Ana Merak - Dever e Honra

By LazMorcega

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Ana Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana... More

Hall de Entrada
ERA UMA VEZ...
Parte I: CASTELO MERAK
Prólogo
MUDANÇA DE ARES
A NOVA CASA: CASTELO MERAK
INFÂNCIA
JIS
ALMOÇO ADMINISTRATIVO
MINHA PRIMEIRA LIÇÃO FORMAL
OUTROS APRENDIZADOS
ANOS, A NÓS.
PRONTA
INEVITÁVEL MUNDO NOVO
SERPENTE DE EVA
NOVO MOMENTO
FIGURAS SINGULARES
DIONÍSIO
BASTARDO?
RETORNO
UMA SACADA
PARTE II: IDENTIDADE
ANA NO ESPELHO
GUEORGIANA
DUAS FACES
A VILA
UM DIA MELHOR
COMPLETANDO O HERBÁRIO
NOVAS MISSÕES
A TELA SECRETA
ATITUDES
INESPERADO
PASSANDO A LIMPO
PASSANDO A LIMPO (PARTE 2)
TESTA A TESTA
APRENDENDO A DIPLOMACIA
DARIUS NECTARIUS
PODER PINTAR
ALEXANDRU CIPRIAN
ENTRE ROTINA
IVANTIE CORNELIUS
NOVO DIA
ELA
VELKAN MIHAI
DIA DE ADAPTAÇÃO
BASILIU NARCIS
NÉVOA
CONTURBADA
CONSTANTIN LEONUS
LÂMINA KILIJ
POLÍTICA
PRÍNCIPE
QUESTÕES DE HONRA
UMA CANÇÃO DE NINAR
UMA INICIATIVA
ARTE
VESTIDA PARA BAILAR
A DANÇA
UM ADEUS MAIS DO QUE DOLORIDO
VIVER: A VIDA É FUGAZ
VIVER: A VIDA É FUGAZ (PARTE 2)
DESPEDIDAS E PROMESSAS
OLHOS NOS OLHOS
A FESTA NA VILA
A FESTA NA VILA (PARTE 2)
A FESTA NA VILA (PARTE 3)
PARTE III: DECIDINDO VIDAS
O PREÇO DA IMPORTÂNCIA
A GUARDA
A GUARDA (PARTE 2)
TRANÇANDO HISTÓRIAS
UM CONVITE
DEVERES DEVERAS
ATÉ A VISTA
CORNELIUS
SENHORA NECTARIUS
ENLACE
O TEMPO
FEDOR
CIGANOS
CIGANOS II
SILÊNCIO
MALQUISTA
FLERTE
TENTAÇÃO
SUFICIENTE
ILUSÃO
VENHA
EBULIÇÃO
A ÁRVORE
ESTRANHA
ALTITIA
SOMBRA
PARA NUNCA MAIS
DERRETENDO
O FESTIM
EXPLICAÇÕES
NERVOSISMO
NOIVA
BÁLSAMO
PROLE
URGENTE
DECISÃO
DIAS SEM COR
ALGUÉM NO HORIZONTE
IMENSIDÃO
O CANTO DA SEMEIA
PRÉ-NUPCIAL
ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE
CERIMÔNIA
MINHA VEZ
MEU TESOURO
Parte IV: PAGANDO COM SANGUE
DEU À LUZ
MINHA PRIMEIRA SOLIDÃO
MENOS DE UM ANO
POTRO
LUTA? LUTO.
O CORPO VIOLADO
UNIÃO
CHUVA
ATRIBULADA
CONFIANÇA
NOTÍCIA
AONDE IR
PAGANDO COM SANGUE
TEMPO AMARGO
PERDENDO A GUERRA
OURO
VISLUMBRE
CELEBRAR
Epílogo
Entrevista com o capista!
Entrevista com uma leitora!

