Brigada Negra ( temporariamen...

By ChrisSalles

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Aos 16 anos e recentemente órfã, Piper Falchuk se vê em um beco sem saída, tentando evitar ser levada junto c... More

Brigada Negra
Prologo
Capítulo 2 - Esperanças perdidas
Capítulo 3- Refúgio
Capítulo 4 - Frye
Capítulo 5 - Recruta
Capítulo 6 - Pedido frustrado
Capítulo 7 - Adeus
Capítulo 8 - Raposa Branca
Capítulo 9 - Fort Sanders
Treinamento I - Fase Vermelha (as semanas do inferno)
Capítulo 10 - Kimball
Capítulo 11- Queda
Capítulo 12 - B-tech
Capítulo 13 - Batismo de sangue
Capítulo 14 - Punição
Capítulo 15 - Punição reversa

Capítulo 1- Destino

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By ChrisSalles

Alguns meses atrás

Boone, Dakota do Norte 

1 - Destino

A labareda erguia-se alta no céu, levando o irritante cheiro de tecido queimado a se espalhar ainda mais pelo quintal. Da segunda leva de colchas, lençóis e roupas que haviam sido empilhadas, mais da metade do monte já fora consumida pelas chamas, restando apenas a dor dilacerante da ausência em nossos corações.

      Agarrado em minha cintura, Jules me abraça, observando com olhos lacrimosos as coisas de mamãe crepitarem na fogueira. Eram as últimas lembranças físicas dela sumindo como fumaça pelos céus de Boone. Mas assim mandava o protocolo sanitário, e eu regiamente o havia seguido. Como os folhetos e as palestras que tínhamos na escola nos diziam pra fazer.

      Ainda que meus irmãos e eu quiséssemos nos agarrar a um pedacinho que fosse do que mamãe usara, qualquer contato com suas coisas já seria suficiente para passar a Praga Branca, e eu não permitiria isso. Desde que a doença matou nosso pai dois anos atrás, prometi a mim mesma que ela não levaria mais ninguém da família Falchuk. Posso ter falhado com mamãe, por estar fora do meu alcance a proteger da exposição na sua profissão de enfermeira, mas eu não falharia com meus irmãos.

    Com a intenção de voltar à sala para encarar o resto dos procedimentos que nos esperavam, gentilmente tento afastar Jules para o lado, mas ele se agarra a mim no limite de suas forças, como se eu fosse me desintegrar no mesmo instante em que saísse de suas pequenas mãos. Da idade de três anos, ele não fazia ideia do que era a morte, mas sentia as consequências dela: solidão, desespero, abandono... Palavras grandes demais para uma criança tão pequena que ainda chupava dedo.

   Levando-o ainda que a contra gosto pela mão, entro na cozinha e começo a caminhar em meio à fumaça que se embrenha pela casa, preenchendo a escuridão com seu odor. Ao menos ter vivido ali durante tantos anos me fazia poder andar pelos cômodos sem esbarrar em nada. Desde que nos mudamos de Boston, os móveis nunca haviam saído do lugar, parte porque papai e mamãe trabalhavam muito, parte porque eles simplesmente não davam a mínima para decoração. Quem daria quando metade do condado sobrevive com um dólar por dia, e há décadas é assolada pelo fantasma de uma doença mortal que se espalha pelo ar?

   Quando entro na sala iluminada, as duas mulheres do governo nos esperam já visivelmente impacientes. A mais alta e com aparência de feto seco é a assistente social do governo, Leona Peterkin. A única coisa destoante em sua visual preto é a presença de uma máscara cirúrgica verde presa ao seu pescoço também adornado por um colar de pérolas obviamente falsas.

    Eu já a tinha visto antes, enquanto perambulava com sua maleta pela vizinhança em visita às famílias que haviam sido dizimadas pela praga, mas nunca imaginei que um dia ela poderia vir à nossa casa pelo mesmo motivo. A outra mulher, enfiada em um vestido florido, se chama Elizabeth Rosehill. Ela poderia facilmente ser confundida como mais uma senhora rechonchuda de nosso Condado, se não tivesse sido me apresentada como uma tutora temporária de órfãos em situação de risco.

