Me conte suas histórias de am...

Por M0_army

69 4 3

***ONE SHOT*** -- OBRA DE FICÇÃO. Tudo nessa obra é apenas uma invenção. -- NÃO ACEITO ADAPTAÇÕES Kim Taehyun... Más

Querido potinho de amor,

69 4 3
Por M0_army


"Me conta sobre a sua história de amor."

Foi isso o que Park Jimin me disse pela primeira vez, após me encontrar chorando com uma margarida despedaçada no colo, num canto escondido da escola, atrás das caçambas de lixo. Não precisávamos nos apresentar, pois estudávamos na mesma sala de aula. Isso significa que já sabíamos nossos nomes, nossas turmas e nossos grupinhos de amigos. Por isso, ele pulou essa etapa quase sempre necessária e foi direto ao ponto que eu particularmente não tinha com quem conversar.

Contei sem pestanejar sobre a minha primeira paixonite platônica e sobre como me machucou muito vê-lo me negar para ficar com outra pessoa, demonstrando o quanto precisava realmente por pra fora o que estava me consumindo. Não sei explicar de onde saiu essa confiança toda em Park, já que nunca houve nenhum tipo de interação entre nós dois no ambiente escolar ou fora dele, mas a primeira desilusão causada pela rejeição dói feito a peste e ele estava ali, disponível pra me ouvir.

Pra minha surpresa, ele concordou que o amor pode ser uma coisa muito confusa e ferina. Disse com a sapiência de um adulto no corpo de um adolescente que essa seria apenas a primeira desilusão de algumas antes de eu finalmente aquietar meu coração com alguém que me faça tão bem quanto eu serei capaz de retribuir. Então se sentou ao meu lado, e ao meu lado ficou por todo o tempo que pode durante os próximos 1 ano e alguns meses, não saindo de perto nem quando confessei os sentimentos românticos que passei a alimentar por ele.

Nesse momento não houve fala. Ele apenas me olhou com aqueles olhos indomáveis que me enxergavam por dentro e se aproximou para deixar um selinho delicado e demorado na minha boca. Instantaneamente, meus lábios formigaram, os músculos da minha barriga e ombros tensionaram, minha respiração ficou mais pesada e minha consciência expandiu.

"Eu acho que você é minha alma gêmea."

Foram as únicas palavras dele semanas depois daquele selinho que se estendeu para vários beijos gostosos trocados durante todos os dias que se passaram, e eu nem precisei pensar muito para concordar. Eu já sabia, já sentia em cada parte de mim que ele era a minha pessoa nesse mundo e que nada poderia nos separar, mesmo que tentassem. Por isso, eu apenas sorri grande, o abracei calorosamente e aceitei as lágrimas que escorriam por seus olhos. Lágrimas que eu não entendia na época, a real razão para que elas rolassem com tamanha teimosia no rosto bonito da minha outra metade.

"Me espera?"

Foi o que Park Jimin pediu entre as poucas lágrimas que deixou cair quando me contou que estava se mudando de país por causa de uma promoção que sua mãe recebera na empresa, mas que estaria disponível para ela aceitar apenas na filial da Itália.

Eu sempre fui mais chorão que ele e mais sensível também. Meu rosto era uma bagunça de lágrimas abundantes, muco transparente e suor. Meu primeiro amor estava indo embora poucos meses depois de eu me declarar e eu não pude fazer nada para impedir isso. Achei estranho tudo o que envolvia aquela "promoção apenas na Itália" e ele não quis explicar mais do que já havia falado, sabia também que ele odiaria que eu falasse com seus pais sobre isso, então só me restou aceitar, respeitar, chorar mais e prometer que esperaria por ele.

"A gente precisa viver enquanto espera."

Foi exatamente o que ele disse na ultima carta que recebi dele.

Tínhamos essa mania de nos comunicarmos mais profundamente por cartas, mesmo nos falando quase sempre através do advento das mensagens de texto e ligações internacionais. Naquela época já estava no final do ultimo ano do ensino médio, há quase 9 meses amando à distancia.

Na minha penúltima carta, eu havia contado sobre um rapaz novo que entrou na escola no meio do ano e que se aproximou bastante de mim. Nos tornamos amigos quase instantaneamente, principalmente por ele também ser gay. Contei que esse amigo havia me confessado que queria muito que fossemos juntos ao baile de formatura e que eu fosse o seu primeiro beijo.

Segredei com a intensão de provocar um pouquinho e de me gabar por ter alguém tão legal quanto Kin Seugwon me escolhendo para ser seu primeiro beijo, mesmo ele sabendo que eu estava completamente envolvido emocionalmente com outra pessoa. Só não esperava o corte fino e bruto que recebi numa carta de meia página filosofando um pouco sobre como precisávamos viver nossas experiencias normalmente para que nosso relacionamento futuro seja verdadeiro e não se torne uma obrigação pesada de se carregar.

Eu era chorão e sentimental, como já disse, e isso não mudara em 9 meses. Na verdade, não mudou até hoje, como você bem deve imaginar. Por isso escrevi uma ultima carta dizendo que não conseguiria seguir imaginando ele com outro cara assim como não queria mais ninguém além dele na minha vida. Que esperaria o tempo que fosse para termos nossas primeiras vezes juntos e que falava de coração aberto, ciente de que era exatamente isso que eu queria. Mas ele era consciência e sabedoria desde o primeiro dia que nos conhecemos, por isso apenas me ligou mais uma vez para dizer que, se era assim, não deveríamos esperar um pelo outro, afinal ele havia sido aprovado para a segunda fase do vestibular na Universidade de Clermont Auvergne, na França, para cursar dança contemporânea e ballet, enquanto eu tentava arquitetura e construção na Universidade de Seoul.

Só desligamos quando prometi que viveria enquanto esperava o universo nos unir de novo, afinal somos alma gêmeas. Isso aconteceria uma hora ou outra, né?

"Prometo."

Essa foi minha ultima palavra dita para Jimin naquela ultima ligação que racharia meu coração em pedaços grandes e tortos, tornando impossível para que outras pessoas entrassem e fizessem morada com tanta propriedade quanto Park Jimin fez.

Kim Seugwon teve o que desejou em partes. Não fomos ao baile de formatura, pois nosso país não permitiria tal afronta deliberadamente. Seriamos expulsos na base do chute e cuspes por professores e diretores antes mesmo de tirarmos a primeira foto no mural da escola se chegássemos juntos como um casal. Mas passamos a noite em sua casa imitando as danças dos clipes que colocávamos para tocar na tela do computador de seu quarto amplo e, suados e cansados de tanto rir e dançar, demos nosso primeiro beijo.

O gosto era de decisão errada com toques suaves de sorvete de chocolate. Ele não era Jimin e não importa quantos beijos nós dois trocássemos, isso não mudaria. Era um erro, pois eu sentia no fundo do meu coração que não apenas havia perdido meu amor como também perderia meu amigo, mas eu havia prometido seguir em frente e tentaria cumprir com o acordo, mesmo que não estivesse sendo prazeroso.

Apesar disso, não nos beijamos mais depois daquele dia. Tentei explicar que era por amar outra pessoa, mas Seugwon ficou magoado, se sentindo insuficiente. Isso o ajudou na decisão de se afastar aos poucos assim que recebeu a confirmação de que havia passado para cursar tecnologia da computação em Daejeon.

A vida seguiu e, no começo do segundo semestre da faculdade, fui para uma festa universitária regada a cerveja quente, balões de camisinhas coloridas voando pela sala espaçosa e karaokê, e lá conheci Jeon Jungkook. Imagino que já tenha participado de alguma festa semelhante a essa em algum momento da sua curta vida, então não me privarei de dizer que foi tesão à primeira vista, e nem estou exagerando. Na mesma noite estávamos nos atracando no quarto de Jung Hoseok, o dono da casa e da festa em que estávamos. Gozamos da melhor forma destrambelhada e gostosa que dois bêbados conseguiam e dormimos seminus na banheira do Jung, enquanto o mesmo dormia à uma porta de distancia em sua cama com seu então namorado, Min Yoongi.

No começo, éramos o quarteto de amigos inseparáveis que cursavam áreas diferentes demais uma das outras para fazer sentido na cabeça de alguém fora do nosso convívio. Eu tinha outro grupo de amigos com alunos que faziam o mesmo curso que eu, mas com eles era diferente. Com eles eu sentia que podia conversar sobre a vida e inclusive contei sobre minha infância complicada, meus problemas com minha família e os motivos de serem tão distantes de mim. E também contei sobre Jimin, mas esse apenas para Hoseok.

Como seria de se esperar devido a química que tínhamos, Jungkook e eu passamos a nos ver com frequência, sempre nos pegávamos quando sentíamos vontade – o que era quase o tempo todo – até finalmente engatarmos num namoro sério.

Era uma delicia estar com ele ao meu lado, falando besteira, atazanando nossos amigos, quicando em várias baladas numa mesma noite, transando como se não houvesse amanhã. Mas ainda não era Park Jimin. Ainda não era minha alma gêmea ali dividindo pipoca comigo no cinema, dormindo com a cabeça encostada no meu ombro dentro do uber, escolhendo qual presente levar para a irmã de Hoseok – que se tornou minha irmã de coração também - no aniversário dela, fazendo planos para uma viagem de 1 semana em Jeju...

Ele era meu parceiro e eu dava meu melhor para ser o dele também. Mas nunca dávamos o próximo passo. Nunca conversamos sobre morar juntos ou sobre casamento. Nunca falamos sobre filhos ou sobre nossa velhice juntos. Jungkook não gostava de pensar muito longe no futuro e eu, por mais que amasse o tatuado e me negasse totalmente a admitir, ainda esperava um milagre do universo envolvendo outra pessoa que, a essa altura da história, você bem sabe quem é.

Vivíamos bem desse jeito, até o dia em que Hoseok e Yoongi anunciaram que iriam se casar. Isso nos imputou uma tensão necessária que atrapalhou todo o andar da nossa carruagem livre de amarras cercadas pelas incertezas do futuro. E é por isso que nossa história de amor durou bons 3 anos e difíceis 4 meses. Quando não deu mais, ele terminou comigo e decidiu seguir sua vida com sua atual esposa, Han Sohee, e mãe de seu filho, Jeon Junghee – um nome fofo, porém brega se quiser minha opinião.

Repito sem medo de errar: amei muito aquele tatuado brincalhão e barulhento. Vivi o que havia de melhor dentro das possibilidades que tínhamos, mas me senti horrível por não conseguir ser mais que aquilo. Por aquele namoro ao mesmo tempo sem perspectiva e delicioso, ser o meu máximo.

Entrei num limbo de auto depreciação, melancolia e apatia que não sabia ser capaz de sair. Sofri por ainda amar alguém que provavelmente nem pensava mais em mim, me frustrei por tentar stalkear pela milionésima vez e só encontrar perfis fechados e nenhuma pista de seu paradeiro. Passei a sonhar rotineiramente com seus lábios, suas palavras, sua risada, mas devido o tempo que se passou, já não via mais seu rosto por completo com tanta nitidez assim, nem conseguia desenhar perfeitamente suas mãos pequenas, pois já não lembrava o lugar exato da sua pintinha no dedinho mindinho. Sempre a confundia com a de Jungkook e isso me frustrava demais.

Passei a procurar minha alma gêmea nas pessoas que beijava, nos sexos que fazia, nas conversas que tinha, e encontrei uma cópia do paraíso quando conheci Lee Taemin. Entreguei minha felicidade nas mãos do moreno e criei expectativas altas demais para que o mesmo suprisse dentro de um relacionamento que claramente não nos fazia bem.

Me tornei possessivo. Sentia ódio de quem se aproximasse do "Meu Taemin" – como gostava de chamar sem perceber quão errado isso soava – e chorava quando brigávamos por medo de seu possível e provável afastamento. Sufoquei o pequeno com minha saudade do que ele jamais poderia me dar até arrancar dele mais lágrimas do que sorrisos.

Foi quase 1 ano sendo a pior versão de mim no pior relacionamento que podia oferecer para uma pessoa tão sensível emocionalmente quanto eu. Nos tornamos uma bomba um para o outro e, após uma briga homérica com direito a muitos gritos e uma cuspida na cara, conseguimos nos desvencilhar do que tínhamos.

Imediatamente ao fim, encontrei Bae Suzi, minha primeira e ainda única psicóloga. A pessoa mais guerreira e paciente que eu já conheci em toda a minha vida.

"Me conte sobre suas histórias de amor."

Foi o que ela decidiu repetir quando contei sobre como conheci Park Jimin. E eu contei toda a minha história amorosa no detalhe, esmiuçando inclusive os momentos em que fui mau. Aprendi a me levantar do limbo que me coloquei, entendi que a vida realmente precisava seguir em frente e que tentar paralisar isso seria uma grande perda de tempo.

O problema maior era que eu ainda me sentia prisioneiro da esperança. Uma esperança que somente era alimentada por uma possibilidade plantada no meu coração anos atrás, quando decidimos que eramos almas gêmeas e que, por isso, estaríamos ligados pelo resto da vida.

"Já procurou ele nas redes sociais?"

