Love + Fear
Ao entrar no trem rumo à Hogwarts, Harry percebeu que aquele terceiro ano letivo seria muito mais anormal que os outros dois anteriores. Podia ou não ter a ver com seus pais fazendo magia em um supermercado trouxa, e era dubitável que a estadia na Toca teria algum efeito sobre os acontecimentos daquele ano. Não, nada dessas coisas pareciam relevantes perto do que Harry sentiu ao observar Draco Malfoy, e seu estúpido nariz esnobe, caminhar lentamente até o vagão onde costumavam sentar os alunos da Sonserina.
Se perguntassem a qualquer um dos dois, Draco ou Harry, quando e como essa rivalidade entre eles começou, pensariam um pouco antes de responder. A verdade era que, há alguns anos, os pais de ambos estudaram na mesma escola, fazendo com que a desavença começasse com eles, Lucius Malfoy e James Potter.
Lucius sempre foi um homem soberbo. Se achava melhor que tudo e todos simplesmente por vir de uma família tradicional, muito respeitada no mundo bruxo, e claro, muito rica. Lucius queria ser o centro das atenções em tudo, então estava sempre estudando para ser o melhor da turma. Se vangloriava nos passeios em Hogsmeade porque podia gastar montantes de dinheiro nas lojas, e juntava várias pessoas ao seu redor para dizer o destino da viagem em família nas férias ou os presentes que ganhou de Natal e aniversário.
Por isso sua competitividade se estendia para a competição entre as casas. Lucius odiava quando a Sonserina perdia, principalmente para a Grifinória, porque era a casa de James. E Lucius detestava James. O grifinório era o melhor na única coisa que Malfoy nunca conseguiu ser minimamente decente: o quadribol.
Já James era um verdadeiro astro. Era difícil a Grifinória perder um jogo que fosse. Potter era um ótimo capitão e artilheiro, daqueles que respeitava a equipe e fazia questão de todos participarem da formação de táticas. Por sua educação e amizade, era bastante querido pelos outros alunos, o que aumentava sua popularidade, mas de forma saudável. James era conhecido por ser gentil e engraçado, já Lucius tinha a fama de cuzão, como o Potter mais velho adorava chamá-lo.
Dessa forma, Harry e Draco não tiveram tempo de se conhecer, nem formarem suas próprias opiniões um sobre o outro, porque a história de seus pais era sempre contada nas festas de família, nos corredores da escola e em qualquer canto do mundo bruxo. Por isso, no seu primeiro ano em Hogwarts, o pai de Draco o avisou para não fazer amizade com as pessoas erradas, enquanto apontava discretamente para James e Harry. E, quase da mesma forma, Harry ouvia James falar sobre o quão insuportável era Lucius, e que o filho deveria ser igual. Então, por costume e comodidade, os dois garotos nunca se preocuparam em passar menos tempo se irritando e mais tempo conversando, tentando contornar o destino que seus pais criaram para eles.
Consequentemente, Harry não sabia definir bem o que estava sentindo naquele momento, só sabia que era uma sensação diferente daquela que costumava aparecer quando Malfoy cruzava seu caminho. Parou até alguns segundos para observar melhor seu arqui-inimigo nas vestes da escola, virando a cabeça para acompanhar o máximo que podia o corpo esguio dele indo cada vez mais à fundo no trem. Notou, horas depois — ao reviver a cena em sua cabeça várias vezes —, que prendeu a respiração do momento em que viu o garoto, até Rony segurar seu braço e puxá-lo para a cabine. Uma grande mudança estava para acontecer na vida de Harry, e ele tinha medo do quão catastrófica seria.
Por outro lado, Draco Malfoy ainda não havia percebido nada diferente naquele dia. Chegou ao Expresso de Hogwarts acompanhado dos pais, todos de nariz empinado e vestes bem caras, subiu no comboio faltando poucos minutos para partirem, e seguiu para perto de seus amigos como sempre fazia desde que iniciou os estudos na Escola de Magia e Bruxaria. Notou Potter parado em um dos corredores, mas preferiu ignorá-lo. E, sentado perto de Goyle e Crabbe, enquanto desvendava o sentimento esquisito que corria em seu interior, notou, então, o elemento divergente do dia: Draco Malfoy não costumava ignorar Harry Potter. Toda vez que se encontravam, surgia uma necessidade quase vital de provocar o outro garoto, como se deixar Harry minimamente irritado fosse o suficiente para ficar em êxtase.