O PRIMEIRO BEIJO

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By LazMorcega

Pela manhã eu não quis descer para tomar o desjejum. Em primeiro lugar porque eu desejava protelar ao máximo o encontro com Gueorgiana, em segundo, por ter acordado já um pouco tarde. Abri as janelas do quarto e vi a vida brilhar lá fora. Avistei Ionel, pensei em chamá-lo, mas desisti. Devido ao tempo sem contato, percebi no ato da observação que ele estava ainda mais alto. E atraente também.

Eu queria conversar com meus amigos, porém tudo o que me restou foram suspiros pelos cantos. O dia que estava bonito, de repente, se tornou sufocante. Aquilo era apenas uma prisão para mim, onde a minha única liberdade estava na calada da noite, como a dos gatunos.

Alguém bateu na porta.

— Já estou vestida, pode entrar. — Autorizei, pensando que era Valenius.

Voltei-me pronta para perguntar se ele estava bem, contudo o meu sorriso murchou. Era o meu pai.

— A benção, pai. — Pedi a contragosto, com a voz fraca de decepção.

— Deus lhe abençoe, Ana. — Respondeu sem energia e com grandes olheiras arroxeadas emoldurando seus olhos. Naquele momento ele tinha a barba muito comprida.

— Já vou descer para a lição. Eu só acordei tarde. — Justifiquei-me. Senti um aperto no peito porque era nítido o quanto estávamos fora de sintonia. Logo nós, que antes éramos tão unidos.

— Vim trazer algo para você comer. — Ele apontou para a bandeja em um aparador.

— Não precisava se incomodar. Obrigada. — A circunstância era tão desconfortável que eu queria gritar.

— Não é incômodo. — Ele limpou a garganta e desviou o olhar. — Então, sobre a sua festa...

— Eu não quero festa. — Interrompi. Não queria criar a mínima esperança.

— Você vai ter uma. — Ele afirmou sem emoção.

— Eu não quero uma festa, pai. — Bati o pé.

— É melhor se acostumar com a ideia, pois você terá uma. — Ele afirmou com autoridade pouco velada.

— Não me obrigue, pai. Por favor. — A frase era um pedido, entretanto o tom era de ameaça.

— O seu avô concordou...

— Traidor.

— Todos acham que é uma boa ideia, apenas você não aceita. Faremos a festa. Peço a sua colaboração, pois sem ela, pode ser doloroso para você. — Explicou com tom metódico.

Eu já estava nervosa.

— Isso é uma ameaça? — Lancei sobre ele um olhar ferido.

— É um aviso. Não aja como se estivéssemos torturando você, afinal, é apenas uma festa. Os preparativos vão começar e você não tem escolha. Então, apenas aproveite o processo. — Ele estava mais distante durante aquela fala sobre a festa do que em qualquer momento.

— Pai...

— Isso é tudo, Ana. — Ele saiu e fechou a porta atrás de si.

A manhã estava arruinada a partir daquele momento. Pelo menos daquela vez ele não gritou comigo. Se continuasse naquele ritmo, até a festa a nossa família estaria aos pedaços. Senti falta das palavras reconfortantes de Jis. Eu o chamaria para tomarmos um chá, no entanto, ele estava viajando outra vez.

Desci para a biblioteca e já entrei cabisbaixa, pronta para encarar o rosto de Gueorgiana. Aquele sorriso congelado, que parecia estar esculpido em pedra.

Não ocorreu.

Olhei para todos os lados procurando pelo meu pai, mas ele não estava lá. Nem Gueorgiana estava sorrindo.

— Bom dia, senhorita. Onde está o meu pai? — Questionei com uma ponta de ansiedade sobre o desconhecido.

— Ele não estará mais presente, devido aos preparativos da festa. — A resposta dela saiu sem ânimo e eu não consegui controlar o sorriso.

Voltei o rosto para Valenius, até parar de sorrir. Finalmente aquela festa estava me fazendo feliz de alguma forma. Meus lábios se contraíram quando me lembrei de que eles ainda tinham as noites para trair a nossa família. Pelo menos Gueorgiana estava mostrando sua verdadeira face, não mais aquela feliz e estudada.

