Minhas falanges sangraram com o atrito, meus olhos cheios de lágrimas e pura raiva acumulada transparecia. O espelho trincado e coberto por algumas manchas do mesmo sangue de meu punho, enquanto eu encarava aquela pessoa que eu tanto odiava através do espelho, sentindo a mais sincera dor e desgosto de mim mesmo.
[...]
Oh merda, aquilo parecia uma tarefa impossível, ser "perfeito". Era isso que a família Bang tanto cobrava em seu primogênito, a perfeição. Christopher apenas queria ser um cara normal, um cara que seguia seus próprios sonhos, um cara que poderia amar quem ele quisesse, um cara que tivesse vida própria. Trabalhava na empresa de seu pai, que provavelmente seria sua no futuro. Seu corpo estava sempre cansado, sem vida, seu olhar sem esperança. Era tanta pressão em sua cabeça que o Chris já cogitou várias vezes em ir ao terraço do prédio e se jogar dali, sem se importar com mais nada. Aquela dor que o consumia cada vez mais, parecia que aquela frente fria e escuridão nunca iam passar.
Bang Andava apressado pelos corredores da grande empresa, indo em direção ao escritório de seu pai que lhe convocou para uma reunião a sós de ultima hora. Ao chegar em frente a porta deu leves batidas sobre a mesma, a abrindo com cuidado e serrando os punhos quando a ouviu ranger alto.
- Com licença Senhor... - ditou formal ao entrar na sala e avisatar o homem de cabelos grizalhos sentado em sua grande mesa olhando alguns dos papéis espalhados por cima dela.
- Está cinco minutos atrasado, Christopher. - o Bang mais velho apenas levantou seu olhar em direção ao filho, indireitando seus óculos.
- Me desculpe senhor. - se curvou brevemente, logo puxando uma das cadeiras em frente a mesa do pai e se sentando. - Aconteceu alguma coisa?
- Sim, aconteceu. Você anda sendo um incompetente Christopher! - O grizalho disse rude aumentando seu tom de voz - Eu não te pago para ter que ficar saindo mais cedo do trabalho para ficar indo em consultas médicas!
- Mas pai eu estou fazendo tratamento psicológico, o senhor sabe disso! - Chan tentou refutar
- Tratamento?? Não se faça de doente, eu não tenho um filho louco! Você não irá mais nessas benditas consultas, você tem que se concentrar no trabalho para poder assumir logo o meu cargo. - o velho cruzou os dedos apoiando as mãos sobre a mesa, encarando Chan que tinha seus olhos marejados. - Você me ouviu bem?
- Sim... - sua voz saiu tristonha e sua cabeça se abaixou instantaneamente
- Ótimo, está dispensado.
Chris tinha 25 anos, e mesmo assim, nenhum dominio sobre sua propria vida, sempre sendo controlado dessa maneira. O garoto se levantou e saiu dali o mais rápido que pôde, correndo para o banheiro mais próximo que conseguiu achar naquela empresa.
Apoiou suas mãos sobre a pia, deixando as lagrimas desesperadas saírem de seus olhinhos sem vida. Com o decorrer que chorava ali sozinho, resmungando consigo mesmo, aquela dor ia se transformando em completa raiva, raiva de tudo aquilo que acontecia.
- Eu te odeio! Você é um inútil e imprestável!! - Bang serrou seus punhos com força enquanto encarava seu reflexo no espelho - Eu queria que você morresse!! - socou forte o próprio reflexo, fazendo o espelho trincar e seus dedos começarem a sangrar.
Seu corpo fervia de raiva, mas logo quando percebeu aquele ato impulsivo, piscou alguma vezes secando as lagrimas e saindo dali correndo. Seus passos rápidos iam de encontro ao elevador, que após lhe deixar no andar de seu escritório, caminhou até o mesmo juntando suas coisas rapidamente. Tudo que queria era sair daquele lugar.
Deu graças quando finalmente conseguiu sair de dentro do prédio, respirando fundo aproveitando a ausência daquele ar abafado que sentia a minutos atrás. Esticou suas costas cansado, começando a andar pela calçada indo até o local aonde costumava estacionar seu carro na rua da empresa. Seus olhinhos tristes e pesados pararam numa loja brilhante, estava bem iluminada com uma luz amarelada e reconfortante. Nunca havia prestado atenção naquele lugar antes, cogitou ser um estabelecimento novo, e pela curiosidade, atravessou a rua caminhando até o mesmo.
Chris empurrou a porta, ouvindo o guizo do sininho acima da porta, reparando no local que era muito bem arrumado e um aroma açucarado. Estranhou o fato de uma confeitaria estar aberta até essas horas, já que eram mais ou menos umas 20:00.
