Dizem que a escuridão é o que marca o fim de nossas vidas, e que o vazio é a última coisa que sentimos. O que você faria se tivesse que conviver com o vazio?
A minha imagem no espelho era a mesma dos meus 12 anos. Magra e pálida, os cabelos ruivos rebeldes e compridos e os olhos verdes brilhantes estavam vidrados no reflexo. Claro, eu não estava olhando para um espelho real. Eu encarava a minha irmã, a exata cópia de mim mesma. Ao virar a cabeça para o lado direito, eu vi minha terceira irmã sorrir para mim com um dente faltando na parte de cima. Ela segurava o dente na mão, contente por poder colocá-lo debaixo do travesseiro e quem sabe ganhar uma moeda de uma fada. Três pequenas garotas exatamente iguais, três vidas completamente diferentes. Eu olhei em volta, me perguntando por quê nosso quarto estava tão escuro e por quê aquela escuridão era tão palpável. Um calafrio percorreu minha espinha quando eu olhei para minhas irmãs novamente e seus vestidos brancos estavam manchados com uma substância escura, quase tão negro quanto os olhos delas. Uma grande sombra se projetou acima delas com olhos vermelhos e um sorriso macabro, estendendo os dedos cheios de garras para mim. Lágrimas silenciosas escorriam pelo meu rosto quando os dedos finos agarraram meu coração.
Eu acordei num sobressalto, respirando rápido. Maldito sonho. Eu levei algum tempo para me recompor, olhando em volta e reconhecendo a pequena caverna em que eu morava. Eu levei as mãos ao rosto, esfregando os olhos enquanto o ar frio da manhã invadia pela entrada e anunciava a chegada do inverno. "Não é cedo demais para o inverno?" - Eu pensei ao olhar para o calendário de madeira com algumas datas marcadas. Não, não era cedo demais para o inverno, e sim eu mesma que estava perdida no tempo. Sem demora, tratei de me levantar do
colchão de palha e coloquei as roupas de couro que eu usava normalmente, vestindo as calças e calçando as botas de cano alto. Lavei o rosto em uma bacia com água e fiz meu cabelo em uma longa trança. As facas estavam firmes no meu cinto e eu saí pela fenda da montanha que era a entrada da caverna, coberta por árvores e arbustos. O sol nascia lentamente no horizonte e a floresta estava silenciosa como de costume. Os pássaros não cantavam, os predadores não rosnavam e as presas não corriam loucamente pelas trilhas - Nem mesmo as árvores se atreviam a ranger naquela hora da manhã.
A floresta fora minha casa desde que eu nasci, mas eu nunca a tinha visto com tanto medo. Fosse o que fosse, eu precisava de comida e o mercado da cidade ainda não estava aberto. Andei calmamente pela mata, atenta a qualquer rastro ou pegada de animais.
Eventualmente eu percebi pequenas pegadas enlameadas de um coelho não muito grande, e tratei de segui-las em silêncio absoluto. O vento frio cortava minha pele e fazia o mato se encolher, mas era uma sensação melhor do que a solidão comum da caverna. Eu ouvi um barulho baixo de folhagem sendo mexida e vi um arbusto chacoalhar, como se algo fosse sair de dentro dele. Eu me agachei ao lado do tronco de uma árvore, escondendo uma parte do corpo e segurando firme o cabo da faca de caça. Um coelho peludo saltou do arbusto, sua pelagem amarronzada balançando com o vento. Ele estava a cerca de 1,5 metros de distância de mim, e eu sabia que ele podia sentir o meu cheiro. Eu tirei uma pequena isca do meu bolso, uma fruta silvestre pequena e alaranjada chamada driji, azeda como um limão e ainda mais amarga. Eu deixei ela rolar pelo chão, chamando a atenção do coelho para uma coisa que o interessasse mais do que eu. Assim que ele se aproximou para pegar a fruta, eu fiz um movimento rápido para agarrar a cabeça dele e enfiar a faca no pescoço com a outra mão. O pequeno animal guinchou com os olhos arregalados, e a vida deixou seu corpo em questão de segundos. Eu olhei para o bicho, respirando fundo e segurando-o pelas patas traseiras para levá-lo de volta a minha caverna. Eu sabia o que ele tinha sentido antes da escuridão engolir a vida dele. Eu sabia que a sensação fria do vazio tinha preenchido o coração dele antes que ele morresse, e que tinha sido uma sensação assustadora.
Honestamente eu não gostava muito de caçar mesmo sabendo que era necessário e que eu não podia arriscar passar a primeira semana do inverno sem nenhuma carne de novo. Eu refiz meu caminho de volta ao pé da montanha, o sol aparecendo por completo no horizonte marcando o início da manhã, acordando a maioria dos trabalhadores e comerciantes da cidade. E mesmo assim a floresta silenciosa parecia temer algo, o farfalhar das folhas eram baixas e mesmo o vento era suave apesar de frio.
Ao chegar na caverna, eu passei pela fresta estreita e senti o calor do interior de pedra. Era circular e pequena, tinha uma fogueira apagada no meio, uma cama de palha com um baú grande no canto direito e uma mesa e prateleira na parede da esquerda. Era aquilo que eu chamava de lar, a única coisa que eu consegui encontrar que aceitasse a minha presença. Fui até a mesa, arranquei a pele do coelho, cortei a carne e salguei para que ela durasse por mais tempo. Em seguida eu limpei a pele e enrolei, prendendo com uma fina tira de couro. Ela seria útil em algum momento.
Olhei em volta novamente, percebendo o quanto aquele lugar era patético e solitário, mas eu não me permitia reclamar. Era tudo que eu tinha.
Eu olhei para o meu pulso esquerdo, vendo a pequena pedra negra brilhar na pulseira que eu usava. Hora de voltar ao trabalho.