  Assim que nota minha presença de volta a sala a assistente social cobre parte de seu rosto com a máscara cirúrgica, temerosa que a brancura excessiva de meu rosto seja resultado de uma anemia profunda. Um dos sintomas mais evidentes da praga.

  Seu ato seguinte é pegar seu aparelho PaperTab na maleta para fazer as devidas anotações. Bugigangas tecnológicas assim eram tão raras no Condado de Boone, que nosso contato com elas se resumia as propagandas da televisão estatal. Meus pais até tinham condição de comprá-las - e eu sempre os implorava por isso-, mas preferiam investir todo seu suor e parte do dinheiro de seus salários em melhorias no Posto Médico do Centro Comunitário em que trabalhavam.

   “Já incinerou tudo o que a vítima entrou em contato?” a assistente social indaga, de forma mecânica.

   Faço um leve gesto positivo com a cabeça em resposta.

   Enquanto toca na tela de seu minicomputador, observo seus dedos rolarem uma longa lista de nomes seguidos por pequenas cruzes, e finalmente entendo o porquê do tom frio de sua voz. Para aquela mulher, minha mãe era apenas mais um número nas estatísticas. O 67 do dia ou quem sabe o 309 do mês. Não importava... E eu, como todos os outros órfãos da praga, seria tratada pela mesma lógica insensível do Governo.

   “Acho então que já podemos conversar sobre sua situação.”

   Apesar de não poder ver sua boca, sinto que nenhum traço de sorriso ou gentileza se forma por detrás da máscara verde. Imagino se o trabalho a havia tornado insensível, ou se isso já era parte de sua própria natureza.

   Antes que eu possa respondê-la a porta do escritório de papai se abre de onde sai minha irmã Annabel logo acompanhada do Dr. Donnavan.

   Desde a morte de meu pai, há dois anos, ele agora era o médico principal do Centro Comunitário e eu o conhecia tão bem que, apesar de sua função hoje em minha casa, ainda consigo sentir um pouco de alívio por tê-lo conosco. Pois além das respostas de nossos exames ele trazia outra consigo. Uma resposta que nos livraria do caos que minha vida e a de meus irmãos estavam prestes a se tornar.

   “Karl disse que eu não tenho nada.” afirma Annabel, vindo até mim.

    Viro minha atenção para o Dr. Donnavan numa pergunta silenciosa e ele confirma com a cabeça. Mesmo sabendo que seria difícil meus irmãos terem pegado a praga, por eu não tê-los deixado chegarem um minuto sequer perto de mamãe durante seu período de convalescência, sinto um alívio percorrer meu corpo ao ter certeza que Jules estava livre do “mal do século XXV”, como a doença havia sido apelidada pela TV do governo.

   “Ótimo. Agora examine o garoto. Preciso fazer algumas perguntas a mais velha.” a assistente social ordena num tom elevado, como se o Dr. Donnavan não pudesse ouvi-la por detrás da máscara cirúrgica. De todos nós, ele era o único dali a não precisar tomar tais cuidados preventivos contra a Praga. No que as estatísticas desacreditadas diziam ser quase impossível, ele havia sobrevivido à doença, ganhando imunidade contra ela. Por isso sempre era designado para fazer os exames nos sobreviventes das famílias que foram atingidas pelo vírus. Um trabalho estressante e doloroso que aprofundou ainda mais as linhas de expressão em seu rosto fazendo-o parecer dez anos mais velho do que seus cinquenta anos recém completados.

   “Vamos, agora é sua vez.” Dr. Donnavan chama Jules, com a mão estendida. Assinto para ele, na tentativa de encorajá-lo, e meu irmão então o segue até o escritório para mais uma rodada de exames.

   Estrategicamente, peço a Annabel para apanhar um pouco de suco e biscoitos na dispensa com a desculpa de servir as senhoras do governo, e ela vai sem questionar. Sei que as bruxas não irão tocar em coisa alguma dessa casa, pelo menos não até o final dos exames, mas não importa. Minha verdadeira intenção em mandar Bel à cozinha é poupá-la da conversa dolorosa que viria.