Seu tom para lidar comigo estava mais seco e impaciente naquela manhã.

— Continue assim e terá que frequentar um internato. — Ameaçou em dado momento.

Não falei nada, todavia a minha consciência estava leve.

Durante o almoço não apareceram nenhum dos dois familiares, nem papai e nem vovô. Apesar de estar irritada por olhar na cara daquela mulher, por outro lado, eu me deleitava com sua decepção. Desejei ter uma maneira de capturar sua decepção. Uma forma de ter um retrato instantâneo.

Durante a tarde, meu avô me levou outra vez para a oficina. Foi meu momento de tirar a limpo a concordância dele com a festa.

— Não posso acreditar, vovô. Eu não quero essa festa. — Reclamei enquanto segurava uma barra de metal.

Meu avô estava sem camisa, mexendo no fogo. Atiçando.

— Ana, não seja amarga. Você é muito jovem para odiar as festas. — Ele coçou o queixo.

Era impressionante como meu avô envelhecia devagar.

— Eu não odeio as festas, afinal, mal as conheço. As únicas que fui foram desagradáveis ou acabaram de um jeito tenebroso. Agora, essa, que já estou dizendo que não deve acontecer...? Isso não vai funcionar. — Expliquei, entregando a barra de metal e pegando um martelo para o qual ele apontou com o indicador.

— Tenho a percepção íntima, um presságio, de que você irá desfrutar dessa festa. Vamos desfazer essa maldição que assombra as nossas festas, de uma vez por todas. Você precisa de contato com a sociedade. — Afirmou ao esquentar o metal. — Afaste-se e não olhe.

— Se quer que eu conheça a sociedade, me deixe sair do castelo. — Parecia mais simples para mim.

— Não essa sociedade. — Ele disse antes de começar a bater no metal incandescente.

Era impossível conversar naquelas condições, então comecei a desenhar a bainha da minha espada e pensar em um nome para ela. Segundo o meu avô, as boas espadas tinham nome.

Quando saí da oficina com meu avô, Solis me entregou um papel selado e partiu sem dar condições de conversa.

— O que você fez com ela, vovô? Ela não me olha mais. — Reclamei de maneira acusatória.

— Eu não fiz nada. — Ele franziu o cenho. — Pensei que vocês estivessem brigadas. Isso acontece com os jovens, não é mesmo? São sempre tão pouco pacientes.

— Nós? Nunca discutimos. — Estranhei.

— Ora... O que está acontecendo com essa menina? — Ele limpou o suor da testa.

Abri o papel e encarei a letra de meu pai. Eram poucas linhas, que cumpriram seu papel. Ele partiu para fazer os preparativos da festa. Começava com as compras. De manhã ele foi se despedir e não conseguiu. Meu peito doeu, porém fiquei feliz. Longe de casa, distante de Gueorgiana.

— Vossa senhoria sabia da partida de papai? — Indaguei encarando o meu bisavô, para que ele não evadisse.

— Foi uma sugestão minha. — Vovô admitiu.

O cenário mudava diante dos meus olhos.

A próxima semana consistiu na mesma rotina. Gueorgiana estava cada vez mais apagada, como a brasa que se transforma em cinza. Já não se arrumava tanto, nem se preocupava em manter o tom cordial fora da mesa do jantar, já que o jantar era quando víamos meu avô. Ele não conversava, nem eu, ela não tinha para onde correr. Durante as noites eu pintava a minha tela. Sempre acompanhada por Valenius.

Uma semana depois, de noite, Valenius se atrasou. Ele pulou pela janela em sua forma humana e eu dei um salto para trás.

— Pensei que hoje você não viria. — Revelei, espantando o pesar da solidão. Eu já tinha me acostumado.

— Fui pegar algo. — Falou enquanto tirava uma bolsa pequena de dentro do casaco.

— O que era? — Banquei a enxerida.

Ele colocou a pequena e simples bolsa na minha mão.

— É para você. Espero que possa aceitar e fazer bom uso. — Explicou ao se sentar em seu lugar de sempre.

