━━━━━ Acordada essas horas? ━━━━━ Ouço o barulho evidente dos altos tamancos de Cassie sendo retirados e sua pergunta entrega sua chegada no quarto.
Um turbilhão de emoções de uma vez se parece demais para se digerir em uma única noite. A briga, mesmo que necessária com a loira, a imagem de Fezco e Gus juntos conversando impossibilita qualquer resquício de sono que posso vir a sentir.
━━━━━ A festa estava boa pelo visto... Estou com insônia. ━━━━━ Indago sem desfocar minha atenção a tela do Notebook. Digito freneticamente com as ideias organizadas em tópico e bufo, insatisfeita.
Transcrevo no bloco de notas o roteiro de uma peça que posso calhar a produzir no teatro da escola. Escrever e produzir é uma válvula de escape gigantesca.
Sinto não ter o controle da minha própria vida em certos momentos, e nesse mundo fictício consigo tomar as redias desse tabu.
Chamado vida.
━━━━━ Uma pena. Eu estou morta! Até mais tarde! ━━━━━ Remexo o eletrônico pousado na minha perna, e quando a luz da tela remete na garota enxergo seu corpo afundando no colchão.
[...]
━━━━━ Ocupada? ━━━━━ Deixo o notebook semiaberto no receio de alguém ler o rascunho que ando trabalhando desde da última madrugada.
Problemas de uma perfeccionista, o arquivo fora modificado umas cinco vezes a mais.
Rue e seu mais novo amigo se juntam a mim na beirada da escada aonde me acomodo e aceno pagando de simpática. Priorizo uma conversa com a cacheada que não obtive contato algum na festa.
━━━━━ Tenho aula agora. Depois nos falamos melhor. ━━━━━ Depois de alguns, poucos minutos de conversa, me ponho de pé encaixando perfeitamente o micro computador entre meus braços.
Entro na sala de literatura avançada escolhendo alguma carteira vaga mais pro fundo. A professora dialoga com os alunos durante a aula, e eu, acostumada a ser parcipativa acabo me calando diante da dor que lateja minha cabeça.
Massageio minhas têmporas e controlo a respiração contando mentalmente até dez. Uma notícia boa, o sinal ressoa em seguida indicando o final da aula e sou a primeira a deixar a sala.
━━━━━ Professor! ━━━━━ Alcanço o responsável pela dramaturgia escolar a fim de apresentar meu projeto. Há grande possibilidade de levar esporro por mostrar algo inacabado á ele, mas um branco parece passar pela minha mente no momento, invalidando quaisqueres obstáculos.
━━━━━ Senhorita Howard! Não temos aula hoje, certo? ━━━━━ Desapontada, meus lábios se formam numa linha fina enquanto assinto sutilmente com a cabeça.
━━━━━ Estou escrevendo uma peça. O nome é Oklahoma. Não terminei mas se o senhor quiser ler mesmo assim eu posso... ━━━━━ Minha fala é cortada xucramente mas ansiando por um simples sim sair de sua boca, deixo ele prosseguir mesmo me interrompendo.
━━━━━ Me mande por e-mail Lexi. Irei dar uma olhada por cima. Mas confiando no seu bravo potencial, já tem minha permissão pra fazer a peça! ━━━━━ Mordo os lábios contendo uma histeria, e antes de sair cumprimento eticamente o mais velho com um aperto de mão, isso com as mãos trêmulas.
[...]
Atentada pelo barulho da campainha, desço as escadas num ritmo avante do que mantinha posteriormente.
━━━━━ Quem é?! ━━━━━ Mamãe aparece no batente da porta da cozinha, limpando suas mãos no avental. São poucas as vezes que nos reunimos para refeições como uma família feliz e vê-la tentar comove meu amanteigado coração.
Mesmo sabendo que vai ser um total fracasso. Porque estamos distantes de alcançarmos esse pódio.
━━━━━ Deixa que eu atendo! ━━━━━ Espio o curvilíneo corpo de Suze se requebrar voltando a beira do fogão, aonde panelas são manejadas com precisão por ela.
Ótimo. Tudo sob controle.
━━━━━ Fezco?! O que você está fazendo aqui? ━━━━━ Corrijo-me, regulando o tom da minha voz ao ser pega de surpresa pelo ruivo plantado na porta da minha casa.
━━━━━ Nossa. Nem vai perguntar como estou?
