Música: Como vai você.
( Raffa Torres)
Como vai você?
Eu preciso saber da sua vida
Peço a alguém pra me contar sobre o seu dia
Anoiteceu e eu preciso só saber
Guilherme não havia notado a presença de Flávia quando começou a tocar a melodia no piano. Ela seguiu em total silêncio, enquanto o primeiro trecho saia da boca do médico, que cantava baixo e no ritmo.
Como vai você?
Que já modificou a minha vida
Razão da minha paz tão esquecida
Não sei se gosto mais de mim ou de você
O peito de Guilherme doía, e era perceptível pela sua voz. Ele sentia tanta saudade da sua garota roubada. " Não sei se gosto mais de mim, ou de você". Guilherme sabia. Ele era completamente louco por Flávia. E não tinha nada, que ele poria acima dela.
Vem, que a sede de te amar me faz melhor
Eu quero amanhecer ao seu redor
Eu Preciso tanto lhe fazer feliz
Vem, que o tempo pode afastar nós dois
Não deixe tanta vida pra depois
Eu só preciso saber
(Como vai você?)
Flávia sabia, ela sentia, que ele cantava para ela. Embora ele ainda não tivesse notado sua presença. Mesmo que ele soubesse que ela não ouviria, ela sabia que Guilherme cantava pra ela, e seu peito se apertou. E a saudade se tornou mortificante.
Como vai você?
Que já modificou a minha vida
Razão da minha paz tão esquecida
Nem sei se gosto mais de mim ou de você.
Enquanto seus dedos tocavam os teclados do piano, sua voz quase falha na última estrofe da música. Guilherme nunca fora um homem de rezar, mas ele pedia, para quem ou o que, que pudesse ouvi-lo, para trazer Flávia de volta. "Eu sinto tanta sua falta. Nossa cama sente sua ausência. Meu corpo precisa do seu". Ele dizia para a foto dos dois no criado mudo. Não sei viver sem você. Pensava , todas as vezes em que entrava no closet, e notava a falta de cores. Então, ele cantava, numa esperança estúpida, de que talvez, ela pudesse ouvir, e voltar.
" Vem, que o tempo pode afastar nós dois."
Como ela poderia ter deixado isso passar? Tempo, era um luxo que eles não tinham, infelizmente. E ela estava se esquecendo disso. Ela estava se esquecendo que faltava apenas três meses para o prazo da morte. Ela estava deixando a vida passar. O seu amor. E todo o seu amor, estava resumindo a um homem usando preto, tocando piano e cantando saudosamente.
Vem, que a sede de te amar me faz melhor
Eu quero amanhecer ao seu redor
Eu preciso tanto lhe fazer feliz
Vem, que o tempo pode afastar nós dois
Não deixe tanta vida pra depois
Eu só preciso saber...
O gosto salgado das lágrimas de Flávia se misturaram com o amargor em sua boca, ao ver o sofrimento de Guilherme. Ao ver o dela também, refletindo nele. Era como se ele estivesse a esperando, desde a primeira noite em que ela dormiu fora. Talvez fosse sua conexão com a música, mas ela parecia ter sido escrita para eles, naquele momento.
"Não deixe tanta vida pra depois"
Você não vê que nossa vida está passando?, Guilherme repetia essa frase para o nada, todo dia, como se Flávia fosse capaz de ouvir. Ele a esperava todos os dias, em cada ligação, em cada recado que Regina deixava em seu escritório. Ele pedia aos céus para que Flávia entrasse sem ser anunciada em sua clínica, invadindo e arrebatando tudo, como ela fez na primeira vez em que eles se viram após o acidente. Guilherme pedia isso com tanta força e com tanta frequência, que se viu alucinando com o cheiro dela. Ele sentiu que havia perdido a sanidade, quando podia jurar, que sentia a presença dela ali, o observando. Ele tocou a última nota da música.
Como vai você?
Seu corpo ficou totalmente ereto, ao repetir a última frase da música, e ouvir uma segunda voz fazendo coro com a sua. Guilherme ficou em completo silêncio, enquanto uma mulher, usando blusa xadrez e meia arrastão caminhava até ele. Postura confiante e olhos marejados, enquanto sua voz soava baixa ao lhe perguntar:
" Tudo bem, doutor?"