Foram essas palavras usadas por Bae Suzi, menos de 1 ano depois da nossa primeira consulta, que me fizeram passar uma noite inteira em claro procurando as redes sociais daquele que, no passado, sempre reclamou da exposição que as pessoas se impunham para mostrar serem o que acham que as pessoas desejam que elas sejam. Ele dizia que caminharíamos para algum tipo de escravidão e, provando mais uma vez sua imensa sabedoria, ele acertou.

Já havia procurado por ele outras vezes, claro. Mas seu instagram era sempre fechado, não havia encontrado nenhuma conta do twitter com seu nome e o facebook não era atualizado desde poucos meses depois que paramos de nos falar. Nunca vou me esquecer daquela foto mal enquadrada da Torre Eiffell de noite anunciando sua chegada ao país em que estudaria.

Mas dessa vez eu não parei ao encontrar apenas seu perfil fechado no instagram. Eu também procurei o perfil de seu pai. E então encontrei sequencias de fotos que me levavam numa viagem que caminhava do momento presente até o passado, narrando uma história que eu não vi acontecer mesmo que quisesse.

Aqui talvez você fique levemente assustada com a minha memória de ferro, mas tem coisas na vida que nos marcam como brasa viva, e esse momento é uma dessas marcas profundas deixadas na pele já sensível de saudade, por isso, não vou me privar de narrar tudo como me lembro.

"Meu maior orgulho é ter você como meu filho."

Era a ultima frase de um texto longo que seu pai havia postado no perfil poucas semanas atrás. O texto era sobre a ultima apresentação que Jimin fez na equipe de dança contemporânea que participava. A página da equipe estava marcada na foto e eu entrei para ver se encontrava vídeos mais nítidos do meu grande amor dançando em uma qualidade melhor.

Claro que encontrei. Vário. Inúmeros. Uma quantidade sem controle de vídeos e fotos que não acabavam nunca. Vídeos curtos, vídeos longos, vídeos de apresentações, de ensaios, de momentos de aquecimento. Quase todos mostravam um Jimin mais atualizado, tão diferente, mas ao mesmo tempo tão igual ao Jimin que eu conheci.

Seu rosto e corpo haviam mudado. Estava mais magro e angular. Sua pele estava mais morena, possivelmente por tomar alguma quantidade saudável de Sol durante os dias que vivia na Europa. Seus movimentos nos vídeos pareciam fluidos demais para serem reais. Os passos se encaixavam perfeitamente na batida das músicas escolhidas, sejam elas quais forem, como se cada nota reverberasse seus movimentos propositalmente. Ele se entregava de corpo e alma até mesmo nos ensaios e vídeos curtos com passos mais simples. Jogava braços e pernas para os lados e para frente, para cima e para baixo. Deitava-se no chão e determinava o significado de perfeição ao se ondular compassadamente sem dificuldade alguma em mostrar como seu esqueleto pode sim ser extremamente mole e altamente flexível. Era quente e elegante, sensível e desesperadoramente apaixonante.

Fiquei completamente absorto naqueles vídeos que seguiam entrando em looping eterno por horas e horas a fio. A cada novo vídeo, eu era capaz de notar um novo gesto impecável, um novo ato que me arrancava suspiro, um novo detalhe em sua pele agora tatuada, um novo choque provindo de seu olhar compenetrado na arte que expressava de forma tão esplendorosa. Mas o que me arrancou lágrimas, foram os vídeos descontraídos com os amigos, rindo e se divertindo antes dos ensaios começarem, durante os aquecimentos, nas pausas para tomar água e se recompor do esforço físico feito, nos fins de ensaios...

Tinha aquele vídeo em especifico, um dele claramente cansado deitado no chão com a cabeça encostada na perna de um colega igualmente cansado. Peito subindo e descendo devido a força que fazia para buscar ar. Cabelo loiro amarrado para trás num rabinho de cavalo lindo demais pra ser verdade. A câmera se aproxima cada vez mais dos dois esparramados no chão e pude ver melhor sua testa completamente molhada de suor, sua boca levemente pálida e os olhos fechados como se não dessem conta de se abrir por nada.

"Sai daqui."

Ele murmura para a pessoa que o está filmando e logo depois sorri manso, apenas levantando um pouco os cantos dos lábios irresistíveis.

Não sei quanto tempo fiquei assistindo aquele vídeo especifico. As vezes eu parava de assistir em looping e ia para outros posts, mas logo depois voltava para ele e ficava por mais vários minutos vendo Jimin murmurar um pedido simples que, por sorte minha, não foi respeitado.

Já eram quase 3 horas da manhã quando voltei para o perfil do pai de Jimin. Queria saber o que mais ele fazia além de dançar. Com quem mais ele andava?

Na data de aniversário mais recente de Jimin havia outro post com um texto imenso dizendo sobre como ter um filho como ele, fazia todas as dificuldades de estar vivo valerem a pena de serem transpostas. Uma das declarações de amor mais bonitas que já li. E na sequencia de fotos, pude ver que seu cabelo estava escuro na cor natural, mas maior do que na época que éramos oficialmente um do outro. Seu sorriso era exatamente como eu me lembrava e a foto onde havia somente seu rosto bonito focado, fora o suficiente para me fazer chorar novamente de saudade.

Como pode uma pessoa só transpor a barreira do tempo e espaço para trazer tantos sentimentos misturados à alguém que não o vê há quase 9 anos? Como pode uma pessoa só marcar outra com tanta profundidade quanto Jimin me marcou? Como pode eu ainda ser tão fácil para ele sem nem ao menos saber se ele se lembra de mim?

Sequei minhas lágrimas novamente e continuei arrastando as fotos daquela sequencia em específico. Em uma, ele estava abraçando seu pai com tanto amor que dava pra sentir a explosão de sentimentos através daquela imagem. Na seguinte estava abraçando a mãe com um pouco menos de intimidade, mas ainda muito mais amoroso que a maioria das famílias que conheço – inclusive a minha. Na outra estava com um grupo de amigos que o levantavam no colo e o faziam gargalhar, e eu fui capaz de ouvir o som mágico que era a sua risada em meio ao barulho que aquelas pessoas faziam para demonstrar como ele era especial. Essa me fez sorrir e sentir um quentinho no peito.

Era gostoso saber que meu menino cresceu rodeado de tanto amor e alegria. Vê-lo feliz em volta de amigos – que inclusive reconheci alguns dos vídeos no perfil da equipe de dança – que o levantavam nos braços e o faziam rir daquele jeito, me fez lembrar do meu grupo de amigos fieis que, mesmo nos momentos mais baixos da minha vida, estiveram comigo, cuidando de mim, as vezes até me dando comida na boca. Em minha mente, agradeci por aqueles amigos de Jimin existirem.

E a ultima foto daquele carrossel de imagens era dele recebendo um beijo na bochecha um tanto quanto íntimo de um tal de @Sungh0o_w4n. Sua bochechinha amassada com a pressão dos lábios do outro, seu olhinho fechado com força, seu sorrisinho apaixonado...

Eu pude ouvir meu mundo desabar sobre mim. Meu corpo congelou e eu senti o amargo do ciúmes e do desconforto me invadir. Relutei por vários minutos para não entrar no perfil marcado ali, pois sabia que iria me arrepender amargamente, mas mesmo assim, cliquei naquele @ e chorei novamente.

A foto mais recente era de dois dias atrás e era com Park Jimin. Eles estavam afastados de onde a câmera estava, pareciam inconscientes de que alguém os fotografava naquele momento íntimo. Jimin estava de costas para o rapaz um palmo mais alto que ele, e o mesmo o abraçava por trás. Como cenário, uma praia belíssima num dia de céu sem nuvens e mar claro. A areia também clara, parecia de grãos mais grossos, quase pedrinhas. Ambos usavam shorts e uma camiseta leve. Pela posição das sombras, parecia que o Sol estava perto de se pôr.

"Nós. Foto tirada por @Rkive"

Não consegui mais parar nem de chorar, nem de ver cada uma das fotos postadas ali. Sunghoo era um homem bonito, com músculos levemente desenhados, rosto agradável e sorriso simpático. Seus olhos e cabelos muito escuros permaneciam os mesmos, não importava quantas fotos me levassem para seu passado. Aparentemente ele gostava muito de restaurantes, praias e livros, o que passava um ar refinado, calmo e inteligente para a imagem que sustentava nas redes, e algumas fotos de regata na academia mostravam como ele mantinha o corpo enxuto. Será que ele era assim mesmo na vida real?

Percebi que pelo menos uma vez por mês, ele postava alguma foto de Jimin ou com Jimin no seu perfil. As legendas eram sempre simples em qualquer uma delas.

"Amor. Foto tirada por @Rkive"

"Meu cumplice."

"Te amo! Foto tirada por @jin"

"Pé de valsa."

"O biquinho mais fofo"

"Te pertenço"

"Sobre felicidade. Foto tirada por @Rkive"

"O melhor."

...

Até chegar num momento em que não haviam mais fotos de Jimin, passei por um arquivo de mais de 1 ano e meio, e fiquei chocado em quantas fotos alguém era capaz de postar nesse período que nem é tão longo assim. Passei tanto tempo olhando todo aquele acervo que notei alguns detalhes interessantes no meu ponto de vista já bastante obcecado.

Jimin sorria em quase todas as fotos, mesmo nas tiradas em momentos de distração, o que só podia significar que ele era feliz. Eles tomavam sorvete juntos enquanto estavam sentados confortavelmente num sofá escuro e bonito, algo registrado em mais do que 4 fotos em períodos diversos. Eles viajavam bastante por diferentes lugares com muita natureza e tiravam fotos dando selinhos ou beijos no rosto nesses mesmos lugares. Eles gostavam de combinar as gravatas e camisas quando usavam terno juntos. Compraram o mesmo boné, dividiam peças de roupa que ficavam maiores – e mais bonitas - em Jimin. Eles iam à festas de família juntos, mas as vezes saiam separadamente, já que haviam fotos de Sunghoo em baladas e restaurantes sem a presença de Jimin registrada. E usavam emojis sem sentido algum para quem não sabia do contexto assim como eu, mas era perceptível que a abelha, o macaquinho, a fada e o pintinho eram como uma piada interna.

Mas havia aquela mudança de comportamento... Eram coisas sutis que me deixaram menos crente de que aquele era um relacionamento em seu ápice do amor, e esse pensamento talvez tenha sido o maior gancho para a minha completa derrocada futura.

Indo de trás pra frente nas postagens, pude notar com mais clareza como Jimin curtia e comentava todas as fotos de Sunghoo, mesmo que para deixar apenas um emoji qualquer, mesmo nas fotos em que não estava presente. Era sempre um "lindo, hein?" ou "esse livro é ótimo!" ou mesmo "que isso no seu prato?". Com o tempo, ele passou a deixar comentários mais esporádicos, mas ainda frequentes, e todos carregavam o mesmo tom meio brincalhão, meio opinativo. Mais para a metade dos posts, as coisas mudaram. Os comentários voltaram a ser em praticamente todas as fotos que Sunghoo postava e tinham sempre uma conotação amorosa. Coisas como "amei tanto nosso tempo juntos", "você me faz tão bem", "te amo, xun", "meu lindo". Aos poucos, os comentários foram diminuindo novamente de frequência nas fotos, as palavras também foram diminuindo até virarem apenas emojis de coração, abelha e fada, prontamente respondidos – coisa que não acontecia antes – com outros emojis de coração, macaco e pintinho.

Nas mais recentes, Jimin apenas comentava e curtia as que ele aparecia e era marcado, pois a foto bonita dos dois juntos num jantar aparentemente romântico onde não havia marcação de seu perfil, ele não curtiu nem comentou.

Quando parei de analisar toda a vida de Jimin pela perspectiva alheia e finalmente bloqueei a tela do meu celular, já eram mais de 8 horas da manhã. Meu corpo estava exausto de tanta tensão, meus olhos inchados de choro precisavam de descanso, mas eu só conseguia teorizar cada vez mais sobre o relacionamento atual de Jimin. Será que ele era feliz? Será que Sunghoo fazia bem a ele? Por que aquela mudança de comportamento nas redes sociais? Será que minha teoria de distanciamento dentro do relacionamento é real, ou Jimin apenas parou de ser um escravo das mídias e começou a viver mais seus momentos íntimos com seu namorado sem precisar dar satisfação à ninguém?

"Seria tudo tão mais fácil se ele mantivesse o perfil aberto..."

Foi o que disse numa sessão com minha psicóloga, após assumir que havia virado noites olhando perfis de pessoas próximas à Jimin como se fosse um maníaco perseguidor sem noção alguma do quão, no mínimo, esquisito era o que eu estava fazendo.

"Não foi pra isso que perguntei se já havia procurado Jimin nas redes sociais."

Foi o que ela me respondeu depois de quase 40 minutos de monólogo acerca das minhas teorias sobre seu relacionamento. Então ela, pacientemente, me mostrou como eu estava agindo de forma compulsiva com alguém que seguiu a vida, assim como eu deveria seguir a minha. Ele está bem, protegido, envolto de amor e permanece na Europa. Não vi nenhuma imagem que mostre que ele voltou para a Coreia em nenhum dos vários momentos que passei stalkeando sua vida através do perfil dos outros. Isso deveria ser o suficiente para mim se eu realmente o amasse pelo que ele é e não pelas possibilidades que eu criei na minha cabeça do que poderíamos ser se tudo fosse diferente.

