Quando o sinal finalmente tocou, encerrando a aula, não foi surpreendente ver a Forger como a primeira a deixar a sala, passando pelos colegas apressadamente. Damian aproveitou a ausência da garota e dirigiu-se à mesa da Blackball, onde ela guardava seus pertences.
— Perdeu alguma coisa por aqui? — disse ela, com um tom de desdém.
— Se você puder me dar um momento... — pediu ele.
Becky olhou para Damian com incredulidade.
— Anunciaram o fim do mundo? — ela olhou ao redor, fingindo surpresa — Desde quando você é educado?
O rapaz respirou fundo, tentando não perder a paciência e a coragem que havia reunido para conversar com a mensageira do demônio.
— Como posso fazer alguém feliz? — foi direto ao ponto.
Os olhos de Becky brilharam.
— Você veio falar com a pessoa certa! Mas antes de prosseguir, de quem exatamente estamos falando?
Claramente, ela sabia de quem o rapaz falava, mas queria ouvir dele.
— Ela...
— Ela?
— Anya Forger... — ele disse rapidamente, desviando o olhar.
— Quem?
— Anya Forger! — a voz de Damian saiu mais alta do que o normal, deixando-o ainda mais envergonhado.
Becky sorriu.
— Então você gosta dela?
— Não pense besteiras, Blackball! Apenas responda à minha pergunta.
Ela decidiu não incomodá-lo mais. Agora que sabia a verdade, mesmo que não tão claramente quanto gostaria, daria a ele um pequeno empurrão, mesmo que ele não merecesse tanto assim.
— Anya é uma pessoa muito simples. Qualquer coisa a deixa feliz.
— Como o quê, por exemplo?
— Amendoins, Bondman, castelos, uma pistola com silenciador...
— "Uma pistola com silenciador?" — ele franziu a testa.
— Não me pergunte por quê.
"Ela é muito diferente das outras garotas", pensou ele.
— Mas por que você veio perguntar?
Damian a encarou por um momento. Seus sentimentos por Anya mergulhavam em uma complexidade avassaladora, difícil de explicar. Seu coração parecia bater descompassado enquanto lutava para encontrar as palavras certas.
— Eu... Eu só quero vê-la sorrir. — sua voz escapou num sussurro, carregada de vulnerabilidade.
Becky estudou o rosto aflito de Desmond por um momento, tocada pela sinceridade que emanava de seus olhos. Um suspiro escapou de seus lábios, e ela deixou de lado sua habitual atitude desafiadora.
— Não costumo fazer isso, e não pense que estou fazendo por você. — sua voz suavizou-se, revelando uma compaixão inesperada — Mas vou te ajudar.
Damian franziu o cenho, surpreso com a mudança súbita de atitude da garota.
— Eu não preciso da sua ajuda como cupido, Blackball. — disse ele, afastando-se com um gesto brusco — Continue com suas novelas e me deixe em paz.
Becky cruzou os braços, sentindo uma pontada de decepção.
— Você pode se arrepender disso. — gritou ela, enquanto Damian deixava a sala de aula — Sou a única que pode te ajudar com a Anya.
A menção do nome da Forger fez com que Damian experimentasse uma vertigem emocional. Aquela garota despertava algo tão intenso dentro dele, algo que ele mal conseguia compreender. E agora, Becky havia feito questão de anunciar seus sentimentos na frente de todos os alunos restantes na sala.
Com o rosto vermelho de constrangimento, Damian sentiu uma urgência avassaladora em se afastar dali antes que a situação se tornasse ainda mais embaraçosa. Ele se apressou em deixar para trás a presença incômoda de Becky, buscando refúgio nos corredores vazios.
Enquanto Damian lutava com seus conflitos internos, ele se aproximou da janela e observou o cenário ao seu redor com uma mistura de melancolia e fascínio. O sol dourado da tarde banhava o gramado da Éden, fazendo as cores vibrantes das flores e das árvores se destacarem ainda mais no jardim. A brisa suave movia gentilmente os galhos e as folhas, criando uma atmosfera serena e encantadora.
Lá embaixo, um casal de alunos da Éden caminhava de mãos dadas, completamente envolvidos em sua própria bolha de felicidade. Damian observava-os com uma mistura de admiração e inveja silenciosa. Ele desejava profundamente ter alguém com quem pudesse vivenciar momentos tão íntimos e genuínos.
Quando o casal se escondeu atrás de uma pilastra para trocar um beijo furtivo, Damian sentiu seu rosto queimar e instintivamente cobriu a boca com a mão, como se o gesto pudesse conter a enxurrada de sentimentos que o invadiam. Naquele momento, sua mente viajou para uma garota específica que perturbava sua paz e habitava seus pensamentos com frequência: Anya.
Ele se viu imaginando como seria vivenciar aquele momento com Anya, escondidos atrás de uma pilastra, compartilhando um gesto tão íntimo. Sua mente pintou um quadro vívido, onde ele podia sentir a suavidade de seus lábios, o calor do abraço e a eletricidade que percorreria suas almas no momento do encontro. No entanto, a incerteza o assombrava, o medo de não ser correspondido e de ter seu coração já frágil dilacerado.