E assim, aquilo que sentia tinha certo significado, parecia que sua consciência fazia um grande questionamento: por que não provocou Harry Potter? Estranhamente, o loiro não tinha resposta para aquilo. Não conseguia entender o motivo de ter passado por ele e não ter deixado um mísero comentário a respeito de sua vida patética ou amigos esquisitos. E era tão fácil! Harry estava bem ali, parado e olhando-o como um esquisitão. Deixou Crabbe e Goyle na mesa e foi embora do vagão em direção ao início do trem. Não sabia o que estava fazendo, só sentiu que precisava daquilo. Vários porquês rondavam sua cabeça e estava ficando irritado com eles, até que parou abruptamente no corredor. Logo à sua frente, Harry Potter estava comprando doces e, novamente, nenhum comentário ácido saiu de sua boca.
— Obrigado — Harry agradeceu e se virou para entrar na cabine, olhando Draco de soslaio.
Em vez de se sentir irritado, como sempre, sorriu confiante, com o pensamento de que o loiro havia voltado para vê-lo aquecendo minimamente seu peito. E foi aquilo que o incomodou, não o olhar, não a falta de provocação, e sim aquela sensação, certamente listada como uma das mais confusas naqueles treze anos. Por causa dela, virou-se novamente e encarou Draco, não deixando de olhá-lo da cabeça aos pés da forma mais discreta que conseguiu.
— Perdeu alguma coisa nas minhas roupas, Potter? — Não foi discreto o bastante.
— É você que está me olhando, Malfoy. — Cruzou os braços, porque achou que esconderia o rubor nas bochechas e pareceria mais intimidador. — Está longe do seu vagão.
— Resolvi checar se Hogwarts continua mal frequentada — disse, olhando o grifinório de cima a baixo. — E a resposta é sim.
Antes que Harry pudesse empurrar Draco ou xingá-lo, a cabine se abriu, revelando uma Hermione extremamente séria. A garota encarou os dois, se demorando mais em Draco.
— Harry — disse, o tom de voz repreendendo-o —, entra.
Harry apenas bufou e passou pela porta da cabine. Em sua cabeça, repassou o momento várias e várias vezes, estranhando cada sensação diferente da habitual. Alguma coisa, definitivamente, estava acontecendo, e não sabia o quão confortável estava em descobrir o quê. Já Draco tinha certeza que boa coisa não era. Nunca vivenciou tamanha insatisfação em ver uma pessoa ignorando sua presença, ainda mais quando essa pessoa era Harry Potter.
Se os acontecimentos no trem já foram estranhos o bastante, não havia classificação para o que aconteceu no jantar de início do novo ano letivo. Durante a seleção das casas, toda vez que alguém entrava para a Sonserina, o olhar de Harry seguia o novo aluno até a mesa do canto do salão. Podia ser porque estava curioso em observar a recepção dos veteranos ou porque a conversa entre seus amigos grifinórios não estava tão interessante, mas a verdade é que existia uma vontade velada de observar Draco Malfoy. E a cada aluno da Sonserina anunciado, os dois garotos se encaravam por um tempo, o suficiente para o Chapéu Seletor anunciar uma nova casa — às vezes esse tempo dobrava se a próxima casa fosse a de um dos dois. Assim, Harry percebeu que aquela vontade não era exclusividade sua, pois todas as chances que Malfoy teve de desviar o olhar, ele não o fez.
— Harry, o que você olha tanto? — algum grifinório perguntou.
— Draco, preste atenção em mim! — O sonserino ouviu alguém ao seu lado reclamar.
Mas mesmo a insistência de seus amigos para saber o que estava acontecendo, incomodados com a falta de atenção, não foi o suficiente para desviar os garotos do objetivo principal: saber o que de tão interessante viam um no outro. Assim, depois de um jantar peculiar, quando os dois colocaram as cabeças nos travesseiros e tentaram dormir em suas respectivas comunais, um misto de sensações foi tomando conta de suas mentes. E, aos poucos, aqueles sentimentos novos foram virando pequenas obsessões que, cedo ou tarde, cada um deles teria de lidar, à sua maneira.
Os dias foram passando depressa. Harry estava empenhado em ir melhor nas aulas, porque sentia que seus primeiros anos tinham sido um pouco desleixados, então acabava passando muito tempo com Hermione e Rony na biblioteca ou nos jardins, estudando. Nas poucas vezes que esbarrava em Draco em alguns desses cantos, Harry preferia ignorar o costume de começar uma confusão e apenas o encarava. Isso acabava deixando seus amigos e as pessoas ao redor confusos, porque esperavam sempre uma oportunidade de fofocar sobre mais uma briga dos dois, já que era tão frequente. Porém, desde que as aulas começaram, o grifinório não conseguia arranjar nenhum motivo para responder às provocações do sonserino, até porque essas provocações não existiam mais. Assim, aquela famosa inimizade, cheia de xingamentos, azarações e detenções, estava virando apenas uma indiferença.