Teoricamente concordei, mas na prática, eu sentia necessidade física e psicológica de futricar coisas que eu já vi e revi milhões de vezes apenas para construir um presente onde eu saiba exatamente onde e como Jimin está. Podia sentir meus amigos não aguentando mais eu falar sobre como faziam alguns dias desde a ultima vez que o namorado de Jimin postou algo sobre eles, ou sobre como os novos amigos de Jimin o chamavam de Jiminnie e se referiam à ele como pintinho – o que se você reparar bem, fazia total sentido. Podia sentir a vontade que eles tinham de arrancar o celular da minha mão todas as vezes que sumia da conversa e dos eventos apenas para checar se alguém postou algo novo de Jimin nas redes sociais.

Meus dias se resumiam a Jimin com tanta facilidade e eu já estava tão absorto naquela verdade inventada de que seu relacionamento estava no fim e que eu finalmente teria a minha chance onde o Universo nos uniria, que quando vi a ultima postagem do pai de Jimin o parabenizando pelo noivado com Sunghoo, eu ruí.

Estava no centro de Seoul, mais especificamente no melhor karaokê da cidade com meu grupo de amigos, quando senti mais uma das súbitas vontades de verificar o instagram do pai do homem que sempre amei. Senti toda e qualquer felicidade do meu corpo sumir na mesma hora. Os sons à minha volta desapareceram, assim como as pessoas. O celular aumentou seu peso em 100 vezes, a ponto de eu não ter mais forças para segurá-lo. Pensei em Taemin imediatamente e pensei que ele foi o máximo que poderia ter da minha alma gêmea.

Não percebi em que horas me levantaram do sofá em que estava sentado, nem como ou quando me arrastaram para fora do estabelecimento cheio de luzes neon roxas e rosas. Não soube quem pagou ou se ao menos pagaram a minha comanda, como entramos num carro ou que carro era. Não me recordo em como cheguei na casa de Hoseok e Yoongi, quando deitei na cama do quarto de hóspedes, se levantei para ir ao banheiro ou comer...

Via o tempo passar pela janela, via pessoas se aproximarem e se afastarem, era capaz de sentir um pouco das mudanças de temperatura de quando o Sol dava lugar à Lua. Mas demorou quase 20 dias para que eu voltasse a escutar um pouco dos sons que eram feitos a minha volta. Mas 7 dias para que eu visse quem eram as pessoas que estavam ali comigo se aproximando e se afastando da minha vista. Mais 5 dias pra eu emitir um novo som pedindo desculpas pelo trabalho que dei aos meus amigos e mais 1 ano para finalmente voltar para as redes sociais que, em algum momento desse processo, talvez lá no começo, foram excluídas e desinstaladas do meu celular.

Somente ali, depois de mais ou menos 10 anos afastado de Jimin - 9 sem efetivamente falar com ele - percebi que eu não cumpri com a promessa que fiz para ele. Eu não vivi enquanto o esperava, eu esperava enquanto tentava viver mais um dia. Precisei desse tempo todo para então viver.

Abri uma empresa de Arquitetura em sociedade com meus amigos de longa data, Choi Wooshik e Park Seojon, como você bem sabe. Ambos fizeram Arquitetura comigo e somos amigos desde a faculdade. Eles viveram todas as fases que descrevi aqui e estiveram ao meu lado enquanto me levantava pela segunda vez. Eles me apoiaram quando eu passei a me expressar mais artisticamente e, por isso, me deixaram mais livre para criar ao invés de focar tanto na parte burocrática e financeira da estrutura empresarial. Claro que eu estava e ainda estou envolvido e ciente de tudo, não precisa me dar nenhuma bronca relacionada a isso depois, mas ainda assim, é um envolvimento restrito ao necessário.

Logo nossa empresa cresceu e contratamos Ha Jiwon para fazer parte da equipe. Seu foco era o paisagismo, área em que tinha muita experiencia dentro e fora do país. Foi uma excelente escolha, pois ela tinha referências que nós não tínhamos. Por saber falar inglês, japonês e francês graças ao tempo que morou na Inglaterra, no Japão e na França, ela também nos ajudou bastante a alcançar novas perspectivas e prospectar clientes que nem imaginávamos, como o artista plástico francês que decidiu reformar um duplex em Seoul para transformá-lo em estúdio de pintura com um lar em cima. Ou o cantor Japonês que pagou nossa locomoção para fazermos uma casa térrea para morar quando sua filha se casasse, deixando a casa antiga para ela e o esposo construírem a própria família dentro das memórias que ela mesma tinha desde criança.

Foram anos de felicidade profissional e descobertas pessoais, e arrisco dizer que foram os melhores anos que pude me oferecer na realidade em que vivia. Me deixei viver o máximo que pude até fazer com que o fato de voltar para uma casa vazia e silenciosa no final do dia não me machucasse mais. Entendi que eu não queria mais me abrir sentimentalmente daquele jeito e encontrei conforto em mim mesmo. Saia com alguns caras e cheguei a ficar mais sério por 3 meses com um rapaz 8 anos mais novo que eu, mas nada que mereça uma história detalhada, pois tudo sempre se resumiu ao sexo que ele me proporcionava, e já me privo aqui de pedir desculpas por tocar nesse tema novamente por entender que você já é uma adulta bem resolvida. Era selvagem e ardiloso, potente, mas não passava disso. Não conversávamos, ele não dormia em minha casa, eu não ia para a casa dele, não saíamos para outros lugares além de hotéis, motéis e restaurantes. Era tudo sempre sobre comida em seus mais variados sentidos.

Também fiquei com uma mulher nesse meio tempo e consigo imaginar a sua cara de surpresa ao saber disso. Foi interessante, mas não fez muito minha cabeça e não era realmente o que eu gostava, deixando um total de zero pessoas surpresas com isso. Mesmo assim, foi uma boa experiencia para um fim de noite após mais uma festa de rico com pouca comida e muito álcool de alta qualidade.

Foi nesse tempo que eu comecei a construir um amor que eu não senti em nenhum outro momento da minha vida: o meu amor próprio. E foi o relacionamento mais intenso que eu vivi em todos os meus mais de 30 anos. Me levei ao parque de diversões, como fazia com Jungkook. Me levei para conhecer novos cafés, como fazia com Taemin. Me levei em exposições de arte e ao teatro, como sempre sonhei fazer com Jimin. Me levei ao cinema, ao shopping, à Jeju. Me levei pra Tokio, Amsterdã, São Paulo, Los Angeles, Honolulu, Viena, Sidney, Genebra e Zurique. Me dei um cachorro e o chamei de Yeotan. Me tornei o tio preferido dos filhos de Hoseok e Yoongi, assim como da filha de Wooshik e Jiwon, que não se casaram, mas vivem juntos desde que engravidaram sem planejamento.

E foi perto do meu aniversário de 35 anos que eu me dei de presente um show em homenagem a Chet Baker, um dos meus cantores de Jazz preferidos. Aproveito esse momento para pedir que se dê o prazer de escutar algumas de suas boas músicas, você não vai se arrepender.

Decidi me arrumar inteiro como se estivesse indo à um encontro com alguém especial. Passei meu melhor perfume, vesti minha melhor roupa, meus melhores sapatos, usei minhas joias preferidas e, antes de sair de casa, tomei meu drink favorito e chamei um uber black para me levar com toda a pompa que eu pudesse me oferecer até o local do evento, que era num hotel muito caro e bonito em Nova York.

Na entrada haviam alguns fotógrafos esperando para fotografar algumas pessoas famosas que estariam no evento. Percebi alguns flashs quando passei e isso elevou minha auto estima, que já estava lá no alto. O recepcionista simpático me guiou até o auditório onde aconteceria o show e me deixou para ser guiado em direção à minha mesa pelas mãos suaves de uma mulher bonita demais para não estar nas telas de cinema.

Me sentei confortavelmente na cadeira bonita e larga, pedi um drink apenas para me deixar com um ar mais sério e elegante mesmo sem nenhum interesse em bebê-lo, e apreciei o lugar, os barulhos pré show, as pessoas se aconchegando em seus lugares e fazendo seus pedidos, casais se beijando e...

"Kim Taehyung?"

A voz veio de um ponto logo atrás de mim. Não era alta, então estava próxima. O cheiro que ela carregava era nostálgico mesmo sendo completamente novo aos meus sentidos. Eu arrepiei da cabeça aos pés e soube antes mesmo de me virar que o Universo finalmente cumpriu seu papel.

"Park Jimin."

Eu disse encarando aquele homem em pé a minha frente. Ele usava um terno azul bonito. Os cabelos estavam perfeitamente penteados para trás com uma mecha propositalmente caindo em sua testa lisinha. Seus olhos, agora arregalados, brilhavam tanto que poderiam iluminar todo aquele ambiente meio escuro. O rosto bonito de pele lisa era enfeitado por uma leve maquiagem que ressaltava ainda mais a sua beleza natural, o tornando praticamente irresistível.

"O que faz aqui?"

Perguntei com a voz baixa, sem saber exatamente como reagir aquele momento. Assisti um sorriso se formar em seus lábios avermelhados como se estivesse em câmera lenta, então ele apontou para o lugar vago ao meu lado, em específico para o papelzinho em cima da mesa com seu nome escrito nele.

Meu cérebro demorou a fazer as sinapses necessárias para que eu finalmente entendesse que, coincidentemente, nós havíamos comprado um ingresso para um evento que estava lotado e, por tanto, pessoas desconhecidas seriam arranjadas em uma mesma mesa para que todos coubessem naquele espaço limitado. Coincidentemente, Jimin comprou no máximo 3 ingressos, pois aquela mesa era para 4 pessoas, e nós estaríamos ali, juntos, do começo ao fim do show que eu me dei de presente.

Será que o universo decidiu me presentear também, ou esse era um teste para saber se eu realmente estava pronto para viver num mundo onde Park Jimin não era mais uma possibilidade para mim?

"Posso me sentar?"

Ele pergunta após alguns minutos de silencio que estava usando para compreender tudo e, em resposta, eu me levantei e me curvei pedindo para que o mesmo se sentasse, por favor.

"Cadê seu marido?"

A frase foi empurrada para fora da minha boca sem que eu me desse conta de que era aquilo que iria sair de mim enquanto eu voltava a me sentar, e ele franziu a testa antes de perguntar:

"Que marido?"

A banda que iria homenagear Chet Baker entrou, todos se calaram, inclusive eu e Jimin, eles nos cumprimentaram de lá do palco agradecendo a presença de todos e começaram a primeira música. Mas em nenhum desses momentos eu estava prestando atenção. Meus olhos estavam apenas em Jimin. Na verdade, meu corpo estava todo rotacionado em sua direção, mostrando que eu inteiro estava para Park Jimin naquele momento.

Ele também manteve seus olhos fixos em mim. Sua postura era ereta, mas ele não parecia tenso. Surpreso sim, mas não tenso. Sua íris me fuzilava e eu pude acompanhar o movimento de sua pálpebra abaixando quando ele descia os olhos para analisar meus ombros, braços e mãos dispostos na mesa. Então elas voltaram a se levantar quando seu foco se voltou para o meu rosto.

Ele estava loiro dessa vez. Seu rosto era exatamente do jeito que me lembrava dos vídeos e fotos que vi nas redes sociais. E assim que assisti seu peito subir e descer pesada e lentamente em um suspiro longo, lembrei do vídeo que via sem parar dele cansado, pedindo para quem o gravava sair de perto dele.

"Era pra eu vir com meu pai. Era meu presente de natal pra ele."

"Era?"

"Ele morreu a um mês atrás, dois dias depois de eu comprar o ingresso"

Lágrimas inundaram seus olhos bonitos, um vinco se formou no meio de suas sobrancelhas, suas narinas se abriram um pouco mais como se tivesse buscando auto controle para não se permitir chorar e sua mão delicada, a mesma com a pintinha que eu já não me lembrava em que ponto do dedinho estava, limpou as poucas gotas que conseguiram escapar pelos cantinhos rasgados de seu olho puxado.

"Eu sinto muito..."

E realmente sentia. Lembrei dos textos que lia, das declarações mais lindas do mundo que Jimin recebia de seu pai, dos sorrisos que se ofereciam nas fotos, dos abraços que registravam e postavam, e senti muito pela perda que Jimin teve que lidar em um tempo tão recente.

"Tudo bem. Sinto ele por perto ainda."

Ele confessa o que sente enquanto o trompete, o piano e a bateria inundam aquele lugar com sua harmonia sonora digna de um tributo.

"Que ele tenha um bom show junto com a gente, então"

Digo baixo e cheio de um desejo sincero em cada palavra que libero. Então nos calamos. Nos encaramos. Sorrimos um para o outro e quebramos nossa bolha para vivermos aquele show do jeito que ele merecia ser vivido.

