Chris
Eu queria apenas subir na minha moto e dirigir para longe, bem longe de Solares e nunca mais olhar para a cara daquele prefeitinho de merda, mas por mais estranho que pareça eu não queria deixar a Abby sozinha com aquele cara, eu só não entendia porque eu me importava tanto com ela. Trabalhamos juntos, ela é linda, divertida, cuida e protege aquele menino como uma leoa e o sorriso dela é capaz de iluminar a sala, mesmo durante as reuniões de equipe mais chatas da história. E mesmo assim, se eu quisesse ficar longe de confusão, o melhor a fazer era deixar aquela menina linda para trás e nunca mais voltar. Ainda tinha 11 meses para provar para o meu pai que poderia ficar longe de confusão.
A Prefeitura de Solares funcionava em um pequeno prédio, de arquitetura antiga, como quase todos os outros prédios da cidade, com apenas 3 andares para descer, escolhi ir pela escada ao invés do elevador antigo e barulhento que o prédio possuía. Não havia nem alcançado o segundo lance de escadas quando me lembrei que Abby precisaria voltar de carona comigo. Isso irritaria o Rafael? Ótimo! Se depender de mim, ele pode começar a arrancar as calças pela cabeça. Eu nunca gostei de pegar mulher de outro homem, mesmo aquelas que se jogam aos meus pés, se estiverem com outro cara, eu rejeitava. Eu não tenho nenhum problema em conseguir uma mulher, então pra que pegar a de outro? Mas que esse Rafael merece um par de chifres, merece! Se a Abby fosse outro tipo de mulher...
Já estava no corredor quando escutei ela gritando e sem pensar duas vezes corri até a sala daquele infeliz. Ele tentava segurar Abby com uma mão e a outra estava puxando a camisa dela.
- Solta ela agora, seu filho da puta! - com o susto pela minha invasão ele empurrou Abby contra uma parede, a blusa dela rasgou, mostrando um pouco do seu sutiã preto.
- Cai fora da minha sala!
Sem deixar de olhar para ele fui até ela, ofereci minha camisa para que cobrisse seu sutiã que aparecia, mas Abby chorava tanto que mal reagia ao que eu lhe mostrava, tentei falar com ela da forma mais calma possível para não deixá-la mais assustada.
- Abby pega isso e me espera perto da moto. - Ela parecia confusa, mas quando toquei em sua pele exposta pelo rasgo ela pareceu perceber a minha intenção e pegou a minha camisa. A última coisa que eu precisava notar era o quão certo ela parecia ficar vestida com a minha roupa. - Vai lá. Deixa que eu cuido disso.
- Chris, por favor só me tira daqui.
- Eu vou, linda, mas antes eu preciso fazer uma coisa. Vai. - Assim que ela saiu eu fechei a porta e encarei o Rafael que me encarava de forma ameaçadora. - Então agora somos só nos dois, prefeitinho.
Não esperei por uma resposta, avancei nele com meu punho, acertando sua cara em cheio, ele recebeu o golpe e avançou, tentando me acertar, depois de duas tentativas, um dos seus socos acerta minha boca, sinto o gosto acobreado do sangue, mas sigo avançando nele, até acertar uma sequência de dois ou três socos que o deixa tonto. Ele tenta avançar mais uma vez, mas acerto um chute em sua barriga, derrubando ele na mesa e enfim no chão, de onde ele não levanta e nem para de me ameaçar.
- Eu vou fazer da sua vida um inferno!
- Levanta, covarde! Agredir ela é fácil, né?
- Você é um homem-morto!
- LEVANTA!!
Naquele momento um segurança apareceu na porta, com uma cara de quem não entendia nada. Não foi espanto quando Rafael correu para se proteger na barra das calças do homem.
- Joga ele para fora da minha prefeitura, eu quero esse filho da puta longe daqui. - ele choramingava cuspindo sangue. - Ela é minha e você nunca vai ficar com ela!
- Me solta, porra! Se você machucar ela de novo, eu acabo com você, seu merda! Me solta, caralho!
Saindo do agarre do segurança, eu desci até a Abby, que estava onde eu mandei, colada a minha moto, com o rosto molhado de lágrimas que recomeçaram a cair quando ela me viu sair com o rosto machucado.
- Chris! Ai meu Deus! Você está bem?
- Você vai ficar longe desse cara, Abby!
- Eu vim pra terminar com ele, mas nunca imaginei que... - Ela não terminou a frase, começou a chorar e eu só me preocupei em abraça seu corpo, tão pequeno em relação ao meu. Eu não sabia por que eu tinha essa necessidade de proteger ela, mas não ia deixar um merda como Rafael machucar Abby.
- Vem, sobe na moto, vou te levar embora daqui antes que ele apareça.