Em mais um dia na biblioteca, e mais um esbarrão em Malfoy, Harry estava tentando se concentrar em seus pergaminhos de Poções, mas as costas do loiro sentado na mesa à frente chamavam muito mais sua atenção do que as receitas em suas mãos. Potter estava intrigado com aquilo. Foram meses observando o sonserino nas salas, nos corredores e no salão principal. Dias se perguntando o que estava acontecendo e o que de tão interessante havia no outro para que sua cabeça só pensasse nele. Cogitou até perguntar à Hermione se ela alguma vez se sentiu assim, mas viriam perguntas demais que Harry não gostaria de responder.
— Li um livro tão bom nas férias — Hermione comentou.
O trio estava sentado em uma mesa grande da biblioteca, e o lugar estava bem cheio de estudantes desesperados. Eles estavam estudando para as provas que fariam dali umas semanas, mas tinham dado uma pausa para "o cérebro não derreter", como Rony tinha dito. Harry desviou sua atenção das costas de Draco para a amiga à sua frente.
— É antigo, do século XIX. Se chama Orgulho e Preconceito. — Ela deu uma pausa para suspirar, sonhadora. — Eu amei o fato da protagonista ter a cabeça tão pra frente, mesmo naquela época, e odiar seu par romântico no início da história.
— Parece horrível — Rony disse, fazendo uma careta.
Harry riu, achando engraçado a discrepância entre seus dois amigos. Ele não costumava ler muito, preferia assistir filmes com seus pais, um costume trouxa que sua mãe fazia questão de manter. Por causa dela, ele também gostava muito de romances. Achava um pouco irreal a ideia de ter alguém perfeito para você, um amor que duraria a vida inteira, mas então ele analisava seus pais por um dia inteiro e conseguia enxergar neles as histórias de amor que contavam nos filmes. Daí surgia a vontade de ter um romance bonito assim também, um que te faz suspirar o tempo todo e sentir saudade da pessoa, mesmo depois de ter passado o dia inteiro com ela.
— O problema dessas histórias é que nunca mostram a realidade — Rony continuou. — Como assim inimigos que viram um casal? Onde isso acontece?
— Não vejo muita graça em histórias realistas demais — Harry disse.
— E dá sim para se apaixonar pelo seu inimigo — Hermione completou. — Na maioria das vezes as pessoas se odeiam porque não se conhecem direito e preferem tirar conclusões precipitadas umas das outras.
Harry se identificou um pouco com a fala de Hermione. As costas de Draco entraram no seu campo de visão novamente e ele suspirou. E se tentasse conhecer o garoto por si próprio, longe das opiniões de seu pai? Se perguntou se o loiro estaria disposto a fazer o mesmo.
— Ah, cara, você se imagina gostando, sei lá, do Malfoy? — Rony perguntou.
Como o ruivo nunca conseguia ser discreto, Draco virou-se para trás, curioso ao ouvir seu sobrenome. Ao constatar que era o trio falando dele, virou o corpo de lado e se apoiou no encosto da cadeira, sorrindo maliciosamente. Harry acompanhou o movimento da mão do loiro, afastando sua franja caída do olho, e encarou os olhos dele. Draco o encarou de volta.
— Apaixonado por mim, Potter? — Os amigos de Harry olharam para trás, assustando-se com o garoto. — Sinto lhe informar, mas você não tem muitas chances comigo.
— Ah, então quer dizer que pelo menos uma eu tenho, Malfoy?
O sorriso do sonserino se fechou um pouco e Harry viu sua confiança sempre tão inabalável vacilar um pouco. Nem notou Rony e Hermione cochichando perguntas, querendo entender o que se passava. Os olhos verdes estavam compenetrados nos olhos azuis, e naquela luta silenciosa, nenhum dos dois queria ceder. Alguns segundos se passaram até o aviso do jantar ser anunciado, despertando os dois daquela "briga". Os quatro se levantaram de prontidão, arrumando seus materiais o mais rápido possível para que não seguissem juntos no caminho. Harry guardou seus últimos papéis e viu Draco se dirigindo para a saída, não sem antes lhe encarar uma última vez e, leve e discretamente, sorrir maliciosamente novamente.
Esse dia não saiu mais da cabeça de Draco. Harry Potter o perguntando se ele tinha uma chance, mesmo que ironicamente, sempre ia e vinha em seus pensamentos. E também não foi algo que Draco conseguiu guardar por muito tempo. Poucas horas se passaram desde o acontecido, e ele já estava escrevendo em um caderno velho que costumava usar como diário.