Foi lindo, eletrizante. Jimin passou a beber da bebida que eu ignorava prontamente. As vezes nos olhávamos por longos minutos para então voltarmos a olhar para frente sem dizer mais nada. E assim ficamos até o final do evento.

Quando todos já estavam de pé, aplaudindo a banda que agradecia sem parar pela atenção e carinho, sinto sua mão pequena em meu ombro e a aproximação de seu rosto ao meu para verbalizar a pergunta que eu queria fazer, mas não sabia se podia.

"Estou com fome. Quer sair pra jantar em algum lugar?"

E foi essa a frase que embalou uma das melhores noites da minha vida. Escolhemos um restaurante próximo do hotel e ficamos ali sentados até sermos os últimos a sair. Rimos, choramos e contamos sobre nós dois um para o outro.

Jimin terminou a faculdade e logo entrou numa companhia de dança francesa que odiava estar. Era mal tratado pelos colegas por ser coreano e pequeno, suas habilidades eram sempre questionadas e seu físico era duramente avaliado pelos coreógrafos. Isso gerou nele uma ansiedade muito grande e problemas sérios de auto imagem. Se via completamente diferente de como realmente era e isso teve consequências severas em sua mente. Por isso, seu pai o levou de volta para a Itália e lá cuidou do filho que, sem demora, arranjou uma nova equipe de dança que não era tão famosa, mas era muito melhor que a anterior. Fez amigos para uma vida toda naquele grupo enquanto, da França, não levou mais do que alguns poucos colegas. Damien era um deles e foi ele quem apresentou seu ex noivo, o ultimo relacionamento longo que teve – algo que eu sabia, mas decidi por bem fingir que não.

"Eu sabia que não daria certo. Nossas almas se gostavam, mas não eram compatíveis."

E então, com aquela frase curta, eu entendi o porque não durou mais com as outras pessoas que passaram em minha vida. Não importa quanto eu sentisse, nem quanto o outro fizesse, nossas almas não eram compatíveis. Se encontravam, se gostavam, mas não eram compatíveis.

Ele me contou fofocas sobre o relacionamento conturbado de Namjoon e Seokjin, amigos que fez na pequena colônia coreana que descobriu na Itália, e isso me fez contar sobre o relacionamento não tão bom assim de Wooshik e Jiwon, que se mantinham juntos apenas por causa da filha e do trabalho. E enquanto falávamos sobre isso, eu quis perguntar sobre mais detalhes acerca do noivado que teve. Por que terminou? O que aconteceu exatamente? Mas eu me contive e seguimos falando sobre nossos sobrinhos de coração.

Finalmente falamos sobre nossas casas. Meu apartamento em Seoul, de onde eu apenas sai para viagens rápidas, e a casa pequena de Jimin na Itália, onde ele se estabeleceu como coreógrafo e professor na mesma escola de dança que o abraçou quando voltou ao país.

"Não pensa em voltar pra Coreia?"

Precisei perguntar. E a resposta me surpreendeu completamente.

"Penso nisso pelo menos uma vez no mês desde que me mudei pra Itália"

"Minha cama é de casal, se o problema for moradia."

Não sei de onde isso saiu, nem como isso saiu, ou quando consegui coragem pra falar algo desse tipo para alguém tão imponente e importante quanto Park Jimin, mas disse. Escolhi culpar o álcool, mas talvez só tenha me tornado ousado demais ao notar que ele sorria e me tocava de um jeito sedutor, como se estivesse flertando. E mesmo assustado com minha própria fala, não senti um segundo de arrependimento do que falei, pois isso arrancou a risada mais gostosa de Jimin, que se jogou para frente e segurou minha mão por cima da mesa, e depois se jogou para trás até escorregar um pouquinho na cadeira. Assim que seu fôlego foi retomado, ele me olha nos olhos de um jeito que me arrepia todos os pelos do corpo só de lembrar, e diz:

"Bom saber."

Infelizmente não nos encontramos mais naquele ano que estava no fim, nem pude ver Park no dia do meu aniversário, pois o voo de Jimin para a Itália era no outro dia de manhã e eu precisaria ficar ali nos EUA até o final de Janeiro por motivos de trabalho. Mesmo assim, nós voltamos a nos falar por mensagens. Começou com mensagens esporádicas apenas para mostrar que pensávamos um no outro de vez em quando – eu pensava o tempo todo novamente, mas já não era doentio como antes.

Bae ficou em alerta desde o dia que contei sobre nosso reencontro. Meus amigos também ficaram cabreiros em como eu reagiria se nos afastássemos novamente. Mas eu estava bem. Eu sabia que eu estava bem assim como sabia que tudo ficaria bem, não importa o que acontecesse no final. Eu confiava no Universo que pôs Jimin na mesma mesa que eu, sentado ao meu lado, num evento longe de nossas casas e completamente fora das possibilidades naturais de nos encontrarmos. Aquilo só podia ser algo místico. Algo de almas gêmeas, talvez. E se não fosse, eu sabia que ficaria bem.

No dia do meu aniversário, ele me desejou parabéns. No final do ano, nos desejamos feliz ano novo e repetimos o mesmo ato no Seollal, e entre essas duas datas foram algumas fotos aleatórias ou comentários banais sobre o dia a dia que nos reconectava aos poucos. No dia da minha volta para casa, ele me desejou boa viagem e pediu que eu avisasse quando chegasse, algo que eu fiz, mas já era tarde da noite na Itália quando isso aconteceu e, por isso, ele só me respondeu horas depois da minha aterrissagem.

Em fevereiro nossas mensagens ocasionais passaram a ser mais frequentes a ponto de, no final desse mês, já estarmos nos desejando bom dia todos dias, mesmo que isso não gerasse uma conversa longa pelas próximas 24 horas.

"Preciso te mostrar uma coisa. Posso te ligar?"

Foi a mensagem que ele me mandou em 2 de março, e assim fizemos nossa primeira chamada de vídeo. Era um domingo, não tínhamos trabalho e estávamos ambos em casa, então passamos facilmente 5 horas conversando, mostrando a casa um pro outro, nossos lugares preferidos, móveis preferidos, Yeotan – que roubou a cena ao mostrar como era lindo dando a patinha e me dando beijinhos no nariz – e tudo mais o que fosse possível conversar e mostrar até que precisássemos desligar.

Depois desse dia, passamos março, abril e maio fazendo pelo menos duas ligações de vídeo por mês e trocando não apenas mensagens de "bom dia" como também de "boa noite". Em junho minha agenda de trabalho ficou muito intensa, então não conseguimos conversar direito como estávamos fazendo antes. Porém isso nos deus uma ligação no ambiente de trabalho com direito a apresentar meus sócios e ficarmos conversando sobre nossos clientes e projetos futuros com um Park Jimin extremamente interessado em tudo o que falávamos.

"Vocês são como uma família mesmo, né?"

Foi a mensagem que ele me enviou poucas horas depois do fim daquela ligação em especifico.

Eu: "Impossível não ser, já que estão comigo desde a faculdade."

Jimin: "Fico feliz que tenha feito bons amigos."

Eu: "Fico feliz por termos nos reencontrado."

Jimin: "Eu disse que o universo ia nos unir de novo, lembra?"

Eu lembro. Lembro como se fosse ontem. Lembro com todo o meu coração. Lembro do medo que senti por não acreditar verdadeiramente nessas palavras e em como me boicotei por querer que essa união acontecesse apenas no meu tempo. Lembro de cair e levantar e cair e levantar de novo até finalmente me firmar nos dois pés e seguir em frente sabendo que, se fosse pra ser, isso iria acontecer no momento certo. Mas eu não respondi nada. Apenas li e reli aquela mensagem, pois não falávamos muito do – nosso – passado nem de nada envolvendo possíveis – claros - sentimentos entre nós, então me permiti ficar surpreso por descobrir que ele lembrava assim como eu.

"É porque nossas almas se encaixam. Somos almas gêmeas, Tae."

Sim, Jimin. Somos almas gêmeas. Com certeza somos almas gêmeas. Somos dois seres completos em um só sentimento. E é por isso que eu tive coragem de repetir:

"Minha cama é de casal, se o problema for moradia."

Ele não me respondeu àquela mensagem mesmo me dando boa noite mais tarde quando fomos nos deitar, e nem voltou no assunto durante o restante do mês de junho e todo o mês de julho. Eu não forcei a barra. Não sentia que era hora de me impor em relação a algo que não tinha perspectivas de mudar. Estava bem com a relação de amizade que mantínhamos, mesmo que meus amigos dissessem que parecia bastante um namoro não assumido à distancia. Minha psicóloga me ajudava a entender a realidade da situação em que estava vivendo com o cara que eu claramente amava muito ainda hoje, mas já não era algo obsessivo, não era desesperado nem doloroso. Era um amor amistoso, completo em suas limitações mesmo sabendo que teria espaço para crescer se me fosse permitido aumentar sua área de cobertura. Me orgulhava de não ter pensado em largar minha carreira, família e amigos como sei que faria se nosso encontro tivesse acontecido alguns anos antes. Me orgulhava de como estava lidando com a situação e me orgulhava mais ainda de amar alguém que realmente se importa com isso.

"Você está confortável mesmo?"

"Você tem certeza que não estou te atrapalhando de alguma forma?"

"Você está bem com esse tipo de assunto?"

"Taetae, você sabe que pode por o limite que quiser que eu vou entender, né?"

Em agosto e setembro as coisas deram uma leve amenizada para o meu lado enquanto a carga de trabalho dele duplicou. Muito treino, muitas aulas, muitos testes e muito cansaço. Tanto cansaço a ponto de dormir numa chamada de vídeo comigo.

Outubro foi seu aniversário e minha primeira vez falando com seus amigos. Organizamos uma festa surpresa para Jimin onde meu papel era distrair o menor para que pudessem planejar tudo sem que ele desconfiasse de nada. E eu também estive presente: Namjoon segurava um iPad com minha cara aparecendo numa chamada de vídeo na hora de cantar o parabéns.

Em novembro, mais precisamente dia 22 daquele mês exaustivo de tanto trabalho, chego em casa e meu porteiro me entrega alguns envelopes e uma caixa que chegaram do correio. Agradeço, entro no elevador do meu prédio e aperto o meu andar. Enquanto espero dentro daquela caixa metálica, sinto uma coisa diferente, como se não estivesse segurando apenas cartas normais para seguir minha vida naquele dia normal. Pensei imediatamente em Jimin e em como seria ótimo entrar em casa, tomar meu banho e finalmente fazer uma ligação de vídeo para dar uma desestressada, mas era meio de semana, então a chance de ele não poder me atender era muito grande. Só me restava então abrir a porta do meu apartamento e mandar uma mensagem qualquer, provavelmente avisando que eu finalmente poderia descansar mesmo que ele não tenha me perguntado.

Ah, como eu me enganei... Sentado no sofá sem retirar os calçados e fazendo carinho em um Yeotan carente em meu colo, vejo que tem um envelope branco no meio das minhas entregas cujo remetente é Park Jimin.

A primeira carta em mais de 16 anos. Todos aqueles meses de conversa não tinham o mesmo peso que aquela carta. Meu coração quase parou de bater, ou batia com uma velocidade tão alta que a sensação era essa. Minhas pernas ficaram fracas e eu senti medo. Foi como se um gatilho fosse ativado em minha cabeça e eu pensei que, novamente, receberia a noticia do nosso afastamento por meio de um papel com sua caligrafia.

Precisei me levantar do sofá, pois sentia que aquela compressão nos meus órgãos por estar dobrado sobre meu próprio corpo estava atrapalhando ainda mais a minha respiração de se regular, andei de um lado para o outro por um tempo e fui pegar a garrafa de água na minha geladeira para beber direto dela, pois a sede era tanta que não havia tempo para copos. Mas não era água que eu queria. Eu precisava de álcool e Hoseok.

- Pra você tá me ligando é porque a coisa é séria. Desembucha.

- Jimin me mandou uma carta. Tem como vir? Estou em casa.

- Chego em 20 minutos. Minho vai comigo, porque Yoongi vai trabalhar até mais tarde hoje.

- Pode trazer Hankyul também, se precisar.

- Ele vai dormir na casa de uns amiguinhos hoje

- Tão grandinho...

- E insuportável. To vendendo por 2 wons, se quiser

- Yeotan ia amar

Ele riu, mas eu não consegui. Não estava no clima.

- O que tá sentindo?

- Só um pouco de ansiedade. Pode vir com calma. Vou esperar vocês.

- Ta bom. 20 minutos marcados no relógio.

Enquanto Hoseok não chegava, minha cabeça passava e repassava todas as conversas que tive com Jimin desde a última vez em que ele disse que somos almas gêmeas. No começo, achei estranho que pouco ou quase nada havia mudado. As coisas se mantiveram tão em paz apesar de claramente evitarmos tocar no assunto, que não fazia sentido algum ele me dar outro pé na bunda. E por que diabos eu insistia em acreditar que era tudo sobre término? Eu estou tão traumatizado assim? Eu não confio em Jimin? Ou eu não acredito mais em mim? Será que meu processo em busca do meu auto amor era verdadeiro no final das contas, ou eu só estava mascarando o desejo imenso de ter aquele homem de volta pra mim? Eu sou uma farsa? Minha psicóloga é uma farsa? Jimin jamais seria uma farsa. Ou seria?