Abri a bolsa e vi um conteúdo escuro. Aproximei da vela, agarrei algo e coloquei contra a luz. Era casca de árvore, porém não qualquer casca. Era azul escuro, como o céu noturno em noites enluaradas.

— Uau! — Eu estava boquiaberta. — Onde conseguiu esta preciosidade?

— Sem perguntas. — Ele virou o rosto.

— Não me diga que roubou. — Fiquei assustada com aquela possibilidade, porque eu não quereria devolver.

— Não! Eu busquei. — Ele estava ofendido.

— Obrigada, Valenius. Você é o melhor guarda. — Abracei-o sem pensar. Ele ficou encabulado.

— Tenho outra coisa. — Ele tirou do bolso uma pequena flor esculpida. Parecia muito com a que eu tinha ganhado de Ionel quando era criança, no entanto era de outra cor e tinha duas camadas que pétalas.

— Que bela! Vou levar sempre comigo, como a de Ionel. — Guardei no mesmo lugar e ele desviou o rosto. — Obrigada, Valenius.

— Não precisa agradecer. — Respondeu austero.

Mostrei para ele como preparar a tinta da casca daquela árvore. Com ela eu pintaria o céu e alguns detalhes.

Minha tela ficou pronta alguns dias depois.

Sem ter mais o que fazer, pedi para Valenius me levar na vila outra vez. Ele resistiu um pouco, apenas para concordar no fim das contas.

Seguimos o mesmo esquema da primeira vez. Valenius escolheu me levar para outro canto da cidade. Havia grande quantidade de pessoas nas ruas e estava já de madrugada. Observei um montante de jovens rapazes com garrafas nas mãos, jogando jogos que eu não conhecia.

— O que é isso? — Perguntei para Valenius, com os olhos arregalados porque vi um bater na bunda do outro.

— Bobagem de rapazes. — Respondeu com expressão de arrependimento. — Talvez seja melhor voltar.

— Não, quero seguir. O que é aquele estabelecimento com as luzes acesas? — Havia mulheres simples na porta, enfeitadas de uma maneira diferente, sorrindo para os homens.

— É uma taverna. — Respondeu sem vontade. — Devemos voltar, Ana. — Valenius insistiu.

— Não, eu quero ir na taverna. — Apressei o passo.

Havia homens bêbados caídos no calçamento das ruas. Quando cheguei mais perto, ouvi algo que me despertou da vida monótona que eu vivia. Era música. Música entoada pelo coro de clientes. E era uma cantiga popular.

Fiquei animada para ver a taverna por dentro. Valenius tentou me segurar, mas eu me esgueirei e corri. Entrei no ambiente escandaloso. Havia moças usando apenas roupas de baixo, trepadas em mesas. Uma delas estava sentada no tampo, com as pernas abertas para um cliente, que segurava suas coxas. Ambos cantavam. Em outro lugar, uma mulher mais vivida dava de beber na boca de um senhor desdentado que eu conhecia das missas. Estaquei o passo. Uma atendente nos alcançou e Valenius entrou na minha frente.

— Que surpresa! Você por aqui? — Ela parecia realmente perplexa.

— É, queria ver algo diferente. — Valenius mentiu.

— Meus peitos? — Ela sussurrou.

Eu segurei para não gritar de surpresa e ele tossiu.

— Tenho certeza de que são muito belos, mas ganho pouco, não posso vê-los. — Ele tentou escapar.

— Para você eu faço um preço especial. — Ela persistiu com carisma.

Escondi mais o meu rosto antes que a euforia me fizesse gargalhar. Foi naquele momento que percebi que havia ali apenas homens perdidos da moral e meretrizes.

— Não posso, Sylvina. Obrigado pela gentileza. — Ele declinou, já se afastando para trás.

— E seu amigo? — Ela perguntou.

Estava falando de mim. Mal sei descrever o que senti naquele momento, pois parecia que a minha alma estava saindo do corpo. O medo de ser descoberta por pouco não me matou.