A verdade era que Draco era muito reservado. Foi criado para sempre esconder suas emoções, pois "homens não choram", como Lucius dizia. Então era de se esperar que virasse um pré-adolescente que não falava sobre si mesmo de forma mais profunda. Seus assuntos se resumiam a questões materiais, nunca dizia o que estava sentindo, mesmo que fosse grave. Quando sentia-se triste ou incomodado, trancava-se no quarto ou no banheiro do segundo andar que ninguém usava e ficava segurando as lágrimas, lutando para deixá-las dentro de si.
Não sabia de onde a ideia surgiu, mas, um dia, entre o primeiro e o segundo ano, nas férias, achou um caderno velho no meio de suas coisas e passou a escrever ali palavras aleatórias sobre seu dia a dia. Essas palavras viraram frases que, por fim, transformaram-se em textos maiores.
Com o passar do tempo, Draco sentia-se muito mais leve, como se tivesse, finalmente, se livrado de um peso enorme que vinha carregando há tempos. Nem sonhava deixar seus pais descobrirem aquele caderno. Acreditava que sua mãe não ligaria tanto, porém seu pai... ah, seu pai faria um verdadeiro escarcéu. Logo, tratava de esconder o melhor que podia o caderno que, aliás, já estava terminando as folhas. Programou-se para comprar outro no primeiro passeio que os alunos fariam a Hogsmeade. Por essa razão, estava ansioso para que o dia chegasse o mais rápido possível.
Estava sentado na poltrona da comunal, terminando de escrever sobre o quão inusitado tinha sido o ocorrido de mais cedo. Imerso em seus pensamentos, demorou a notar uma colega tentando chamá-lo ao que parecia ser alguns minutos.
— Malfoy!
— O quê? — Levantou a cabeça. — O que foi, Parkinson?
— Potter está lá fora pedindo para falar com você. Disse que tem algo seu com ele.
— Ele disse o que era?
— Vai logo lá. Não sou uma coruja.
Draco revirou os olhos depois que a garota virou-se para ir embora. Suspirou e levantou-se da poltrona, usando os poucos segundos que levava até à porta da comunal para pensar o que Potter queria com ele. Aquele ano estava sendo bizarro. Nenhuma briga séria tinha acontecido, nem discussões na sala de aula. Apenas olhares, ora surpresos, ora desafiadores. Saiu do local e quase esbarrou, de novo, no corpo magro de Harry.
— O que quer agora, Potter? — perguntou, cruzando os braços sobre o peito e levantando uma sobrancelha. — Veio me chamar para sair?
Harry revirou os olhos, enquanto Draco sorriu debochado. O moreno pegou algo de dentro do bolso da capa e estendeu para o outro.
— Você deixou seu cartão da biblioteca em cima da mesa. Peguei para te devolver — Harry respondeu. O cartão em sua mão estava tremendo levemente.
Draco notou o nervosismo do garoto, mas preferiu ficar quieto a fazer alguma piada a respeito. Porém seu momento de sensatez não foi o suficiente para freá-lo de perguntar:
— E por que trouxe até aqui em vez de deixar com a Madame Pince?
A cara de Harry empalideceu de repente. O cartão tremia ainda mais, então a única alternativa de Draco foi puxá-lo, roçando seus dedos nos do outro. Ia virar-se para ir embora, já que Potter demonstrava que não iria responder à sua pergunta. Contudo, antes de passar pelo umbral novamente, a voz rouca e baixa do moreno disse:
— Eu queria saber como você está.
Como assim? Draco ouviu aquilo direito? Virou-se completamente chocado com a fala de Harry, apertando o cartão da biblioteca para aliviar, inutilmente, a ansiedade.
— Não entendi, testa rachada — afirmou o sonserino, tentando sorrir debochado para o grifinório não notar o nervosismo em sua voz e em seus olhos. — Desde quando somos amigos para você querer saber como estou?
Harry bufou, impaciente, e Draco riu verdadeiramente. Não era para irritar o moreno, só achou engraçada a cara de impaciência que ele fez.
— Não sei se você notou que as coisas entre a gente mudaram um pouco esse ano — Harry sussurrou, parecendo estar receoso em dizer aquilo.
— Só porque ainda não brigamos?
— Isso também — Harry riu. — É que, sei lá, não tenho mais aquela vontade de arrancar sua cabeça.
O sonserino arregalou os olhos, um pouco chocado com a agressividade com que Harry pensava em si. Olhou para o cartão da biblioteca pensando no que responder, porém, o grifinório foi mais rápido.
— Acho desnecessário continuarmos nos tratando como inimigos.
— Nossos pais se odeiam.
— Nós não somos nossos pais, Draco.
Malfoy levantou a cabeça do cartão e encarou Potter. Os olhos verdes estavam serenos, mesmo com o nervosismo do garoto momentos antes. Então era assim que ele pensava?