10 minutos atrasados, Hoseok e meu sobrinho estavam na minha porta cheios de abraços pra distribuir. Notando minha tensão clara porém controlada, Hoseok tratou logo de tirar da bolsa o Nintendo, o celular e os fones de ouvido para entregar ao filho, o guiou até meu quarto junto com Yeotan que logo grudou nele assim que chegaram - como sempre fazia quando estava perto de criança - fechou a porta e voltou para mim com os braços abertos para mais um abraço apertado.

"Álcool agora ou depois?"

"Depois."

Eu tento ser firme e manter minha compostura. Não podia entrar num buraco escuro agora. Não permitiria que isso acontecesse comigo novamente, pelo menos não sem um excelente motivo para tal. Por isso, peguei o envelope e, num rompante de coragem, rasguei a parte de cima dele para retirar seu conteúdo. Eram 2 folhas de puro Hangul bem feito numa tinta preta com um bilhete amarelo anexado na primeira página. Respirei fundo e comecei a leitura pelo bilhete em voz alta, passando lentamente os olhos em cada uma das palavras ali desenhadas.

"Já faz um tempo que não nos enviamos cartas e eu sinto falta disso, mas espero que não se importe que esta não seja pra você. Apenas peço que leia e me ligue depois para podermos conversar.

De sua alma gêmea"

Minhas lágrimas atrapalhavam bastante na leitura, por isso passei todas as folhas para que Hoseok continuasse a ler em voz alta, mas suas lágrimas também começaram a rolar quando viu para quem era a carta em questão.

"Papai, que saudade eu sinto de você.

Sinto saudade da sua presença tão instintiva em meus dias. Das suas visitas à minha casa, do seu jeitinho de reorganizar o armário do banheiro e bagunçar os da cozinha. Do cheiro do seu café com uma pitada de canela para trazer mais prosperidade ao meu dia. Da sua mão carinhosa arrumando meu cabelo para frente do rosto, dizendo que assim fico com mais cara do seu menininho. E eu sinto mais falta ainda das palavras que você sempre tinha na ponta da língua para me levar ao mundo dos sonhos.

Mas você se foi tão de repente... As vezes parece que você só foi dormir e se esqueceu de acordar. E então me lembro do enterro, dos documentos que precisei assinar, do caixão descendo ao lado de onde está o da mamãe, e compreendo que você não vai conseguir estar aqui para viver junto comigo as coisas boas que estão acontecendo.

Por isso escrevo essa carta. Para conseguir materializar de alguma forma, a nossa troca que sempre foi tão mutua. Deixo aqui registrado o meu amor por você, que sempre me amou de volta. Deixo minha gratidão por ter você comigo por tantos anos bons. E deixo meu perdão por tudo o que aconteceu comigo e que você se culpava.

Você não teve culpa de precisarmos fugir da Coreia para nos proteger de sua família. Eles não são você, papai, mesmo que tenham te criado. Você é o tiro fora da curva, a ovelha desgarrada que deu certo, e foram as suas decisões de ficar com minha mãe, me apoiar nas minhas escolhas e nos amar por quem nós somos, que me ensinaram a ser corajoso e forte.

Você também não tem culpa por eu escolher ficar na Itália com você mesmo podendo voltar para o lugar que sinto falta. Eu escolhi estar com você porque você escolheu estar comigo, e essa decisão foi a melhor que fiz na minha vida. Você não me prendeu, papai, então não se culpe mais por isso.

Talvez você tenha um pouco de culpa dos meus relacionamentos não terem dado certo, papai. Mas eu te perdoo por isso também. Sei que toda a sua implicância com meus ex namorados vinha do pensamento de que nenhum homem seria bom o suficiente pra mim, mas era um pensamento equivocado. Eu tive a sorte de gostar de pessoas muito boas e gostaria que o senhor tivesse percebido isso antes. Teria evitado muita discussão dentro de casa.

Mas não importa, porque eu preferia ter seus resmungos dizendo "não confio nesse cara" pelos corredores da casa, do que não poder te reapresentar o Tae. Preferia você implicando com o jeito esquisito dele se barbear, ou com o fato dele subir calçado no sofá da casa dele, ou de as vezes ele beber soju no almoço em dia de semana mesmo sabendo que não é forte pra álcool e que isso vai atrapalhar o andamento das suas obrigações diárias.

Você acredita que ele literalmente contrata uma pessoa semanalmente para cuidar apenas das roupas dele, papai? Você diria que isso é um sinal vermelho, me sentaria na minha cama e perguntaria se eu quero ser pai de um homem adulto que não lava as próprias cuecas. Você interromperia nossas ligações, apareceria em algumas chamadas apenas para dar um 'oi' e ficar parado atrás de mim, como um guarda costas de 1,72 que não intimida nem uma mosca.

Mas você não tá aqui. Taehyung não vai ficar sem graça com as suas perguntas capiciosas, nem vai rir comigo das histórias constrangedoras que sempre contava quando bebia. Ele não vai ter o prazer de te chamar de sogro e receber um "sogro só depois de casado" como você fazia com Sunghoo e com Gregoire, assim como também não receberá seu abraço com pulinhos quando está feliz por algo e precisa abraçar todo mundo que está no mesmo cômodo que você.

Como eu queria que estivesse aqui...

Como eu queria poder te ver de novo...

Como eu queria poder dizer olhando nos seus olhos que o sinal de que estou pronto para voltar para a Coreia chegou.

Lembra como passávamos o final do ano acendendo nossas velas brancas para atrair um sinal de que era seguro voltar pra casa? Meu sinal veio. Ele chegou num momento onde infelizmente você já havia partido, meu coração estava machucado e eu me sentia muito sozinho. Dentro de mim, já não havia mais espaço para Coreia ou qualquer um dos sonhos que alimentei ao seu lado, pois você não estaria mais aqui comigo para viver nenhum deles. Porém eu fui para os EUA, fui para o show que era para ser nosso e ele estava lá, sentado na mesma mesa que nós dois estaríamos. Ele desejou que você se divertisse conosco naquele show tão bonito e meu coração chorou tudo o que eu não quis chorar pelos olhos. No final da noite, provavelmente impulsionado pelo álcool que tomamos, disse do jeito dele que eu não estaria só ao voltar para casa, e desde então vem deixando claro que não existe lugar mais seguro para estar do que na Coreia.

Mas você me conhece, papai. Eu sou teimoso e tento ser racional, mesmo sendo um romântico incurável. Tenho medo de interpretar tudo errado e sofrer consequências que não me vejo pronto para encarar. Por isso agi com ambição e pedi por mais um sinal. Novamente me inscrevi na Universidade Nacional de Artes da Coreia para ser professor e me esforcei dia e noite, do jeito que fiz da outra vez, para que desse certo.

E o sinal se confirmou, papai! Eu passei! A vaga é minha e eu estou voltando pra nossa casinha! A essa altura do campeonato, ela provavelmente vai precisar de uma boa reforma, mas eu conheço o escritório de arquitetura perfeito para isso.

Você não vai comigo e isso me desmonta inteirinho, mas eu te levo em minhas memórias e em meu coração. Prometo levar um pedaço seu e outro de mamãe para repousar no jardim da nossa casa e prometo ser a melhor versão de mim mesmo todos os dias, pois foi isso o que o senhor me ensinou.

Eu não vou te decepcionar, papai. Vou continuar sendo seu maior orgulho assim como o senhor sempre foi o meu. Eu prometo.

Até qualquer dia desses, papai.

Te amo e te espero na nossa próxima vida.

Pra sempre, seu filhotinho."

O final da carta chegou e o silêncio mortal se fez presente em minha sala. Como se soubesse o que estava acontecendo, meu celular vibra na mesa de centro, fazendo barulho suficiente para assustar Hoseok e eu. Na tela, brilha o contato de Jimin. Respiro fundo e, olhando para um Hoseok paralisado ao meu lado, atendo o telefone e escuto sua voz bonita falar sem parar sobre algo que aconteceu no seu dia.

Infelizmente minha atenção não está nas suas palavras faladas naquele momento, mas sim nas palavras escritas que acabei de descobrir, e tudo segue rodando em minha frente. Estava me preparando para o término de algo que nem começou, não para um "estou voltando para casa".

Ele finalmente percebe minha falta de reação sonora e questiona o que aconteceu e o porque de eu estar tão quieto.

"Sua carta chegou."

Silêncio. Escuto ele dar alguns passos até se ajeitar em uma superfície de couro - talvez seu sofá velho e escuro. Um sofá que ele provavelmente venderia para voltar para casa. Um sofá que, assim como os outros móveis e eletrodomésticos daquela casa que ele ainda mora, passarão a não o pertencer mais, pois ele não passará o próximo ano na Itália.

"Quando você volta?"

Pergunto quando finalmente consigo me destravar do nervosismo. Hoseok se levanta apenas para acompanhar meu movimento, que nem tinha percebido ter feito. Ele me entrega as folhas, me dá um beijo no ombro e sussurra "estou com Minho se precisar" e se afasta em direção ao meu quarto. Aquele era um diálogo decisivo e ele sabia disso.

"Em 9 dias."

Me sinto fraco e sem rumo, mas de uma forma diferente. Não é a tristeza me consumindo novamente nem o desespero batendo com força em minha mente, é apenas a noção de que esse é um marco importante na minha vida e que o futuro está muito incerto mesmo estando claro. Eu sei o que eu quero e sinto isso em cada molécula do meu corpo, mas aprendi a me proteger desse tipo de certeza para que não entrasse num limbo obscuro outra vez. Por isso, mesmo sabendo, não sabia.

"Fala alguma coisa..."

Ele pede com um fio de voz fraco, aparentemente com medo de algo, provavelmente do meu silêncio ensurdecedor.

"Você ainda tem casa aqui?"

Comecei pelo mais básico, mesmo que na verdade eu quisesse saber porque ele não viria morar logo comigo de uma vez.

"Meus pais nunca venderam a casa que morávamos, lembra dela? Vou me mudar para lá e ingressar como professor em janeiro. Vai ser legal voltar pra casa finalmente, sabe? Tô muito feliz que tudo deu certo apesar de sentir muita falta dos meus pais. Quero construir um lugarzinho para eles no jardim de casa. Como eles foram enterrados aqui na Itália, ficará difícil fazer visitas à eles, então pensei em homenageá-los levando algo deles, enterrando no quintal e fazendo uma espécie de altarzinho. Não um altar, altar, já que não são deuses. Mas poderia ser também, pois pra mim eles são maiores que deus. Isso é blasfêmia? Me lembra a nossa ultima conversa sobre deuses..."

Desde a adolescência, quando Jimin tenta fugir de algum assunto ou está nervoso por conta da timidez que raramente o atinge, ele fala sem parar até deixar minha cabeça completamente confusa de tantos assuntos que dispara por minuto. Sua mente de titânio é capaz de fazer conexões atrás de conexões que transformam uma conversa séria numa curiosidade besta sem a menor dificuldade. Mas dessa vez minha mente está mais organizada em meio a toda a bagunça deixada por sua carta, pois ela só consegue focar na felicidade que sinto em finalmente poder dizer com todas as letras a maior verdade da minha vida, mesmo com medo do que receberia como resposta.

"Eu te amo."

Essa foi a frase responsável por calar Park Jimin. Minha confissão ainda ressonava no ar como um eco vívido pulsando em meu corpo. Seu efeito é quase imediato. Minhas mãos param de tremer, meus olhos derramam lágrimas mais grossas, meu peito se expande e contrai meus pulmões e diafragma, fazendo com que eu respire de forma pesada e precise segurar soluços chorosos para não assustar o menor do outro lado da linha. Em compensação consigo ouvir apenas sua respiração acompanhada de vários suspiros longos. Cheio de amor e movido pela coragem, decido deixar claro o que existe em mim.

"Eu passei todos esses anos te esperando e esperaria por outros mais se fosse necessário. Não foi fácil chegar até aqui respeitando os seus e os meus limites, me atentando para a minha saúde mental e cuidado de mim, mas cheguei e prefiro deixar muito claro que isso aqui é muito mais que um sinal para que volte para a Coreia. Fico feliz por estar chegando em tão pouco tempo, feliz e orgulhoso demais por ter conquistado uma vaga tão importante para você, mas preciso dizer que te amo e te quero do meu lado novamente, como prometemos que seria lá atrás."

"Taetae..."

"Espera, Ji. Deixa eu terminar de falar. Quero saber detalhes da sua fuga da Coreia, da sua estadia em todos os lugares que morou. Das suas dificuldades e alegrias. Dos seus relacionamentos. Quero contar como foi minha vida, chorar e rir da minha história ao seu lado, falar sobre o passado com toda a intensidade que ele merece. E quero isso para poder viver nosso presente juntos. Mas eu preciso saber se você está de acordo com isso ou se estamos em momentos diferentes e esse não é o seu foco por agora."

"Meu foco é meu lar, Tae, e você faz parte dele. Entende isso? Você não é apenas um sinal. Você é meu destino."