   “Bem, senhorita Falchuk, vejo pelos meus arquivos que acabou de completar dezesseis anos, correto?” pergunta a assistente social, tirando sua atenção da tela brilhante do PaperTab para me fitar.

    Apenas assinto de leve com a cabeça. Meus olhos pregam-se no chão em uma clara recusa de encará-la.

    “E... a senhorita não tem nenhum parente consanguíneo ainda vivo, correto?”

    “Não senhora.” replico num tom de voz apagado, já me sentindo sufocada com o rumo que aquelas perguntas estavam tomando.

   “Você faz ideia do que isso implica, não faz?” ela diz baixando um pouco o rosto, na tentativa de fisgar a atenção de meus olhos novamente.

    Apesar da resposta viva em minha garganta, não consigo pronunciar um único som. Eu sabia o que iria acontecer conosco daqui pra frente. Sabia exatamente a consequência da morte de meus pais. Pois era assim com todos os órfãos da Praga. Sem família ou qualquer parente ao menos distante que pudesse nos sustentar, Annabel, Jules e eu seríamos levados à Comarca do governo, bem no centro de Dakota do Norte, e de lá, provavelmente separados, vindo a parar num dos muitos abrigos sociais existentes na Federação. Nos unindo a massa de mutilados, doentes mentais, mendigos e outros órfãos que eram obrigados a viver nesses antros.

    Sabia também que nossa casa, construída com tanto afinco por nossos pais, seria tomada pelo governo e leiloada, assim como tudo em seu interior.

     Mas o que mais me machucava era o quão impotente eu estava em relação a tudo aquilo. Se eu pelo menos tivesse dezoito anos, a maioridade que agora rege na Federação, poderia trabalhar e tomar conta de meus irmãos. Mas tendo apenas dezesseis e nenhum poder de decisão legal sobre minha vida, nada menos que um futuro sombrio esperava a mim e aos pequenos.

    “O carro oficial do governo virá buscar vocês na segunda-feira às oito da manhã. Enquanto isso a senhora Rosehill será a tutora temporária de vocês.” ela sentencia com a doçura de um juiz que dá a pena de morte.

    Não espero por parte da assistente social frases como “Sinto muito por sua perda” ou qualquer outra que traga conforto, e de fato elas não vem. Tudo que me resta é a realidade e um relógio correndo contra mim.

    Três dias, penso comigo. Eu tinha apenas três dias até ser encaminhada junto com meus irmãos para a capital, Bismarck. A constatação me faz sentir como se estivesse deslizando lentamente em um abismo.

    Só consigo pensar em Annabel e Jules, separados pela distância, chorando no quarto encardido e superlotado de algum Abrigo, enquanto cada pedaço de nossa casa é partilhado pelos abutres do governo.

     As lágrimas vêm em ondas fortes, mas mesmo eu fazendo força para segurá-las, elas acabam rolando pelo meu rosto, queimando minhas bochechas com raiva e ódio.

     A presença de Annabel vindo da cozinha me faz secar rapidamente os olhos com as mangas do casaquinho e me levantar para olhar a janela, fingindo interesse na pick up prata do Dr. Donnavan estacionada em frente a nossa casa.

    Bel não nota minhas lágrimas devido à extrema concentração que empenha tentando não derrubar os biscoitos e a jarra de suco que traz consigo na bandeja, e eu acho melhor assim.

    “Uma garota um tanto grande para ter só sete anos, você não acha?” a assistente social comenta, num falso tom amigável, começando a circular novamente pela sala.

     Não procuro responder. Com a paciência no limite, tudo que eu menos queria agora era embarcar numa conversa banal com aquela mulher.

     “Você é incrivelmente idêntica a sua mãe.” a assistente social insiste num diálogo, passando em frente a estante onde estão várias fotos de família. De alguma forma sinto como se aquela mulher estivesse invadindo nossa intimidade. Violando a memória de meus pais com seus olhos de coruja pulando sobre cada porta-retrato.

 “Foi uma verdadeira privilegiada na loteria genética.” ela se vira para mim, sorrindo. Do outro lado da sala, a senhora Rosehill concorda com a cabeça.