— Ele não tem idade ainda. O pau é até pequeno. — Valenius argumentou de forma convincente.

Fiquei incrédula com aquela boca suja de palavras de baixo calão.

Ela não disse mais nenhuma palavra, apesar de claramente não ter acreditado.

— Pelo menos tomem uma bebida. — Instou. — Por minha conta.

— Tomaremos, bem rápido. Queremos uma mesa no canto, e que apenas você nos sirva. — Valenius determinou.

Ela nos guiou até um canto escuro onde havia uma mesa de dois lugares com uma substância esbranquiçada e gosmenta em cima. Valenius soltou um riso constrangido, baixo e nervoso enquanto a moça limpava. Ela trouxe duas cervejas de qualidade duvidosa, em canecos de metal tão mal lavados que tinham até as marcas das digitais de quem usou antes. Meu estômago revirou.

— Nem ouse recusar. — Valenius me encarou, irritado. Não tive certeza se ele via meu rosto.

— Um brinde. — Falei engrossando a voz. Ergui o caneco e tomei todo em um gole.

A tontura foi quase instantânea, de modo que era bom estar sentada. Havia muita música por ali. Gritos, gemidos, ameaças e apostas. Homens e mulheres de todas as idades.

Fiquei estupefata quando vi uma mesa cercada por rapazes sem camisa, do outro lado do salão. Não foi a falta de vergonha que me atordoou, mas a presença de Ionel, muito descontraído. Parecia o mesmo que conheci. Uma pontada de mágoa perfurou meu peito. Uma jovem loira, muito bonita, se sentou no colo dele e os lábios de ambos se tocaram.

— Pare de olhar. — Valenius ordenou.

— Não consigo. — Respirei com dificuldade enquanto via meu amigo beijando o pescoço daquela jovem.

— Pare, ou vão querer tirar satisfação. — Advertiu.

Parei no mesmo instante. O medo é poderoso.

— VAMOS FAZER UM GRUPAL! — Um homem gritou no meio do salão.

— BACANAL! BACANAL! — Um coro se seguiu enquanto muitos riam.

Valenius ficou assustado e sentiu urgência em sair. Deixou algumas moedas sobre a mesa e me arrastou para fora enquanto eu perguntava:

— O que é bacanal?

— Não é da sua conta. — Retrucou quando já estávamos do lado de fora.

Não ousei perguntar mais. Depois eu procuraria nos livros da biblioteca. Bacanal certamente tinha relação com Baco. Seria um jogo de vinhos?

Entramos em uma ruela escura e o inesperado aconteceu: Sylvina nos alcançou.

— Espere, Valenius! — Chamou, ofegante.

Ele não parou. Ela me pegou pelo braço. Eu não pude respirar mais porque fui arrebatada.

— O que deseja? Pagamos o suficiente. — Valenius reclamou, olhando para ela com rispidez.

— Pagaram até demais. Não posso aceitar. —Ela tentou ser justa.

— Pode sim, você merece. Tenha uma ótima noite. — Ele findou o assunto.

— Espere, eu sei que ela é uma menina. — Sylvina apontou para mim e minhas pernas tremeram. — Às vezes elas aparecem por aqui, curiosas. Posso fazer o serviço, eu gosto delas. Não fiquem com medo.

Sylvina me puxou.

— Não. — Valenius tentou impedir, mas era tarde. Ela já tinha tirado o meu capuz.

Meu coração parou de bater por um segundo.

— Você é bonita! — Ela me encarou, surpresa. — Faz-me recordar de alguém que conheço.

— Obrigada, senhorita. Preciso ir. — Tentei fugir.

Ela sorriu.

— Você está vermelha de vergonha. Não precisa ter medo, será segredo nosso. — Ela me puxou contra si e colocou seus lábios contra os meus.

Não senti nada além do coração acelerado pela adrenalina, mas meu primeiro beijo ficou com Sylvina e seus lábios macios com sabor de vinho. Ela tinha cheiro de flores. Certamente era óleo em seus cabelos pretos.