Achava seu pai exagerado em várias situações. As pessoas de fora de seu seleto grupo de convívio social não costumavam gostar dele, pois Lucius Malfoy estava sempre criticando e olhando de cara feia para o que não lhe agradava. Draco odiava isso, já que o pai fazia a mesma coisa com ele frequentemente. Por isso, ele entendia um pouco o lado de James Potter, e até concordou quando ficou sabendo que ele chamava seu pai de cuzão. Todavia, quando esbarrou pela primeira vez em Harry no trem de Hogwarts, no primeiro ano, ele foi um pouco ríspido. Malfoy também não tinha sido o garoto mais educado e receptivo do transporte, sendo assim, os dois acabaram confirmando as opiniões de seus pais e preferiram manter a inimizade hereditária.
— Apenas queria entender o motivo para você querer mudar nossa relação do nada — Draco resmungou, cruzando os braços.
Os olhos de Harry voaram de seu rosto até o cartão que, coitado, estava todo amassado.
— Não é que eu esteja a fim de virar seu melhor amigo, Malfoy. — Bufou. — Só acho que seria interessante acabar com essa rixa que não começamos. — Harry ajeitou o uniforme e sorriu, conformando-se. — Super entendo se você não quiser.
Draco deu de ombros.
— Por mim, tudo bem. — Descruzou os braços. — Posso conviver com o fato de não te xingar mais.
— E eu com o fato de não poder te azarar mais. — Potter sorriu, debochando.
— Garanto que em menos de um mês estará implorando pela minha companhia. Sou um amigo incrível — Draco disse, sorrindo.
Harry sorriu de volta.
— A gente se vê — o grifinório disse e virou-se, subindo as escadas.
Malfoy esperou o garoto sumir pela curva da escadaria antes de voltar para a sala comunal. As palavras de Harry ainda voavam em sua mente, indo de encontro às do seu pai. Lucius infartaria se descobrisse que o filho de James estava pedindo uma trégua. Então, pela primeira vez, Draco sentiu-se satisfeito em não ser obrigado a concordar com o pai e, melhor, fazer algo totalmente contrário ao que ele pensava. O loiro acomodou-se na poltrona novamente, abrindo o caderno de sempre e rabiscando:
"Quinta-feira, 21:45
Sensação: liberdade."
O resto do ano passou voando e, de repente, os alunos estavam arrumando suas coisas para passar o Natal em casa. Harry estava animado, pois, naquele ano, as famílias de seus amigos e dos amigos dos seus pais se juntariam em uma grande ceia na Toca. Ele vinha sonhando com aquele Natal há tempos, desde que foi marcado, e, finalmente, o grande dia havia chegado. Desceu as escadas correndo, segurando a gaiola de Edwiges numa mão, o malão na outra, e as sacolas de presente com os dentes. Quase caiu algumas vezes no meio dos corredores, mas tinha tantos alunos na mesma situação que ninguém pôde oferecer ajuda.
— Nossa, Potter, precisando de uma ajudinha? — Harry não conseguia ver quem era, mas a voz era reconhecível.
Sentiu a gaiola soltando de seus dedos e o peso dela desaparecendo. Segurou as sacolas com a mão livre e suspirou, olhando Draco bem fundo nos olhos. Assustou-se com o quão entristecidos eles pareciam e acabou ficando preocupado com o sonserino.
— Obrigado, Malfoy — disse, com a voz ofegante por conta do esforço. Draco deu de ombros. — Onde estão suas coisas? Já levou para o portão?
Os ombros do garoto caíram um pouco, e a expressão confiante deu lugar a uma carinha melancólica. Ele sorriu sem graça e coçou a cabeça, visivelmente sem graça com as perguntas de Harry.
— Eu não vou para casa neste Natal. Meus pais vão visitar uns amigos na França e combinaram dos filhos ficarem em suas escolas.
O grifinório não conseguiu esconder sua cara de desgosto.
— Está tudo bem, Potter. Não precisa chorar.
"Mas você pode, se quiser", Harry pensou, sentindo-se menos animado com seu Natal. Não sabia que a família Malfoy era tão desunida. Achava que eram o tipo de pais que faziam questão de estar juntos em qualquer momento, nos feriados e nas férias, mesmo que só para fingir ser uma família poderosa, rica e feliz.
— Vamos, vou te ajudar a levar isso até os portões.
