Até que não era tão ruim assim levar para casa uma medalha de prata ao invés de uma de ouro, mesmo não sendo exatamente o que ele planejava. Com a cabeça erguida e os olhos sensíveis pelas lágrimas, Yuri Katsuki recebeu seu prêmio ao lado do seu oponente Yuri Plisetsky (Yurio para os mais próximos), que levaria sua tão esperada medalha de ouro para casa. Diferente de Plisetsky, Yuri não conseguia olhar para as câmeras que rodariam o mundo com suas imagens de segundo colocado no Grand Prix, porque Victor Nikiforov consumia toda a atenção do artista. Dentre tantos olhares intensos que já recebera de Victor, aqueles eram diferentes. No que será que ele pensava?
Seu técnico, seu amante, a pessoa que lhe ensinou o amor que nunca se permitira ter. Agora que as competições acabaram e Victor decidiu ficar e treinar Yuri por mais tempo, como eles lidariam com isso? Como Yuri conseguiria finalmente dizer tudo o que sente para Victor? Será que isso é algo que precisa ser dito? Será que ele estragaria tudo?
- Yuri, acorda. Vamos perder o avião. - Yuri abre os olhos com o toque suave de um beijo na aliança em sua mão esquerda. Victor não precisava saber que ele já estava acordado fazia um tempo e que, agora, só se perdera nos próprios pensamentos, com certeza ele se preocuparia e Yuri não queria tocar naqueles assuntos agora.
Os dois estavam no El Prat de Llobregat, o aeroporto de Barcelona, esperando o avião que os levaria de volta para Hasetsu, no Japão. Por causa da intensidade das chuvas naquele dia, o vôo deles acabou demorando mais do que o normal e, quase de forma inevitável, o ombro de Victor fez da sala de espera um ambiente bastante agradável (menos para Victor, que saiu com o braço dormente, mas não que ele fosse reclamar).
- Você dormiu tanto que achei que teria que te carregar até o nosso assento no avião. - Victor ri no pé da orelha do japonês enquanto ambos entravam no avião.
- Que? Sério? - O rosto vermelho entregava o constrangimento da situação ou a sensação que sempre tinha ao lado do russo quando ele caminhava rodeando-lhe a cintura?
- Sim sim, você até roncou, estava quase babando. Olha, eu tirei uma foto. - Ele apontou para o celular e lá estava o quão fofo e babão Yuri ficou enquanto dormia.
- Ei, apaga isso, você tem que apagar. - Falar que seu rosto estava vermelho não chegaria nem perto do pimentão das suas bochechas. Claro que Victor se divertia muito com a situação, ele estendia o braço com o celular para fora do alcance de Yuri que, da poltrona que fica na janela, não alcançava. Por mais que Victor não gostasse de ficar na ponta, acabou valendo a pena.
- Ah, para com isso, você ficou muito fofo. - Ele segurou o celular com as duas mão e fez um tom de voz como se estivesse falando com uma criança. - Olha, você até pegou na minha mão e ficou segurando meu dedão até cair no sono, não é uma graça?
- Não Victor, não é. - Era perda de tempo tentar discutir algo assim com Victor, Yuri apenas desistiu e se deixou ser constrangido daquela maneira tão irritante e amável. O sorriso de Victor era sempre irritantemente amável.
- Vou imprimir, emoldurar e colocar no nosso quarto.
"Nosso quarto", Yuri repetiu em sua mente, mas não respondeu, não sabia se queria responder. Era incrível como Victor sempre tocava no assunto da relação deles, como se estivesse desesperado por esclarecimentos e declarações. Mas era como se, ao mesmo tempo, isso fosse algo natural e inevitável. Por um lado era justo, porque mostrava que ele estava prestando atenção tanto quando Yuri, mas por outro era assustador.
Com alguns minutos do silêncio, o avião já sobrevoava a cidade de Barcelona e alcançava as nuvens. Essa com certeza era uma cidade maravilhosa em todos os sentidos. Vendo de cima, Yuri pensava nas tantas coisas que aconteceram na sua vida envolvendo aquele iluminado e receptivo lugar. Teve o Grand Prix, que foi a quase realização do sonho de sua vida inteira. Teve uma socialização com os outros patinadores que nunca pensaria que tivesse. Teve o turismo maravilhoso que fez com Victor e... e tiveram as alianças. O que realmente significavam aquelas alianças? Tanto eles quanto o mundo que os assistiram sabiam que elas significavam algo muito além de uma gratidão entre técnico e atleta.
- Olha, que lindo! - Victor aponta para o lado de fora, onde um arco-íris tomava conta do céu que antes estava chuvoso.
- Uau! É maravilhoso!! - a maneira tão fácil e singular que o brilho aparecia nos olhos dele era no mínimo viciante, mas Victor sabia que tinha algo errado.
- Não é possível que você estava olhando para a janela e não estava enxergando, onde você estava?- Ele fez Yuri olhar nos seus olhos e não gostou da confusão que viu. Por quê Yuri não podia simplesmente falar o que sentia? Por que tudo era tão difícil para ele?
Victor era orgulhoso, claro que ele não perguntaria, ele esperaria. Com certeza ele estava deixando alguma coisa passar e, a partir disso, começaria a analisar cada detalhe da vida dos dois antes de tomar uma atitude. Ok que perguntar diretamente para Yuri seria um caminho mais fácil, mas nossa, como o coração de Victor doía ao vê-lo chorar, ele não queria presenciar isso tão cedo novamente.
- Não é nada, sério. - Yuri responde e, em um ato de coragem e confusão, ele foge da conversa com um selinho rápido, envergonhado, mas um selinho.
Victor sorri, tão bobo quanto já vira Yuri ficar tantas vezes. Ah, como queria beijá-lo ali, dizer o quanto o amava e desejava passar o resto da vida apenas com ele. Mas não podia, Victor sabia que, com Yuri, as coisa tinham um ritmo diferente. Ele sabia que, se fosse rápido demais, direto demais, a chance de Yuri correr e se esconder era alta e isso, com certeza, deveria ser evitado a qualquer custo.
Victor então, como um ato de vingança pelo próprio ombro, deita a cabeça no de Yuri. "Vou deixar passar dessa vez", suspirou nos próprios pensamentos. E, assim, ele apenas fica, sem responder ao selinho, sem palavras demais nem de menos, sem nada, apenas ali divagando o quanto arco-íris como o de hoje eram tão lindos quanto os olhos de Yuri.