Jimin passou o resto de novembro me convencendo de que não era uma brincadeira, pois eu ainda achava difícil acreditar que o Universo realmente nos uniu com tudo dessa forma. Ele dizia com a voz mais doce do mundo, que não era pra eu duvidar dos presentes que o mundo nos dá, principalmente porque isso seria o equivalente a não levar a sério o fato de sermos almas gêmeas, algo que pra ele é inquestionável.

Mas isso acabou no primeiro dia de dezembro, com sua chegada à Coreia. O busquei no aeroporto, o presenteando com um buque de filipêndulas brancas, carregando suas 3 malas grandes e 2 pequenas enquanto ele levava a bolsa e a mochila abarrotada.

"Achei que ia ter mais coisa pra trazer, mas agora só faltam os livros que deixei na casa do Namjoon. Ele vai trazer uma parte quando vier me visitar daqui um mês e o Jin disse que traz o resto junto com os pais dele."

Ele diz com o maior sorriso no rosto enquanto segura meu braço com as duas mãos e caminha ao meu lado, de onde nunca deveria ter saído. Depois eu ficaria verdadeiramente incrédulo em como ele fez caber toda a vida adulta dele em uma viagem só, mas naquele momento eu só conseguia me perguntar se ele não era um acumulador ou algo assim, principalmente ao tentar fazer um tetris que coubesse todas as malas num carro de porte médio.

No final, mesmo cansado e tendo que se sentar de forma desconfortável no banco da frente, ele ria e contava detalhes de sua mudança que ainda não tinha me dito, tagarelando sem parar enquanto gesticulava da forma que dava, demonstrando uma animação fora do comum.

No aeroporto, mesmo nervoso, eu diria com certeza que eu era a pessoa mais animada com a volta dele para casa. No carro eu já acreditava que estávamos empatados no nível de felicidade. Porém na porta da sua antiga nova casa, eu percebi que não havia como bater a alegria de Jimin por pisar os pés na Coreia depois de tantos anos.

Quando anunciei que estávamos nos aproximando do nosso destino, ele sorriu grande e aberto até seus olhos se fecharem completamente, sobrando apenas dois riscos desenhados perfeitamente em seu rosto de bochechas, ponta do nariz e lábios vermelhos. Várias vezes precisei lembrar a mim mesmo que estava dirigindo e não podia simplesmente ficar admirando Jimin como queria. Haveria tempo para isso mais tarde. Mas no sinal vermelho, enquanto ele me olhava e sorria, eu me permiti assistir sua feição diminuir o sorriso perfeito e sua mão coberta por uma luva se levantar e se aproximar do meu rosto para deixar um carinho muito suave em minha bochecha com a ponta dos dedos.

Depois disso, o silêncio foi nosso querido companheiro pelos poucos minutos que ainda restavam de percurso, dando lugar apenas ao suspirar pesado de Jimin quando viu sua casa no final da rua, antes de eu estacionar na frente.

Ele desce do carro sem demora alguma, se atrapalhando um pouco com a porta devido a posição ruim do banco. Isso me garantiu uma risadinha baixa, mas ele só pulou para fora e correu para o portão baixo.

Dias antes, numa chamada de vídeo que fizemos onde eu estava na porta daquela casa vermelha e térrea, Jimin havia me dito que seus pais precisaram forjar a venda da casa para um casal de amigos antes de se mudarem, tudo para que a família dele não tentasse tomar aquele terreno. Deu certo e, para melhorar, esse mesmo casal ajudou na transferência de nome do terreno para Jimin, fazendo com que ele seja o único proprietário a partir de agora.

Esse casal de amigos se mudou assim que a mãe de Jimin morreu, pois o plano era que voltassem para a Coreia para enterrá-la por aqui. Mas em seu testamento, ela deixou claro que queria descansar onde estava, pois ela havia aprendido a encontrar um lar no país estrangeiro. Mesmo com saudade de casa, a decisão foi revertida e pai e filho intensificaram os pedidos de sinais para saber quando voltar para casa.

"Eu sempre soube que meu pai não voltaria, não importa quantos sinais a vida nos desse. Isso porque mamãe escolheu ficar, então ele escolheria também. E eu escolhi junto, pois jamais abandonaria aquele velho superprotetor."

Suas lágrimas caiam sem parar do outro lado da tela e eu chorava junto por não poder o amparar naquela confissão dolorida. De acordo com seus próprios pensamentos, ele voltaria sozinho mesmo que levasse um pedaço de seus pais consigo e construísse um altar digno para eles. Mesmo que ele desenterrasse os dois e os transferisse para algum cemitério na Coreia, ele estaria só nessa jornada, pois ambos escolheram ficar no estrangeiro e morreram por lá.

"Você não está sozinho, Ji."

"Não tô, né?"

Ele funga e limpa o nariz vermelho na camiseta velha que vestia naquela ligação, enquanto eu desistia de limpar o que quer que seja em meu rosto.

E é por isso que vê-lo parado tão próximo do portão porém hesitante em abri-lo, me fez ignorar completamente a necessidade de retirar as malas e o desejo de esperar para que ele quebrasse as barreiras físicas que precisávamos atravessar antes de nos tornarmos o que queríamos ser. Fui até ele sem cautela alguma, apenas com a pressa de me fazer presente e de o lembrar que eu estava ali. O envolvi num abraço por trás, apertando suas costas trêmulas em meu peito cheio de amor para o cobrir.

"Eu tô aqui com você."

Foi o que disse em seu ouvido antes que ele se virasse de frente pra mim dentro do meu abraço, me olhasse no fundo dos olhos, tirasse a luva da mão para então tocar meu rosto com sua palma quentinha mesmo com a dificuldade que o frio e a neve nos impunha, aproximasse seu nariz do meu e ficasse na ponta do pé para que desse altura perfeita para deixar um selar firme e demorado em meus lábios.

O primeiro depois de todos aqueles anos. O primeiro de muitos que ainda viriam. E sem sombra de dúvidas, o mais significativo de todos, pois assim que nos separamos minimamente, ainda com a boca gostosa muito pertinho da minha, ele disse a frase que me fez entender que o Universo não brinca em serviço. Ele pode demorar para cumprir o seu papel dentro da ótica de quem espera, mas ele age perfeitamente dentro do necessário, ensinando como não estamos prontos para nenhuma surpresa da vida, mesmo que ela já tenha sido anunciada vários anos antes, lá na juventude, com a certeza da união de almas que nos acometia de forma muito específica.

"Você é minha família."

Infelizmente o frio era demais e não conseguimos trocar todos os beijos que queríamos do lado de fora. Precisávamos entrar e colocar as malas no ambiente interno para então nos despirmos para o que tanto queríamos viver. Mais infelizmente ainda, nos despir se tornou um tópico fora de cogitação, pois internamente a casa estava muito suja e fria. O sistema de aquecimento havia quebrado por falta de uso e a lareira estava imunda demais para qualquer tentativa romântica de nos aquecermos naquele inverno.

Por isso, demos um jeito muito rápido no antigo quarto de Jimin cheio de mobílias velhas, espalhamos as malas por todo o ambiente, e escolhemos juntos algumas roupas para que ele fosse ficar comigo em minha casa enquanto eu não dava um jeito de arrumar o funcionamento básico daquele lar com cheiro de madeira velha, sujeira, passado e boas histórias.

Mesmo assim, nossa sede por nós não cessou. Se me permite contar esses detalhes, nos beijamos dentro do carro na garagem do prédio até nossos corpos não aguentarem mais as roupas nos separando. Continuamos os beijos no elevador como dois adolescentes cheios de hormônio desesperados um pelo outro. Nos beijamos na porta de casa antes mesmo que eu pudesse abri-la e nos vimos obrigados a interromper nossos amassos para dar atenção e fazer as devidas apresentações entre Jimin e Yeotan.

Foi amor a primeira vista. Jimin tirou seu sapato e casaco, entrando em minha casa timidamente com um Yeotan totalmente rendido em seu colo cheirando toda a extensão de seu rosto. Nos sentamos no sofá e eu o ofereci água, alguns petiscos e, quando Yeotan já estava devidamente abastecido de carinhos, muitos beijos.

Passamos o resto do dia e da noite emaranhados um no outro, ignorando o máximo que pudemos as ligações e mensagens de nossos amigos, pois estávamos ocupados demarcando nosso próprio território em nós mesmos. Somente na manhã seguinte Jimin retornou as ligações, recebendo broncas de seus amigos e me fazendo ficar inteiramente vermelho de vergonha ao deixar aparecer uma das marcas que deixei perto de seu pescoço.

A semana passou rápido com ele habitando minha vida, acordando ao meu lado, indo e vindo pela cidade redescobrindo lugares, mercados, praças congeladas, ruas escorregadias e pessoas empacotadas.

Demorei bem mais do que o necessário para resolver as questões elétricas e de tubulação de sua casa, mas em pouco menos de 3 semanas, já estava tudo pronto e faxinado para que meu amor finalmente se mudasse para seu lar. Mesmo assim, ele só o fez no meio de janeiro, após comemorarmos as festas de fim de ano em casa com meus amigos presentes fisicamente, e seus amigos presentes em chamada de vídeo.

No final de janeiro, Namjoon trouxe a primeira leva de livros que faltavam e, junto deles, também trouxe um amontoado infindável de histórias engraçadas, perguntas encabulantes e conselhos incríveis. Jin e seus pais chegaram 2 semanas depois com o restante das coisas que Jimin havia deixado, findando assim mudança definitiva.

A casa já estava bastante mudada àquela altura. A entrada foi restaurada dentro da medida do possível devido clima frio que ainda fazia. Por dentro, restauramos janelas e portas, pintamos de branco todas as paredes e vendemos todos os móveis que Jimin não queria mais, como camas, sofás e cortinas velhas. Deixamos no lixo próprio os eletrônicos inutilizáveis devido ação do tempo e, esperávamos a chegada de tudo novo que ainda faltava vir.

Em março, o clima ficou melhor e pudemos iniciar o projeto do jardim com minha amiga e sócia. Ela inclusive criou o memorial que Jimin tanto queria num canto especial do jardim, que tinha uma árvore bonita e muito mais antiga que a própria casa.

Em abril, com a primavera dando as caras, Jimin decidiu que quebraria alguns cômodos para aproveitar melhor o espaço, refazendo o banheiro da suíte onde agora dormia e transformando o seu antigo quarto em um estúdio de dança e pintura.

"Eu estou preparando nossa casa para nós."

Foi o que ele disse da forma mais doce possível, me abraçando pelos ombros e me olhando na alma, como ninguém nunca foi capaz de fazer. Ele tinha esse poder absurdo de conversar com o meu interior antes de falar com a minha razão. É por isso que em Julho, quando todas as modificações que Jimin desejava fazer estavam prontas, eu me despedi do meu apartamento e fui morar com ele.

"Bem vindo ao lar, meu amor!"

Ele diz antes mesmo que eu possa atravessar a porta de entrada, se joga em meus braços envolvendo minha cintura com suas pernas e me ataca com beijos úmidos de lágrimas felizes por todo o rosto e pescoço. Só consegui pegar minha mala da entrada da casa quase duas horas depois, quando já estava parcialmente vestido e recobrado da primeira vez que fizemos amor no chão da sala da nossa casa.

Sei que essa informação pode ser demais para você em algum ponto, mas acho importante deixar registrado que não teve um milímetro do teto que nos abriga que não tenha conhecido o amor traduzido em prazer.

Agosto e setembro foi sobre amor, tesão e encaixe. Percebemos que já estávamos familiarizados com nossas discordâncias diárias em questões simples do cotidiano, mas não sabíamos ainda como coexistir no mesmo espaço sem ferir nossas individualidades com nossas determinações. Isso ia desde me acostumar a não andar calçado pela casa com os sapatos sujos, até organizar nossa rotina de limpeza e manutenção da casa.

Não brigávamos, mas haviam discussões longas apresentando argumentos divergentes sobre os mais diversos motivos, mas nada que não ficasse devidamente ajustado até o fim de outubro e começo de novembro.

Nesse mês, resgatamos uma família de gatinhos que estavam abandonados numa caixa de papelão no começo do inverno. E foi assim que nos tornamos pais de um Yeotan como filho mais velho, Sakura como filha mais nova e Nezuko, Tanjiro, Saitama e Nanami como netos.

Em dezembro, nos organizamos para recebermos todos os amigos de Jimin em casa, o que deu muito trabalho e incitou algumas briguinhas chatas. De novo, tudo ficou bem, mas janeiro trouxe o nosso primeiro desafio. Eu precisei viajar para o Japão por conta de trabalho, o que não seria um problema se a uma semana inicial não tivesse se tornado quase um mês e meio.

Jimin sentia que eu estava priorizando apenas o trabalho e não o estava respeitando como namorado ao adiar tantas vezes o meu retorno para casa, enquanto eu sentia que ele estava sendo egoísta ao acreditar que o que ele queria era que eu abandonasse o trabalho e fosse suprir sua saudade de mim.