Harry apenas concordou com cabeça e seguiu Draco, um ao lado do outro, escadas a baixo, em silêncio. Os alunos corriam ao redor dos dois, e estavam tão entretidos acompanhando os próprios pés, que não notaram ninguém. Chegaram rapidamente à frente dos portões e colocaram as coisas de Harry na carroça que levaria as malas dos alunos até o trem. O moreno sorriu em agradecimento ao loiro, que já ia embora. Porém, Potter o chamou antes de virar-se completamente.
— Seria legal se viesse passar o Natal com a gente — sugeriu, um pouco envergonhado.
— Meu pai morreria se soubesse — Malfoy respondeu com um tom de tristeza em sua voz. Encarava o chão em vez dos olhos do outro.
— Ele não precisa saber.
Harry sorriu divertido, como se guardar um segredo desses fosse a coisa mais legal que fariam em suas vidas. Draco pensou rápido. Não era próximo dos Potters, dos Weasleys e muito menos dos Grangers, que nem bruxos eram. Seu pai o prenderia em casa pelo resto da vida se soubesse que tinha fugido de Hogwarts para passar o Natal com o filho de seu inimigo. E ele realmente ficaria muito sem graça em um Natal que, mesmo grande, seria íntimo. Sentiria-se como um intruso, alguém que não deveria estar lá nem se o mundo bruxo estivesse acabando.
— Deixa para uma próxima, Potter.
E o grifinório nem conseguiu responder, porque Draco já tinha se virado e indo embora tão rápido quanto surgiu no corredor para ajudá-lo.
Portanto, a viagem de volta para casa nas férias de inverno teve um toque de melancolia. O grifinório foi pensando em que tipo de coisas o sonserino faria praticamente sozinho na escola, sem receber presentes ou ter a presença dos pais. Por outro lado, Draco estava conformado com sua situação. Incomodava-se mais com o fato de não poder curtir o Natal como gostava — chocolate quente depois do jantar e dormir cedo usando meias nos pés —, do que com a ausência de seus pais. Ele estava acostumado, e talvez fosse isso que tirasse o sono de Harry. Draco não ligava que os pais não se preocupavam com ele, e isso, para Potter, era uma ofensa.
Por consequência, na véspera do Natal, Harry estava preparando-se para a ceia, com os pensamentos todos em Draco Malfoy e sua solidão. Sentia-se mal pelo garoto, mesmo que nunca tivessem sido próximos. Harry era muito agarrado aos pais e aos amigos, então presenciar alguém tão sozinho quanto o sonserino, deixava-o tristonho. Questionou o que poderia fazer para alegrar o outro, então se pôs a pensar. Seus olhos correram pelo quarto, parando sobre pergaminhos em branco espalhados pela escrivaninha. Aproximou-se dos papéis e sentou-se na cadeira, pondo-se a escrever uma cartinha para o garoto.
— Filho, está na hora — James disse, abrindo a porta do quarto. — O que está escrevendo?
— Uma carta para um amigo que ficou na escola — Harry suspirou. — Estou mal por ele.
Seu pai aproximou-se e o abraçou. Instantaneamente, o garoto sentiu-se aquecido e seguro, igual a todas vezes que era abraçado por alguém que o amava. Pensou se Draco sentia-se assim também quando abraçava seus pais. Se eles se abraçavam...
— Que amigo é? Por que não o chamou para vir conosco? — James perguntou, preocupado.
Harry hesitou. Mostrava-se confiante a Draco quando ele demonstrava receio em ser seu amigo por conta da inimizade de seus pais. Achava bobeira aquela relação se estender a eles só por serem filhos. Porém, olhando seu pai com expectativa, não se sentia mais tão confiante em dizer a ele que o amigo que estava tão preocupado era o filho de seu arqui-inimigo. Sorriu sem jeito para o pai e resolveu dizer a verdade, já que nunca conseguiu esconder um segredo dele.
— É o filho do Lucius Malfoy, pai — suspirou, coçando a cabeça. — O Draco.
James assustou-se um pouco com a resposta e afastou-se do filho. Não estava chateado — como poderia? —, mas sim surpreso, pois, por mais que não gostasse nem um pouco de Lucius Malfoy, não esperava que o filho pensasse ao contrário dele. Sempre achou que Draco fosse uma cópia de Lucius, assim como Harry era dele, então abismou-se com uma possível amizade entre os dois garotos.
— Sério, filho? Logo o mini Malfoy? — o Potter mais velho disse brincando, mas o mais novo estava tão nervoso que nem percebeu, e realmente achou que o pai estivesse o repreendendo.
— Desculpa, pai. É que...
— Não precisa se desculpar, Harry! Fico feliz que tenha amigos de outras casas e tão diferentes de você. — James sorriu e tornou a abraçar Harry. — Isso mostra que, mesmo sendo criança, pensa sozinho e toma suas próprias decisões.