No meio do corredor, ele se apoiou contra a parede fria e fechou os olhos, buscando desesperadamente acalmar a tormenta de sentimentos que o consumia. Sabia que precisava enfrentar seus medos e encontrar uma maneira de se aproximar de Anya, mesmo que isso o assustasse. Mas era uma tarefa árdua, pois se sentia constantemente desarmado diante dela.
Foi então que uma voz familiar ecoou próximo dali. O rapaz seguiu o som e contornou a esquina, vislumbrando Anya em meio a uma roda de garotos. Ela era conhecida pela escola inteira, desde seus primeiros dias e se dava bem com todos, especialmente com os rapazes da Éden, devido à sua natureza mais despojada. Anya não possuía muitas amigas, exceto Becky.
Aquela proximidade despertou um ciúme latente em Damian, mas ele não pôde deixar de sorrir ao testemunhar o entusiasmo contagiante da Forger enquanto falava sobre seu desenho favorito.
— Ouvi dizer que o filme de Bondman está em cartaz. — comentou um dos garotos.
— Anya, eu tenho alguns ingressos, se você não...
O garoto foi interrompido abruptamente por Damian, que surgiu atrás dele como uma sombra imponente. Seu olhar encontrou o do garoto, carregado de uma ameaça silenciosa que fez com que ele engolisse em seco.
— Desmond... — pronunciou um deles, incerto sobre o que estava prestes a acontecer — O que você precisa...?
— Ela não vai com você! — declarou, dirigindo seu olhar para Anya — Ela vai comigo!
Uma ruga de confusão se formou na testa de Anya.
— Ei! — protestou ela — Não é você quem decide isso! E eu não vou com vo...
— Eu te pago quantos amendoins você quiser. — Damian interrompeu, com os olhos fixos na garota, determinado a convencê-la.
Os olhos de Anya se iluminaram diante da oferta tentadora.
— Desculpe, mas ele vai me pagar tudo. — Anya dirigiu-se ao garoto anterior, adotando um olhar esnobe, uma pitada de sarcasmo em sua voz.
O coração de Damian se encheu de triunfo ao testemunhar a resposta da Forger. Ele havia conseguido, de alguma forma, conquistar sua atenção e um sorriso tímido se formou em seus lábios.
...
— Você a convidou para sair? — Emile perguntou, surpreso, assim como Ewen ao seu lado.
Damian estava à beira de arrancar os cabelos, demonstrando sua agonia. Seus amigos observavam impotentes enquanto ele andava de um lado para o outro no quarto.
— Foi a maior besteira que já fiz! — exclamou, desesperado.
A frustração era evidente em sua expressão quando afirmou não saber o que fazer.
— Agora que você se meteu nessa enrascada, é simples: vocês apenas vão ao cinema — sugeriu Ewen.
— Você não entende! — disse Damian, colocando as mãos nos ombros do amigo e olhando-o fixamente. — Eu não tenho os ingressos! Nem faço ideia de que filme é esse. E quem é "Bondman"?
— Esse é um grande problema — admitiu Ewen, preocupado.
Damian se sentou na beirada da cama, desanimado. Pensativo, Emile tentava encontrar uma saída.
— E se você saísse para comprar os ingressos? Ainda há tempo. Vocês vão sair amanhã depois da aula, não é?
— É isso! Você está certo! — exclamou o Desmond, sentindo uma ponta de esperança.
No entanto, logo se lembrou das regras rigorosas do dormitório. Ele não tinha permissão para sair sem a autorização de algum responsável. Seu pai estava preso, sua mãe internada em uma clínica e seu irmão... com esse não podia contar. Exceto pelos empregados da família, que não tinham grande influência. Desde a queda dos Desmond, Damian levava uma vida tediosa. Durante os dias normais, estava confinado na Éden, com autorização para sair apenas uma vez por semana. E, durante as férias, voltava para a solitária mansão dos Desmond.
Desanimado, voltou a se sentar, sentindo-se derrotado pela situação.
— É melhor esquecer — suspirou — Não tenho autorização para sair mesmo.
Ewen e Emile compartilhavam a frustração do amigo. Sentiam-se impotentes diante da impossibilidade de ajudá-lo. No entanto, Ewen teve uma ideia brilhante.
— E se nós comprássemos os ingressos para você?
— Vocês fariam isso por mim? — perguntou Damian, surpreso.
— Claro, senhor... Damian! — Emilie corrigiu rapidamente.
— Obrigado, pessoal. Mas não sei se vai resolver muito. De qualquer forma, não poderei sair.
Um suspiro coletivo ecoou pelo quarto.
— Mas se puderem comprar os ingressos para mim, ficarei muito grato.
— Qual é o objetivo de ter os ingressos se você não pode ir? — indagou Ewen, confuso.
Damian sorriu, agradecido pelos gestos de amizade.
— Vou presentear Anya com eles. Ela estava animada para ir ao cinema. Não merece ficar chateada por minha causa.
Os amigos assentiram, compreendendo a nobre intenção de Desmond, embora a tristeza fosse visível em seu rosto.
...