Sua voz saiu tão fraca, que se ela não estivesse perto o suficiente, não ouviria..
" Flávia."
**
Pov' Guilherme
Precisei me beliscar - discretamente - para ter certeza de que minha mente não está me traindo. Meus olhos encaram a figura a minha a frente, que me encara de volta, com os olhos vermelhos. Eu quero desesperadamente toca-la, mas me contenho, com medo de causar mais estrago.
- É uma música linda. - Ela faz uma pausa..- A que você estava tocando.
- É... É sim.- Eu gaguejo, pateticamente.- Eu... Eu gosto bastante.
- Eu também. - Ela diz pressionando as mãos unidas abaixo da barriga. Que está maior.- Eu conheço na versão de Raffa Torres.
- Bom, eu conheço na versão original, de Roberto Carlos.- Ela sorri rapidamente. Então, eu me levanto, e um suspiro pesado sai de nós dois.- Então Flávia, como vai você?
Ela abaixa os olhos rapidamente, e então me encara de novo. Eu luto contra o nervosismo, e angústia, ao vê-la segurando o choro.
- Estou sobrevivendo. E você?
- Não estou muito diferente.- Flávia acena com a cabeça. O clima é tenso, é desagradável.
- Guilherme...- Ela puxa o ar para os pulmões, como se estivesse se encorajando, eu dou um passo a frente.- O que você fez, me magoou muito. Eu fiquei devastada por saber que você sabia, e não me disse nada.- Não digo nada, apenas aceno, sem ter muito o que dizer á respeito disso. Bom, não muito o suficiente para fazer com que a mágoa dela se desfaça. - Eu me senti traída. Senti que você havia priorizado os sentimentos da Paula.
- Flávia...- A interrompo, chegando ainda mais perto.- Não foi isso. Eu juro. Eu só não disse nada porque a Paula pediu. Ela disse que isso era um assunto entre vocês, e não me vi no direito de...
- Deixa eu continuar, por favor.- Respiro e concordo, coçando a têmpora, tentando restaurar o controle.- Nada do que você disser mudará a forma como me senti. Nada, vai mudar o que senti naquela noite, Guilherme. O desespero, a dor, a angústia, a falta de ar. Nada vai mudar o que já passou.
Um suspiro derrotado me escapa. Ela tem razão. Nada vai mudar ou apagar a dor dela. Assim como não mudará o que senti ao vê-la tendo uma crise de ansiedade, como me senti durante todo esse mês.
- Mas o que eu quero dizer, Gui, é que independente de saber por você ou não, nada mudaria a dor de saber que a Paula é minha mãe. Que foi ela quem me abandonou. Talvez você tenha errado por não ter me dito, por ter omitido de mim todo esse tempo, que ela é a minha mãe. - Aceno mais uma vez. Sem ter argumentos.- Mas a verdade, é que esse assunto, não é seu. Não estava totalmente no seu controle. Da mesma forma que não cabia a mim, dizer ao Antônio que o Neném é o pai biológico dele, não cabia a você, dizer que a Paula é minha mãe.
- Flávia....- A minha voz é um sussurro esperançoso.
- Eu me senti traída porque eu confiava cegamente em você. Porque naquela noite, eu senti que minha base, minha âncora, que é você, havia me abandonado. E não é assim. Eu poderia te buscar para me ajudar a enfrentar toda essa situação, eu poderia pedir seu colo e seu abraço, seu abrigo. Eu poderia fazer isso independente da forma que eu soubesse a verdade sobre a Paula. Mas eu não poderia fazer de você, um responsável por meus sentimentos e emoções. Porque embora você seja a minha âncora, eu quero estar ao seu lado, e quero que você esteja do meu. Afinal, relacionamento é estabilidade. E se eu continuasse depositando em você a minha estabilidade, então, passaria a ser dependência. Eu nunca quis isso. Quero que sejamos estáveis.