— Obrigado, pai — agradeceu, sorrindo. — Você e a mamãe me criaram bem.
— Sim, somos pais incríveis mesmo — gabou-se, dando um tapinha de leve no ombro do garoto. — Termine sua cartinha para irmos para a Toca. Aposto que o mini Malfoy vai ficar muito feliz em lê-la.
Harry sorriu, feliz em ver que o pai o apoiava e confiava nele.
— Posso terminar depois. Vamos logo!
Os dois juntaram-se à mãe de Harry, que rapidamente ficou a par da situação e parabenizou o filho pela maturidade. A família deu as mãos e aparataram, chegando em poucos segundos à Toca.
Cumprimentaram todos os presentes e, enquanto os adultos se reuniam para beber uísque de fogo ou cerveja amanteigada, as crianças e adolescentes correram para o gramado, já dividindo os times para jogar partidas rápidas de quadribol. Enquanto esperava sua vez, Harry levou seus pensamentos a Hogwarts e a um certo rapaz loiro de olhos claros. Imaginou ele ali junto a todos, debochando das habilidades de quadribol dos grifinórios. Sentiu uma mão tocar-lhe o ombro, forçando-o a voltar para o presente.
— Acabei de ouvir seu pai comentando com seu padrinho que você virou amigo do Malfoy — Rony disse, forçando uma careta. — Desde quando?
— Não somos amigos — o moreno balançou a cabeça. — Só propus uma trégua.
— Sei lá, cara — o ruivo balançou a cabeça. — Isso não é culpa daquele papo doido de inimigos virando um casal que tivemos na biblioteca, né? A Hermione precisa parar de sonhar com esses livros que ela lê.
Os dois olharam para a amiga, que tentava, inutilmente, proteger o projeto de gol da partida. Ela e Ginny formavam uma dupla contra os gêmeos. O mérito do time delas era todo da ruiva. Harry riu, lembrando-se da cara que Malfoy fez quando ele perguntou se tinha uma chance.
— Só não vai se apaixonar por ele, tá bom? Supero uma amizade com a cobra, mas namoro fica difícil. Ainda mais que você parece ser do tipo grudento e que deixa os amigos de lado quando namora.
— Que gostar dele, Rony! — Harry voltou-se para o amigo, ruborizando-se. — Somos dois garotos.
— E daí? — O ruivo o olhou. — Isso não quer dizer nada, Harry. Só significa que dois garotos se gostam, ué.
Potter parou para pensar um pouco nisso. Não sabia se era por conta da idade, mas nunca tinha visto qualquer garoto com outros olhos. Contudo, nenhuma menina também havia sido alvo de algum sentimento diferente de amizade. Achava-se muito novo para pensar em namoro, e seus amigos nem comentavam muito sobre.
O chamado de Molly para todos irem comer o tirou daquele devaneio. Os dois seguiram o resto dos convidados para a mesa enorme que montaram no quintal, a fim de acomodar a todos. Depois de jantarem, os adultos conjuraram os presentes e fizeram a troca. Harry ganhou inúmeras coisas, inclusive uma caixa enorme cheia de doces. Ele e os outros atacaram os doces, conversando sobre qualquer assunto e brincando de adivinhar os sabores dos feijões. Ao ver que só sobraram duas caixas do docinho, guardou um para comer depois, já que aquilo ainda era seu presente de Natal.
Os Potters foram os últimos a ir embora. Chegaram bem tarde em casa, apressados para irem logo dormir. Antes de deitar-se, Harry observou o pergaminho rabiscado e resolveu terminá-lo naquele momento, sentindo-se preenchido por algo que ainda não sabia o que era.
Assim, na virada do ano, uma coruja branca cruzou o teto do salão principal, assustando alguns poucos alunos e professores que estavam reunidos jantando. Malfoy estava distraído, brincando com a comida, então nem percebeu a aproximação do animal. A coruja desceu graciosamente e pousou em cima de seu prato, sujando as patas.
— Nossa, eu nem queria comer mesmo — Draco resmungou, irritado com o bicho.
Já ia espantá-lo quando notou seu nome escrito, com uma caligrafia feia, na frente do envelope preso ao bico da coruja. Puxou a carta dela e a ave piou, então, antes mesmo de abrir a carta, deu um pedaço do que tinha em seu prato. A coruja comeu de uma só vez e inclinou a cabeça, pedindo carinho. Malfoy, claro, não estava nem um pouco a fim de acariciar o animal, e, quando olhou rapidamente em volta, notou que todos, sem exceção, o olhavam com expectativa.
— É a coruja do Harry Potter — um garoto do quarto ou quinto ano sussurrou para a colega ao seu lado. — Desde quando ele e Malfoy são amigos?