Abby
Se a minha primeira viagem de moto foi intensa e perturbadoramente sexual, dessa vez eu me sentia humilhada pelo que aconteceu. Como eu não vi antes que o Rafael era capaz disso? O que teria acontecido comigo se o Chris não tivesse aparecido naquela hora. Distraída, não vi que já havíamos chegado na garagem da minha casa.
- Posso cuidar dos seus machucados?
- Tá tudo bem, não foi nada grave.
- Mesmo assim, entra. É a minha maneira de agradecer e te devolver a camisa. - Para minha surpresa, Chris me pegou pela mão e fomos juntos até a entrada da minha casa. Quando eu abri a porta dei de cara com o Leo, que arregalou os olhos assim que me viu com o Chris e o machucado no seu rosto.
- Chris, você tá dodói! Mãe, dá beijo para sarar!
- Eu vou filho. - Quando terminei de falar vi que o Chris ria e apertava minha mão com mais força - Digo, eu vou cuidar do dodói, mas sem beijo.
- Mas você me beija para sarar meus dodóis! Tadinho do Chris!
- É Abby, tadinho de mim, eu preciso sarar do dodói - o muito sem vergonha do Chris fala como se ele não tivesse acabado de sair no braço com o nosso chefe. - Eu acho que mereço.
Para minha própria surpresa eu viro meu corpo até o Chris e beijo o seu rosto, que começava a ficar inchado perto do olho. No momento em que meus lábios tocam sua pele uma eletricidade percorre todo o meu corpo da ponta dos pés até o último fio do meu cabelo, mas pelo bem da minha sanidade, eu guardo essa informação bem no fundo da minha mente. Ele me dedica um sorriso de menino, tão parecido com o do meu filho, que a minha vontade é de contar toda a verdade para ele.
- Abby, vou precisar de mais desses para sarar.
- Para Chris! Senta aí com o Leo, vou pegar o remédio. - Corri até o banheiro, onde mantinha no alto do armário todos os remédios que tinha em casa. Antes de voltar para a sala, tirei a camisa do Chris, e vesti uma nova, de mangas compridas para não deixar as marcas da mão do Rafael visíveis. Eu preciso denunciar o Rafael, o problema era que sua família sempre mandava e desmandava na delegacia da cidade. Chegando na sala, Leo e Chris estavam lado a lado assistindo Homem-Aranha, enquanto conversavam qual era o vilão mais poderoso. Parece que pai e filho tem um amor em comum.
- Aqui a sua camisa, Chris. - Ele larga a camisa no canto do meu sofá, parece que alguém fica bastante à vontade na minha casa. - Vira o rosto, vou passar um pouco de álcool iodado no corte perto da sua boca e depois por gelo no inchaço.
- Sou todo seu, doutora Abby. E depois precisamos conversar, sem o pequeno, tudo bem?
- Estava pensando nisso. Me deixa cuidar de você. - Assim que me aproximei dele minha mão começou a tremer, mas Chris segurou meu pulso, firmando minhas mãos enquanto passava o álcool nele, nossos olhos se encaravam, e pela primeira vez notei que ele e Leo compartilhavam o mesmo tom de azul dos olhos.
- Filha, doutor Chris.
- Boa tarde, senhor Caputo.
- Raul, onde você estava que deixou o Leo sozinho?
- No meu quarto, tirando a graxa das mãos, relaxa que o Leo sabe ser bonzinho quando quer. Por que a sua cara tá inchada rapaz?
- Leo, por que você não arrumar a sua coleção de revistas do Homem Aranha para mostrar para o Chris? Estão lá no seu quarto, vai lá e logo eu e o Chris vamos te levar um lanche e você mostra elas para ele, ok?
- Odeio quando adulto quer conversa e inventa história para me tirar da sala, eu já sou grande, mãe!
- Leonardo, vai fazer o que eu mandei. Por favor, querido.
Leo subiu até o seu quarto, o tempo todo reclamando, mas quando enfim ele virou no corredor eu respirei fundo e contei tudo que aconteceu para o meu pai, como Rafael me segurou pelos braços, e meu pai correu para o meu lado exigindo ver se eu estava machucada e como Chris entrou e os dois brigaram, o que rendeu ao Chris um aceno de aprovação do meu pai.
- Nós podemos deixar o Leo com a aquela menina do outro lado da rua e ir agora na delegacia denunciar esse filho da mãe!
- Raul, o tio dele é o delegado, nunca vai acreditar em mim! E mesmo se acreditasse, você sabe tão bem como eu o quanto as leis de proteção as mulheres não funcionam no Brasil!
