a caixa de som no pagodinho, passei bronzeador em mim e fui pra beira da piscina me deitar. Lia deitou do meu lado minutos depois com um biquíni de fita.
Ficamos ali praticamente o dia todo, alternando entre se bronzear e tomar banho de piscina.
De 11:00 horas fomos pra cozinha preparar o almoço.
- Me ensina a temperar essa carne. - falei. - Em troca te ensino a fazer um café decente.
Lia deu uma risada alta, pegando a peça de picanha na tábua.
- É fácil, patricinha, sal grosso, um tiquinho de alho e o tempero que você quiser. Meu irmão não gosta de muito tempero, então eu não coloco.
- Seu irmão que se vire com a fome dele quando acordar. - murmurei, cruzando os braços. - Por mim, ele come o carvão.
- Ih, rolou o quê mais? - Lia me cutucou com o cotovelo, rindo. - Ele não admite, mas odeia ver que tu não tá correndo atrás dele igual as meninas daqui. Quando ele fica quieto e puto assim, é porque a cabeça dele tá dando nó.
- Pois ele que se dane, amiga. - rebati, mas não consegui segurar um sorrisinho de canto.
Acendemos a churrasqueira, colocamos as carnes para assar e eu fui fazer o arroz e cortar os legumes enquanto Lia descongelava o feijão de Dona Maria e fazia uma farofa.
Por volta de uma da tarde, a porta de vidro da sala correu.
Alemão surgiu na varanda, de calção sem camisa, com a cara amassada de sono e o cabelo todo bagunçado.
Tão fofinho que nem parecia o pau no cu que era.
O olhar dele foi direto pra gente.
Os olhos dele subiram para o alto do muro dos fundos onde dois moleques da contenção estavam armados com fuzil em pé na laje vizinha, trocando uma ideia. Eu já tinha visto eles ali, e já tinha visto também que estavam olhando pra cá de vez em quando, mas não me importei.
O semblante dele mudou de cansado pra puro ódio.
- Ô SEUS ARROMBADO. - o berro dele ecoou pelo quintal inteiro, fazendo nós duas olharmos. - TÃO FAZENDO O QUÊ OLHANDO PRA CÁ, CARALHO?
Os dois moleques no mesmo segundo viraram o rosto antes de responder.
- Tamo só na contenção, na atividade, patrão. - um deles tentou se explicar.
- CONTENÇÃO O CARALHO. - Alemão deu dois passos na direção do muro, apontando o dedo. - VIRA ESSA CARA PRA PISTA ANTES QUE EU META A PORRADA NOS DOIS!
Os moleques pediram desculpa e sumiram pro outro lado da laje numa velocidade absurda.
Alemão desceu os degraus, com a cara fechada.
Ele caminhou até a mesa da piscina, pegou um prato de churrasco que tínhamos deixado separado e me encarou de cima a baixo, demorando o olhar no meu biquíni tomara que caia.
- Tu precisa dessa porra desse biquíni tão pequeno, Alice? - ele soltou, a voz baixa e carregada de ciúme. - Tem cara pra caralho rodando minha casa.
- Incomodado, querido? - respondi no mesmo tom, ajeitando o óculo de sol no rosto com a maior calma do mundo. - Não tô vendo você reclamando com a sua irmã.
Ele travou o maxilar, puxando a cadeira com força e sentando na ponta da mesa. Comeu o prato inteiro em silêncio absoluto, só encarando a gente com aquele olhar pesado.
Quando terminou, levantou sem falar um "A", subiu pro quarto, se arrumou e desceu minutos depois vestindo blusa preta e corrente de ouro. Saiu de casa e bateu a porta da frente com tanta força que o chão da sala estremeceu.
- Ai, que homem dramático. - Lia debochou, jogando água na minha direção. - Deixa ele surtar sozinho, o dia é nosso.
A partir dali, o dia virou um verdadeiro SPA particular.
Levamos bacias, cremes, cera quente, alicates e esmaltes pra mesa da piscina. Sentamos nas cadeiras e começamos a cuidar uma da outra.
- Caramba, Lia, você é muito rápida com essa cera - comentei, dando um leve salto na cadeira quando ela puxou a tira na minha perna. - Ai, cachorra.
Lia riu, limpando o excesso.
- Em Paris não tem essa moleza de salão barato em cada esquina não. Lá se tu não souber se virar, tu fali só pra fazer a perna e o buço.
- Eu sei bem como é que é. - respondi.
- Ah é, as vezes eu esqueço que você é gringa. - falou rindo.
- Você estuda Moda lá, né? - perguntei, curiosa, enquanto começava a lixar as unhas da mão dela. - Como é morar em Paris?
Lia deu um suspiro longo, olhando para o céu azul do Rio.
- É incrível, Alice. É outro mundo. A arquitetura, as pessoas, as aulas na faculdade... Mas dá uma saudade absurda daqui. Do calor, do morro, do feijão da Dona Maria e até do meu irmão... Por mais que ele seja esse ignorante, ele é meu porto seguro.
- E quando você precisa voltar pra lá? - perguntei, sentindo uma pontadinha de tristeza no peito.
- Mês que vem - ela me olhou, com os olhos carinhosos. - Tenho que terminar o meu último ano. Se eu não for, ele surta, porque ele que paga tudo lá fora pra mim justamente pra eu ter o futuro que ele não pôde ter. Se eu ficar aqui, me acomodo.
- Poxa, Lia, vou sentir tanto a sua falta. - confessei. - Você virou uma amiga de verdade pra mim em tão pouco tempo.
- Tu vai continuar vindo aqui, tá ouvida? - Lia apontou o alicate pra mim, séria. - Vai vir pelo meu irmão, porque tu tá caidinha por ele e ele por ti, e vai vir por mim, porque quando eu voltar nas férias quero ver você firme e forte no comando daquela cabeça dura dele.
Sorri, me sentindo acolhida. Lia com certeza foi um presente na minha vida.
Esse capítulo é muito grande, então dividi em dois porque ninguém merece neahhh
Segue no próximo 💕👉