— Não seja um fofoqueiro — a garota respondeu, mesmo olhando fixamente para o garoto e a ave.
Draco engoliu em seco e voltou-se para Edwiges, que ainda estava com a cabeça inclinada. Esticou os dedos até a cabeça emplumada e passou-os levemente, sentindo-se bem com a sensação macia sob seus dedos. A coruja aproveitou o carinho e piou uma última vez, antes de voar novamente. O garoto segurou o envelope entre as mãos, ouvindo algo chacoalhar dentro dele. Resolveu terminar de jantar e ler aquilo em um lugar com menos bisbilhoteiros.
Levou poucos minutos para o jantar acabar e todos se recolherem para seus aposentos. Alguns alunos comentavam sobre se reunirem em alguma sala comunal para uma pequena festa, mas Draco preferiu finalizar a noite sozinho. Logo os relógios marcariam meia noite, e ele preferiria estar sozinho naquele momento. Andou devagar até as escadas que levavam à sala comunal da Sonserina e resolveu sentar-se ali mesmo. Abriu o envelope, observando cuidadosamente os objetos de dentro. Havia uma caixa de feijões de todos os sabores e um pergaminho. Pegou um feijãozinho e comeu, deliciando-se com o sabor de menta. Desenrolou o pergaminho e começou a ler seu conteúdo.
"Caro Malfoy,
Imagino que esteja sozinho agora. Você não gosta muito de companhia nem de mostrar seus sentimentos na frente de outras pessoas, não é? Ainda não nos conhecemos muito bem, mas sei que ninguém gosta de ficar sozinho quando um novo ano está começando. Sinto muito por seus pais. Ganhei várias caixas de feijõezinhos e sapos de chocolate, mas comemos todos eles. Esse que te enviei foi o único que consegui salvar. Espero que goste!
Feliz Natal e Ano Novo,
Harry Potter."
Draco nem reparou, mas ao final da carta algumas lágrimas solitárias, como ele, rolaram por suas bochechas coradas.
Malfoy não precisou esperar muito para agradecer Harry pessoalmente pelo presente. Ele estava envergonhado porque não tinha nada para presentear o outro — já que não puderam ir a Hogsmeade e seus pais não lhe mandaram nada — e não saberia, exatamente, o que dizer quando o encontrasse.
O primeiro dia de aula após as férias de inverno foi monótono e pareceu durar mais horas que o normal. Mesmo assim, Draco não conseguiu se preparar para o momento em que encararia Harry Potter e o agradeceria por alguma coisa. Isso nunca havia passado, uma vez sequer, na mente do loiro. Nunca imaginou, nem por um segundo, que um dia viria a ter que agradecer Harry por qualquer motivo que fosse. Sempre achou que desprezaria o rapaz e nunca se aproximaria dele.
Porém, a vida e suas controvérsias estavam ali, mostrando-se imprevisíveis.
Draco teve que caçar o grifinório em seu habitat natural, ou seja, na comunal dele. Subiu lentamente as escadas, indo parar algumas vezes em andares vazios e dando de cara com paredões sem nada. Tardou a ficar de frente para o quadro da Mulher Gorda, que rapidamente lhe pediu a senha.
— Vou esperar alguém sair — respondeu.
E esperou uns bons dez minutos em pé antes que algum outro grifinório pudesse vê-lo e chamar Potter para ele. Assim que Potter apareceu, Malfoy ajeitou as vestes e sorriu sem graça.
— Obrigado pelo presente, Potter. — agradeceu ao garoto. Sentiu suas bochechas esquentarem, então sabia que estava ruborizando. Por isso, abaixou a cabeça com vergonha. — Infelizmente não pude comprar nada para você.
— Sem problemas, Draco. Não estava esperando nada em troca.
Essa resposta assustou Draco. As pessoas sempre esperam algo em troca, não?
— Só queria me falar isso mesmo? — Harry perguntou, deixando um pouco de expectativa escapar por sua entonação.
— Na verdade, queria saber se você quer adivinhar feijõezinhos comigo. Sobrou bastante.
— Eu adoraria! — o moreno respondeu animado.
Os dois desceram as escadas, procurando por um espaço em uma das janelas da torre, e quando acharam, sentaram-se, espremidos, lado a lado. Passaram o resto da noite rindo, saboreando os docinhos e curtindo a companhia um do outro. Isso repetiu-se até os alunos voltarem para casa para as férias de verão. Harry numa ponta do trem e Draco na outra, ambos pensando que, mesmo que o destino pareça já estar traçado, ainda há como mudar.
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Capa por ruchiaad.
Revisão por potterfoy. Inclusive, a próxima postagem é dela, que vai trazer a segunda parte de Touchstone amanhã.