━━━━━ Como você está? Melhor assim? ━━━━━ Entendo tudo isso como uma piada e entro na onda. A não ser que eu queira comprar a ideia maluca de que um traficante pudera estar interessado na minha vida comedida e módica.
━━━━━ Bem melhor, Lexi Howard. E você, como 'tá? ━━━━━ Um embrulho estranho toma meu estômago, e minhas mãos antes aquecida pelo aquecedor agora suam gélidas.
Seu jeito calmo meio que soletrando cada palavra pode ser maçante se escutado o tempo todo, isso para algumas pessoas. Mas cada vez que ele repete meu nome completo usando desse mesmo feitio vocal um silêncio ensurdecedor paira integralmente qualquer outro ruído, e minha atenção se concentra nele apenas.
━━━━━ Bem... Eu acho... O que te traz aqui? ━━━━━ Junto o útil ao agradável indo direto ao ponto. Se perder tempo se referindo a minha pessoa, posso perder a coragem abatadora de saber o porquê de sua visita.
━━━━━ Eu sei o quão abalada está depois de toda aquela situação de merda. Posso te levar pra um lugar? ━━━━━ Fecho a porta cuidadosamente, antes arrancando a chave da fechadura.
━━━━━ Isso é um sim, Howard?
━━━━━ Sim, Fez.
[...]
Sou guiada pra um parte isolada de um galpão abandonado e meus joelhos bambeiam com a possibilidade de alguém circulando por essas matas que cercam o ambiente.
━━━━━ Preparada pra descontar sua raiva? ━━━━━ Com as mãos na cintura e um semblante caído sem ânimo, Fez me dá passagem e enxergo uma lataria alta com garrafas de vidro centralizadas nela.
O ruivo estende um taco de baseball, e tateio o objeto pelejando para manusear mas como esperado foi em vão e ele acaba encontrando o chão.
━━━━━ Eu vou te machucar... ━━━━━ Murmuro desapontada e ele envolve minha lombar com suas grandes mãos, dando-me o impulso que precisava para atravessar metade do caminho, ficando frente a frente á nossa atração principal.
━━━━━ Não vai. Só mentaliza o quão machucada você está, e desconta tudo isso pra quebrar as garrafas. Mas antes, isso aqui! ━━━━━ Ele enquadra meu rosto com seus olhos azuis e ajusta o elástico do óculos de proteção.
Sigo suas instruções a risca e deslizo minha mão na madeira escorregadiça afim de encaixar perfeitamente o acessório esportivo na palma. Fecho os olhos tentando me concentrar, mas um flashback autodepreciativo roda como filme na minha cabeça, e acabo desistindo assim que ouço as mesmas palavras que me assombram, dia a dia.
Fraca.
Segunda opção.
Insuficiente.
━━━━━ Isso foi uma péssima ideia. Desculpa...━━━━━ Fezco se tortura pela minha incapacidade e descubro meu rosto, antes abafado pelo esconderijo das mãos.
━━━━━ Vou tentar mais uma vez. ━━━━━ Arfo decidida a enfrentar meus monstros e o garoto olha de soslaio pelo meus ombros.
Alinho minha postura e os braços do traficante rodeiam os meus apanhando o taco comigo, conduzindo os movimentos precisos em linha reta ao alvo.
A lataria que serve de apoio balança com a intensidade com que as garrafas são quebradas em mil pedacinhos.
━━━━━ Consegui! Isso foi... ━━━━━ Suspiro que nem boba quando Fezco segura meu rosto com as duas mãos. Minhas bochechas, provavelmente estam quentes e avermelhadas agora, entregando o quanto esse momento me acanha.
Levanto as mãos pedindo uma trégua e ele nega com a cabeça, ainda com as mãos fixas no meu rosto.
━━━━━ Isso foi do caralho, Howard! ━━━━━ O garoto passeia livremente sua mão, antes no meu rosto pairando na nuca. Seus dedos circulam a área ternamente e adentram meus fios soltos numa similar massagem.
A distância entre nossas bocas é mínima, tanto que sua respiração se funde a minha descompassada num uníssono. Vamos mesmo nos beijar?
As vezes é melhor se arrepender de algo que você fez, do que ficar imaginando como seria se você tivesse feito.
O destino nos pregando uma peça acaba estragando nosso ápice ao celular do ruivo tocar de segundo a segundo.
━━━━━ Vai lá. ━━━━━ Cruzo os braços ao desprender-me de Fezco, que se deslocou para um canto privado afim de atender a chamada de tanta importância.