- Eu vou ligar para o Carlos, ele tem uma história com esse Rafael, ele vai vir ajudar. Mas uma coisa é certa, Abby, você deve ficar longe dele!
- Isso não é problema, mas eu acho que estou desempregada.
- Menina, para de besteira. Eu posso aguentar essa casa sozinho muito bem e você sempre pode procurar o pai do Leo e pedir uma ajuda pela escola dele.
- PAI! Você sabe que não posso fazer isso.
- Espera Abby, essa é uma boa ideia, é dever do pai dele ajudar nas despesas do menino.
Ah se o Chris soubesse que ele era o pai do Leo! Mas como eu contaria para ele isso? Eu tenho certeza que ele nem lembra daquela noite que ficamos juntos, afinal, faz cinco anos, estávamos bêbados e eu tenho certeza que uma transa de uma noite nunca foi algo raro na vida dele, o que faz da nossa vez algo nada memorável na vida dele, como foi na minha. Eu quero contar para ele, não só por ele, mas pelo Leo que merece um pai, e já me perguntou várias vezes quem é o pai dele, mas ainda não havia encontrado uma maneira de puxar o assunto, talvez meu pai estivesse me dando a oportunidade de preparar o terreno.
- Chris, o pai do Leo foi alguém que eu conheci numa noite. Eu morro de vergonha de contar isso, mas enfim, eu tinha bebido demais, eu nunca fiz isso antes, mas esse cara falou comigo, nós passamos a noite conversando, ele me levou para a praia, ele morava em frente ao mar, acabamos indo para a casa dele, transamos e um mês depois eu descobri a gravidez.
- Porra Abby! Você estava louca? Sabe o quanto você se arriscou? E se esse cara fosse um louco abusador? - Sério que ele estava me dando lição de moral no que ele fez? Ironia define! - Desculpa, eu sei que a vida é sua, mas foi arriscado.
- Chris. - Respira fundo Abby - Foi só aquela vez, eu tinha bebido e minhas amigas falaram para ir, sei lá, loucura da idade. Enfim, eu sei quem é o pai, mas ele nem imagina que tem um filho e eu não sei como dizer, como você reagiria se eu te falasse: Chris você é pai?
- Surtaria. Não acreditaria. Não seria a primeira vez que me falam isso e em todas as vezes quando o DNA foi feito deu negativo, você sabe sobre a minha família, já falamos dela, muitas querem o herdeiro da fortuna Teles. Mesmo o Leo sendo um garoto incrível eu não me vejo pai, eu não quero ser pai na verdade, ou ter mulher e filhos, eu não nasci para ser o tipo família, nasci para ser livre, então, um filho? Passo!
Merda!
- Abby, por que você não liga para o Silvalino? Ele não suporta a família do Rafael, vai adorar te ajudar nesse problema e você rapaz, liga para o seu amigo advogado.
- Eu preciso falar com ele que fui demitido, depois de hoje duvido que tenho emprego, Sr Caputo.
- Pode me chamar de Raul, Chris. E vai por mim, Rafael não vai deixar barato essa briga de vocês dois, pede para o seu amigo voltar logo para Solares. Você vai precisar dele aqui.
- Manhê!!!!!!! Chris!!! Cadê meu lanche? - O Leo gritou lá do seu quarto, esse menino tinha uma potência vocal que benza a Deus!
- Pode deixar que vou lá ficar com ele Abby, adoro o seu moleque.
- E ele te adora, é só você falar que gosta de uma coisa e ele gosta também, parecem pai e filho. - Eu respondi com sarcasmo pingando em cada letra, mas o Chris nem percebeu.
- Adoro o Leo, mas filho? Tô fora!
Foi só bem depois que o Chris subiu até o quarto do Leo e eu estava terminando de fazer achocolatado para os dois, que ambos gostavam apenas que fosse Nescau e frio, com exatamente 2 pedras de gelo no copo, que o meu pai me abraçou e falou com o rosto colado no meu cabelo.
- Filha, eu também já pensei como ele e não queria filhos, mas meu maior arrependimento não foi ter lutado por você. Não deixa ele cometer o mesmo erro, conta a verdade para ele, e logo.
- Como você descobriu, pai?
- O jeito que você ficou, a semelhança física entre ele e o Leo, não foi difícil, o que me leva a dizer que não vai ser difícil para outros descobrirem, basta ver os dois juntos, e com o Rafael querendo te machucar como fez hoje, conta logo pelo bem do Leo. Eu vou deixar vocês três sozinhos essa noite, um amigo de fora da cidade veio me ver na oficina.
- Tchau Pai.
- Abby? Eu gosto quando você me chama de pai.
E assim meu pai saiu para passar a noite fora, me deixando em casa com o Chris e o Leo. Será que eu teria coragem para falar a verdade?