- Meu amor ...- Seguro seu rosto, enquanto ela funga, seus olhos e rosto molhados. - Me desculpa. Me perdoa, por não ter te dito. Eu sou grato pela sua compreensão, mas isso não anula meu erro e minha falha. Eu só quero que você saiba que, você é o amor da minha vida. Quero que saiba e que nunca se esqueça, que eu te reconheceria mesmo em meio a escuridão. Eu seria capaz de te ouvir, mesmo se fosse surdo. - Ela sorri, aquele sorriso lindo, mesmo em meio as lágrimas. Sorriso que tanto me fez falta.- Eu fiquei tão desesperado, quando te vi tendo aquela crise de ansiedade. Pensava em você incessantemente. Eu senti tanto sua falta. . Eu sinto tanto sua falta... Se você puder, me perdoa, e voltar para mim...
- Eu perdôo você. E eu não preciso voltar, porque meu coração nunca deixou você. Eu não quero e não posso, viver uma vida sem você, Gui. Eu não quero e não posso me imaginar mais sem você. Porque a minha alma reconhece a sua, e ela não quer te ter longe.
Eu a tomo para mim, beijando seus lábios com cuidado, com medo de quebra-la novamente. Prometendo para mim mesmo, que nunca mais o farei. Não quando eu puder evitar. Flávia apressa nosso beijo, erguendo o corpo, puxando meus cabelos. Ela está ansiosa, e eu não estou diferente, o volume crescente no meio de minha calça nos mostra isso. Solto minha mãos de sua cintura, e ergo seu corpo pela parte de traz de seus joelhos. Deposito seu corpo em cima do piano, e uma melodia alta e desconhecida escoa, quando a ponta de sua bota toca em algumas teclas. Flávia enrosca meu quadril com suas pernas, e posso sentir ainda por cima do meu moletom, o calor que vêm do meio de suas coxas. Porra Flávia, eu não preciso nem te tocar, e sei que você está pronta para mim. Ela pressiona seu quadril contra o meu, se insinuando enquanto suas mãos passeiam por dentro de minha blusa. Seus toques no meu abdômen se conectam diretamente com meu pau.
- Diz para mim que você estava com saudade.- Peço enquanto beijo seu pescoço, e o lóbulo de sua orelha. Minha mão sobre por dentro de seu blusão, passando levemente pela sua barriga arredondada. Ela geme deliciosamente para mim, apertando meus ombros, enquanto aperto seu seio farto.- Diz para mim que você estava morrendo de saudade. Que eu sou o homem da sua vida. Diz.
- Eu estou morrendo de saudade.- Sua voz se mistura com seu gemido.- Eu sou completamente louca, completamente apaixonada por você, Doutor.
Sua voz, seu cheiro, sua pele, seu corpo, seus toques e lábios são demais para mim. Flávia arqueia para traz e morde o lábio inferior tentando conter o gemido alto que lhe escapa, no momento em que meus dedos mergulham no seu interior pulsante e encharcado. TE AMO, TE AMO, TE AMO, TE AMO... Ela repete enquanto caminho em direção ao nosso quarto, com suas pernas enroladas em minha cintura, enquanto se esfrega em meu abdômen, buscando atrito e alívio.
- Não te quero nunca mais longe de mim.- Digo, enquanto direciono minha boca para parte em que Flávia mais precisa de atenção. Seu gemido é alto e sôfrego, quebrando todo o silêncio ensurdecedor que havia se instalado nesse quarto, a um mês. Suas mãos puxam meu cabelo enquanto minha boca trabalha no ponto pulsante e inchado no meio de suas pernas, que pressionam minha cabeça, enquanto ela goza. Nossas vozes se misturam em um gemido longo, quando entro nela, fundo e forte.
Somos mãos, toques, juras e promessas. Nós somos variáveis posições, beijos, falas desconexas. Nosso cheiro se mistura, o nosso suor e calor. Nós somos um ritmo frenético, palavras sujas, desejo ardente. E eu luto para manter meus olhos abertos enquanto Flávia cavalga em cima de mim, com suas mãos espalhadas no meu peito. Enfim, nós somos explosão, quando nossos corpos chegam juntos ao limite, quando nossas vozes falham em meio ao grito, quando o prazer domina completamente. E chega a ser doloroso ter que sair de dentro dela. Somos o aconchego no abraço um do outro, e a cama já não grande e vazia demais.
- Flávia, eu te amo. Mais que tudo.
Meu coração está em paz...
Notas da aurora:
Peço desculpas por qualquer erro ortográfico, e espero de coração que gostem!
Boa leitura 💕
Beijos de luz 💕