Conseguimos nos resolver, mas em maio essa situação se repetiu, sendo que dessa vez, eu fiquei cerca de 2 meses fora monitorando a mesma construção que acumulava uma quantidade insalubre de erros por causa da execução porca feita pela equipe de construção contratada pelo cliente.

"Você espera o que, Jimin? Que eu abandone um cliente importante como esse no meio de um furacão de problemas que estão finalmente se resolvendo para poder matar uma saudade egoísta sua? Eu também sinto sua falta, mas não posso ser irresponsável!"

"Não, Taehyung. Não é isso o que eu quero. Eu apenas espero que você me trate com respeito e pare de me fazer caber na sua lista de problemas pra lidar depois."

Nós desligamos aquela ligação brigados um com o outro e fomos dormir as próximas noites com pensamentos demais em nossas cabeças. Jimin acreditava que, para mim, ele se tornara um problema para lidar. Isso não saia de mim e me fazia repensar cada palavra dita desde a primeira viagem.

Conversei muito com Bae sobre essa briga até finalmente entender aonde ele queria chegar com aquilo.

"Taehyung, seu namorado apenas deseja que você seja honesto com ele ao invés de minimizar suas necessidades com medo de que ele não entenda o que você precisa fazer."

Ela tinha razão. Nas duas vezes eu sabia no momento que recebi a ligação informando da viagem, que não seria apenas uma semana, mas eu tinha medo de que ele se sentisse abandonado, de que me deixasse por eu precisar passar tanto tempo fora, de que me mandasse escolher entre ele ou meu trabalho. E no final, acabei o colocando no papel que mais temia. Acabei transformando em verdade o que eu queria que não acontecesse jamais, e não soube lidar com o fato de que tudo poderia ser resolvido com mais facilidade se eu apenas tivesse explicado desde o começo como funcionam esses processos e encontrasse soluções para lidarmos com a distancia necessária juntos.

Mas a merda já estava feita. Eu já tinha errado e precisava me redimir do jeito que ele merecia. Pensei em seu pai e na forma como ele se declarava para o filho. Pensei no que ele falaria para Jimin se estivesse vivo, no quanto me odiaria, com razão, por fazer seu filho se sentir menosprezado daquela forma. Por isso, fiz exatamente o que eu disse que não faria por achar que seria irresponsabilidade da minha parte.

Conversei com meu cliente, disse que precisava me ausentar por uma semana por motivos pessoais, mas que deixaria uma pessoa em meu lugar nesse tempo e que estaria atento ao celular para qualquer emergência. Comprei a primeira passagem disponível para voltar para casa e o surpreendi com um buque de flores e o pedido de desculpa mais sincero que pude oferecer.

"Você é minha solução, Jimin. Jamais seria um problema a ser resolvido. Eu errei e assumo isso, meu amor. Devia ter sido honesto com você desde o princípio ao invés de mentir pra nós dois que seria apenas uma viagem rápida. Você é meu parceiro, minha família, minha alma gêmea. Eu devia ter dito o que eu já sabia mesmo sem ter confirmação direta."

Fizemos as pazes várias vezes naquela semana, selamos um acordo barulhento de não deixarmos de falar nada por mais que isso nos desperte algum medo. Ele me entendeu, eu o entendi e em dezembro do mesmo ano o levei para conhecer o Japão e ver o prédio que nos deu tanta dor de cabeça dentro e fora do relacionamento.

Estávamos no nosso terceiro aniversário de namoro quando tivemos mais um abalo sísmico em nossa convivência pacífica. Jimin decidiu passar um mês na Itália sozinho enquanto eu estava numa outra viagem sem data de volta à trabalho. Seu objetivo era reencontrar os amigos, principalmente da equipe de dança, que não via desde que voltara para casa. Mas lá pelo meio da viagem, Jimin me contou que encontrou Sunghoo e seus pais num restaurante que gostavam de ir quando estavam juntos, e que os mesmo o convidaram para passar um final de semana com eles no sul da Itália.

Ele me disse que não iria aceitar o convite, mas semanas após seu retorno para os meus braços, os pais de Sunghoo continuavam mandando mensagem para Jimin e isso me deixava extremamente desconfortável. Quando comecei a questionar de forma mais incisiva a atitude da família de seu ex, ele assume que acabou aceitando o convite e que passou o final de semana apenas com os ex sogros numa casa de verão. Jimin não me contou antes por achar que eu não entenderia, e ele provavelmente estava certo nessa suposição, o que só piorou a situação mais ainda.

"Eles sempre foram uma família boa pra mim, Taetae, e mesmo após o término do noivado, eles continuaram me mandando mensagens de feliz aniversário e desejando boas energias em datas festivas. Até hoje eles fazem isso, por isso decidi ir com eles. Por favor, não fique com ciúmes de uma bobeira dessas, porque nada disso tem a ver com Sunghoo ou nosso amor."

Aquilo me trouxe os gatilhos familiares que eu nem sabia que ainda carregava em mim. Senti que jamais poderia dar tudo o que Jimin precisava por não ser amado por meus pais como deveria ser, e isso de alguma forma fazia com que eu entendesse o desgosto paterno que eu recebia da minha própria família.

Jimin não receberia desejos de boas festas ou mensagens carinhosas de feliz aniversário dos sogros porque eles não faziam isso nem com o próprio filho. Jimin não teria contato com meus sobrinhos nem iria em jantares na casa dos meus irmãos porque nem eu mesmo o fazia. Não me era permitido ter o mínimo para poder oferecer a Jimin, uma família que o ame como Sunghoo fez, e isso me deixou muito mal.

Enquanto isso, ele se sentia culpado por não querer cortar laços com pessoas importantes pra vida dele e achava que isso era apenas ciúme bobo e desconfiança por ele ter escondido sua visita aos ex sogros. Foi a vez dele diminuir o que se passava dentro de mim.

Mas diferente dele, eu não soube deixar claro que minha insegurança não era por não confiar em Jimin, mas sim por não me achar bom o suficiente por não dar o que ele poderia receber com qualquer outro com uma vida melhor, e eu quase sufoquei com isso a ponto de ter uma crise de ansiedade ao começarmos uma troca de carinhos mais intensos num momento onde o clima estava mais amigável entre nós no meio de todo o caos que estava acontecendo.

Ele tentava me ajudar, dizendo que me amava, respirando comigo, me auxiliando nos exercícios para a ansiedade, mas nada realmente funcionava. Precisei sair de perto dele e me fechar no estúdio de casa até conseguir respirar novamente.

"Eu não sei mais o que fazer pra você voltar a confiar em mim, minha vida... Eu não quero te perder. Me diz o que fazer, Tae. Me ajuda porque eu não sei mais como reparar o meu erro."

Foi o que ele disse na manhã seguinte ao me ver entrando na cozinha todo amarrotado por ter preferido dormir no estúdio do que me deitar com ele em nossa cama confortável, sentindo seu cheirinho bom.

Eu já estava em lágrimas novamente, mas as palavras estavam presas na minha garganta e lutavam com unhas e dentes para não sair mesmo que eu soubesse que precisava falar para nos ajudar.

Porém foi ver como meu homem estava amolecido e fragilizado, usando a bancada da cozinha como apoio para não desabar entre os soluços doloridos que saiam dele, que ganhei o impulso que precisava para dizer o que tanto me engolfava.

"Eu não sou bom pra você."

Assisti Jimin erguer o olhar confuso em minha direção e disparar entre tropeços até me agarrar pela gola da camisa, colando seu corpo trêmulo no meu. Eu o envolvi com meus braços num abraço apertado, sendo retribuído com tanto afinco quanto possível e desatei a confessar meus piores pensamentos. Expliquei como pude, no meio de todo o choro dolorido que liberava, o quanto me sentia inferior por não ter uma família como ele teve e como Sunghoo tem.

Ele me escuta até as minhas palavras acabarem. Ele me ampara até minhas forças acabarem. Ele me abraça até eu parar de chorar e quando finalmente me vê mais calmo, sentado no chão da cozinha após escorregarmos por fraqueza física desencadeada pelo esgotamento emocional que eu sentia, ele foi pontual em sussurrar em meu ouvido enquanto deposita carinhos lentos em meus cabelos:

"Eu sinto muito por quem não te tem por perto, pois não existe coração mais puro e bonito que o da minha alma gêmea"

Então ele me faz sentar de forma correta, de frente para ele, segura meu rosto com as duas mãos e me olha novamente dentro da minha alma, pedindo para que eu também olhe dentro da sua, e eu faço.

"Que a sua família se foda, Taehyung. Eu tenho você e isso é muito mais do que o suficiente pra mim, pois não há família no mundo capaz de substituir a que nós estamos construindo."

Chorei mais um rio de lágrimas por suas palavras tão firmes antes de fazermos amor na cozinha em meio as declarações mais intensas que pudemos nos oferecer. Eu peço desculpas novamente por falar sobre essas intimidades com você, mas ali, naquele momento íntimo, encontramos a chave para destrancar as portas que nos separavam dos nossos próximos passos.

No mesmo ano, pedi Jimin em casamento. Organizamos tudo de forma simples porém aconchegante e colorida, e em pouco menos de 7 meses trocamos aliança no jardim de nossa casa. A lua de mel foi em Jeju e esse foi o ultimo gasto grande que fizemos pelos próximos 2 anos, pois precisávamos guardar dinheiro para cuidar da nossa família e construir mais um cômodo na casa, já que decidimos crescer.

É ai que você aparece, meu potinho de amor.

Foram dois anos no processo de adoção, mas nem mesmo a intensidade e complicações desse momento nos abalou. Apenas nos sentimos mais fortalecidos e firmes na nossa própria decisão.

No começo era apenas a sua irmã mais velha, nossa garotinha Yejin. Nossa menininha inteligente, já com seus 13 anos nas costas sofrendo com o abandono parental e a falta de afeto do orfanato. Ela tinha muito medo no olhos e, por mais que a gente fizesse de tudo para deixá-la confortável em nossa presença, parecia sempre que algo faltava. Ela deixava claro da sua própria forma silenciosa em seus sorrisos vagos e tímidos que não estava sozinha e, debaixo de muita conversa e abraços, Yejin contou que foi obrigada pela diretora do orfanato a não falar de você, mas que tinha medo de te deixar no "casarão" - como vocês chamavam - e de você nunca encontrar ninguém que cuide de ti como ela havia encontrado.

Meu potinho, minha pequena Yuna, naquele momento tanto eu quanto seu pai entendemos o que faltava em nossos abraços e em nossas conversas. Era você, Yuna. Faltava somente você.

Nunca duvidamos da nossa paternidade em relação a vocês duas, e eu quero que isso fique extremamente claro em sua pequena cabecinha dura. Sinta raiva, remorso, arrependimento, dor, vontade de gritar, de chorar, mas não duvide nunca disso, minha menina, pois vocês são nossas e nós somos de vocês duas. Vocês são nossa melhor parte, nosso maior presente, nossa maior conquista.

Vocês duas.

Sempre vocês duas.

E não me entenda mal, mas no meu relacionamento com Jimin não faltava nada e é por isso que vocês não são apenas um complemento que precisávamos ter. Vocês simplesmente nasceram em nossos corações antes mesmo de nos conhecermos, e o que nos restava no final das contas, era nos encontrarmos de alguma forma. E que bom que isso aconteceu. 

Repito aqui o que seu pai disse pra mim há muitos anos atrás, mas agora direcionado à você e sua irmã: Vocês não são apenas um sinal. Vocês são nosso destino.

Sinto muito por ter demorado longos 13 anos para sua irmã e 8 anos para você para chegar. Eu e seu pai não estávamos prontos ainda quando tudo aconteceu com vocês. Sinto muito por não ter te protegido do mal que fizeram a vocês duas nos anos que não estivemos por perto, mas a minha promessa e a de seu pai é a mesma: de nunca mais deixar vocês esperando por nossa chegada, por nosso amor e por nosso colo. Nós estamos aqui pra vocês de corpo e alma, meu potinho de amor, e isso é o que faz com que o laço que nós 4 temos seja inquebrável. 

Quando finalmente vocês vieram para casa em definitivo, o estúdio já havia sido ampliado e transformado em dois cômodos distintos para abrigar as duas com tudo o que precisavam. Foi um trabalho simples e rápido de ser feito, eu mesmo desenhei o projeto junto com seu pai e nós nos divertimos muito em lembrar todas as histórias que vivemos naquele espaço e como era mágico vê-lo se transformando em abrigos para nossas meninas.

O contraste de vocês duas sempre foi tema de nossas risadas e profunda admiração. Você sempre escolhia babados, tules, frufrus, mas tudo em azul e verde e isso dificultava a vida das lojistas que queriam enfiar o rosa de sempre na sua frente. Enquanto sua irmã ia para os tons mais claros para facilitar na concentração nos estudos, as paredes sempre cheias de lembretes coloridos de afazeres escolares, estudos complementares e atividades extracurriculares. Uma grande e irrevogável CDF.

Você com o teatro e o balé como seu pai, Yejin com a ciência e os números como eu (mais ou menos. Não sou tanto assim não, mas vamos fingir, ok? Faça isso por seu pai babão). Você com sua música alta e ela com os fones grandes tocando podcasts. Você com suas saias curtas até demais e ela com as calças cargo escuras mesmo no calor tornando quase impossível entender o que se passa na cabeça dela.