— Se você entreabrir os lábios assim — ela demonstrou — fica melhor.

Valenius observou, petrificado. Pálido como o leite.

Eu segui a ordem dela, por pura curiosidade. O primeiro já fora, os próximos nem significariam tanto. Outra vez ela me abraçou, enfiou os dedos entre meus cabelos e uniu nossos lábios. Eu até fechei os olhos, porém, nada senti.

— Não? — Ela questionou ao me soltar.

Neguei com um gesto de cabeça.

— Então você não gosta das mulheres. — Ela riu. — Fica a experiência. Por acaso já beijou um homem?

— Não. — Respondi.

— Talvez você se sinta da maneira certa quando beijar um. — Ela deu uma piscadela para mim e para Valenius.

Ele desviou o olhar.

Apalpei meus bolsos procurando por dinheiro. Felizmente achei.

— Aqui. — Coloquei duas moedas de ouro na mão dela.

— Isso é muito. — Ela disse com olhos arregalados. — Não posso aceitar, principalmente vindo de uma mulher.

— Você merece, é um presente. — Afirmei.

— Você é rica? — Ela cochichou.

— Sou. — Revelei, pois Sylvina não contestaria ter muito de quem tinha mais do que ela.

— Não se preocupe, não vou contar para ninguém. Vá depressa. — Ela guardou as moedas e começou a nos espantar dali.

Andamos um pouco a passos largos. Quando estávamos a muitas ruas dali, em outro logradouro escuro, um vulto pulou na nossa frente. Valenius sacou a adaga, para abaixar quando viu quem era. Ionel estava ali, nos criticando com seu olhar cínico.

— Eu sabia que estava sentindo cheiros familiares. — Ionel riu, farejando o ar. — Ana, Ana... O que fazes entre os miseráveis?

— Deixe-nos passar, Ionel. Não quero problemas. — Valenius estava ameaçador dessa vez.

— Não encha a paciência, cachorrinho. — Ionel dispensou. — Está com medo de mim, Ana? Não sirvo mais para você?

Fiquei indignada.

— Eu quem devia dizer isso, pois você não me escuta. — Falei com raiva e tirei o capuz.

Ele riu, irônico.

— Eu? Aprendeu a mentir? — Ele chegou bem perto, curvando-se, e olhou nos meus olhos. Minha respiração ficou irregular, meu coração acelerou, meu rosto queimou.

— Eu chamei por você...

— Não. Você sequer procurou. — Havia dor naquelas palavras.

— Ionel...

— Não. — Interrompemos juntos a fala de Valenius.

— Se só tiver essa chance, não quero usar em vão, Ana. — Ionel falou, colocando uma mão no meu rosto.

Posicionei a minha própria mão sobre a sua.

— Explique tudo. Eu te perdoo. — Ofereci, iludida pela minha verdade.

— Pelos deuses, eu não preciso do seu perdão. Preciso é tirar você dos pensamentos. — Ele começou a me empurrar com leveza na direção de uma parede.

— O que eu preciso fazer? Não me abandone. — Pedi. Ele era uma pessoa preciosa na minha vida.

Eu senti no ar o que ia acontecer. Havia uma tensão. Presumi que seria inevitável. Ionel chegou com o rosto muito próximo do meu e senti seu hálito quente. Aliás, todo o calor de seu corpo.

— Diga que sim, Ana. — Pediu mantendo seu olhar no meu.

— Sim.

Eu fechei os olhos. Ionel me empurrou contra a parede e me beijou. Senti o ar faltar, o coração bater mais rápido e meu corpo queimar. Queria abraçá-lo e ao mesmo tempo fiquei congelada enquanto sentia aquele beijo. Era como se eu fosse derreter em seus braços.

— Pronto, agora existe um motivo. — Ele lançou um olhar ressentido.

Ouvimos uma única palma. Havia mais alguém ali que pegou a todos nós desprevenidos. Olhei com medo e o temor não passou depois que vi de quem se tratava.

Pareceu-me que Jis estava bastante irritado.

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