- Boa noite, senhor! Como posso ajudar? - Um garoto passou pela porta dos fundos, ficando atras do balcão. Seus cabelos eram loirinhos, combinando com o tom de pele um tanto bronzeado. Suas bochehcas levemente rosadas repletas de sardinhas que formavam lindas constelações em seu rosto, junto a um sorriso radiante que esbaldava gentileza e simpátia vinda do loiro de avental.
Bang paralisou ali mesmo, o encarando por alguns longos e poucos segundos até se recompor. Estava extasiado com tamanha beleza que estava bem ali em sua frente, oque fez o garotinho franzir o cenho pela reação do outro garoto engravatado.
- B-boa noite! Eu só... vim dar uma olhada, nunca havia percebido esta loja por aqui - Chan ditou meio desengonçado enquanto coçava sua nuca e desviava o olhar.
- Oh sim. Fique a vontade! - O moreno se aproximou do loiro que se mantinha na bancada o observando, enquanto dava uma boa olhada na vitrine ali cheia de guloseimas apetitosas.
- Nossa, parecem deliciosos! - apontou para um dos bolos decorados encostando no vidro de proteção.
- Senhor, você está bem? - o loirinho disse preocupado ao reparar no punho de Chan todo machucado.
- Hm? Estou, não se preocupe com isso - riu sem graça tentando esconder o ferimento
- Porfavor, me espere por um momento. - o sardento saiu rapidamente dali, adentrando a porta dos fundos novamente e após alguns estantes, voltou com uma pequena maleta branca. - Senhor sente-se aqui, por gentileza.
- Eu disse que estou bem... - Chris se imprecionou com a preocupação alheia do menor que puxou uma cadeira para o outro se sentar, e sem ter muita escolha, Chan apenas se sentou ali como pedido.
- Me deixe te ajudar porfavor - sorriu meigo abrindo a caixinha e pegando uma das embalagens de remédio em spray e alguns tufos de algodão - Aliás, Sou Lee Felix, mas me chame apenas de Felix se preferir.
- É um prazer Felix. Me chamo Christopher Bang Chan, mas pode me chamar so de Chan, ou Christopher, ou Bang Chan... Tanto faz - riu desajeitado novamente fazendo o outro rir de sua confusão, ele era tão fofo.
Lee segurou a mão machucada de Chris cuidadosamente, arregaçando um pouco a manga de sua camisa para cima, amostrando as marcas de cortes nos pulsos do branquelo que suspirou nervoso. Felix se sentiu triste pelo outro ao notar, voltando a prestar atenção nos machucados nas juntas dos dedos, passando o tal remédio em spray que fez Chan arfar.
- Ai... - gemeu pela pequena dor incomoda e pela sensação de ardido que sentiu, fechando um pouco seus olhos e fazendo o outro lhe encarar.
- Está tudo bem, só irá doer um pouquinho. - sorriu passando o algodão sobre os cortes e limpando o sangue. Chan tentava não mover a mão para não atrapalhar, oque estava sendo uma tarefa difícil pois aquilo realmente estava doendo.
Felix fez o curativo cuidadosamente, sendo carinhoso com cada ação que fazia e tentando não assusta-lo ou algo do tipo. Lee não conseguia se controlar, gostava de ajudar os outros em situações desse tipo, mesmo que fossem desconhecidos.
- Prontinho! - guardou as coisas na caixinha novamente, dando um sorriso para Bang que lhe encarava bobo.
- Muito obrigado, nem sei como lhe agradecer
- Bom, pode me recompensar vindo mais vezes aqui na loja.
- Com certeza voltarei! - sorriu tímido vendo o loiro se levantar e ir até o balcão novamente, pegando um daqueles pequenos bolos e colocando dentro de uma caixa simples.
- Aqui, cortesia da casa! - Estendeu a caixa com o bolo em direção ao maior
- Ah não precisa Lee! Você já fez muito por mim!
- Porfavor aceite! - Chan pegou a caixinha, se curvando como agradecimento - Espero que fique bem e vá com segurança Senhor Bang! Porfavor me dê seu feedback sobre o bolo da próxima vez que voltar
- Ah, foi você quem fez? - Felix acentiu - Você é muito talentoso, fiquei imprecionado. Bom, te vejo qualquer dia! - O loiro acenou vendo Chan sair da loja.
Aquilo era como uma luz no fim do tunel, como se o sol finalmente havia voltado a brilhar depois de tanto tempo. Christopher sentiu uma faísca em seu coração apodrecido, um pingo de esperança havia nascido após aquele acontecimento tão simples e singelo.