Eu fui feliz demais ao desenhar tantas bailarinas dançando com peixinhos e tartarugas num fundo azul no seu quarto bagunçado, pois fizemos isso juntos enquanto escutávamos o seu álbum preferido do Mamamoo e cantávamos a plenos pulmões todas as músicas juntos. Acho que ainda consigo arriscar algumas coreografias do tanto que repetíamos os passos. Você se irritava comigo e com seu pai por não fazermos direito algumas partes, se lembra? E eu nem posso te culpar porque, cá entre nós, eu errava algumas coisas de propósito só para te ver batendo o pezinho no chão, toda fofa, e seu pai sabia disso, é por isso que ele passava mais tempo rindo do que dançando.

Da mesma forma, fui feliz demais quando sua irmã, inspirada no nosso momento, pediu meio tímida para que eu pintasse uma tabela periódica em cima da mesa dela também, e então passamos praticamente a semana toda definindo espaços retangulares para deixar as anotações dela mais organizadas e de forma fixa. Minha vontade era explodir em mil pedaços de tanto amor ao ver como você era mais decidida e impulsiva como eu, enquanto Yejin precisava de tempo para entender melhor as próprias ideias, se permitindo olhar e conversar sobre o mesmo tema por horas antes de bater o martelo, igualzinho Jimin.

Entende quando eu digo que vocês são nosso destino? É isso! A gente se combina, se complementa, se completa, se sustenta, se converge até nas divergências. Nós nascemos para sermos 4 e nada me tira isso da cabeça.

Eu me sentia o melhor pai do mundo quando, todas as noites, eu ia ao quarto de vocês para ver se estavam cobertas, desligar a luz rosa do seu abajur que você sempre deixava acesa, tirar os fones do ouvido da sua irmã para não machucar as orelhas dela enquanto dormia, deixar um beijinho no topo da cabeça de cada uma de vocês e então encostar só um pouquinho a porta para que pudessem descansar em paz.

Era meu momento de paz voltar para o quarto com Jimin me esperando na nossa cama para fazer o mesmo que fiz em vocês. Acredita que até hoje ele me espera para deitar, me cobre e beija minha testa antes de dormir? Pois é. Eu tenho muita sorte. Esse é o pai de vocês, e eu torço tanto para que tenham isso na vida de vocês...

Torço demais para que sua irmã tenha esse tipo de casamento com Christopher, cheio de vida, amor e cumplicidade. Onde nunca falte demonstrações clichês de cuidado e nem beijinhos de esquimó de bom dia. E é o que eu desejo pra você também, minha Yuna.

Nós somos privilegiados e é por isso que eu entendo a sua revolta com o mundo e apoio suas lágrimas e gritos de dor quando se trata da nossa sociedade doente. Eu amo aprender com você os novos termos, substantivos e detalhes que não podemos mais deixar passar numa sociedade evoluída. Amo quando nos traz o seu conhecimento, mesmo que as vezes ele venha com palavras duras de reprovação. Somos uma família, meu potinho de amor, e eu sempre terei mil coisas para aprender com você, mesmo sendo a caçulinha.

Hoje, aqui sentado nessa mesa redonda de 6 lugares onde tomamos tantos cafés da manhã juntos, tendo em minha vista a sala com os sofás escuros que nos deitávamos confortavelmente os 4 para assistirmos qualquer filme ou maratonar qualquer série enquanto comíamos pipoca e doces, escrevo essa carta nenhum pouco singela para te dizer que eu estou muito feliz por você, meu potinho de amor.

Estou feliz por ter entendido a si mesma sozinha e por ter confiado em nós para nos contar sobre isso. Não se culpe por levar seus belos 23 anos para aceitar seu amor pelo mesmo sexo. Não é porque você vive numa casa que acolhe, com pais vivendo um relacionamento homoafetivo, que seria 100% mais fácil pra você passar por esse processo de auto descoberta.

Não se culpe, não se machuque, não se entristeça com o seu próprio tempo. Não é fácil viver num mundo onde você se via obrigada a não ser como seus pais para provar que nós dois não te influenciamos a esse ponto porque, pra sociedade, ser feliz é um problema. Se eu soubesse antes que suas professoras e colegas de classe falavam isso para você, eu teria te protegido, mas você foi forte, encarou essas falas feias sozinha para não magoar seus pais e nós reconhecemos isso com orgulho, Yuna. Tanto eu quanto seu pai entendemos suas escolhas, então por favor, se entenda também.

Se orgulhe por toda a jornada que viveu, pois foi ela que te trouxe até aqui. Se apaixone pelos seus acertos e pelos seus erros, pois eles te tornaram o potinho de amor mais bonito que existe no mundo. Se aproxime de você mesma cada vez mais, com muito carinho, amor e respeito, pois você merece esse cuidado que vem de dentro.

Nenhuma história é somente bonita, meu potinho de amor, assim como nada nessa vida é linear, mesmo quando o destino está bem a nossa frente. Seu pai babão também comete erros o tempo inteiro, como pude contar nessa longa história, e ainda cometerei muitos outros enquanto estiver vivo. Mesmo com o coração cheio de vontade de acertar, eu sou falho, porém não me arrependo de nada. 

Por favor, use esse velho homossexual que te escreve como inspiração pra não se arrepender do que já viveu. Você não é perfeita e nem precisa ser, minha Yuna. Basta apenas você fazer o melhor que consegue fazer no momento e o resto se ajeita. E se eu puder te ensinar algo com a minha historia longa e cansativa, que seja a se amar, pois não existe amor maior do que o que somos capazes de sentir por nós mesmos, e eu falo isso consciente de que meu amor por você é infinito.

Tenha uma boa vida, minha Yuna.

De seus pais, que tanto te amam.

P.S.: Converse com sua irmã pra ela vir passar o final de ano aqui na Coreia conosco. Estamos com saudades dela e dos nossos netos. Ela está quase cedendo, falta só um empurrãozinho. Deixe claro que os trigêmeos não serão um trabalho pra ninguém, é isso que eu e seu pai estamos falando pra ela e pro Chris.

P..S.2: Nos conte sobre as suas histórias de amor.

---.---

Jimin seguia lendo a ultima página da carta que havia terminado de escrever para nossa menininha mais nova. Ele já havia chorado, rido e me batido por ter deixado explicito algumas coisas que ele acha que não deveriam ser contadas. 

Finalmente ele coloca a ultima folha na mesa e eu assisto ele dobrar e apoiar os braços na superfície de madeira envernizada enquanto deita o rosto nos mesmos para poder chorar mais um pouco. Eu sorrio, pois sei que aquelas não são lágrimas de tristeza. Estamos juntos a tantos anos, nos amamos a muito mais tempo que isso, que nem preciso trocar palavras para ter certeza de que aquele choro era apenas meu Jimin descarregando todo o amor que sente. 

É sempre assim quando se trata da nossa família e eu o amo ainda mais por isso. 

Faço carinho em toda a extensão de suas costas até que ele se acalme, limpe o rosto e me olhe nos olhos enquanto enxerga a minha alma. 

- Eu te amo demais...

- Eu sei. E eu também amo você, minha alma gêmea.

Empurro minha cadeira para perto dele fazendo um barulho alto e irritante arrancando uma careta de meu homem. Sorrindo, aproximo meu rosto do seu e limpo o resto de suas lágrimas com beijos lentos antes de depositar um selinho demorado em seus lábios fartos. Encosto minha testa na sua e Jimin esfrega a ponta de nossos narizes com carinho. E é assim que ele diz com a voz baixinha e doce:

- Pode tirar tudo relacionado a sexo. Ela é só uma criança. 

Mantenho meus olhos fechados sem mover um único músculo para me afastar, e digo usando o mesmo tom de voz de Jimin:

- Sério? Eu ia escrever mais sobre. Vai que ela precisa de algumas dicas futuras? 

Ele se afasta abruptamente e me olha com desdém. 

- Tae, ela é sapatão. - Eu caio na risada, mas ele apenas se levanta e vai em direção ao nosso quarto. Quando volta, está com um lápis na mão. - Sério, não tem nenhuma dica que você possa dar a ela nesse quesito. Vamos ter que confiar nas amizades que ela fez. Ou melhor! Podemos procurar agora uma amiga sapatão para que ela seja a figura materna que ela precisa pra desabafar. Lésbicas têm madrinhas como nós gays temos padrinhos? O meu com certeza foi Namjoon. Inclusive, saudades dele... Mas não vamos perder o foco. - Ele pega as folhas e volta a se sentar ao meu lado. Passo o braço por seus ombros e deixo um beijinho em seu rosto antes dele se ajeitar na cadeira e começar a rabiscar alguns trechos da minha carta. - Isso sai. Isso aqui também. Isso a gente pode reescrever porque achei fofo. Essa parte aqui ta boa, então ela fica. Essa aqui com certeza sai. Eu lá quero que minha filha saiba que você teve um relacionamento de anos com um coelho que só transava e ia pra festas se divertir? JAMAIS!

- Não fala assim do Jun - Eu ria de sua cena e sabia que aquele apelido o faria me olhar com cara de quem está a poucos segundos de me matar.

- Vou bem te mostrar o Jun, seu safado. - Ele volta a focar na carta. - Essa parte também sai. Essa fica. Hm.. Não sei se seria interessante sua filha saber que você é um stalker, mas tem coisas aqui que são legais pra deixar. Com certeza podemos diminuir essa parte também. 

- Poxa, mas ai não vai sobrar nada da carta. 

- Minha vida, eu não tenho certeza de 15 folhas se configura como carta. Então tá tudo bem cortar algumas coisas. - Ele deixa um beijinho rápido na minha testa. - Confia em mim. 

- Mas eu quero que ela saiba de tudo!

- Então chama ela pra um café conta pra ela! Não precisa documentar nosso sexo na cozinha, na sala, no estúdio... - Ele arregala os olhos e se sobressalta. - Meu deus, Taehyung! Nós transamos tanto no estúdio e depois lá virou o quarto das meninas! O que a gente fez? Se o conselho tutelar fica sabendo de uma coisa dessas, nós perdemos as duas na hora. 

Eu sigo gargalhando a cada frase que ele solta e deixo que ele edite toda a história que será enviada para nossa menina. No final, as 15 folhas se tornam 4. Eu as reescrevo com o que sobrou e então relemos tudo em voz alta pela ultima vez.

- Agora sim está pronto para ser enviado pro nosso potinho de amor. - Ele diz totalmente satisfeito com seu trabalho. 

- Mas eu gostei tanto da original... - Eu faço bico. - Não queria que ela fosse pro lixo.

- E quem disse que ela vai pro lixo? - Ele levanta uma sobrancelha enquanto se ergue de sua cadeira, passando suas pernas desajeitadamente em cada lado do meu corpo e se senta em meu colo. - Essas 15 páginas são minhas. Por isso eu marquei tudo de lápis. 

Ele sorri e começa a distribuir beijos por todo meu rosto e pescoço. Eu deixo uma palmada leve em sua coxa e rio pela milionésima vez só naquele dia. 

- Então você gostou da carta, é? 

- Eu gosto de tudo o que você faz, minha vida. - Ele sussurra no meu ouvido e volta a me beijar com mais pressão intercalando os beijos com suas falas. - Me fez lembrar das vezes que dormíamos no chão de casa por estarmos cansados demais pra levantar, tomar banho, organizar as roupas espalhadas e nos deitar. Bons tempos, aqueles. 

- Sim, bons tempos. A ultima vez foi semana passada e minhas costas ainda não se recuperaram totalmente de ter ficado naquele tapete felpudo que não amortece nada. 

- E eu só fui melhorar da alergia ontem. - Ele sorri e me deixa um selinho na boca. - Estamos ficando velhos. - Diz fazendo um carinho nos meus cabelos, afastando meus fios da minha testa.

- Mas ainda damos pro gasto. 

- Uhum. - Ele beija minha testa. - Velhos gostosos que se amam no chão. 

- Ultimamente prefiro a cama. - Digo levantando da cadeira com ele em meu colo e nos levando para nosso quarto.

- Velhos gostosos que se amam no chão e na cama. 


---.---


ACABOU! 

17K de palavras e eu tenho a pachorra de chamar isso aqui de shortfic. Realmente preciso rever meus conceitos. 

Enfim. Eu gostei muito de escrever essa... Amo meus vmin com a força de todos os meus órgão vitais. 


Seguir leyendo

También te gustarán

5.5K 295 2
Almas gêmeas sempre irão se amar, em todo o universo ABO isso é um fato. Porém isso não impede de um casal de destinados cair na rotina. "E se mesmo...
4.9K 633 10
[FINALIZADA] Taehyung está com a família no Havaí, aproveitando suas primeiras férias depois de anos. Enquanto espera seus pais em um restaurante, co...
8.8K 816 9
CONCLUÍDA 💜 NÃO É TRIÂNGULO AMOROSO!!! Um dia que trazia péssimas memórias. Taehyung tentando esquecer, Jimin se empenhando em ajudar. Um encontro q...
Wattpad App - Desbloquea funciones exclusivas