    De fato todos diziam que eu me parecia com mamãe. A mesma pele rosada, mesmo tom chocolate nos cabelos, mesmos olhos cor de mel... Mas nenhum elogio da assistente social poderia desculpar suas palavras tão vazias de humanidade ditas há pouco. Ainda que ela não passe de uma mera empregada do governo, agora eu a odeio tanto quanto a praga que matou meus pais.  

     Mesmo assim continuo calada, e me sento na poltrona que papai sempre usava pra relaxar quando voltava dos plantões no posto do Centro Comunitário. Bell senta em meu colo eu então começo a trançar seus cabelos enquanto ela come um pouco de biscoitos que trouxera da cozinha.

   Em dez minutos o exame de Jules está terminado, e ele volta para a sala me brindando com a notícia que eu já esperava: estava “limpo” também.

   Ao chegar minha vez, coloco Jules aos cuidados dela e deixo a sala, mesmo não confiando nos sorrisos forçados que a tutora e a Assistente Social me dão. Dentro do escritório de papai, Dr. Donnavan me pede para sentar sobre mesa e eu o obedeço. Os exames que se seguem são os de praxe. Ele avalia meus ouvidos com um aparelho engraçado, me pede para tirar o casaco à procura de possíveis erupções avermelhadas na pele, ouve meus pulmões colocando um estetoscópio gelado em minhas costas enquanto respiro profundamente, e em seguida, olha minhas pálpebras, à procura de algum sinal de anemia.

   Como não acha nada que possa ser detectado a olho nu, vai até sua maleta para pegar um aparelho de design arredondado, semelhante aos que mamãe usava para medir seu índice de glicemia por causa da diabetes. Mas, ao contrário do dela, esse era bem menor, não possuindo agulha alguma visível, apenas um pequeno buraco do tamanho exato da ponta de um dedo. Sua escassez no Posto Médico do Centro Comunitário, no entanto, não me impede de reconhecê-lo. É um Kit para a testagem da Praga. Tão eficiente para detectá-la em poucos segundos e com apenas uma gota de sangue, que talvez isso explique o preço alarmante cobrado por cada unidade sua nos centros urbanos da Federação.

     “Não vai doer nada.” Dr. Donnavan afirma, colocando meu dedo indicador no orifício do aparelho. E de fato não sinto dor alguma, apenas uma leve ardência, que passa tão rápido quanto eu possa me dar conta.

      Dr. Donnavan coloca o aparelho em cima da mesa a espera do resultado e, pela primeira vez, me vejo apavorada pelo o que aquele dispositivo pode dizer. As chances de eu estar contaminada eram altas, dado o tempo que eu havia passado cuidando de mamãe, depois que ela foi mandada terminar seus últimos dias em casa.

Apenas um giro na memória e me lembro de sua aparência fantasmagórica sob a cama, agonizando com o corpo tomado por erupções avermelhadas. A cena é ainda tão viva em meus pensamentos, tão rica em detalhes, que meu estômago reage enojado ao repassá-la mentalmente. Eu não queria ter aquele mesmo fim. Eu não queria morrer. Ainda mais tendo duas crianças pequenas dependendo exclusivamente dos meus cuidados.

    Dr. Donnavan percebe a aflição em minha face e, num instinto protetor, abre os braços esperando por mim. Sem hesitar, vou ao encontro do corpo dele, enlaçando-o com força, da mesma maneira que fazia com meu pai quando eu era criança e temia a escuridão da noite. É reconfortante o quanto Dr. Donnavan o lembra. Tanto na bondade incondicional quanto no olhar sereno.

    “Calma, querida. Vai ficar tudo bem.” ele afirma, se inclinando para beijar o topo de minha cabeça. Mas outra vez meus olhos não conseguem conter as lágrimas.      

   “Você está dizendo isso como médico ou como meu padrinho?” pergunto entre soluços, sentindo um botão de seu jaleco marcar incomodamente minha bochecha.

     A resposta dele, no entanto, é cortada pelo apito sonoro que indica o fim da testagem do sangue pelo aparelho. Congelo na mesma posição, meu pulso se acelerando num ritmo frenético conforme Karl se inclina em direção ao dispositivo para verificar o resultado que pisca em sua tela.  

   Minha sentença de vida ou morte. 

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